Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

10 de Janeiro de 2017, 17:02

Por

Não sei se o jornalismo morreu, também não sei se quer viver

Um dia, entrei com a família num restaurante de um país do hemisfério sul e pedimos um prato, já não sei qual. O empregado explicou-nos, condescendente, que “tem, mas acabou”. Creio que o jornalismo pode estar a passar por um risco semelhante: tem, existe, são profissionais com códigos e com instituições, que produzem um bem público, mas este está a mudar tão depressa que se pode tornar irreconhecível ou redundante, pode acabar.

Não é da existência de jornais, ou de rádios, ou de televisões, como objectos produtores de comunicação, que trato aqui. Esses continuam, mudam mas continuam. Sempre foram desafiados por novas formas de informação e sempre resistiram e continuaram. É mesmo ao jornalismo como profissão com um estatuto próprio na sociedade que me refiro.

Esse jornalismo está em risco de morrer. Um risco não é ainda uma conclusão, nem tem que ser: os dias recentes, aliás, demonstraram em pequenos detalhes que existem regras seguidas pelos jornalistas e que atestam o seu cuidado profissional, que provam portanto que ainda existe jornalismo. Por exemplo, ao que me dei conta, nenhuma televisão usou imagens integrais do caixão aberto de Mário Soares, transmitindo portanto unicamente imagens da sua vida e das cerimónias fúnebres, mas mantendo respeito pela imagem do seu corpo e da sua morte. Elogio esta escolha, que é digna.

No entanto a reflexão que vos quero trazer é mais vasta do que a motivada por um episódio. Deixando para outras núpcias os debates sobre a “pós-verdade” ou a “nova ignorância”, aqui trazidos por Pacheco Pereira e António Guerreiro, entre outros, refiro-me agora a três questões: a tempestade perfeita que se abateu sobre o jornalismo (ou, ainda pode haver independência da comunicação social?), o recurso às estratégias da banalização anestesiante ou da banalização obsessiva (ou, o jornalismo ainda quer informar?) e a inclinação política de parte do jornalismo, que substitui a notícia pelo comentário engajado (ou, a agressividade do jornalismo de hoje significa que abandona a busca ou a pretensão de objectividade?). Não sei se o Congresso dos Jornalistas as discutirá, mas estas são para já as questões cépticas para as quais preciso de ter resposta. E aqui adianto alguma reflexão, continuando o que tenho escrito neste blog sobre o assunto.

  1. A tempestade perfeita

A comunicação social está no meio de uma tempestade perfeita em que tudo agrava os riscos:

A) A recessão esvaiu a publicidade e reduziu as receitas dos órgãos de comunicação social, além de ter destruído alguns, aumentando o desemprego entre os jornalistas.

B) A concentração das empresas de comunicação acentuou-se, ameaçando a independência profissional dos jornalistas e a liberdade de escolha dos consumidores. A ofensiva da Altice sobre as televisões é a mais recente demonstração do perigo da concentração.

C) Ambos os factores agravaram a precarização, os estágios e a dependência profissional e atacaram a falta de autonomia dos jornalistas, tornando-os mais vulneráveis ao poder.

D) A evolução tecnológica destroçou a forma tradicional dos circuitos de informação e suscitou mecanismos de sedução e de esmagamento informativo, manipulando as redes sociais (os robots na internet durante a campanha presidencial norte-americana são um exemplo). Neste contexto, a norma dos tempos de informação foi subvertida, pois os jornalistas já só informam o que já se sabe.

A questão é se estes factores se modificarão. Mas a resposta é que é pouco provável e que portanto é difícil que haja independência da comunicação social.

A condição económica não se alterará. Mesmo com uma pequena recuperação económica, a publicidade diversifica-se, impõe preços baixos, e a comunicação social apenas sobrevive com o recurso ao mercado publicitário, quanto não é por ele destruída ou condicionada.

A concentração também dificilmente se reduzirá. Em Portugal, nenhum governo se atreveu a sequer imitar as leis anti-concentração dos EUA ou de países europeus e um grupo empresarial da comunicação pode ter uma distribuidora com grande quota de mercado, ou órgãos dominantes em várias áreas da comunicação. Pelo contrário, a concentração tem-se agravado e distorcido (com compras por grupos angolanos e chineses, por exemplo).

A precarização profissional dos jornalistas decorre das duas condições anteriores, com o recurso extensivo a estagiários e a empregos de curta duração, com a queda salarial e a acentuação do poder das hierarquias. O jornalista já não tem autonomia, já não investiga sem ser autorizado, já não tem recursos para fazer uma reportagem, já não pode prosseguir um caso. Os directores ocupam o seu tempo a procurar patrocínios, a frequentar feiras empresariais, a promover produtos, a almoçar com clientes, a cortejar anunciantes. Ou seja, a concorrência entre órgãos de comunicação é determinada pelo mercado a montante e não pela qualidade da informação e pelo público a jusante. Não escolhemos o que vemos e lemos, o mercado é que nos escolhe.

Por isso mesmo, o produto da comunicação social tem vindo a ser modificado. A razão é esta: o objectivo da informação passou a ser a audiência e não a informação ou, mais em concreto, como os tempos da comunicação foram encurtados, a produção de notícias é marcada pela gestão do efémero e portanto pela procura da excitação, que é a chave da audiência imediata. Se perguntar a qualquer jornalista de TV se são precisos 15 minutos na abertura de um telejornal para dissecar todas as hipóteses sobre o desaparecimento de uma mulher em Grândola, a única resposta coerente é que teme que os concorrentes façam o mesmo e se não foi isso é o futebol.

O espaço noticioso é portanto gerido por uma certeza: a da inevitável degradação da informação, que tem que ser transformada em entretenimento. A notícia cede à emoção. O jornalismo de choque é portanto o resultado deste processo de contaminação. Num exemplo recente que aqui discuti, na noite do massacre de Nice, um jornalista de televisão, perguntava em directo a um homem que estava ao lado da sua mulher, morta no passeio, como se sentia. Receio que, mesmo sem a crueldade da pergunta neste caso, é desse tipo de emoção que se ocupe grande parte da reportagem de Grândola quando percorre os vizinhos, os colegas ou os conhecidos da mulher desaparecida.

Ou seja, o resultado da tempestade perfeita foi acentuar a transformação da natureza da comunicação social: em vez de notícias (a escolha de títulos como “Diário de Notícias” ou “Jornal de Notícias” ou “Correio da Manhã” ou “Público”, por exemplo, destinava-se a sublinhar que se trata de dar notícias), a comunicação social produz regularmente senso comum, ou seja, produz ideias, ideologias e conformação. Portanto, transforma-se gradualmente num órgão de poder e não de contrapoder. Não há independência do jornalismo. Tem, mas acabou.

  1. A comunicação como discurso da banalidade anestesiante e da banalidade perturbante

Ao passar a produzir senso comum em vez de informação, a comunicação social muda também os seus procedimentos. Mais um exemplo: o predomínio do futebol nos nossos canais de televisão por cabo é um caso de estudo entre a televisão internacional. Abra a CNN ou outra televisão cabo de referência e procure à 2ªf, 3ªf, 4ªf, 5ªf, 6ªf, sábado e domingo o programa diário de antecipação, de análise e depois de discussão dos jogos, com claques representadas, com especialistas, com gritadores, com repetições nos horários nobres – e não encontra. Ou seja, a televisão portuguesa vocacionada para a informação, o cabo (que assim aliviou os canais generalistas que abertamente se especializaram em entretenimento, ou telenovela), escolheu priorizar o caminho da não-notícia, interpretando obsessivamente o jogo, espectacularizando a sua própria interpretação em que o acontecimento é a discussão do acontecimento.

O meu argumento até hoje foi que este trabalho de produção de senso comum pela comunicação social é construído como uma banalidade banal, ou tranquilizadora, baseado no entretenimento, na diversão, na distração, na efemeridade. Mas há também um contraponto desta tranquilidade, que é a sua condição de sucesso: deve emergir também e ocasionalmente uma banalidade perturbante. Essa linguagem da perturbação tem três funções: em primeiro lugar, a informação deve ser surpreendente, porque essa é a sua condição para mobilizar a atenção; em segundo lugar, deve contrastar com a programação banal, porque essa é a condição para o entretenimento gerar a distração; em terceiro lugar, deve criar o espaço para que o senso comum estabeleça a banalidade tranquilizadora como o estado da natureza, isto é, como o lugar da democracia. A emoção violenta, a excitação do acontecimento, a expectativa do imediato provocante são instrumentos de afirmação pública de um discurso e de uma instituição, mais ainda do que meios de captação de audiências.

Um exemplo estudado por Diana Andringa na sua tese de doutoramento (a autora foi jornalista e presidente do seu Sindicato) foi o do caso do Arrastão na praia de Carcavelos, no verão de 2005. Um jonralista, Nuno Guedes, n’A Capital, também tinha investigado o assunto e desmontado a história, como se detalha num relatório oficial que depois resumiu estas conclusões. Os detalhes são bem conhecidos: a mesma pessoa que chamou a polícia forneceu o testemunho e algumas fotos imprecisas às televisões, tendo todos os canais aberto a sua emissão de telejornal das 20h com textos alarmistas baseados nesse testemunho. As fotos mostravam jovens, quase todos negros, a correr na praia. As televisões compararam a sua notícia com a de arrastões nas praias do Rio de Janeiro, em que os banhistas teriam sido roubados, e esse paralelo foi depois explorado por quase todos os que analisaram o caso.

