Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

1 de Agosto de 2016, 08:49

Por

O ordoliberalismo deslumbrado

Vital Moreira tem destas coisas: ele adora a “Europa”. Tudo está bem. Os Tratados são encantadores, a política económica é o que tem que ser, as instituições são respeitáveis, os políticos certos, a “Europa” vai bem.

E se lhe contestam os pergaminhos, então temos o caldo entornado e o Vital amanda-se como uma fera aos pecaminosos, muito mais se for este vosso servidor (desconsiderado pelo professor de Coimbra ao ponto de perguntar com aquela elegância prussiana “como é que há quem leve a sério políticos destes?!”). Foi o que tornou a fazer a propósito de um artigo online que comenta algumas páginas de um livro em que colaboro, “Segurança Social – Como salvar a democracia”.

Vital não leu o livro. E porque é que precisaria de o ler para o criticar? Bastam-lhe duas linhas de um jornalista sobre o coiso, ele já sabe do que a casa gasta.

Não gostando do governo actual, em que zurziu quanto podia, pois é apoiado por esquerdistas desalinhados com Berlim, Vital Moreira tem ainda razões de sobra para este ajuste de contas com as tais linhas que leu num jornal. Socorre-se para isso da doutrina.

O meu capítulo no livro argumenta, e as tais linhas resumem e repetem, que o ordoliberalismo alemão é a base doutrinária dos tratados da União Europeia. Vital concorda com isso. Mas onde eu critico o ordoliberalismo, ele deslumbra-se com ele: é o “liberalismo ordenado”, em que se presume que Vital se insere hoje em dia, ele que já foi comunista, depois socialista, depois atlantista, para agora chegar a esse cume do “ordoliberalismo ordenado”. Onde eu vejo a conjugação do neoliberalismo, ou seja do predomínio do mercado na gestão da coisa pública, com o autoritarismo, ou seja a protecção pelo Estado do interesse do mercado, ele vê a “ordenação”, o liberalismo jeitosinho, que augura a livre concorrência e que se sintoniza com a democracia dos todos iguais.

Não seria preciso Durão Barroso lembrar-nos o sucesso da Goldman Sachs, que é doravante o seu próprio sucesso, para registarmos no que deu este liberalismo jeitosinho: uma enorme concentração financeira, a servidão da política à renda, a corrupção das democracias menorizadas pelos interesses, precisamente o que requer o autoritarismo schaubeliano. Mas Vital, tão formoso mas seguro vai ele para a fonte, entende que é assim que estamos bem.

Concedo-lhe que dia a dia se verifica que a “Europa” prossegue o seu caminho e continua fiel ao seu ordoliberalismo e aos seus chefes. Mas nem todos temos o dom de aceitar este destino.

Comentários

  1. Grande homem o présidente Marcelo de Franca para o Brasil e mesmo um verdadeiro turista mais doze politicos como ele e Portugal esta salvo.

  2. Fresquinho de ter acabado o Joseph Stiglitz “rewriting the rules of the american economy” fico com impressão, reforçada pela sua peça, que o eixo político da nossa era se está a realinhar, rodando de ser entre a esquerda e a direita para ser entre a democracia e a ditadura. Afinal ouvimos bilionários como Warren Buffett e Michael Bloomberg a lembrar que quem quer fazer negócio com a economia do conhecimento precisa de uma sociedade educada, saudável, e com a garantias de mobilidade social. Pelo contrário, quer prefer uma economia de renda (rent economy), precisa de viver do tipo de privilégio que não convive bem com a democracia. A fidelidade de Vital Moreira ao ordoliberalismo e aos seus chefes “Europeus” diz-me que ele sempre soube que lado do novo eixo lhe convém a ele: aquele que nega a “políticos destes” a congeminação de alternativas.

  3. Não ligue ao Vital, Prof. Louçã.

    Vital Moreira veio por arrasto do socialismo da 3ª via, de direita disfarçada de esquerda oportunista, que está a destruir a Europa juntamente com os realmente neoliberais-ordoliberais a sério, originais, os antigos conservadores (também eles disfarçados de sociais democratas cristãos).

    Vital vem por arrastamento disso tudo, embrulhado com globalizações violentas para os povos da Europa e EUA. Que dizem os elitistas, como Vital, que “é tão boa, tão boa”, que o mundo vai entrar em recessão e deflação generalizada, que atinge já a Europa juntado á já velha desestruturação industrial.

    Vital é como aquelas latas que colocamos agarradas por fios aos automóveis, quando nos casamos… ali a arrastar…

  4. Então não sabia que no final do mandato europeu, dando sempre provas da mesma vitalidade, ele vai trabalhar no Goldman Sachs?

  5. Vital Moreira não fez grande caminho… de comunista (na prática: “oligarquia e dirigismo”) a ordoliberal (“oligarquia e protecção política do lucro”), pouco muda na essência: há uma clique, uma oligarquia que manda para benefício de poucos, SEM LIBERDADE, obviamente.
    Quando “o mercado” tem como muleta e principal instrumento da sua eficácia a manipulação/controlo dos governos, que por sua vez asseguram os resultados de alguns agentes desse mercado, isso não é “mercado”, nem há aí nada de verdadeiramente liberal.

  6. Ora, ora!, aburguesou-se. Mal começou a experimentar a delicia cosmopolita do ordoliberalismo logo as ideias se lhe revolveram, transformadas agora em algo que lhe permita continuar a gozar calmamente dos prazeres do ordoliberalismo sem grandes desconfortos morais. É assim. Ideias geradas a partir do ventre e da autosatisfação pós-prandial dá sempre nisto. Este já nem com auto-critica lá vai. Nem com um bom aperto do controleiro da célula. Deixaram-no safar-se dos campos verdes do mondego, agora aturem-no.

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