Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

6 de Dezembro de 2016, 11:40

Por

Saturno e os seus filhos

Calma. Os prognósticos do apocalipse eram um pouco exagerados. Vinham de todas as partes, é certo: os opositores do Brexit anunciavam a catástrofe se o Reino Unido escolhesse sair da União Europeia, muitos continentais suspiravam por um momento clarificador que iluminasse os erros da instituição europeia. E, no entanto, “os mercados”, o termómetro dos nossos dias, não tugiram nem mugiram. Nem há recessão no Reino Unido, nem os capitais fugiram, nem a União desbancou.

O mesmo em Itália. O referendo deu uma maré contra Renzi e os seus planos de concentração de poder torcendo os resultados eleitorais (ele que é primeiro-ministro sem ter ido a eleições), mas “os mercados” mantiveram-se na sua. Resumindo: o Brexit ainda fica por mais uns tempos e Itália não é o Brexit.

O problema é a partir daqui. Porque, calma, Itália não é o Brexit que não é nada que assuste, e depois França não é o Brexit nem é Itália, a Áustria é um sossego, a Holanda não é França, a Alemanha não é a Holanda, todos os casos são diferentes e todos são o mesmo problema: a União, como Saturno, está a devorar os seus filhos. Calma, portanto, mas atenção que isto é ainda pior do que parece.

Sai Cameron e sai Renzi. Repare na coincidência: ambos tinham grande maioria parlamentar. Não foram as instituições que lhes faltaram, foi o povo, ao ponto de, iludidos pela tentativa cesarista de um referendo, terem recorrido em ambos os casos a jogos políticos que precipitaram a sua queda. Depois, sai Hollande e sairá provavelmente Dijsselbloem ou quem o segura e logo veremos quem mais. Saturno vai atrás de todos os seus filhos, metódica e gulosamente.

De facto, a UE já não tem liderança visível. Tem uma chefia relutante e prostrada, Merkel, que, depois do fracasso do acordo com a Turquia sobre os refugiados, se retirou para cuidar das suas eleições (como Costa lembrou há dois dias, nada se fará na Europa até Outubro de 2017, quando se votar na Alemanha). A UE tem ainda bombeiros incendiários nos países de Leste, tem cimeiras “refundadoras” todos os semestres, tem discursos desconexos e, na falta de tudo o mais, tem apelos aos “valores” para comover os crentes. Essencialmente não sabe o que fazer, desde que não faça nada.

Nesta paralisia, Saturno é o perigo: o que devora os governantes é a irrelevância e é portanto o tempo que passa. Perdida a capacidade de responderem no plano nacional à crise económica, ficaram reféns das agências de rating; desistindo da democracia parlamentar para votarem orçamentos, assentaram em regras sem legitimidade; reduzindo a política à arte da espera por um milagre, ficaram reduzidos ao espectáculo. E o espectáculo não basta para entreter todo o dia.

Por isso é que a calma dos “mercados”, em Itália e no Reino Unido, é o que deve assustar. Prolongar a agonia de uma recuperação medíocre que deixa os jovens no desemprego, virar os olhos às guerras do petróleo e aos muros contra os seus refugiados, essas opções agravam divisões, desconfiança e corrosão social, ou seja, são o trabalho de Saturno.

A União destrói-se por dentro, porque é divergência e não é União. Ou seja, a calma europeia é somente medo. Medo de que já este fim de semana seja preciso injectar uns milhares de milhões no Monte dei Paschi di Siena, medo de que depois venha o Unicredit, medo de que o Deutsche Bank dê de si, medo do dominó. Mas, mais do que tudo, a Europa tem medo de todas as eleições, foi a isto que desceu.

A diferença é esta: já houve Berlusconi e Sarkozy no Conselho Europeu, e com Trumps avant la lettre a coisa ia bem, desde que os tratados se empinassem para impor as regras do euro; agora o vírus da desconfiança dilacera os regimes, desfaz os partidos do pós-guerra, tornou-se um calvário de desmantelamento, é o trabalho de Saturno.

Comentários

  1. À medida que o tempo passar, e demorarem os planos de ação, e um verdadeiro e genuíno interesse pelo denominado «projeto europeu», a tendência será para o descrédito, e em vez de unir os Estados e populações da Europa, a as instituições da União Europeia tenderão a ser contestadas, vistas como entraves, que impõem, ou sacrifícios aos meus débeis e fracos, ou pura e simplesmente anuirão aos desejos dos mais fortes e poderosos económica, financeira e politicamente. E poderá ser de outro modo? Como vai medrar uma União Política, com um espaço comum, em que uns aderiram a uma moeda única sem os mecanismos de integração essenciais nestes casos? Como é que vai sobreviver uma entidade com um espaço comum, em que uns permanecem membros da NATO e outros nem se importam com uma política de segurança e defesa comum? Digam-nos como esta entidade vai sobreviver, sob o manto de descritibilidade, e a suspeição acerca de uns milhares de funcionários burocratas, com ordenados chorudos, que campeiam entre Estrasburgo e Bruxelas!
    Seja-me permitido citar, disse Marx com argúcia: “Os homens fazem a sua própria história,mas não a fazem segundo a sua própria vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados a revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo de ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos
    do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representar a nova cena da história universal.”

    Karl Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte,
    tradução de José Barata-Moura e Eduardo Chitas,
    Lisboa, Edições de Avante, 1984, p.121

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo