Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

5 de Outubro de 2016, 16:26

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Resgatar ou não o Deutsche Bank, eis a questão

 O Deutsche Bank (DB) tem estado na boca do mundo, com alguns comentadores a recear que se possa tornar num novo “Lehman Brothers”, o banco de investimento americano que declarou falência em 2008 precipitando um dos períodos mais agudos da crise financeira internacional. Mas o Deutsche Bank é mais de 3 vezes maior que o Lehman Brothers e tem uma situação de liquidez muito mais robusta do que tinha o banco americano.

Primeiro é de salientar que o Deutsche Bank é uma instituição muito grande e complexa e que qualquer análise como a presente é simplificadora e incompleta, só vinculando o autor.

No dia 28 de Setembro, o Zeit Online afirmou que o Governo alemão, em conjunto com as autoridades europeias (Bruxelas e Frankfurt) estariam a preparar um plano de emergência para o Deutsche Bank, notícia oficialmente desmentida pela porta voz do Ministro das Finanças alemão. Um dos planos em análise, segundo o Zeit Online, preveria a nacionalização parcial do Deutsche Bank em 25%, o que se afigura dificilmente compatível com as actuais regras da União Bancária.

Será que as autoridades alemãs acreditam que o Deutsche Bank é uma fortaleza capaz de aguentar a tempestade? Será que as autoridades alemãs, apesar de poderem ser louvadas por querer “engolir a pílula”, mesmo no caso de um banco alemão, estão a subestimar o problema com o Deutsche Bank e suas potenciais consequências?  Ou será que duvidam da robustez do banco e estão mesmo preparadas para o deixar cair? E o que deveriam fazer?

Afigura-se que o banco está a sofrer um enorme ataque especulativo, algo parecido aos que foram realizados, em anos recentes, às moedas e respectivos Bancos Centrais da Suíça (franco suíço), Rússia (rublo) e China (yuan).

No passado, já algo longínquo, os ataques especulativos eram realizados contra “alvos” de relativa pequena dimensão, em situação de fragilidade. George Soros parece ter iniciado, em 1992, a “era moderna” com ataque especulativo ao tesouro de um país rico (Reino Unido). Em anos recentes, tem-se assistido a ataques especulativos contra países com meios financeiros para “lutar” contra os especuladores. A estratégia parece ser “escolher presas ricas” que não se sabem defender bem.

De facto, as reservas de alguns países podem ser de centenas de milhares de milhões de euros, mas continuam a ser geridas sobretudo por banqueiros centrais, mas também por técnicos e/ou burocratas sem experiência do que é especulação. Técnicos ou burocratas que pensam que o montante das reservas das suas instituições é suficiente para se protegerem dos ataques especulativos, mas que depois ficam assustados quando o montante das apostas especulativas que realizam, no nome das entidades públicas que representam, se torna demasiado grande.

O Deutsche Bank não actua como um banco central. A parte mais importante do banco está precisamente relacionada com uma forma de especulação, nomeadamente como “market maker” ou como contra-parte em vários mercados financeiros. Por conseguinte, neste ataque especulativo, ao contrário de outros contra moedas envolvendo Bancos Centrais, um grupo de especuladores ataca “um dos seus” que é (pode ser), digamos, um gigante com pés de barro.

Senão vejamos.

O Deutsche Bank dispunha, no final de Junho de 2016, de cerca de  125 mil milhões de euros de disponibilidades líquidas (dinheiro e equivalentes) e de um total de activos muito líquidos no montante de quase 420 mil milhões de euros, num banco com um balanço de 1,8 biliões de euros de activos. Com estas condições de liquidez parece difícil acreditar que uma corrida ao banco, mesmo com investidores institucionais, possa pôr em causa o banco, embora o banco recorra a um elevado volume de empréstimos interbancários.

Por conseguinte, numa primeira abordagem, o banco parece uma fortaleza, quase como um banco central de um país com elevadas reservas internacionais.

Mas a primeira questão afigura-se ser porque é que o DB mantém disponibilidades líquidas tão elevadas? O banco tem cerca de 163 mil milhões de euros de dívida de longo prazo e “financia-se”, a 10 anos, a uma taxa de juro superior à da República Portuguesa (4,9% vs 3,3%). E, provavelmente, deposita a maior parte dos 125 mil milhões de euros de disponibilidades líquidas junto do BCE a uma taxa de juro de negativa de -0,4%, ou seja, pagará qualquer coisa como 400 milhões de euros por ano ao BCE, somente para manter tal nível de disponibilidades líquidas.

Essa parte do balanço do DB causa significativos prejuízos ao banco. Se se assumir que a taxa de juro implícita da dívida de longo prazo do DB será no presente de 4%, esse nível de disponibilidades líquidas e financiamento de longo prazo representaria um prejuízo de cerca de 5,5 mil milhões de euros por ano para o banco.

