Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

11 de Dezembro de 2016, 15:29

Por

O novo “coelho da cartola” de Mario Draghi

Desde Alan Greenspan, sobretudo, que banqueiros centrais gostam de utilizar palavras “novas”, místicas, para dar um significado mais ressonante a decisões que adoptam. A palavra “tapering” foi introduzida no discurso das políticas públicas por Ben Bernanke, Presidente da Reserva Federal, em Maio de 2013 (uma palavra antes associada, por exemplo, a uma técnica utilizada por desportistas de alta competição). Com essa palavra, Bernanke pretendia indicar que a Reserva Federal iria reduzir lentamente o volume mensal de compras de dívida pública nos mercados financeiros. Mas a palavra “chocou” os mercados, resultando num aumento rápido das taxas de juro, na altura.

Mario Draghi, ao anunciar alterações ao programa alargado de compras de activos do BCE (APP), na última quinta-feira, evitou  a palavra “taper” e procurou negar comparações.

Para Mario Draghi, a alteração ao programa alargado de compras de activos (sobretudo, dívida pública) não deve ser interpretada como o começo do fim desse programa. O objectivo de Mario Draghi é claro: que a percepção dos mercados sobre o fim do programa APP não resulte no agravamento prematuro das taxas de juro (e quedas nos mercados bolsistas) que anulem os efeitos expansionistas da política monetária adoptada pelo Conselho de Governo do BCE.

Antes do anúncio, da última quinta-feira, a data indicativa para o final das compras de activos era Março de 2017, com a aquisição estimada de cerca de 1,7 biliões de euros de activos financeiros (16,6% do PIB da zona euro), dos quais cerca de 1,3 biliões de euros de dívida pública dos países membros (10,5% do PIB da zona euro).

Mario Draghi anunciou a extensão das compras até Dezembro de 2017, acompanhada pela redução do volume de compras mensais para 60 mil milhões de euros por mês (quando antes era de 80 mil milhões de euros por mês). Ou seja, mais 540 mil milhões de euros de compras de activos pelo Eurosistema o que significa que, entre Março de 2015 e Dezembro de 2017, o BCE e os Bancos Centrais Nacionais da zona euro terão adquirido cerca de 2,2 biliões de euros de activos financeiros (21,8% do PIB da zona euro), despendendo o equivalente a cerca de 6745 euros por cada cidadão (homem, mulher ou criança) da zona euro.

Para Portugal e para o governo português esta é uma ajuda preciosa, mas algo restringida pelas características do programa, que limitam as compras a um tecto de 33% de cada série de dívida, limite que estará próximo de ser atingido para a maior parte das séries de Obrigações do Tesouro português. O BCE e o Banco de Portugal devem adquirir entre cerca de 25 e 28 mil milhões de euros de títulos de dívida pública portuguesa, até Dezembro de 2016 e Março de 2017, respectivamente. Como o IGCP prevê emitir 16 mil milhões de euros de dívida de médio e de longo prazo em 2017, a extensão do programa até Dezembro de 2017 deveria traduzir-se na aquisição pelo BCE/BdP de porventura mais 5 mil milhões de euros de dívida pública portuguesa a um ritmo muito inferior ao dos últimos meses.

Por conseguinte, parece-me que, em resultado desta decisão do BCE, o IGCP deveria ponderar alterar o seu programa de emissão de dívida de médio e longo prazo em 2017…

 

Comentários

  1. Na prática, apologistas e críticos do expansionismo olham sôfregos e sequiosos para as alucinações do poder financeiro. Não há melhoria visível no plano social, que é o ponto fulcral de uma política económica, as intervenções do BCE são fundamentalmente cosméticas, mas o povo aplaude e pede mais, a economia rejubila de tão consideradas que são as suas intervenções no panorama político; os políticos, apagados, proclamam à exaustão os saberes acumulados de insucesso da teoria económica, mas que mal faz… as gerações já não são orientadas pela memória, os cidadãos são culpados dos excessos (ponto final?) da incúria e acabam inevitavelmente esborrachados pela dívida que, curiosamente, ninguém contraiu mas todos concordam em pagar, mesmo renegociada. Os excedentes alemão e outros não são outra coisa senão as dívidas agregadas de países que acreditam no progresso por mera obra e graça de quem detém os únicos activos que contam. Olhar para políticas monetárias e malabarismos financeiros como princípio fundamental de progresso é estar cego, surdo e mudo diante da realidade que, essa, é assustadora.

  2. Draghi faz bem em não seguir a receita da decadência americana. Há muito que se suspeitava que para aqueles lados era só fanfarronadas de hollywood e armamento. Agora viu-se finalmente o que aquilo é e como estão atulhados no que acumularam durante décadas a enganar. Até os votos são suspeitos, e são impugnados. Esperemos que o Mundo (pelo menos desta vez ! ) esteja preparado para se defender de mais uma crise como a de 2007, certamente já em preparação pelos tóxicos do gang financeiro. Isto para não falar da crise humanitária sem precedentes dos refugiados às portas da Europa, mais uma vez como resultado direto do vespeiro dantesco desencadeado, de novo, pelos pistoleiros do costume.

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