Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

8 de Janeiro de 2017, 19:15

Por

4% de “whatever it takes”

A taxa de juro das Obrigações do Tesouro (OTs) a 10 anos no mercado secundário fixou-se, esta semana, em 4,04%. O mais grave é que a taxa de juro tem registado uma escalada desde o ponto mais baixo, na primeira semana de Março de 2015, em que chegou a atingir 1,57%.

Taxa de juro a 10 anos

F: Investing.com

É conhecido que a escalada dos juros se verifica para todos os países membros e é fortemente influenciada, por um lado, pela perspectiva do “tapering” do programa de expansão quantitativa do BCE e, mais recentemente, pelo aumento da taxa de inflação na Alemanha, em Dezembro de 2016, resultante do aumento do preço do petróleo.

Mas o certo é que a subida da taxa de juro em Portugal é muito mais rápida do que a que ocorre na Alemanha, Espanha, Itália ou Irlanda.

Taxa a 10 anos Alemanha

F: Investing.com

Em particular, a diferença das taxas de juro da dívida pública a 10 anos da Alemanha e Portugal (o “spread”) sobe de 1,3 pontos percentuais em Março de 2015 para 3,7 pontos percentuais esta semana. Este spread relativamente à dívida pública alemã é importante porque é utilizado em modelos financeiros de investidores institucionais para determinar a probabilidade de incumprimento da dívida pública portuguesa.

As tendências longas da taxa de juro num sentido ou noutro são usuais. Mas um país com uma dívida pública que deverá ficar em cerca de 132% do PIB no final de 2016 não pode esperar vida fácil nos mercados financeiros internacionais. E, como já referi por diversas vezes nos últimos anos, a dívida pública é insustentável, continuando a defender que a dívida pública e a dívida externa do país terão de ser reestruturadas.

Claro que é particularmente penoso que essa evolução das taxas de juro se registe precisamente quando o país regista os melhores saldos primários de sempre (antes de recapitalizações bancárias). Mas esse facto só demonstra que a evolução da taxa de juro nos mercados secundários não depende da performance das contas públicas. Depende muito mais da política monetária do BCE e da política económica da Alemanha.

Durante as próximas décadas, a manterem-se as actuais condições de financiamento e dado o elevado nível de dívida do país, uma crise nos mercados financeiros internacionais pode “levar o país às boxes” (novo resgate ou mesmo incumprimento), mesmo que o país registe contas públicas equilibradas ou até excedentárias. Isto porque mesmo com défice público e défice externo nulos, o país irá precisar de recorrer a financiamento externo para amortizar a dívida que se vence, durante as próximas décadas.

O principal determinante das taxas de juro da dívida pública portuguesa é, afigura-se, o “whatever it takes” (o tudo o que for necessário) de Mario Draghi. E a mensagem de Mario Draghi do início de Dezembro de 2016, ao prolongar o programa de compra de dívida pública da zona euro, é que o “whatever it takes” já não se aplica a Portugal: o BCE não alterou as regras que o limitam a adquirir 33% da dívida pública titulada transacionada a Portugal, o que significa que poderá adquirir muito pouca dívida pública portuguesa em 2017. Parece-me que Draghi não teve força suficiente para alterar o consenso no Conselho do BCE. Os mercados ouviram Draghi, ouviram também Schäuble (Ministro das Finanças da Alemanha) e Dijsselbloem (Presidente do Eurogrupo).

Quase parece que esses decisores europeus (Schäuble mais do que Draghi) não querem que a ligeira inflexão da política económica portuguesa – que se afastou de forma quase imperceptível do rumo da austeridade e, em parte por sorte, em parte pelo seu desenho, foi premiada com uma performance económica e orçamental favorável -, possa ter sucesso, pondo em causa a ideologia dominante na zona euro.

No curto prazo, não me parece que esteja em causa a sustentabilidade da dívida. O actual Governo só pretende discutir a “renegociação” da dívida no contexto de negociações europeias. Como estas foram adiadas “sine die” – à espera de resultados eleitorais em diversos países membros –, a renegociação/reestruturação continua um assunto tabu. Pelo que se prevê que continue no país a sangria das taxas de juro e da despesa com juros.

O IGCP adoptou, desde 2013, uma estratégia que se baseou no aumento das maturidades e da almofada financeira, da qual discordei e discordo. O programa de compras de dívida pública do BCE foi alargado até Dezembro de 2017. Por conseguinte, o IGCP dispõe agora de alguma margem de manobra para reverter a estratégia adoptada desde 2013 de forma a fazer face ao aumento das taxas de juro, reduzindo a taxa de juro implícita média da dívida da República e procurando estabilizar a despesa com juros.

Em suma, a subida da taxa de juro a 10 anos a 4% é grave e não ajuda a consolidação orçamental. Mas não representa (ainda) o fim…. Ainda não é necessário ir “às boxes”.

Comentários

  1. Espero que Portugal precise de um resgate no ano em que atingir o défice público de 0%. Será a vacina que porá fim à narrativa mentirosa sobre o resgate de 2011 e sobre as “virtudes” de estar numa moeda única.

    E gostava que nesse momento já não houvessem quaisquer condições para uma reestruturação da dívida, mas apenas para um colossal default, impondo perdas brutais a todos (FMI, BCE e grandes países da zona €uro) os que recusaram a reestruturação quando era tempo disso.

    Não é ser sadomasoquista, é ser como Kissinger (FBI, EUA) em relação à possibilidade de uma ditadura comunista em Portugal em 1974. Ou seja, se não os podemos derrotar pela lógica, deixemo-los levar com a vacina de aprender com os erros da sua própria estupidez!

    MORTE À MOEDA ÚNICA!!!
    VIVA A DEMOCRACIA!!!

    Levantem-se todos os extremistas, da esquerda à direita, pois isto já não vai lá com as falinhas mansas dos “moderados” que a única “solução” que dão aos eleitores é insultar quem discorda de si e chamando “populista” a quem recusa governar para agradar às elites…

    1. Concordo, diria mesmo que bater com a porta puro e simples é cada vez mais a solução sensata. Extremismo é persistir no caminho dos muneros que Ricardo Cabral aqui reporta e na erosão social. Demográfica que eles causam. Vai demorar várias gerações a curar. Esta gente a quem prestamos suserania na UE queremos apenas como se quer um limão para fazer limonada. Por exemplo, alguém se espanta ainda que antes de presidente do BCE, Mário Draghi era Managing Director e Vice Chairman da … Goldman Sachs International?

    2. Chateia-me sempre ouvir os revolucionários da treta convencidos que vão mudar o mundo, lixar os ricos para salvar os pobres.

      Que miséria querem impingir ?

    3. No dia em que atingir um défice de 0%, incluindo os juros da dívida, Portugal estará a salvo de um resgate e poderá dar-se ao luxo de impor uma reestruturação da dívida.

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