O efeito de bola de neve foi tanto imediato quanto prolongado ao longo dos dias seguintes: a polícia, a câmara municipal, o governo e outros protagonistas intervieram imediatamente, alimentando a narrativa do arrastão, e fornecearrrastaondo a confirmação da informação, oferecendo a multiplicação de tomadas de posição e o enquadramento institucional que constituíam os vários ângulos da notícia. Depois dessas primeiras notícias, totalmente dominantes no espaço mediático nacional, houve um debate parlamentar tenso, marcado pelo alarme e pelos discursos securitários.

 

Capa do Correio da Manhã de 11 de junho de 2005

A imprensa escrita prolongou este alarmismo. O título do Correio da Manhã era “Terror na Praia” (na imagem). O título do Expresso era “Arrastão é a ponta de um tsunami”, referindo-se o texto à “ideologia racial” de “jovens negros”. João Maria Mendes, então no Público, apresentou uma explicação mais sofisticada, acusando “a subcultura pop identitária (do rap aos murais e grafittis) e a postura de ‘rebelde com causa’ (dessa “‘geração perdida’ de jovens africanos” seria) terra de abrigo e ideologia de apoio a comportamentos desviantes generalizados” (citado por Andringa na sua tese, p.269). Gerou-se por isso um consenso na comunicação social tanto quanto à descrição dos factos quanto à sua interpretação. Este é portanto um caso evidente de construção bem sucedida de senso comum de aceitação generalizada.

No entanto, todo o episódio não passava de uma construção fantasiosa. As fotos, que mostravam algumas dezenas de jovens, foram transformadas ficcionalmente em centenas de pessoas, supostamente organizadas previamente em bairros suburbanos para prepararem um roubo sob a forma do arrastão. Mas não havia pessoas que testemunhassem terem sido roubadas. Não houve nem uma só queixa na polícia. Não tinha havido roubo, só uma correria pela praia e um susto.

Poucos dias depois, o Superintendente da PSP confirmou que, meia hora depois dos acontecimentos terem sido reportados e da primeira investigação da polícia no local, já sabia que não tinha havido arrastão nenhum. Mas, e esse é o aspecto mais revelador do testemunho deste chefe da polícia, nenhum órgão de comunicação social queria ouvir ou aceitar esta interpretação: ela não podia ser comunicada pois não fazia parte do senso comum. Era possível contar a verdade, embora não se saiba se o Superintendente sequer o tentou, mas nenhum órgão de comunicação social reportaria essa afirmação, mesmo que feita pela polícia: era uma não-declaração. O apetite pela notícia criava um frenesim que selecionava a informação e excluía o contraditório e neste caso excluía mesmo os factos, porque não se alinhavam com a história. A confirmação da fraude noticiosa pelo Superintendente da PSP foi feita a Diana Andringa, que dirigiu com Jorge Costa um documentário sobre o tema, “Arrastão”, revelando então o que nenhum órgão de comunicação social quisera admitir.

Um mês e meio depois, uma sondagem entre editores, chefes, coordenadores e diretores de órgãos de comunicação social demonstrou que mais de metade continuava a achar que a cobertura tinha sido correta, mesmo que se baseasse no que já se sabia ter sido uma invenção. Houve pivots de telejornal que ameaçaram inconsequentemente com um processo judicial os autores do documentário “Arrastão”, incluindo Andringa, em que o Superintendente da polícia desmentia a informação que os jornalistas tinham veiculado e as gravações dos seus telejornais eram reproduzidas, demonstrando como tinham dado corpo à notícia falsa.

Há várias interpretações possíveis para este acontecimento notável, que é a informação frenética sobre um não-acontecimento. Miguel Vale de Almeida, citado por Diana Andringa, argumentou que a comunicação social representa tipicamente o medo com base na exclusão e na hierarquia social. Assim, o senso comum da segurança é construído pela designação do inimigo. O facto é que os jornalistas não ouviram os jovens negros, na eventual presunção de que a credibilidade do seu testemunho seria irrelevante, ou talvez porque eles já nem estivessem localizáveis para testemunhar e não valia a pena procurá-los. Em todo o caso, a hierarquia da exclusão é evidente. Outro exemplo é a disponibilidade de alguns programas televisivos para documentarem rusgas a bairros, a partir do ponto de vista do interior de um carro da polícia, com perseguições e atos encenados para benefício da filmagem, procurando criar o mínimo de dramatismo que seria de esperar da analogia entre a vida real e as séries policiais na televisão, o que exemplifica como se formou a vulnerabilidade de alguma comunicação social a este mito do arrastão.

