Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Junho de 2016, 12:44

Por

O mercado tem as costas muito largas

A acumulação de nuvens de dúvidas sobre a recapitalização da CGD é uma péssima notícia. É imerecida e é um erro estratégico.

Tudo começou bem, com um braço de ferro entre o governo, apoiado pelo Presidente e sob o silêncio acabrunhado dos partidos de direita, e a Comissão Europeia, que queria forçar uma primeira fase de privatização da Caixa, ao passo que o governo reclamava o direito do acionista para recapitalizar a sua empresa. Ganhou o governo e a Comissão cedeu, embora não desista do seu intento, lá voltará quando puder.

Continuou bem, quando o governo indicou um banqueiro vindo do BPI para presidir à CGD, escolha que não suscitou nenhuma oposição e conseguiu alguma aquiescência simpática.

Mas depois começaram os problemas. Primeiro problema, mistério ainda por esclarecer, a nova administração quer cerca de quatro mil milhões de euros de recapitalização. A verba é impressionante, não parece ter justificação suficiente nas contas do banco, pois nem o crédito mal parado, aparentemente provisionado, nem os resultados negativos recentes parecem justificar tal tamanho de nova dívida a contrair pelo Estado para esta função. Esse é assunto muito sério e que deve ser esclarecido depressa: espero que os ministros das finanças dos últimos tempos e as administrações possam e saibam explicar este buraco. Lembrem-se da sua vulnerabilidade (a escolha das administrações anteriores parece demasiado um arranjo partidário para não merecer reparos) e de que têm que apresentar contas rigorosas – e o parlamento deve inquiri-los sobre isso sem perder tempo, logo que os números do plano de recapitalização forem conhecidos.

Segundo problema, os 19 membros da nova administração e a regra salarial votada de urgência em conselho de ministros. Dos 19 deu o ministro uma explicação: são menos do que os do BPI e do BCP. Argumento factual. Mas é suficiente? Não, porque serem menos do que os de outros bancos não é justificação por si para tanta gente. Convinha que a explicação fosse sobre as suas competências, experiência e contributo para gerir a CGD.

Quanto aos salários, vejamos o argumento do governo e o seu merecimento. Um argumento é razoável: a actual limitação do salário do presidente da CGD, ou de outros administradores, ao ordenado do primeiro-ministro é uma farsa, porque também podiam escolher receber a média dos seus três últimos anos e portanto ultrapassar aquele tecto. Certo. Mas ainda assim fica a pergunta: e porque é que os cavalheiros haviam de exigir um ordenado acima do do primeiro-ministro?

No entanto, a solução é pior do que o problema original. A resposta do governo é que acaba o tecto e fica o que os banqueiros quiserem. Mas, a agravar o agravo, o ministro ainda nos explica, condescendente, que esta é uma “condição de mercado”, insinuando mesmo, sem o dizer explicitamente, que seria uma regra europeia e exigível para a recapitalização, pois assim a CGD passaria a ser vista como um banco como os outros.

Um ex-presidente do PSD acrescenta ainda outro argumento notável: se os banqueiros não forem bem pagos, os homens aborrecem-se, portam-se mal e depois temos que financiar os prejuízos, portanto o “barato sai caro”, maravilhosa expressão (esqueceu-se de que o homem que foi o banqueiro mais bem pago da Europa, Jardim Gonçalves, levou as acções do seu banco a valerem menos 95% do que quando da última emissão, ou que o premiadíssimo e bem pagadissimo Zeinal Bava levou a PT ao fundo).

Deixemos o PSD então e voltemos às “condições de mercado” do governo actual. O ministro esqueceu-se de um pormenor que poderia partilhar connosco, a explicação de porque é que o acionista (representado por ele próprio) não quer fixar o ordenado do seu administrador, e porque é que o “mercado” só consegue suspirar se os administradores fixarem o seu próprio salário e prémios. Ora, isto não parece nada uma regra de mercado, pois não? Mas ainda ajudo o ministro, com sua permissão: se o presidente da CGD, isto é, o “mercado”, fixa para si próprio quarenta mil euros por mês, suponhamos, ou dez mil por semana, isso quer dizer que se paga generosamente quase 4 meses de salário mínimo mensal … por dia. O “mercado”, que tem as costas tão largas, precisa mesmo deste reconhecimento da sua omnisciência para respirar? O governo acha que nós devemos achar que sim, caros leitores e leitoras.

Ou seja, depois de ter ganho uma grande batalha política europeia, o governo parece entender – ou não entende? – que pode desperdiçar o consenso e abrir campo à direita, que, gulosa dos vícios do mercado, vai lembrar ao país que, ela por ela, este banco se parece querer esforçar por funcionar tão mal como os maus bancos privados.

O garboso ordenado do presidente da CGD é o Cavalo de Tróia de todos os argumentos que nunca vão desistir de degradar a função da CGD e da suaprivatização. O ministro escusa por isso de pensar que o país não percebe que, também neste caso, as vantagens de uns são as desvantagens de todos.

