Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

11 de Outubro de 2016, 19:17

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Quer mesmo viver numa Uberlândia?

Os taxistas fizeram muito para se tornar impopulares. Fizeram-se às imagens vândalas da cabeça perdida, gritaram demasiado “segura-me se não eu bato-lhe”, falam por patrões que parecem fazer de figurante de telenovela, tudo lhes corre mal.

Não tinha que ser assim e não mereciam que o desvario lhes fizesse isto. A profissão mudou nos últimos anos com a afluxo de desempregados vindos de outros trabalhos, com mais mulheres e jovens, com a punição de abusos, com melhor qualidade de serviço. Ser taxista deixou de ser um esquema, passou a ser uma profissão.

Creio que é por isso que os liberalizadores se concentram em fixar uma imagem degradante contra os taxistas, com a ajuda inestimável de alguns dos tumultuosos porta-vozes da indústria. O “taxismo de aeroporto” é o argumento forte dos que candidamente nos dizem que chegou a “destruição criativa”, pois o argumento liberalizador só tem por si a suspeita contra quem quer aniquilar.

É certo que o táxi que até agora conhecemos está a terminar. Não vamos ficar nos passeios à espera que passe um carro de cor característica com um sinalzinho luminoso. Dentro em pouco, todos estes serviços serão regidos por aplicações nos nossos smartphones, os pagamentos serão electrónicos e os recibos virão por mail. Verificaremos logo os impostos pagos. E isso é progresso e é melhor que os táxis percebam que não se volta atrás por uma ponte que já ardeu.

Então, a minha pergunta é esta: mas quer mesmo que o táxi seja substituído por uma empresa multinacional que cobra 25% aos fornecedores mas que não assume responsabilidade por eles? Ou, quer mesmo que o transporte público seja substituído por carros que não têm seguro adequado e com condutores sem a certificação que a lei definiu como condição para levar o passageiro ao seu destino?

A regressão seria termos um transporte público baseado em trabalhadores arregimentados com comissões esconsas, sem horas nem contratos, sem garantias para os utentes, sem regras iguais para todos os fornecedores, uns pagando alvará e outros não (e uns tendo benefícios fiscais e outros não). Essa Uberlândia seria um mau sítio para viver.

E é aqui que a atitude do governo se torna estranha. Tudo se baseia nessa convicção que garante que este transporte de passageiros não é serviço público e não tem portanto que obedecer às regras da protecção do cliente. Para o ministro, a lei não se aplica pois se trataria de um arranjo entre privados – mesmo metendo uma multinacional, comissões pagas à cabeça e o recrutamento em massa de operadores.

A partir daqui, tudo é possível, só que é errado. Estes táxis à civil não pagam os custos do acesso ao bem público que é a rua ou o exercício da profissão de transportador, porque são considerados assim como um passeio para um picnic. Portanto, todos podem entrar no mercado, o limite é o céu, onde se viu contingentar os passeios para um picnic? O leitor e a leitora já sabem onde quero chegar. É que não nos é indiferente termos qualquer número de táxis nas nossas cidades, pois não? Precisamos dos suficientes para nos movermos e não de demasiados para nos congestionar.

E é aqui mesmo que o ministério do ambiente comete o seu maior erro. As nossas cidades grandes precisam de menos carros e de mais transporte público: supletivamente, de táxis, mas essencialmente de Metro e de Carris ou STCP, que estão a ser sucateados miseravelmente. Se o governo quiser um dia um projecto fundamental para as cidades, então preparará o Metro e autocarros gratuitos, com carreiras regulares e qualidade, mesmo pagando-os com portagens ou estacionamento mais caro. Se quiser pensar nos transportes públicos.

Comentários

  1. Pensei que essa briga com o Uber fosse restrita a uns poucos lugares…Aqui no Brasil, as preeituras estao em desacordo nacional, plois cada uma tem uma visao diferente do serviço…eu particularmente nao utilizo nenhum dos dois…tenho amigo que possui os dois serviços. Ele tem um taxi e um veiculo do Uber. Disse-me ele que como operador de ambos, ganha menos no Uber, e que se precisasse viver dele nao daria. Para piorar o contexto, ja estao surgindo outras empresas com a mesma plataforma…logo teremos mais carros do que gente para transportar.

  2. É só para informar que a Uber aumentou a percentagem que cobra unilateralmente de 25 para 28%.
    Mas o que importa isso?
    Desde que seja barato para mim… quero lá saber se o condutor Uber anda 12 ou 18 horas no carro para poder sobreviver, não é comigo!

  3. O que importa é o botrom line…a Uber oferece mais por menos. Mais conforto e melhor preço e uma plataforma em que se tem várias informações pertinentes para tomar a decisão de chamar ou não um taxi.
    Se sabem conduzir?…parece-me que sim, não vejo que os taxistas tradicionais o façam melhor…aliás, normalmente até são bem piores. Se têm um curso de condução não parece…
    Seguros, aí pode realmente haver um problema, mas aí está a questão de que a probabilidade de acidente num taxi Mercedes 190d de 1989 sem abs e sem airbags é muito maior…
    A uber terá de entretanto cumprir algumas regras, mas para já, para o cliente final, é o que ele quer…melhor e mais barato.

    1. Terão todos de estar sujeitos às mesmas regras ou então a concorrência será desleal. Uma das regras fundamentais é não ser facilitada a admissão de trabalhadores precários tanto nas operadoras que trabalham para a “Uber” como nas empresas de táxis ditas “públicas”.