Neste caso, a banalidade perturbante foi uma construção ficcional. Mas o que nos interessa da história, mais do que os factos entretanto esclarecidos, é o código e o modo de comunicação que requer essa construção perturbante, seja ela verdadeira ou falsa, porque esta é a linguagem chave da informação de todos os dias.

Afinal, esta é a regra mais comum na comunicação social que faz sucesso. Outro exemplo: o Correio da Manhã torna-se participante num processo judicial para assim criar as notícias de que quer fazer manchete, usando o que ainda está em segredo de justiça e eventualmente manipulando a informação – qual é então o limite? Portanto, se pergunto se o jornalismo quer informar, não estou certo da resposta.

  1. A contaminação do jornalismo pelo comentarismo

A terceira questão que quero discutir é a forma como o comentário pelos próprios jornalistas se tornou parte do combate político e mesmo partidário. Já era assim, bem se pode dizer. Veja-se o exemplo do comentário económico nos canais generalistas: é totalmente monopolizado por jornalistas defensores das ideias liberais e da solução austeridade, André Macedo na RTP, António Costa na TVI e Gomes Ferreira na SIC. Não há no comentário económico nos canais generalistas nenhum lugar para a defesa de alternativas, mesmo quando o fracasso da austeridade e da liberalização financeira entra pelos olhos dentro. Sim, é assim, mas não tem que ser e não era assim em toda a comunicação social. Noutros órgãos de comunicação, há comentário pluralista e debate aberto.

Em todo o caso, estamos a viver um processo de radicalização. O director do Sol, o arquitecto Saraiva, ganhou galardões na literatura com um livro de escândalos de alcova e intriga política. O director do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, escreve sobre “as patas”, para se referir a Mariana Mortágua e Catarina Martins. Camilo Lourenço, que passou a participar organicamente nas actividades do CDS e em nome do partido foi várias vezes aos Açores apoiar a sua campanha eleitoral, esquece-se de referir a sua vinculação, desconhecida da maioria dos leitores, quando assina a sua coluna de opinião. Há ainda, do outro lado do espectro político, o jornalismo panegírico.

Ou veja o seguinte exemplo de um texto de Paulo Ferreira, que foi editor de economia da RTP e agora escreve no Observador, ao elencar os malefícios da pretensa política proposta pela esquerda:

Querem nacionalizar os sectores mais importantes e o mais que vier atrás deles, fazer do Estado o actor principal da economia, acabar com o mercado de capitais, destruir grupos económicos privados, colocar os sindicatos afectos a dirigir as empresas, retirar o país do euro, levantar barreiras proteccionistas para bens, serviços e capital, não pagar pelo menos parte da dívida pública, proibir negócios novos e inovadores para proteger os antigos que recusam adaptar-se, impedir qualquer avaliação de mérito que seja consequente para a carreira e salário dos trabalhadores, etc.”. O etc. é maravilhoso, depois da “proibição de negócios novos e inovadores” e de “colocar os sindicatos a dirigir as empresas” e “impedir qualquer avaliação de mérito”, entre outras travessuras assustadoras.

Veja-se outro exemplo. O director-adjunto do Expresso, Vieira Pereira, escrevia num texto de opinião que sente uma “forte náusea” quando se fala de nacionalização. Ou vejam-se mais dois exemplos deste jornal em que escrevo (e que tem um código rigoroso). Num editorial recente, o autor denuncia a “alegria tonta” do BE e PCP com a saída do euro. As palavras devem ter sido bem escolhidas, “alegria tonta”. Noutros textos, Manuel Carvalho, já em registo de coluna de opinião, denuncia como os partidos de esquerda “dão largas ao seu sectarismo” (o exemplo é o de “cartazes imbecis e ofensivos”). “Imbecis e ofensivos”.

Em particular, como sempre achei que as colunas de “sobe e desce” são uma arrogância que facilmente descamba em ajustes de contas ideológicos, sendo que nunca podem reclamar objectividade pois são o resultado da emoção e do imediatismo a que chamei o “estilo matarruano”, tenho também a maior reserva sobre qualquer função de julgamento pela comunicação social, em editorial ou fora dele.

O julgamento sumário é sempre irredutível: tal acto político é “imbecil”, tal iniciativa é “asinina”, tal proposta é uma “náusea”, tal ideia é “estúpida”, tal dirigente política é “troll”, “aumenta o grau de disparates”, este tipo de categorias é demasiado definitivo para ser tomado a sério mas parece ser escrito a sério – e cada uma destas expressões foi de facto escrita por jornalistas, editorialistas e directores de órgãos de informação nos últimos meses.

