Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Fevereiro de 2017, 10:25

Por

O cão que corre atrás da sua cauda

A notícia da semana é a excitação e não os factos que excitam – e o facto é que essa notícia só diz e muito sobre a cumplicidade entre alguma política e o entretenimento. Nos próprios factos, a bem dizer, não há nada de novo. Já se sabia de tudo: que Domingues e a sua administração exigiram uma lei feita à sua medida, que o governo fez um acordo para os satisfazer alterando o Estatuto do Gestor Público, que aqueles não queriam apresentar a declaração de interesses e que se demitiram quando perceberam que não escapavam ao escrutínio do Tribunal Constitucional. Levámos semanas com essa farsa e acabou com a demissão dos administradores.

Conhecidos os factos, a única possibilidade de continuar a história era então acrescentar-lhe excitação. Esse frenesim é o pós-facto a que temos direito. E fomos servidos em abundância: patranha, mentira, ultimato até às 18h, demissão na comissão de inquérito, regime totalitário, ditadura da maioria, tivemos de tudo um pouco e o CDS até acrescentou, com alegria pueril, a ameaça da prisão. É claro que os autores destas façanhas sabem que se esgotam no seu enunciado, mas vivem no mundo em que a pispirretice é a virtude e a recompensa é o instante.

Acresce que a estratégia do terror linguístico se esgota por banalização da excitação, dependendo unicamente da evaporação da memória: para que a acusação de “patranha” surta efeito, é preciso que seja esquecido que os autores gritaram na véspera contra a “pantominice” ou a “fanfarronice”, pois o grito só é ouvido se parecer único e sofrido. O que não podem é alarmar o país simultaneamente contra o normal e contra o excepcional, têm de escolher ou um ou outro.

Tudo resumido, é nada. Rangel, pesaroso, concede que “falar em ‘provas’, com o sentido que se lhes deu, induz em erro”; no Observador anuncia-se que “nem só o que é crime é eticamente e politicamente reprovável”; e um dos fabricantes da tese da “patranha” angustia-se porque “os emails que conhecemos do ex-líder da CGD e de Centeno podem não provar por A mais B coisa nenhuma”.

A acentuação do discurso incendiário é então a demonstração do vazio argumentativo: dizer nada muito alto é ainda uma forma de dizer nada. Ora, como os políticos sabem, se uma TV tem hoje um tema definido, só fará notícia de um comentário à sua própria agenda, para suscitar outro comentário ao comentário: a notícia é o cão que persegue a sua própria cauda. E já estamos a discutir se uns SMS confirmam ou desmentem que Marcelo sabia que Centeno sabia que Domingues sabia e que nenhum podia – mas quem tem os SMS por inconfidência de Domingues diz deles uma coisa e o seu contrário. Os interpretadores usam então o segredo ao mesmo tempo que denunciam o segredo que lhes dá o poder de dizer nada.

Em resumo, esta questão ser ou não ser relevante é menos importante, desde que crie um modo de frenesim, pois essa é a súmula noticiosa. Não é de espantar que esteja “meio mundo enfadado”, pois não? E não é de espantar que a próxima excitação, como o livro de Cavaco ou o futebol do fim de semana, faça esquecer esta, pois não?

Em contrapartida, há sérias lições políticas a tirar desta noveleta. Primeira, a guerra do PSD contra o Presidente vai continuar. No PSD criou-se uma nova doutrina: atacar o presidente é a forma de ganhar destaque evitando entrar em qualquer questão substancial da sucessão ou do imbróglio autárquico. Segunda, o nervosismo entre alguns dirigentes do PS é prova de insensatez, com Carlos César, como quase sempre, a ser o mais prudente estratega. Terceira, o ministério das finanças tem sido um problema na gestão da banca. Na CGD, foi péssimo: houve promessas de mudar a lei para a composição da administração, houve uma lista desconexa, houve a mudança do Estatuto, houve tempo perdido, e a vitória da recapitalização foi mergulhada numa barafunda. É melhor arrumar a casa e deixar de olhar para o cão que corre à volta de si próprio para morder a sua cauda.

Comentários

  1. Concordo com o texto. As pessoas que vivem neste país e que pagam a boa vida daqueles que andam totalmente perdidos na AR, estão cansadas de tanta bisbilhotice.
    Os assuntos que verdadeiramente interessam, como repovoar o país, incentivar o investimento no interior, cativar jovens a ficar e a produzir em Portugal, incentivar a natalidade com politicas de apoio aos jovens, enfim há muitos assuntos que deviam interessar aqueles “tristes” do PSD e CDS, mas não, eles não servem para nada, só se aproveitam do palco dos media.
    Mas já ninguém lhe liga…

  2. Mário Centeno tornou-se um alvo a abater porque, vejam só, conseguiu baixar o défice sem seguir a fórmula Vítor Gaspar-Maria Luís Albuquerque. Isso esvaziou muitas cabeça à direita e agora há que espremer isto até às últimas consequências. Tivesse ele falhado esse alvo e os ataques resumir-se-iam ao falhanço.

    O Público, através do seu novo director, tem a agenda bem definida para os próximos tempos: fazer este jogo e caminhar alegremente para a irrelevância jornalística. Tenho pena.

    1. Por acaso o valor do défice só se soube depois do ministro ter mentido. Não ao contrário, como convenientemente pretende.
      Quanto ao Público e à sua sugestão de “enterramento”, nada de novo. É apenas a reconfirmação da característica autoritária da esquerda. Everyone I dont’t like is Hitler.

  3. À guisa de intróito: Um cão pode correr atrás da cauda por estar infestado de pulgas, para tentar acudir ao mal-estar e comichão na zona do ânus e base da cauda. Os cães com otite podem dar a ideia de estar a correr atrás da cauda, o que pode ser enganador, Finalmente, correr atrás da cauda pode ser sinal de depressão no animal. Alguns cães até chegam a roer a cauda e de tal modo que é totalmente amputada.

    E, com esta cortina de fumo, estamos a esquecer a ruinosa gestão da Caixa durante décadas, a sucessão de comissários políticos travestidos de gestores que fizeram desaparecer milhões e milhões dos cofres públicos.

    Esta algazarra é de gosto duvidoso. É simplesmente ridículo e deprimente.
    Afinal, parece que estão em causa muitos milhões, consubstanciados hoje nas famosas imparidades. Créditos atribuídos a entidades sem solvabilidade, erros técnicos de gestão…e muitos milhões desaparecidos. Afinal, onde para o dinheiro? Isto sim é importante. Parece que querem que andemos todos a olhar para o dedo e não para o céu… Onde está o dinheiro? Acabem com isto, por favor.

    1. Parabéns pela sua lucidez. De facto, se a oposição ao governo oferece uma mão cheia de nada, o Louçã oferece uma de coisa nenhuma. Será que o cão corre atrás da sua cauda ou a cauda corre atrás do seu cão?

  4. Depois de ouvir Jorge Coelho, grande camarada do PS por quem tenho aliás grande estima, começar por dizer na quadratura do círculo: “Já toda a gente percebeu que isto correu mal. Há que dar o assunto como encerrado.” e de este ficar impávido e complacente quando seguidamente Pacheco Pereira diz que não tem qualquer dúvida de que Mário Centeno mentiu, acho que uma pessoa só pode ter como certo que ele alegadamente mentiu, cometendo com efeito perjúrio.
    Eu pessoalmente defendo que a lei devia ir mais longe e que mentir no parlamento devia ser também, igualmente, perjúrio.
    Ou até, se quiséssemos, que a mentira em público, nomeadamente nos “média”, por parte de indivíduos que têm ou já tiveram cargos políticos devia ser igualmente tomada pela lei como perjúrio.
    Mas isso os políticos não querem. E são eles que fazem as leis. Ou, se quisermos ser mais precisos e corretos, são eles que as votam. Por isso, acreditar que os nossos representantes vão fácilmente votar numa lei que os impede de mentir também no parlamento e nos “média”, é difícil…
    Mas a ideia nem sequer é assim tão nova. O próprio comediante britânico Russell Brand, que foi casado com a lindíssima e super atraente Katy Perry, e que defende ideais anarco-capitalistas, para além de praticar kundalini-yoga e se interessar por ideias esotéricas que amiúde o descredibiliza em muitos meios, já uma vez ajudou a angariar milhares e milhares de assinaturas para o conseguir: para que mentir no parlamento britânico fosse perjúrio.

    Para além disso, e quiçá bem mais importante ainda, seria uma lei que fizesse com que todos os depoimentos judiciais e interrogatórios policiais passassem a ser filmados pelas câmeras da “Sony”, leia-se as câmeras da Sónia Araújo da RTP (Ah! ah!), para a posteridade e memória futura da humanidade.