  4. Esta sim, é a questão. Quanto aos taxistas, em concreto, temos pena. O pessoal dos camelos também ficou piurso com os descobrimentos, os monges escribas com o Gutenberg, e por aí fora….

  5. Eu não quero viver numa terra sem lei. Não me venham com essa de a Uber não ser um operador de táxi, as pessoas não viajam por impulsos eléctricos, viajam de carro. Uma coisa é viajar num carro sabendo que se acontecer algo nós estamos protegidos pelos seguros e outra é não saber quem me vai indeminizar. Além disso trabalhar sem regras não é trabalho é escravidão. Se há quem goste de viver subjgado a vida inteira, eu não gosto, nem quero que no meu país se viva assim.

    1. Concordo.Equivale ao servico prestado pelo multibanco ao comercio .cobra muito,participa ativamente na desregulamentacao com os efeitos conhecidos

    2. Haja alguém que consiga ver para além do imediato (devidamente exposto neste texto, se as pessoas fizerem uma leitura crítica honesta). Obrigado.

  6. Seria útil e curial que o cronista creditasse a autoria da expressão “destruição criadora”, pois ela tem um dono: Joseph Schumpeter. Cfr. Capitalism, Socialism and Democracy, 2ª ed,. Londres, p. 83.

  7. Seria útil e curial que o autor creditasse a expressão “destruição criadora” pois ela tem dono: Joseph Scumpeter. Cfr. Capitalism, Socialism and Democracy, 2ª edição, Londres, 1944, p.83

  8. A compra de produtos e serviços em loja digital faz-se crescentemente e o comércio digital não suscita dúvidas. As agências de viagem redesenham os seus modelos de negócios, as livrarias também como os demais negócios. Até aqui tudo normal, tudo legal, tudo prático e desejável. Não sei quantos portugueses vendem digitalmente mas seguramente cada dia serão mais. Onde começa o crime é na organização de fornecedores de transporte em concorrência desleal, fazendo “sangue” no pequeno mercado do transporte terrestre ocasional que está fortemente regulamentado, contigentado, dotado de barreiras à entrada dificílimas.

    Fracturar esse pequeno mercado de modo ilegal através de empresas de transportes que não se submetem à legislação do setor, nem estão dotadas dos requisitos legalmente previstos para operar nesse setor e ainda por cima recorrendo à precariedade, ao biscate, ao improviso visa, a curto prazo, a falência do serviço público regulamentado como manda a lei mas que será forçado a desistir por falta de clientes.

    O Ministro do Ambiente está a praticar crime de tolerância e receptação de atividade ilegal ao permitir, com desculpas esquivas, a concorrência desleal a um setor público aprisionado por regulamentação, por investimento próprio dedicado e consumado, por barreiras à saída.

    A solução para estes problemas não está em proibição (é proibido proibir a vida!).

    A solução é legalizar os concorrentes todos em igualdade de condições.

    As plataformas não sabem guiar! As plataformas não sabem transportar!

    A concorrência desleal, ilegal e precária está a ser praticada pelos prestadores de serviços de transporte que faturam para as plataformas.

    Essas entidades, sejam empresas de transporte ou empresas em nome individual ou simplesmente “piratas” têm de ser forçados a entrar no setor pela porta de entrada, pagando os custos de entrada que pagaram os que já entraram.

  9. A uber é uma empresa de outsourcing para o sector do taxi.A uber é como o “seguro directo”:para vender um seguro ,é tudo cor de rosa,para resolver um acidente,nem sequer atendem o telefone.A uber é uma especie de Amazon ,com empregados,enfiados no porão,e sem discos para vender,porque o on line tambem acabou com a discalhada.P.S.-este argumento de os taxistas serem uns brutos,não lembra ao careca,ate porque eu posso jurar que é exactamente ao contrario,os clientes só porque tem dinheiro,não tem sempre razão.Basta ir a qualquer grande superficie,para ver como os empregados são tratados,pelos clientes.

  10. Já se reformou quem os podia ajudar! Quem, por exemplo, atrasou a chegada do metro ao aeroporto da portela, só para os satisfazer.
    Ou ainda, que grupo julga seria beneficiado no transporte de passageiros com a mudança, para a margem sul, da localização do novo aeroporto? Longe do comboio e quase impossível fazer lá chegar a rede do metropolitano (ao contrário da primeira localização planeada). Ficaria mais cara a viagem do “deserto” para a cidade, do que a passagem do avião! Farto-me de rir quando falam nos “estudos” realizados na época, quando as razões são bem mais corriqueiras.
    Venham as “lândias” já!!!
    Pensava que FL não tinha queda para cavalgadas quixotescas. Felizmente não me canso de surpresas.

  11. “Se quiser pensar nos transportes públicos.”

    Se quiser pensar nos transportes públicos e, tão ou mais importante, no que podemos contribuir para a redução de CO2. A redução do número de carros nas cidades é bom para a mobilidade mas é melhor ainda para o meio ambiente. E já que se trata do Ministro do Ambiente, já agora convinha ter em mente a pasta que se tutela…

    1. A questão aqui e fácil. Quais são os serviços que conseguimos “Uberizar”, e aí temos um debate que poderá por toda a gente no mesmo nível de apreciação crítica e reflexão real deste paradigma onde as leis de uma nação ou de um sector valem o que valem.
      Os taxis tem que se adaptar á realidade mas a Uber tb tem que se adaptar á realidade de cada país e nao andar a operar em loopholes. Acho que temos aqui um debate de 8 ou 80 , o que me parece errado.

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