As “setas” com que jornalistas classificam os actos políticos ou sociais são um exemplo dessa assunção do poder punitivo, mas existem outras formas de o exibir, aliás cada vez mais banalizadas: quando o editorial determina que tal acção partidária é uma “estupidez” ou que tal político é um “fracassado”, quando um jornalista decreta que tal partido “não se leva a sério” (tudo isto são expressões usadas nos últimos meses em editoriais), chegamos ao ponto de não retorno, em que órgãos de comunicação social, mesmo os anteriormente chamados de “referência” pela sua observação de regras profissionais, se aproximam de uma câmara política.

Porque é que então estes jornalistas suicidam a sua profissão desta forma? Porque não acreditam que ainda haja espaço para o jornalismo. E essa descrença opera através de dois caminhos diferentes. O primeiro processo é contaminação da informação pelo comentário. O surgimento de canais de informação em cabo e a multiplicação dos conteúdos em diversas plataformas tecnológicas criou uma indústria de informação que produz em tempo contínuo, que por isso exige desesperadamente manter a máquina em funcionamento e, para tanto, faz equivaler as várias formas de comunicação através de um processo de mimetização (os jornais e revistas, tal como a rádio, parecem-se cada vez mais com a TV). Nesse contínuo de produção, a solução fácil é a combinação eclética de várias modos de informação (vejam-se os telejornais actuais de hora e meia de notícias, entretenimento, com gastronomia, espectáculo, socialites e mesmo sorteios) e a formatação da informação pelo comentário, que começou por ser uma matéria de especialistas (os de economia que todos os dias nos explicam os números da Bolsa, por exemplo) e passou depois a ser uma função dos próprios jornalistas. Uma notícia não existe se não é interpretada e comentada para os telespectadores ou leitores e se não é repetida infinitamente.

O segundo caminho, mais poroso, porventura mais importante, é a radical modificação do regime de informação. Na maior parte dos casos, quando chegamos à hora do telejornal ou à colocação em banca do jornal no dia seguinte, já muita gente leu, comentou, tuitou, postou e discutiu as notícias (salvo precisamente as que são exploradas por esse arquipélago raríssimo do jornalismo de investigação, que garante o privilégio de noticiar a notícia pelos seus jornalistas). Portanto, a notícia no telejornal ou no jornal do dia seguinte já só é comentário da notícia.

Os jornalistas, para além da corrida contra o tempo na informação online, tornam-se comentadores de si próprios, por acreditarem que o comentário é o que resta da função de jornalista. São portanto imensamente influenciados pelo que se está a escrever nas redes sociais acerca da notícia, como grandes vagas que oscilam para um lado e para outro. Os jornalistas tornam-se eles próprios antenas dos efeitos interpretativos que as suas notícias suscitam e isso é entretenimento mais do que informação. Os directores dos jornais e televisões vão explicar à antena as suas páginas e parece que ninguém nota a estranheza do facto. A comunicação deixou de ser notícia para se discutida pelo público e passa a ser interpretada, comentada e discutida pelo próprios jornalistas num efeito circular infinito.

A outra consequência é que, assim, terminada a notícia (ou prolongada agonicamente para ocupar tempo, o que tão frequentemente vemos na televisão: o clube de futebol jogou e é uma hora de telejornal, Ronaldo ganhou um prémio e revemos mais uma vez a sua carreira desde miúdo, etc.), só resta ao jornalista ser um comentador e daí a tentação óbvia de se tornar o juiz, o que apimenta a análise com a sentença. A agressividade do comentário significa que o jornalismo abdicou da busca ou da intenção de objectividade? Parece que sim.

Portanto, tudo inevitável? Nem pensar. Haverá twitter, mas há vida para além do twitter, a notícia não tem que ser a leve impressão, o efémero da frase sobre o acontecimento, a palavra choque para o classificar, tal como o jornalismo não deve ser condenado a desaparecer com a produção contínua da informação que se deixou contaminar por essa fronteira perigosa da defesa de pontos de vista interessados. A comunicação social sempre se reinventou perante a evolução do seu próprio meio: os jornais sobreviveram à rádio e a rádio sobreviveu à televisão. A televisão pode sobreviver à internet e ficará ao lado dos jornais e das rádios. Mas não precisava de aceitar limitar o jornalismo a uma função de pivot de continuidade.

O que fica atrás dito é testemunho de algum pessimismo, porque creio que o jornalismo está a obrar para a sua própria destruição – no dia em que a informação só for vista como entretenimento ou como análise crispada, passou a ser outra coisa. Portanto, o problema não é do Correio da Manhã, que diz ao que vem. O problema é dos que, querendo ter uma comunicação social de referência, navegam na facilidade. Têm, mas parece que aceitam que acabou.

Comentários

  1. Caro Louçã
    Só uma perguna
    1- Quantas vezes o Dr ou algum dos seus filhos apanhou o comboio da linha de Sintra ou de Cascais ás 11 da noite ?

  2. Caro Professor:

    Talvez só venha a propósito de forma indirecta, mas não resisto a colocar-lhe a seguinte questão relativa aos preços praticados pelas poderosas NOS, VODAFONE E SIIMILARES.