    O que é certo é que debaixo de uns bons holofotes, todos nos coibimos um pouco de mentir, e mentir descaradamente já não é tão fácil.
    Eu aliás defendo que todas as passagens de alta segurança deviam ter um aparato radiotelevisivo, com as suas câmeras, microfones e holofotes, e perantes as quais
    o protocolo das polícias exigiria sempre a resposta SIM/N O às cinco seguintes perguntas protocolares, que outrora formulei depois de muito pensar sobre o assunto e passo a citar:

    1) Do you do illegal downloads? [Y/N %]
    2) Do you do drugs: do you consume, sell or produce drugs? [Y/N %]
    3) Have you been harming someone or something, for any reason? [Y/N %]
    4) Do you know something you should tell authorities and the police, that you don’t? [Y/N %]
    5) Do you consider yourself a moral being, that aims to do the right and not the wrong and perfect yourself? Do you abide by the law? [Y/N %]

    Por muito que eu goste dos socialistas e de Mário Centeno, que tem um ar tão simpático e que me parece ser tão boa pessoa, e de eu, até certo ponto, querer igualmente que o assunto seja encerrado, não posso deixar de considerar que aceitar que o alegado perjúrio fique impune é abrir um precedente gravíssimo que não devemos permitir.

    Seria como defender que Vale e Azevedo passasse impune, porque gostamos do Benfica ou do caricato personagem que é esse advogado.
    E isso acho que toda a gente percebe que não pode ser. Não podemos deixar as pessoas impunes por gostarmos mais ou menos delas, ou por sermos do Benfica e gostarmos dos golos do Eusébio, ou dos Fados da Amália. Eu gosto, mas a lei tem que ser exemplar. Ninguém está acima da lei, penso eu.
    A lei deve ser exemplar e não se deve condescender, abrindo precedentes gravíssimos. Isso seria mau para a política e para Justiça. E, por conseguinte, para todos nós.

    É caso de dizer: béu! béu! Aqui há gato! Apanha que é ladrão!

    E é giro…

    1. Eu concordo consigo Daniel. Concordo com o Francisco mas também concordo consigo. Estas jogadas do PSD/CDS são tristes, a demissão do presidente da Comissão indecente; mas também o são as patranhas legais com a administração da caixa. O problema a meu ver e de sujidade política. Ha 3 anos o jogo era o mesmo mas com papeis trocados, ora estão a ver como se safam, ora estão a ver como atacam. E o Francisco Louca, tendo uma opinião que eu considero ponderada e que eu gosto de ouvir, também ele e um jogador, também ele faz parte do jogo politico, também ele faz um bocadinho parte do teatro. E a natureza das coisas que não convém esquecer, quer se fica a direita ou a esquerda ou tudo o que existe no meio.

  5. Eis as prioridades noticiosas,neste momento no jornal Publico(exemplo):O sms(é claro,e a pedido do psd/cds),a nobreza espanhola(muito interessante,pois claro),o Pinto da Costa e o microfone(este parece que é assunto de estado)….claro que o rio Tejo(já ouviram falar?) não interessa nada,e como o rio Tejo até desagua em Lisboa,quando a porcaria e o mau cheiro chegar a casa do Antonio Domingues pode ser que se lembrem do desastre mais que anunciado.

  6. Bem notado. Na realidade esta extraordinária novela só revela a extraordinária nulidade da actual oposição. E nem se dão conta do seu ridículo.

  7. Está cientificamente e estatisticamente provado, que o PSD-CDS não vão desistir de perseguir a Caixa, para se vingarem por não a terem conseguido privatizar a bancos estrangeiros ainda mais falidos que os nossos, e sequiosos dos nossos depósitos.
    Se me derem um só exemplo de um banco europeu que não esteja tecnicamente falido, incluindo bancos fabulosos que, tal como Cavaco Silva, nunca tem dúvidas e raramente se enganam, como por exemplo o Deutsch Bank, eu agradecia.

    Se não fosse este erro do governo, o PSD-CDS inventavam outra desculpa qualquer para prejudicar o sistema bancário e os nossos empresários e famílias.

    Por isso só restam ao Presidente, Primeiro Ministro, e restantes intervenientes políticos, incluindo políticos do PSD-CDS realmente preocupados com os portugueses (que ainda os há), ‘Keep Calm and Carry On’.

    1. Não é só isso. Com esta barracada montada desviam-se as atenções do que é realmente importante: quem desfalcou a CGD? Responsáveis? Devedores? Incumprimentos? Garantias, executáveis ou não?

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