O segundo elemento a considerar em relação ao DB é que possui uma enorme carteira de derivativos. É, aliás, o banco com uma das maiores carteira de derivativos do mundo, com valor nominal de cerca de 42 biliões de euros em 2015 (p. 157), tendo reduzido essa posição 25% desde o final de 2013.

O valor líquido dessa carteira é ligeiramente positivo, i.e., a diferença entre o valor positivo (Activos) e negativo (Passivos) da carteira de derivativos é de cerca de 16 mil milhões de euros. Todavia pequenas variações no valor da carteira podem ter um impacto muito significativo no balanço do DB.

E parece-me que um ataque especulativo ao DB, a ter sucesso, começará precisamente pela carteira de derivativos do banco, procurando afectar o valor desses derivativos em prejuízo do DB.

O terceiro elemento da equação é o papel da regulamentação europeia e do supervisor (o Mecanismo Único de Supervisão do BCE e o próprio Conselho do BCE). A regulamentação europeia só define um nível de capital mínimo, relativamente baixo, que não pode ser violado em algum momento, sugerindo, mas não explicitando, que a partir desse nível o banco seria intervencionado. Mas deixa grande grau de ambiguidade e discricionariedade ao sugerir que o BCE pode intervir e resolver um banco muito antes desse nível, desde que os rácios de capital do banco caiam abaixo de um dos três (ou quatro) mínimos regulatórios. Acresce que o BCE “exigiu” ao Deutsche Bank níveis de capital CET1 muito elevados, muito acima dos rácios mínimos regulamentares. Por último, o Conselho do BCE pode retirar o estatuto de contraparte a qualquer banco de um dia para outro, sem ter de fundamentar a sua decisão (como se viu, por exemplo, no caso do Banif). Estes poderes relativamente arbitrários do BCE são fonte de grande instabilidade no caso Deutsche Bank.

Em suma, parece-me que não existe qualquer garantia que uma significativa injecção de capital no DB (por exemplo, 30 mil milhões de euros) pelo governo alemão, fosse suficiente para “vencer” o ataque especulativo ao Deutsche Bank, porque, por exemplo, bastaria uma variação do valor da carteira de derivativos desse banco, para deixar, de novo, os rácios de capital do banco próximos dos mínimos regulamentares.

E parece-me igualmente que os especuladores que estão a atacar o DB pretendem precisamente isso: que quem está a defender o banco, invista mais capital no banco para que, quando o DB finalmente capitular, os seus investidores percam mais dinheiro (que é ganho por esses especuladores).

Ou seja, é possível que a estratégia do governo alemão e de Angela Merkel seja a mais avisada. Pode ser que seja impossível defender o banco de um ataque especulativo por mais capital que lá se meta, pelo que o melhor é não tentar, sequer, defendê-lo.

Comentários

  1. Interessante que de todos os ataques especulativos, não refira os ataques especulativos de que foram vítimas os países do sul, como Portugal – uma das principais razões da nossa bancarrota.

    Razão da principais mas que desaparece completamente das “explicações” da treta sobre a origem da nossa crise.

    Necessidade de justificar a tese do “justo castigo” com que os nossos racistas “amigos” europeus nos tentam destruir ? Lealdade aos donos, como os “house niggers” das plantações americanas que defendiam os donos como se fossem os seus melhores amigos ? O pessoal da direita tem muita vocação para esse papel.

    Deus queira que os alemães se afundem e que provem do mesmo veneno que nos obrigaram a comer – e com eles os seus cães de fila do partido popular europeu.

  2. Qual é em concreto a natureza do “ataque especulativo” ? O que tem vindo a publico é que varios fundos de investimento têm vindo a reduzir o volume dos seus depositos no DB (no que, provavelmente, têm sido acompanhados por muitos particulares e empresas com depositos elevados), e as açoes estao sob pressao de venda. Ambas sao reaçoes naturais de quem tem algo a perder em caso de problemas com um banco cuja posiçao financeira ficaria fortemente debilitada se a multa de mais de 14 mil milhoes de dolares pedida pela justiça americana se concretizasse. A questao é que as atuais regras mais restritivas em materia de resgates publicos e garantias de depositos tornam doravante a corrida aos bancos uma ocorrencia potencialmente mais comum que no passado. Seria de esperar que isto tivesse sido levado em conta pelo BCE e pelos estados quando as regras da uniao bancaria foram desenhadas. Se nao foram, talvez o caso do DB tenha pelo menos o efeito salutar de obrigar a repensar as regras de forma a lidar melhor com as crises no futuro.

  3. Excelente pequeno artigo muito informativo que vivamente recomendo a explicar o quê?…os meandros do TINA. Sim os meandros do TINA em última análise, em que o destino final desta economia de casino é o contribuinte. É muito importante que alguém explique, já que os jornais não o fazem, a mecânica selvagem deste tipo de operações financeiras materializadas depois pelos políticos quanto a prejuízos como INEVITABILIDADES quando se trata de contabilizar prejuízos. Excelente, obrigado pelo didactismo, rigor, e trabalho de informação, condensado neste seu pequeno artigo.

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