    Preço Serviço NOS em Dez/2016: 45,99
    Preço Serviço NOS em Jan/20147: 47,99 Façamos a continha: ((47,99/45,99) – 1)*100 = 4,3

    Quem é que neste país está a receber aumentos de 4,3%?
    Quem é que pode um fim a esta pouca vergonha?

    Quanto é que o Orçamento 2017 prevê de inflação?

    Temos de ser incansáveis, professor!!! Quando é que perdemos o medo? O que é nós tempos a perder?

    Cliente nº. C 2427763003 da NOS.

  3. Há tempos fui à inauguração da nova fábrica da Leica pelo então Presidente Cavaco Silva. Um investimento muito importante para Portugal. À porta, longe, a trupe de reformados da cgtp agitava umas bandeiras que lhes deram no autocarro. A empresa em questão tem a maior parte dos trabalhadores há mais de 25 anos, satisfeitos. Investiram milhões numa fábrica que podiam ter feito noutro lado. As perguntas dos jornalistas ao Presidente no fim? O diz-que-disse da politiqueirice nacional, comentários a declarações de outros. Notícias publicadas: “Cavaco Silva recebido por manifestantes em Famalicão”. Uma vergonha. Todos os dias vemos e ouvimos os nossos governantes a comentar politiqueirice “à margem” de um evento qualquer. Normalmente um evento positivo, resultante do esforço de alguém. O que é que sai na imprensa? Nada que interesse a ninguém. Polémicas de vapor, enfim, tretas.

  4. Concordando com quase tudo o que escreve (boa análise), uma pequena correção factual. Um jornalista (por acaso eu) e um jornal (que faliu meses depois) desmentiu perto de um mês antes desse documentário a existência do arrastão. Ouviu os jovens detidos (que o Francisco Louçã diz que ninguem quis ouvir), a polícia e várias pessoas que naquele dia estavam na praia.
    Só não fez um documentário e não conseguiu o mesmo impacto, mas levou pancada de uma parte da classe.
    Basta pesquisar na Internet por “a capital história do arrastão que nunca existiu nuno guedes”.

    1. Gostei sobretudo deste testemunho:
      “«Mas qual é o jovem que, sendo branco ou preto, respeita a polícia», pergunta Carolina Nunes, outra das banhistas que naquele dia estava em Carcavelos, e que garante que nunca se apercebeu de qualquer «arrastão». «A determinada altura vi toda a praia a olhar para esse enorme grupo de negros, e apenas me apercebi de uma confusão que parecia ser barafunda motivada por algum piropo enviado à namorada alheia», explica.”

  5. Excelente análise. Para uma democracia saudável, temos de acreditar nos jornalistas, mas eles também têm de acreditar em si próprios. Espero que a cura necessária surja da própria classe, pois ainda há profissionais a sério.

    1. De antologia foi a forma como foi feita a cobertura da guerra civil na ex-Jugoslávia, em particular na Bósnia e na Croácia.
      Na Croácia, na Krajina houve uma limpeza étnica/genocídio apadrinhado por ONU/NATO/CEE/USA e a cumplicidade da comunicação social. A krajina foi Sérvia até Tito redesenhar as fronteiras e incluir a Krajina na Croácia mas
      Na Bósnia só eram noticiadas as barbaridades cometidas pelo sérvios e nunca as atrocidades contra eles. E foi na Bósnia que nasceu o moderno jihadismo internacional. Milosevic morreu na prisão em Haia não censuro ninguém por acreditar que o deixaram morrer na cadeia por não o conseguirem condenar. Sei lá eu se não foi isso mesmo que aconteceu.
      Instrutivo para mim foi a leitura do livro “The utility and the use of force” pelo general inglês John Rupert Smith que serviu nas forças da ONU nos Balcãs e utilizou os acontecimentos que testemunhou para o seu livro. No final diz assim “Choca-vos o que eu relatei, tão diferente do que viram na TV? Não acreditem em tudo que vêem na TV.”
      “pois ainda há profissionais a sério.” O problema não é a falta de profissionais sérios, é tudo o mais não o ser.

  6. Em relação ao terceiro ponto, poderia dar um exemplo de boa prática, de jornalismo que contorne a agressividade e a adjetivação superficial?

  7. Há um escândalo em Rotheram, Reino Unido, sobre os abusos sexuais de jovens raparigas inglesas (cultivating white flowers) por um gang de paquistaneses que durou de 1997 a 2013. Durante anos as notícias sobre este caso foram abafadas pelos média e só eram notícia nalgumas redes sociais que pessoas como Francisco Louçã como não hesitariam de rotular de fascistas, racistas ou extremistas. A crise nos média já vem de longe mas só agora se tornou um elefante na sala. Cerca de 2006/2007 soube desta notícia porque me apareceu numa busca um comentário abjecto (cultivating white flowers). Há muitos casos assim que são silenciados pelos main street media porque não cabem na narrativa em vigor.

