Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Junho de 2016, 06:33

Por

A União Europeia é um projecto falhado

Enganei-me na previsão sobre o resultado do referendo, pois admiti que a morte de Jo Cox tinha invertido as emoções que concluiriam uma campanha povoada de demagogia contra os imigrantes (dos dois lados, dos chefes do Brexit sugerindo a xenofobia e dos chefes do Remain negociando com Bruxelas a restrição dos direitos dos cidadãos europeus imigrados no Reino Unido).

Agora, contados os votos, só se pode concluir que, no argumento e na preparação para o futuro, o Reino Unido não sabe para onde vai – mas rejeita continuar numa União que não vai para lado nenhum. Falhou a aventura de Cameron, que foi apoiada a contragosto pelas autoridades europeias, mas a Escócia pode a partir de hoje escolher ser independente e a Irlanda pode escolher unificar-se, pelo menos duas consequências merecidas. Na Europa, tudo mau: falharam os subterfúgios, falhou a interpretação dos tratados a la carte, falhou o medo dos grandes mas cresce o medo dos pequenos.

A UE não tinha mais nada para oferecer se não esse medo, foi a esse ponto que caiu. E os seus líderes sempre pensaram que bastaria. Não perceberam – será desta? – que perderam todos os referendos importantes até agora: sobre a Constituição Europeia, sobre tratados, agora sobre a própria pertença e logo na segunda maior economia da União. Quando aceitam consultar os povos, momento raro, et pour cause, arriscam-se a perder e isso diz tudo sobre o que tem vindo a ser a “construção europeia”.

O choque chegou hoje. Agora, liquidez para os mercados financeiros, negociação relâmpago com o Reino Unido sobre as condições de saída, quais regras de tratados (que implicariam um processo até dois anos, com votos do parlamento europeu e acordo dos outros governos) e o discurso de sempre para quem está: aguenta, aguenta.

Terão os líderes europeus a tentação de correr em frente, nomear um ministro das finanças, esquartejar os orçamentos nacionais, fazer do euro o santo e a senha da concentração de poderes, normalizar as políticas neoliberais no mercado de trabalho e na segurança social? Hollande, um político da craveira de Cameron, acha que Paris vale bem a missa de uma proibição do direito de manifestação para impor essa visão sobre o emprego. E, se isto é Hollande, então Merkel decidirá o que quer pois quem manda, manda. E assim vai a liderança europeia na sua diversidade uniforme.

Lembra-se de quando os socialistas defendiam o pleno emprego? Esqueça. Os socialistas franceses agora defendem o fim dos contratos de emprego, à FMI. Um socialista holandês dirige a fronda das sanções contra Portugal e Espanha, à Schauble. Um socialista alemão é o ajudante de Merkel, à Gabriel. E isso esclarece o que podemos vir a ter pela frente: depois da desorientação, a corrida para garantir mais poder aqueles cujo poder está a destruir a Europa.

Para Portugal, mais um susto nas exportações, mas muito mais um susto político. Se e quando vierem as sanções, se a tanto atrevimento chegar a violência das instituições europeias agora imbuídas de um novo espírito de missão desesperada, só poderemos então concluir que a absoluta discricionariedade tomou conta da política europeia, que a falta de soberania se paga com a vulnerabilidade da democracia.

O sonho acabou. A União Europeia é um projecto falhado.

Comentários

  1. Diria antes que é um projecto corrompido, falhado não, porque foi desvirtuado. Entretanto continuará a verter a sua corrosiva austeridade sobre os que se empenham em venerar a bajulice e a subserviência.

  2. Quem confunde o que é a União Europeia com a politica economica desta e da últimas comissões europeias, tem claramente uma visão triste, retrogada da vida humana em sociedade, provavelmente limitada pelas paredes de uma qualquer biblioteca onde nao se respira ar puro. Este texto nao anda muito longe disso.

    So quem trabalha por essa Europa fora, absorvendo a riqueza cultural e humana que a Uniao Europeia permitiu, que entende a verdadeira proeza da Uniao de povos tao distintos separados fisicamente por tao pouco.

    A geracao que cresceu com a liberdade de movimentos dada pela Uniao Europeia nao vai permitir que politicos do sec. XIX, com visoes puramente teoricas, construam ainda mais barreiras a vida humana…Os economicistas falham sempre no elemento essencial ao preogress…a compreesao das pessoas!