Comentários

  1. Se o sr. ministro procurar bem, talvez encontre pessoas competentes e honestas capazes de liderar o banco e que, brada aos céus os mercados, aceitam salários inferiores ao 1º ministro. Cujo objetivo na vida não é acumular dinheiro mas servir o país. Sim, acho que ainda existem dessas pessoas…

  2. O mercado tem as costas tão largas que até lá cabem professores de comunismos como este que sabe-se lá porquê um jornal respeitável convidou para “bojardar” os seus leitores, felizmente que não com o meu dinheiro.

    1. Em ditadura é que era, não era matafrades? Viva Salazar, esse professor de fascismos, amado por todos os matafrades deste país!

      Só não percebi se tens alguma coisa a acrescentar/objectar ao artigo. ou se és só alguém que, usufruindo da liberdade que adquirida por todos nós, e em grande medida, à custa da luta de tds os comunistas e anti fascistas deste País, vens cá debitar a tua posta! Se assim é, viva a liberdade!!!

      Escusavas de levar com esta “bojarda”…

    2. E os “Professores” do PSD e do CDS são seres etéreos e impolutos, que nada lucraram com as “misérias” deste mundo? E os caloteiros que (nomes já conhecidos) se banquetearam com empréstimos de milhões concedidos “por eles a eles próprios”
      , que nem sequer amortizaram quanto mais pagar? Há já uma certeza que todos aceitam: Entre os “caloteiros” ainda não há nenhum comunista ou bloquista… Dos outros, não poderá dizer-se o mesmo…!!!

  3. O sistema financeiro nacional e os respectivos bancos foram sujeitos às mais ordinárias políticas imagináveis. A banca privada faliu em geral e está a falir o que falta. A CGD foi o amparo dos partidos políticos do ex-arco da governação e toda essa gente fez dela as mais caras barbaridades para contribuinte pagar.

    Este banco é público, mas Passos Coelho não quer a CGD senão privatizada e dirigida por um dos seus. Esse é também o plano de alguns poderes fáticos da chamada “UE”.

    O atual governo social-democrata do PS negoceia com as chamadas instituições da chamada “UE” a capitalização da CGD e diz-nos que é para a manter na esfera pública. Os tipos não eleitos com quem isso é negociado na chamada “UE” confiam que tendo na CGD a sua gente e o dinheiro dos contribuintes estão bem a tempo e em posição de a tomarem por dentro e até privatizar de facto e quiçá de direito como querem.

    As contradições não existiam se não se justapusessem dois projetos contrários nas tais negociações. Ambos com toda a esperança. A decisão está na luta dos interessados. Os que ficarem quietos a ver o que acontece terão o mesmo destino da nêspera. Veio a velha e zás comeu-a.

  4. isto sim e patriotismo se me pagam muito faço mer…..da se me pagam pouco faço ainda mais
    não e uma questão de muito ou pouco e de competências quem sabe fazer bem não vai fazer mal
    quando se vai para um cargo se ele qual for já sabemos qual vai ser o salário se não nos agrada não aceitamos.
    todos sabemos porque aceitam mesmo quando o salário não agrada porque uma vez la dentro funciona a mentalidade portuga
    essa mentalidade que nos tem levado ao atraso não faço bem nem deixo fazer bem
    os palhaços pagam

  5. Na realidade a banca existe para sacar o que puder. Agora são os Estados e os contribuintes quem se presta ao esquema. Bem montada, com leis à medida urdidas na melhor politicagem, com um clube de apaniguados beneficiários, o poço sem fundo das instituições financeiras estão à vontade: não podem falir e há quem tenha de pôr a mão por baixo em qualquer caso, sobretudo nos apertos. É só mais um esquema da virtuosa acção empreendedora dos gangs. Debate-se, vocifera-se, aprovam-se comissões de inquérito, esgrimem-se argumentos e contra-argumentos democraticamente, mas não se passa disto. E já lá vão acumulados cerca de 20,000 Milhões de ‘imparidades’…!

  6. Upss… esqueço-me sempre de coisas, desta vez em relação ás remunerações. E ás escolhas a dedo por políticos (devia ser por concurso internacional, como lá fora)

    Se o Banco do Vaticano, que é abençoado, paga bem a administradores profissionais, a CGD também deve pagar bem, embora um pouco abaixo do (inquinado) mercado, quer pela segurança de ser público, quer pelo apoio, se correr bem, de uma Nação (efeito Cristiano Ronaldo).

  7. Sabemos que o sistema está inquinado, mas devemos aproveitar esta nova atitude dos partidos políticos, uma espécie de Mossad perseguidora de banqueiros corruptos. Mais vale tarde do que nunca.
    Investir seriamente na recuperação dos activos, é outra história, uma vez que o sistema dá para alimentar também fundos abutres, como o fundo para onde foi trabalhar Maria Luís do PSD.

    Está inquinado. As regras da UE não podem ser iguais para todos, principalmente em países com bancos com tamanho cadastro criminal, como Portugal e outros países. Nós nem temos meios para vigiar tanto desvio. Hoje são estes, amanhã serão outros.

    O melhor sistema para o nosso país seria a separação da banca comercial da banca de investimento, sendo a banca comercial unicamente pública.
    Senão, não há Mossad que nos valha.

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