    1. Tenha por favor o bom gosto de se dispensar de falar por mim. Não melhora o seu argumento, pois não?

  8. Como dizia a velha canção: “Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco”…

    E que confirmam e triangulam as notícias. E normalmente são esses a quem as pessoas recorrem para serem realmente informados, quando o assunto é realmente importante.
    Resistir.

    E são esses que vão vingar, depois destas ondas TRUMPistas internautas, da informação e da contra-informação, que existe há séculos e também existe agora, sem dar-mos por isso…

    “Há sempre alguém que diz ‘isso é mentira e aqui estão as provas'”… diria eu…

  9. O futebol monopoliza o jornalismo desportivo.O futebol? Não,apenas três clubes que por acaso só são “grandes” porque tem uma enorme divida por pagar,por exemplo ao antigo Espirito Santo.Ora sabendo que a troika foi chamada,principalmente para resgatar bancos,a perversão maxima(ao contrario do que disse uma ministra das finanças,que jurou que o contribuinte nunca seria chamado a pagar) é o contribuinte ser chamado a pagar os desmandos de três lordes de Portugal:o Benfica,o Sporting e o Porto.

  10. “Pois os jornalistas já só informam o que já se sabe”, afirmou Louçã. Acho que resume a coisa. Depois, digo eu, é só escolher quem interpreta melhor as notícias. É como ir ao teatro conhecendo a estória de antemão, com actores de que se sabe do que são capazes. Mas há sempre um um pormenor na dramatização, um efeito especial, sei lá, uma “nuance” que tende a fazer-nos pensar que estamos num dia diferente com uma “peça” diferente. A melhor comparação talvez seja a moda de Hollywood revisitar sistematicamente os “clássicos” e dar-lhe nos super-heróis como forma de vermos sempre o mesmo filme. E sabemos que não falta aí literatura para fazer bons argumentos.

    Quando ouvi sobre um congresso de jornalistas, dei comigo a lembrar-me daquela sobre um encontro de outra profissão em que a parte sobre a Deontologia foi tratada enquanto os delegados se levantavam para o “coffee break”.
    Isso mesmo, “coffee break”. É tudo gente que já não faz intervalos para a “bica” ou o “cimbalino”.

    Quer que lhe diga?, ao invés de lamentar o definhar de uma actividade com o nome de uma profissão outrora mais ou menos respeitada, o que é importante é ensinar aos mais novos a defenderem-se dos efeitos do seu apodrecimento. Por isto, já se vai fazendo tardar o aparecimento de uma disciplina de Educação Para os Média no ensino secundário.
    Ao invés de se pretender fazer regressar dos mortos uma profissão que se suicidou, o mais importante é ensinar os miúdos a defenderem-se dos fantasmas que ela nos deixou, ensinando-os a pesquisar, comparar versões, indagar das contradições,… pensarem com a própria cabeça. Depois, talvez se venham a encontrar umas luzinhas no pântano nebuloso… da Internet.

  11. O seu artigo é longo demais para comentar na integra mas:
    – O “arrastão” de carcavelos: O Sr. Louçã não deve andar de comboio na linha de cascais ou sintra pois não ? ELES andam aí, são negros, são muitos, são raivosos, são violentos e não têm nada a perder e não há lugar para eles na nossa sociedade.
    E sobre tudo NÃO FUI EU que os meti cá no meu país.
    – Sobre o jornalismo tem razão, o jornalismo de qualidade, integro, imparcial e objectivo está em via acelerada de extinção.
    O cidadão que realmente quer saber o que se está a passar tem de tomar ele próprio a iniciativa de “esgravatar” bem e fundo porque a verdade existe e está lá para ser encontrada.

