Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Setembro de 2016, 08:47

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Temos mesmo que salvar a pureza ideológica do PS?

O comovente movimento em defesa da pureza do PS, que se gerou nos últimos dias, nasce de uma perplexidade, se não de um susto. Parece que meia dúzia de militantes socialistas aplaudiram uma esquerdista de voz doce, o que prenuncia a pior das catástrofes, aliás já aqui desmontada, e que o governo do mesmo partido pondera aplicar um imposto sobre propriedades de luxo. Ora, apesar de isto se seguir a um imposto com o mesmo objecto, este tem a característica inadmissível de pretender ser cobrado, o que ultrapassa todos os limites da paciência. Os milionários, qua não são poucos, gostam do anúncio de um sonante imposto sobre a propriedade de luxo, assim em modo de “matriz social-democrata”, sopa dos pobres ou outras falas generosas, mas se o governo perde a cabeça e quer cobrar não perdoam a desfaçatez. Em resumo, a Pátria está em perigo.

Por isso, viram-se as atenções para o PS, que precisa de ser salvo para manter o equilíbrio nacional (na direita social e nos interesses económicos já se percebeu que com o PSD e CDS não vão lá).

A primeira vaga foi a dos que vieram corrigir ideologicamente Costa, que anda por aí com a cabeça virada, parece até que lhe deu para citar frases de Jesus Cristo mas que foram depois conspurcadas por Marx, o que as torna evidentemente impraticáveis. Como os nossos velhos esquerdistas arrependidos ainda se lembram da lombada do missal, mas do outro, lá puxaram dos pergaminhos e proclamaram o apocalipse citacionista: o Costa é comunista, já o pai dele era e quem sai aos seus etc. e tal.

Fernandes, sob o título apetitoso “Costa defendeu ideia comunista de sociedade ideal”, foi o primeiro. Só lhe posso dar razão, eu que sempre desconfiei de Cristo e das suas parábolas, aquilo tinha por onde dar para o torto, como se vê. Só espero que o Rodrigues dos Santos não use isto para o próximo romance, ia ser um desgosto. Em todo o caso, João Carlos Espada não podia deixar de dar o seu contributo e reforçou, o que é que Sir Karl Popper diria desta deriva historicista?

Outros, mais matreiros, percebem que isto não vai lá com reprimendas bíblicas, que aliás podem ser ignoradas pela massa dos socialistas, mas que é preciso ir ao cerne da questão. E o cerne é o que se sabe, a Pátria em perigo.

Mesmo perigo perigoso. Helena Matos, sempre surpreendente, entrevê uma guilhotina a ameaçar-nos no debate sobre as dádivas de sangue, o que só pode assustar alma tão cândida, que aliás vive sobressaltada de desgraça em desgraça. Maria de Fátima Bonifácio, não podia ficar por menos, apela à união da sua classe, haja orgulho e compostura. Em resumo, o Observador é um mar de sangue e de naufrágios, a sua leitura não é recomendada a quem sofra de problemas de vesícula ou a espíritos sensíveis.

Dir-se-á que o tremendismo é fácil mas não resulta. Pois desconfio que não. No imposto, foi um fiasco. Repeti-lo é demonstração de imaturidade: o que fracassa em ridículo uma e outra vez não se vai tornar ária de ópera à enésima entoação.

Vêm então Henrique Monteiro, Marques de Almeida e outros lembrar 1975 e apelar à reconstituição da Fonte Luminosa e da gesta do 25 de Novembro, pois foram as privatizações e a Europa que salvaram Portugal e o PS não se lembra?

Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta, respondeu depressa e de modo a não deixar dúvidas. Quanto ao imposto, “o que está no programa do Governo é que haja um imposto progressivo sobre imóveis”, mas “não há assunção de que vá para a frente”. Quanto ao resto, “eu, como secretária-geral adjunta, com responsabilidades e a vida de partido que tenho, não deixarei que o PS perca a sua identidade, e a sua identidade está inscrita na sua declaração de princípios.” Assunto arrumado?

Ainda não. Chegam os críticos que tiveram sempre razão e são apresentados como faróis da moderação: Sérgio Sousa Pinto, que só no último ano e meio foi moderado contra Seguro e a favor de Costa, moderado contra Costa e a favor de si próprio, moderado de novo a favor de Costa e contra todos os outros, agora de novo moderado e contra Costa e ainda se há-de saber em prol de quê, explica o essencial do resgate do PS. Parece que a sua transumância aflitiva é um pensamento político, mas o argumento resume-se a isto: eu gosto dos mercados que são a liberdade e da Europa que é a democracia, mas se o PS não gosta tem que aceitar mesmo a austeridade, “não é a política que o PS gostaria de ser forçado a prosseguir, mas é a política ditada pela realidade”. A “realidade” são os tratados que não existiam antes de serem “realidade” e foram portanto “ditados” pela contingência ou frequentemente pela cobardia, ao ponto de hoje os governos só discutirem como falsificar as regras. Mas o PS tem que aceitar a “realidade”.

