Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

13 de Junho de 2016, 19:55

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O novo modelo de “governança” da CGD

O Governo prepara-se para recapitalizar a Caixa Geral de Depósitos em, diz-se, 4 mil milhões de euros, alterar o seu modelo de governação, aumentar o número de administradores executivos e não executivos de 14 para 19 e aumentar os seus salários. Tudo, aparentemente, exigências do futuro presidente executivo da CGD, António Domingues, que era até aqui vice-presidente do BPI.

Compreende-se que se pretendesse escolher alguém com experiência na gestão de bancos. O actual presidente da CGD, José de Matos, provinha do Banco de Portugal.

No caso do Novo Banco, a escolha do Governador do Banco de Portugal recaiu sobre Stock da Cunha, um quadro intermédio do Lloyds Bank em Inglaterra. Os problemas continuados no Novo Banco, as quedas de receitas do mesmo, provavelmente desaconselharam solução semelhante.

Por conseguinte, a escolha recaiu sobre António Domingues que traz consigo uma equipa do BPI.

O BPI conseguiu passar para governantes e opinião pública a ideia que é um banco de referência em boas práticas e muito bem gerido. E se é um facto que à parte: a polémica com Angola e Espanha; a tentativa de fusão com o Millennium BCP; as perdas com investimento em dívida da Grécia; a recapitalização pública de 2012; e a alteração de estatutos, entre outras razões, para permitir a Fernando Ulrich continuar a ser presidente executivo do banco, o BPI aparenta não ter tido crises tão graves como outros bancos nacionais. Contudo, também é um facto que os principais resultados conseguidos pelo BPI nos últimos anos foram: perdas para os accionistas portugueses e estrangeiros; e, recentemente, a aquisição do banco português pelo grupo espanhol La Caixa.

Mas a nomeação do novo Conselho de Administração da CGD é problemática porquanto:

1. Reconhece-se que é necessário ter uma equipa coesa e sem conflitos internos. Contudo, aflige, uma vez mais, à semelhança do que ocorreu na TAP em 2000 com a nomeação de um grupo de gestores brasileiros, no Novo Banco e na EDP (quando ainda era pública), para referir alguns casos, que a direcção executiva da CGD seja entregue a um grupo de pessoas que se conhecem muito bem (amigos?), escolhidos pessoalmente pelo CEO e, refere a imprensa, todos provenientes do BPI. Ora tal não garante suficiente independência na direcção executiva da CGD, nem cria as condições para que possa existir alguém na direcção executiva que note ou se oponha a medidas mais controversas ou arriscadas.

2. Por outro lado, António Domingues sinaliza, com o novo modelo de governo, que quer “mandar” sozinho, e não quer um “chairman” (presidente do Conselho de Administração) a “olhar-lhe por cima do ombro”. A decisão de extinguir o cargo de Chairman e de fundir a Comissão Executiva com o Conselho de Administração não abona a favor do mandato de António Domingues e suscita dúvidas sobre a governança da CGD no futuro.

3. A função do Conselho de Administração que agora se funde com a Comissão Executiva, era fiscalizar a Comissão Executiva da CGD. A função de fiscalização passa, no novo modelo de governança da CGD, a ser assumida pelos membros não executivos do Conselho de Administração. Estes deveriam ser suficientemente distantes de António Domingues e com experiência no sector bancário de forma a exercer a sua função de fiscalização. Será que assim é?

4. Por último, o aumento de salários exigido no contexto em que a CGD, mais uma vez, precisa de ser recapitalizada pelo Estado (seu accionista único), embora fundamentado com a necessidade de harmonizar remunerações, afigura-se dificilmente defensável. Os salários destes gestores há muito deixaram de ser “função dos resultados”. E, sobretudo, quando ao mesmo tempo se fala já num corte de 2000 postos de trabalho.

 

Reconhece-se que a definição do modelo de governação da CGD, bem como de outras instituições públicas, não é tarefa fácil para o Governo e a escolha das pessoas certas para esses cargos também não.

Porém, os sinais que acompanham este novo Conselho de Administração da CGD não são promissores…

Comentários

  1. mais uma crónica sonsa na comunicação social sobre o novo modelo de administração da CGD. Há uma omertá de regime sobre o que interessa saber: quais os créditos concedidos que deram origem ao buraco? quem foram os responsáveis pelas decisões? quem foram os beneficiários? Perante um mega roubo, apresentam-nos um novo modelo de gestão como se a causa fosse mera incompetência.
    VAra, o tipo dos quadros esquisitos, BCP, VAle do lobo, e outras tantas operações, não vos inspira uma cronicazinha?
    A CGD, tal como a PT, foram usadas por políticos para negociatas políticas.
    O consenso de regime a que o pateta tanto apela irá revelar-se em todo o seu esplendor no caso CGD.
    Chamem a polícia!

  2. Bem vindo ao pacto maioritário da república portuguesa. O racional da vida democrática pode demorar a ser compreendido mas a sua lógica é única e inadiável. Bem vindo à abstenção.

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