    1. Deve andar seguramente por uma Europa diferente da que eu percorro há 40 anos, já que assisto, atónito, ao definhamento dos mais elementares elos da sociedade com a cultura europeia. São os ícones do estereotipo que estão por todo o lado, o consumo sagrado que vence a imaginação e as pessoas amedrontadas com o dia a dia. Faria bem em sair dos bairros chic e rondar um pouco pela vida real.

    2. Noto pelo menos 5 esterotipos na sua resposta! Apenas mais um que sabe mais do que outros o que e vida real. A geracao dos meus avos fala muito nisso. Conceitos antiquados. Em todo o caso nao ha nada de inteligente na sua resposta ou que me faca pensar

  3. Última hora: A Raínha Isabel II acaba de reagir ao resultado do referendo: “Vamos ter um primeiro-ministro despenteado? Que horror!”

  4. Estive a ouvir a declaração do Sr. Hollande. Parece que “no pasa nada”. É preciso pensar, pensar, pensar., etc… Até houve um aspeto positivo no “Brexit”: a próxima presidência francesa do Conselho vai ser seis meses mais cedo. Nessa altura talvez seja possível pensar, pensar e pensar e tal…

  5. Ninguém pára os “mercadeiros” e os respetivos “propagandeiros”. Vejam a explicação para o falhanço da generalidade das sondagens e projeções: 1 milhão de eleitores mudaram de opinião no caminho para as urnas! Ficamos a saber que as empresas de sondagens de lá são omniscientes. Ou então, o que será muito mais realista, põem telepatas a seguir os eleitores. A propósito: está por aí o que seguiu a raínha?

  6. Nova notícia! Apoiantes do brexit cantam nas ruas versão inglesa do hino de Adelaide Ferreira. Alemanha prometeu sansões na UEFA dado que não as pode aplicar na UE e quer a Inglaterra fora do euro também.

    A noite acabou
    O jogo acabou
    Para mim aqui
    Quando acordar
    Já te esqueci
    O filme acabou
    O drama acabou, acabou-se a dor
    Tu sempre foste um mau actor
    Fizeste de herói no papel principal
    Mas representaste e mentiste-me tão mal.

    Quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    afinal hoje o papel principal é
    Meu e só meu
    E quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    Afinal hoje o papel principal é meu.

    A noite acabou
    O jogo acabou para mim aqui
    Quando acordar já te esqueci
    O filme acabou
    O drama acabou, acabou-se a dor
    Tu sempre foste um mau actor
    Fizeste de herói no papel principal
    Mas representaste e mentiste-me tão mal.

    Quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    Afinal hoje o papel principal é meu
    E só meu
    E quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    Afinal hoje o papel principal é meu

    Quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    Afinal hoje o papel principal é meu e só meu
    E quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
    Afinal hoje o papel principal é meu
    Ohhhhhh

  7. Será que me engano quando penso que não foi contra o que é mau da Europa que a uk votou mas foi contra o que tem de menos mau? A motivação para o voto foi a xenofobia. Não matamos também nós a cabeça na areia.

  8. Não defendo o não porque não ou o sim porque sim. As pessoas merecem mais respeito. A historia diz-nos que a Europa unida é mais solidária, mais democrática, mais livre de guerra e próspera. Não pretendo dar lições a ninguém mas todos sabemos o que era a Europa em 1912. Há muitas reformas a fazer, muitos planos a discutir e muito para debater mas muito pouco para romper, destruir e desagregar. A UE pode ser um projecto falhado (que frase bonita para um blogger!!) mas tem muito mais de positivo do que negativo. Há mais a construir que destruir e separar.
    Não vou por aí.

  9. Foi mais uma vez a Grã-Bretanha que pôs fim ao sonho hegemónico de Napoleão, desta feita sob a batuta da Alemanha. Era uma inevitabilidade, Caro F. Louçã, ainda que sinta certa tristeza. A manter-se o UK na EU, seria o mesmo que artificialmente manter vivo um moribundo em agonia. O sistema não tinha já capacidade de se auto-regenerar, a ruptura era inevitável. Alas!

  10. Última hora! O “Brexit” já começa a provocar mudanças! A orquestra do “Titanic” continua a tocar com a mesma desafinação, mas as letras mudaram: “(I can get) Satisfaction” (Jagger), “I don’t Like Fridays” (Geldof), “Let it leave” (McCartney)…

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