Ou seja, segundo estas sugestões, o PS tem que fazer o que sempre fez até hoje, acordos com a direita. Foi em nome disso que Ana Gomes, Brilhante Dias, José Junqueiro e Álvaro Beleza, com outra tropa fandanga que cedo se desarriscou, pediram a demissão de Costa na noite de 4 de outubro, ou que Vera Jardim e outros pediram a condescendência para um novo governo Passos-Portas. Ora, como lembra Cravinho, isso parece difícil: “a evolução futura da política não pode fazer tábua rasa de ter sido feita uma bipolarização esquerda-direita” e “em novas eleições, pode um partido — o PS ou o PSD — não ter maioria absoluta. Nestas condições, enquanto o jogo democrático for este, não vejo que o PS liderado por António Costa, se ganhar, venha a tirar como conclusão das eleições que tem de fazer uma coligação com o PSD.”

Politicamente, os consultores, adversários condoídos, conselheiros, citacionistas e purificadores parecem portanto ter perdido a parada. Quer isso dizer que o bloco central perdeu o PS? Os factos responderão. O que para já se sabe é que o PS não quer um governo com a direita e também não quer mudar a sua linha de rumo de obediência aos ditames e normas europeias. O que quer dizer que o alarme ideológico é excessivo.

A ideologia do PS nunca esteve em risco, pois na verdade não há ali ideologia, ou se há importa pouco. Suspeito mesmo que haja muito quem veja com algum enfado a palavra “socialista” e prefira apressar-se a explicar que “socialista” quer dizer “capitalista”, nos termos de Sousa Pinto. Há ideias, isso certamente, e são evidentes: respeitar a norma europeia e procurar aliviar os seus efeitos. Mas na política o que tem que ser tem muita força e por isso a “geringonça” está a tomar conta da Pátria. Quanto ao mais, purificar o PS seria supor que ele mudou de ideias, de estratégia ou de visão europeia – e seria supor demasiado.

Os purificadores não perceberam que a contradição de Portugal é que, nisso que importa para as escolhas do presente, ainda não mudou a bússola. A pureza do PS, seja lá o que isso for, parece mesmo estar salva. Ela não mudou em nada, mas as circunstâncias mudaram. Em todo o caso, a Pátria respira de alívio.

Comentários

  1. O PS é, no plano estratégico, social-democrata, hoje como sempre foi. No plano tático tem um histórico de ação em aliança com a Direita desde o 25 de abril de 1974.
    Sem esse movimento tático à direita esta não seria como é um bloco transferido da UN/ANP nesse formato transversal sem estratificação ideológica nem de classe, mas colado apenas pelo anticomunismo dos propagandistas de Salazar e Caetano caracterizada pela expressão: “quem não é por mim é contra mim e é comunista ao serviço de Moscovo.

    O que, por estes dias, se viu escrito e se ouviu e troa ainda é essa voz das cavernas, esse coro do salazarismo.

    O PS pode perceber com Passos Coelho e Portas que a Direita que ajudou generosamente a recuperar intacta da elite da ditadura e com quem partilhou os interesses e o Estado, logo que pode, tratou de empobrecer Portugal e os portugueses e contou de novo o orgulho da pobreza.

    O PS e todos os democratas podem interiorizar, com certeza explícita, que a Direita portuguesa não cresceu por seu próprio pulso, não se estratificou em torno dos grupos e camadas sociais que representa, não fez crescer cravos na sua alma, mas arroga-se de dona do pin nacional na lapela ao mesmo tempo que aliena a pátria a interesses estrangeiros com o velho zelo colaboracionista dos anos quarenta do século passado.

    Há uma batalha pela democracia a travar com um reforçado empenho e esforço para consolidar a paz, liberdade, democracia pluralista cidadania e prosperidade inclusiva ao universo dos portugueses.

    A convergência e entendimento das forças políticas e sociais que no passado abriram o caminho ao 25 de abril foram capazes de, na interpretação dos resultados eleitorais de 4 de outubro de 2016, travar a destruição de Portugal democrático e reverter os elementos essenciais à defesa da dignidade dos portugueses. O PS está no centro dessa barreira democrática e acolheu a indispensável ajuda da mesma convergência da oposição democrática. É como se o 25 de abril se tivesse repetido mas com as armas dos votos.