    1. Partindo do princípio de que o Johnny andará “de comboio na linha de Cascais ou Sintra” e acreditando que terá toda essa má experiência que nos revela, torna-se-lhe mais fácil acreditar na versão que os jornalistas fabricaram do ocorrido na Praia de Carcavelos. Isto é, o Johnny está predisposto, pela sua má experiência ou outra qualquer razão que não interessa agora, a acreditar nessa versão. Se foi verdade ou não, não lhe inteeressa? “Lá capazes disso, são eles”, chega-lhe?
      E depois, vejam estas imagens do Brasil ( lá vão os jornalistas televisivos à sua “fonte” de excelência, o “YouTube”. Vai daí, importa-se o “Arrastão” (uma boa palavra: curta, sonora… aquele “ão”… o sonho húmido de qualquer fabricante de “cachas altas”).
      Aí é que está o ponto: os jornalistas não quiseram investigar, pior ainda, mentiram, consolidando assim a predisposição do Johnny e fomentando pré-conceitos naqueles que não conhecem um único negro e, ao contrário do Johnny, nunca andaram na linha de Sintra e Cascais.
      Lembro que anos mais tarde, foi num centro comercial a propósito de mais uma daquelas modas imbecis que a Internet generalizou. Muita tinta, algumas imagens de transeuntes, a câmara à procura de negros… afinal não se passara nada do que os jornalistas estiveram a dizer durante todo o dia… mas nenhum órgão de comunicação desmentiu e se deu ao trabalho de fazer… Jornalismo?
      Johnny, não confunda, falamos de Jornalistas. O problema da insegurança que envolve “gangs” de portugueses descendentes de africanos que levaram a sério aquela de que eram “portugueses das províncias ultramarinas” é outra questão.

  12. Cuidado, Francisco Louçã.
    A suposta pergunta feita após o ataque de Nice é em si um bom exemplo do jornalismo que anda aí. A France 2 (salvo erro) emitiu imagens chocantes e um comentador aparentemente conhecido em França fez o comentário (satírico) que refere. Ninguém perguntou aos sobreviventes como se sentem. A Lusa «cavou» a notícia e o Público reproduziu-a. É uma obra vergonhosa.
    Confirme você mesmo seguindo as fontes.

    De resto, concordo inteiramente. O mundo da pós-verdade é o mundo do pós-jornalismo.

  13. A crise do Jornalismo é evidente.

    Não fossem necessários factos de mais peso e bastaria o exemplo destes últimos dias para se perceber do que é capaz esta Comunicação Social em crise. Horas e horas inúteis, imagens, directos, páginas e páginas inúteis até à náusea em torno do passamento de um personagem, como se tratasse de emular um herói de qualquer coisa. Informação, nada. Documentarismo, nada. Factos, só o anedotário picaresco do personagem. Sobriedade e seriedade, nada. Mediocridade (o próprio personagem era aí protagonista). Distância critica e racional histórico, nada. Ás vezes até nos queriam puxar pela lágrima. Objectivo sempre implícito: prolongar a quadra natalícia com ainda mais um ou dois dias de folia fúnebre e pompa foleira para lisboetas, e, claro, maçar o caroço de quem precisa de trabalhar.

  14. Ao ler este escrito sobre o jornalismo veio-me à ideia uma afirmação: “Nós somos socialistas, somos inimigos do sistema económico capitalista atual, pela sua exploração económica dos mais desfavorecidos, com os seus salários desiguais, com a sua avaliação indecente de um ser humano em função da riqueza e da propriedade, em vez da responsabilidade e da atuação da pessoa, e estamos decididos a destruir este sistema capitalista em todos os seus aspetos.”
    Quem disse isto? Lenine, Estaline, Guevara, Castro, Chávez, Carrillo, Ortega,  Maduro, Evo? Cunhal?… Ao ler um título assim vêm à ideia numerosos nomes de possíveis autores. O normal é que nos lembremos que de nomes de lideres comunistas. Contudo, não tem que ser necessariamente assim. Existem outras correntes, outros partidos, também “estatistas”, socialistas e inimigos do indivíduo, capazes de produzir afirmações como estas:
    Quem pronunciou estas palavras não foi nenhum dos mencionados anteriormente, nem sequer algum membro do Partido Comunista. Foi proferida por Adolfo Hitler durante um discurso do 1º de Maio de 1927.
    Um dos maiores logros da propaganda da esquerda é etiquetar Hitler e o nazismo como inimigos do socialismo, quando, na verdade, são filhos do mesmo pai.
    No mesmo discurso, Hitler também fez afirmações acerca da imprensa da época, como os eventuais interessados poderão confirmar.
    Quaisquer observações sobre a forma como deveria “ser” ou “comportar-se” o jornalismo, por mais aveludadas que sejam, devem ser sempre afastadas, pois são demonstradoras da presença da “garra escondida” do candidato a ditador.

    1. Sendo assim, não vale a pena discutir a Comunicação Social nem o papel do Jornalismo na sociedade actual. À laia do Mercado, haverá sempre uma mão invisível para equilibrar a coisa. “Deus Nosso Senhor”, o Diabo? Que interessa?
      Acumulação, sempre a Acumulação a comandar os destinos de tudo, agora com ainda menoos regras.
      O melhor é ficar por aqui, que ainda vão buscar mais alguma citação descontextualizada de Hitler.

    2. Hitler era de esquerda, socialista e revolucionário que quis fazer, e fez, a revolução. A maior mentira da História e a que mais gente enganou durante mais tempo foi aquela proferida por Estaline que diz que “O Fascismo é o último estádio do imperialismo e do capitalismo”.

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