Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

13 de Julho de 2016, 18:16

Por

Os perigos para a Europa são a Itália e a Alemanha

Enquanto a União Europeia se dedica à incendiária questão de saber se vai punir Portugal depois da reclassificação estatística de uma conta de alguns milhões de euros da CGD em 2015, registando assim nesse ano um desvio orçamental português de cerca de 0,003% do PIB europeu, as paredes de algumas das economias mais poderosas ameaçam abrir perigosas frestas. É o caso de Itália e da Alemanha.

Como já aqui escrevi várias vezes, o problema da Europa não é a sua periferia. É a inconsistência da austeridade e o seu efeito destruidor, a começar pelas economias do centro. Mais: o problema não é o Brexit, é o continente. É deste lado que se vão verificar os maiores choques e será dentro da zona euro. A Itália é o epicentro imediato desse perigo, junto com o Deutsche Bank e, em menor medida, com o Santander.

Começo pela banca italiana (Ricardo Cabral já aqui tem apresentado dados esclarecedores sobre este problema). Com as ondas de choque do Brexit, mas sobretudo com a evidência da sua fragilidade estrutural, o valor de mercado dos principais bancos italianos mergulhou nas últimas semanas: os dois maiores, UniCredit e Intesa Sanpaolo, caíram cerca de um terço. O terceiro maior, o Monte dei Paschi di Siena, fundado em 1472 (é o banco mais antigo da Europa), está muito pior e será provavelmente o primeiro a ser resgatado (ou “resolvido”, que é o termo técnico elegante para a falência controlada de um banco, logo substituído por uma nova entidade, depois de atribuídas perdas totais aos accionistas e parciais aos credores), o que poderia acontecer dentro de pouco tempo.

Para o conjunto da banca italiana, os riscos são de monta. Haverá 360 mil milhões de crédito em risco, dos quais só 160 provisionados; logo, se se aplicar a regra de 57,5% de provisões obrigatórias que parece ser a exigência do BCE, serão necessários mais 47 mil milhões (se fossem os 85% que estarão a ser exigidos a bancos portugueses, seriam mais 146 mil milhões, mas “a Itália é a Itália”). Ou serão aumentos de capital, ou dinheiro público. Mas esse dinheiro não existe. Para uma operação desta envergadura, seria preciso ou sacrificar a poupança (200 mil milhões de euros de acções dos bancos italianos estão na mão de aforradores privados) ou sacrificar os contribuintes – ambas as opções seriam desastrosas para o primeiro-ministro Renzi, que convocou um referendo para o outono.

Acresce ainda que é o BCE quem determina este processo. Ao aceitar a “união bancária”, os Estados entregaram ao BCE o controlo dos principais bancos em cada país. Portanto, o risco de descontrolo político é ainda maior, dado que a agenda política do BCE é independente e distinta da agenda política de cada governo. A Itália é um perigo porque a sua banca é um perigo, porque a austeridade é um perigo e porque as autoridades bancárias europeias são o maior dos perigos.

D BankO Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha, é a outra face do mesmo perigo. O FMI tem vindo a apresentá-lo como um risco sistémico mundial e as autoridades norte-americanas chumbaram-nos nos testes de stress. O gráfico ao lado indica a razão (clique para ampliar), relacionando alguns acontecimentos importantes na vida do banco com a sua valorização bolsista. A condenação do banco pelo envolvimento no escândalo da manipulação do Libor é um dos factos relevantes, mas os prejuízos acumulados, o aumento da litigância e sobretudo a alta exposição a produtos especulativos (o DB detém derivados cujo valor nocional é equivalente a mais de três vezes o PIB da maior economia, a dos EUA, ou maior do que o PIB mundial) demonstram à evidência porque é que este banco é um activo tóxico da economia mundial.

O agigantamento destes riscos é mais rápido do que parecerá a quem lê as notícias. Vamos ter um final de 2016 com bastantes surpresas na banca e na política internacional e a maior delas não vai ser a decisão sobre a punição a Portugal pelo desvio orçamental de 2015 no valor de 360 milhões de euros.

Comentários

  1. Olá professor,

    O que acontece a Portugal se algo como a Itália ou a Alemanha se precipitarem para uma crise dessas?
    O que fazemos cada um de nós?

    Um abraco,

  2. 52 biliões! Impressionante! Cabem lá os PIB de uma data de países, alguns bem grandes! Está aqui um bom aviso sobre os riscos de apostar nestes casinos…Tenho a impressão que já é muito mais seguro apostar num jogo social que para aí anda e de que me dispenso de fazer publicidade. Pelo menos é mais divertido e mais democrático: não são necessários intermediários,consultores, corretores, agências de rating e toda uma chusma de “iniciados da finança” que falam em linguagem hermética e parasitam os que agem na economia real.
    É certo que, volta e meia, aparece um ou dois “europolíticos” a clamar pelo fecho do casino, mas nada se faz. Até porque são imensos os que transitam da política para o casino e vice versa. Esta semana foi a vez do Dr. Barroso chegar a chefe dos “croupiers”. Tem lá á espera o Dr. Arnaut que parece que foi para o casino Golman Sachs devido à sua experiência como preidente da confraria do pastel de molho. Já o Dr. Moedas parece ter feito um intervalo. Esta vida de casino é muito stressante…

  3. Bom dia professor,

    Quando se refere ao valor nocional de derivados do DB, que no gráfico se afirma serem 52 “triliões”, estes triliões equivalem aos ‘nossos’ biliões, certo?

    1. Certo. Neste gráfico usa-se a notação inglesa e norte-americana, um trilião nesse caso seriam 1.000.000.000.000 euros.

    2. Certissimo. Mas são valores nocionais, não são valores de mercado (estes são mais baixos).

    3. pois. Aliás, capital nocional é, segundo pude apurar, uma espécie de “jackpot” dos produtos complexos.

  4. “Co-CEO John Cryan tells his employees that the company is 2″rock solid” “.

    Engraçado.
    Trabalhei numa multinacional chamada “Qimonda” e, também por lá, recebemos um mail semelhante,. Isto meses antes do desmoronamento, e proveniente de um CEO ou CFO (já não me recordo) da empresa mãe.

    Depois há toda uma história que bem poderia ter sido investigada, mas que nestes casos nunca o é.

    1. “Rock solid” (bom nome para uma banda de “Metal”!). Alguns dos 9000 despedidos ainda receberam essa mensagem. Ficaram muito comovidos, é claro!

  5. Um agradecimento pelo seu artigo que tenho a certeza é partilhado por muitos. Acho que a maior parte de nós foi surpreendido por estas notícias. Onde eu vivo foi o Deutsche Bank ter falhado o stress test (NY). Depois foi ver a capa do The Economist com um autocarro chamado Itália à beira do precepício. Se calhar a solução para Portugal e outros na periferia é apenas aguentar o tempo suficiente para o centro cair de podre. Faz ideia da escala de tempo associate a esses acontecimentos futuros?

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo