Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

16 de Janeiro de 2017, 08:18

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Choupos e não só. Em Lisboa e não só.

035Já no Inverno caíram as suas últimas e resistentes folhas, depois de uma suave passagem do verde desmaiado ao amarelo pálido. Refiro-me ao choupo (ou álamo, em versão mais espanholizada), uma das mais belas árvores outonais, só superada pela Ginkgo biloba.

Este serôdio Outono, das folhas pintadas pela natureza e do seu convite policromático para a anual revivescência, passa ao lado de muita gente. Já o notável naturalista Henry Thoreau (1817-62) dizia que “a maioria parece confundir folhas que mudam de cor com folhas secas, como se confundissem maçãs maduras com maçãs podres”.

A nomenclatura botânica de Lineu associou-a à árvore do povo (Populus, que quer dizer do povo), uma espécie de genérico da árvore comum na Antiga Roma, um verdadeiro “vulgar de Lineu”. Foi uma das árvores que simbolizaram a liberdade na Revolução Francesa e, também, na Americana. Os franceses baptizaram-na afrancesando o nome taxonómico para peuplier, mantendo assim a ligação ao povo.

O choupo é nosso vizinho em muitas cidades e vilas. Em grupo, faz parte do acervo do fado de Coimbra através de Zeca Afonso: “Do Choupal até à Lapa foi Coimbra meus amores”. Mas, nas últimas décadas, tem sido sucessivamente marginalizado e substituído por outras companheiras bem mais pródigas em flores e sedução. É mesmo uma das árvores que, agora, mais estimulam o apetite pelo arboricídio urbano.

Tem vigorosas e cabeladas raízes e, em algumas das suas espécies, faz-se acompanhar por fartos rebentos de toiça. Por isso, passou a ser uma mal-amada na calçada portuguesa face à força serpenteante e espraiada das suas raízes. Outra razão para serem pouco consideradas tem a ver com as suas flores em forma de amentilho e frutos, espalhados abundantemente pelo vento numa espécie de penugem conhecida por lã seminal que estará na origem de muitas alergias primaveris.

Mas torno à sua beleza. Sobretudo do choupo-tremedor (Populus tremula, L.), de pequenas folhas elegantes e ligeiras, glabras. Gosto de as ver agitadas pela brisa, num sereno baile afinado de movimentos ritmados, entre luminosidade e sombra, cambiando de posição em função da aragem que corre, num jogo de luzes e cores digno de um impressionista como Renoir.

E o ritidoma, sobretudo do choupo-branco (Populus alba, L.), é uma espécie de ardósia vegetal para juras de amor, ainda que se deva dizer, em abono da verdade, que a árvore, às vezes já bem vetusta, conserva no seu tronco votos de fidelidade durante mais tempo do que o tempo de união dos ajuramentados.

Além da beleza outonal (e não só), o choupo veio à baila neste meu texto, por causa da justa preocupação de pessoas e organizações (como a Plataforma em Defesa das Árvores) que denunciaram e se insurgiram contra o abate de venerandas árvores (em particular, choupo-negro, Populus nigra L.) na Avenida Fontes Pereira de Melo, Lisboa, em resultado da requalificação do chamado Eixo Central.

Agora que as referidas obras estão praticamente concluídas, e embora lamentando o abate de algum património arbóreo (árvores idosas e juvenis não são a mesma coisa), acho que os amantes das árvores, como eu, ficaram a ganhar. Mantiveram-se espécies significantes (como as tipuanas na Praça do Saldanha) e aumentou-se significativamente o número de árvores. Segundo o que foi noticiado, passará a haver quase 900 árvores em vez das até agora menos de 200,  e com maior diversificação: entre outras, jacarandás, algumas espécies de Prunus, Koelreuteria, freixos, plátanos e tipuanas. Excelente!

 

 

 

Comentários

  1. Uma das situações mais revoltantes é verificar que muitas Câmaras Municipais, pretendendo podar as árvores na via pública, em vez de mandarem jardineiros que saibam da poda mandam pessoas que de uma penada decepam as árvores. Depois fica a tristeza de olhar para seres que mais parecem saídos de uma qualquer realidade assombrada.

  2. Escreveu um excelente artigo sobre a beleza dos choupos em Lisboa onde nos dá uma lição de botânica e de natureza em geral. Já conhecia a extensão dos seus conhecimentos em variados assuntos nomeadamente em língua portuguesa assim como excelente conversador em programas da TV. Agora fez-me trazer à memória o choupo que Miguel Torga viu abater na sua Coimbra de juventude: “Diário 2: Fevereiro de 1943″:
    ” Passei as horas da manhã a ver derrubar um choupo em frente da janela do meu quarto.
    Que dignidade a daquela morte! Enquanto pôde aguentou as machadadas sem estremecer, aprumado como uma pura consciência; quando o gume lhe tocou no cerne, de uma vez só, sem se curvar, caiu.”

    Obrigado, pois ajudou-me a aquecer a alma neste tempos invernosos cheios de ignorância e vacuidade moral.

    PS: ando há muito tempo de uma pessoa como o senhor para fazer uma visita aos teixos do parque nacional de Monserrate, seria possível organizarmos um grupo na primavera com este fim?

    1. Aproveitando a sua disponibilidade, deixo-o à vontade para me contactar pelo email que forneci para escrever neste blog e assim combinarmos a melhor data para si. Com estima, Júlio Coelho

  3. Já sabia que Bagão Félix era jardineiro e, portanto, conhecia os nomes das árvores. E conhecer é amar. Mas atenção nenhuma daquelas novas plantações no Eixo Central poderá substituir aqueles cinco choupos negros abatidos na calada da noite, sem qualquer respeito pelos pedidos dos cidadãos (e para quê? Para a construção de uma ciclovia que noutro país os contornaria). Espero que tratem as novas árvores do Eixo Central como não trataram as cerca de 1300 jovens árvores que este Verão morreram à sede por toda a Lisboa, por falta de rega e plantação fora de época.
    Alerto também Bagão Félix para o que está a acontecer no Estádio Universitário, onde ainda a semana passada foram abatidos muitos choupos e em breve será a vez de um conjunto significativo de pinheiros mansos para a construção de um restaurante de fast food (Burger King). Tudo isto com a complacência da reitoria da Universidade de Lisboa.

  4. Poético. Um deslumbre sobre o que também pode ser a paisagem urbana. É bom saber que ainda existem pessoas que amam árvores. E sabe-se, ou intui-se, que quem aprecia a beleza da botânica, também respeita a dignidade do humano.

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