    O PS é o mesmo e continuará sendo o mesmo.

    Não está em curso uma mudança de regime em Portugal, mas a consolidação do regime democrático que saiu revolução de abril.

    A Direita que nunca se reciclou vai ter de habituar-se a servir os portugueses assumindo-os como cidadãos, respeitar as regras de edifício democrático, designadamente a constituição da república portuguesa e assumir a humildade de sinceramente comer à mesma mesa, partilhar a mesma refeição com todos os portugueses.

    1. Enganado! Social-democrata é, segundo Pacheco Pereira, o BE. Com esta classificação o PS será talvez proto-neoliberal.

  2. A direita radical passa a vida a falar da revolução francesa.Pois bem,cá vai um bom exemplo,de um filme sobre a revolução francesa:é o A Noite de Varennes de Ettore Scola.

  3. O que é tal “pureza ideológica do PS”? É a pureza antes de 1983, ou depois de 1983!?

    Será que o PS antes de 1983, era o mesmo PS depois de 1983, mas andava disfarçado de PS antes de 1983!!??

    Na óptica da Direita, o PS sempre foi o PS após 1983, desde o início, enquanto que a ala direita do PS defende eles ainda hoje são o PS desde o início.
    A ala esquerda, diz que o PS sempre foi o PS desde o início, mas que nos últimos anos (ou seja, após 1983), tem mudado para a direita, jogando no campo da direita, e por isso quase todos os PSs da Europa estão a definhar.

    A direita diz que a culpa é desses “horrorosos jovens turcos”, que tomaram conta do PS, apesar desses “jovens turcos” afinal serem “velhos turcos”, realmente sociais democratas.

    Cabe ao PS não cair no descrédito, porque isso de se andar a disfarçar de esquerda antes das eleições, para depois governar á direita, ocupando-lhes o lugar e a originalidade, já não funciona…

  4. Já que falam tanto em Cristo aproveitem para comprar o primeiro dos 27 livros, da tradução do original, feito com maestria pelo Professor Frederico Lourenço. Terão algumas novidades, até no tempo dos verbos. Cristo dialogou até com quem o traiu, porque política é a arte do consenso e do diálogo. mas realmente com matos, bonifácios, pintainhos ,fernandes e quejandos, não há mesmo diálogo possível…

  5. Não há pureza ideológica no Ps. É ilusão. Obviamente quando se apanham com a mão nos orçamentos são tão “pragmáticos” como a direita. E actualmente revelaram-se um pouco refractários a essa velha linha “pragmática” com origem nos idos do soarismo e com a culminância socrática, por alguma vergonha. Foi quase irreal. Tantos e tão evidentes são os escândalos onde aparecem como grandes protagonistas que seria impossível continuar a disfarçar por mais tempo. Não haja ilusões quanto a isso. Toda a atenção é pouca com o Pêesse.

  6. Lembre-se que quem fechou maternidades do interior por só produzirem 3 partos por dia foi o PS. Quem aglomerou escolas por números foi o PS. Quem quis resolver os problemas do país pedindo dinheiro emprestado foi o PS. Este PS parece-me mais à direita do que a própria direita. Já perdeu a identidade há muito. Perdeu-se quando fez um golpe interno ao poder. Perdeu-se quando se uniu a um grupo de jovens com ampla experiência de debates na mesa da esplanada, mas nenhuma daquela tolerância pelos outros que nos vem da experiência da vida vivida. O poder a qualquer custo. E quanto à “voz doce”, a senhora é muito inteligente e competente, certamente. Terá uma “voz doce” quando arregaçar as mangas para a vida e se levantar da mesa do café. A política não lhe ensina nada.

  7. “Eles” e “elas” são aparentemente de vistas curtas, não entendem que Costa está a tentar a “quadratura do círculo” ou que haja “sol na eira e chuva no nabal”, em posição de equilibrista para garantir a “sobrevivência” eleitoral do PS, tentando “agradar a Deus e ao Diabo”, sem ferir no essencial os interesses estabelecidos pelo chamado “bloco central”. “Eles” e “elas”, do “gabarito” assiscaciano, “lentilhados”, irmanam-se de alma, coração e pés juntos com os que em cada dia anunciam o “apocalipse”, quando os dias são apenas de leda mansidão, de folga na tarracha mas não de folguedo para a maioria. “Esquecido” das suas “irrevogáveis” promessas, o PSD liderado por Passes de Coelho e Montenegro lá vai votando parlamentares medidas avulsas com o PS e contra a “esquerda”. Se Cristo regressasse à Terra, estaria hoje aprisionado em Guantanamo, como perigoso terrorista, por iniciativa e obra dos vendilhões do Templo.

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