Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

1 de Abril de 2016, 11:00

Por

O homem do leme perdeu o leme mas tem um pin, ou social-democracia sempre

Essa coisa da social-democracia é uma fábula, a que sobra pose mas falta conteúdo. Ninguém leva a sério tal artefacto, que é nada social e escassamente democrático, que tem objectivos turvos se é que alguns e que se manifesta inopinadamente a propósito de tudo sem ser nada. A social-democracia simplesmente morreu e suponho que até se deu conta do seu infeliz passamento.

Naquilo em que ainda se chama de “Internacional Socialista”, mora uma social-democracia vagamente pastoreada com um presidente, Papandreu, com quem ninguém quer ser visto, muito menos fotografado: ele nem conseguiu um único deputado eleito na Grécia (é mais ou menos como em Portugal responder por um partido que tenha menos votos que o MRPP). Por essas paragens lá anda um Hollande, que procurou desbarretar-se perante Le Pen com uma lei de nacionalidade e que assim levou o seu partido à vergonha e da vergonha à derrota. E outros, como Gabriel, o braço-direito de Merkel. Mas parece que andam todos tão consternados com a sua vida que nem se querem ver uns aos outros.

Naquilo que é o Partido Popular Europeu, a direita dura onde o PSD se acoita, falar de social-democracia deve dar direito a expulsão da sala, porque isso não tem privatizações, tão queridas que elas são, nem flexibilização dos mercados de trabalho. O nome ainda pode ficar, porque em todo o caso a coisa não precisa de ser levada a sério.

Respeito portanto Passos Coelho, porque se quer reinventar com uma trabalheira que não leva a nada nem quer dizer coisa alguma: “social democracia sempre” (ou será ”social democracia, sempre”, a pequena diferença tem uma hermenêutica pesada?), o mote do seu congresso que hoje começa, é o retrato do vazio. Querer fazer tudo com o vazio é um acto de coragem que só posso saudar.

Mas, como se percebe facilmente o engodo, o desespero leva alguns dos seus apoiantes de hoje (ou adversários, alguém nota diferença?), como Paulo Rangel, a procurarem um pouco mais de salero, pois desconfiam que a tal da social-democracia é só conversa de café que pouca gente estima e menos fica comovida. Rangel tem então uma linha alternativa a sugerir: o que é preciso é porrada, o Marcelo traiu-nos, temos que levar tudo pela frente. Com o chefe ao lado a gritar “social democracia sempre”, isto se não existisse tinha que ser inventado. Costa só pode agradecer aos céus esta benesse. A incontinência do azedume já bastaria para condenar Passos Coelho (e o ainda mais radical Rangel), agora o resumo da alternativa ao que saudades da austeridade que é disso que precisamos deve iluminar a vida do primeiro ministro com um sorriso permanente. Esta oposição do PSD é o seguro de vida de António Costa.

Prestações sociais (2011-2015)Acontece que a austeridade tem efeito na vida das pessoas. O gráfico ao lado (de Nuno Serra, no blog “Ladrões de Bicicletas”, regista o efeito das medidas de Passos Coelho e Portas sobre as crianças, durante o governo das direitas, clique para ampliar). Nota-se, não se nota? Ó tempo volta pra trás bem pode ser o mote do discurso do reeleito presidente do PSD, mas e se a malta se lembra de quem ele é e do que fez no governo passado?

Passos Coelho quer fazer-se forte com uma coisa política que não existe politicamente e com uma coisa ideológica que não tem ideias. No resumo de tudo, tudo é o regresso ao passado e disso é que o povo não quer mesmo ouvir falar. O melhor mesmo para Passos Coelho é continuar a usar o pin na lapela.

Comentários

  1. A ironia, Prof., não é para quem quer, mas para quem a sabe usar. E implica, desde logo, que sejamos gentis com quem merece. Subscrevo integralmente o que diz sobre Hollande e espero que este tenha a hombridade de perceber que se o PSF almeja tão só uma derrota honrosa em 2017, ele nem se deve apresentar a votos nas primárias. O Prof. poderia ter igualmente lembrado que o MPLA é membro da IS, ou que o Partido de Mubarak também o era. Mas não, lembrou-se de pegar com o pobre do Papandreou. Recordo-lhe que este teve a coragem de propor, instigado por Merkel, é certo, um referendo em que os Gregos teriam podido escolher entre aceitar austeridade ou sair do Euro. Assim, preto no branco. Só desistiu do seu plano quando Vanizelos lhe retirou o tapete. Recordo-lhe ainda que Tsipras, de quem disse um dia que era o seu PM, propôs primeiro uma sagalhada eleitoral aos gregos, para depois capitular totalmente (e bem, na minha opinião, dado que não tinha um plano alternativo) às exigências da UE. Irá o Syriza aderir proximamente à IS? E será que a pouca expressão eleitoral do Partido de Papandreou é relevante para a discussão? Quando, nos idos de 90, os primeiros fundos comunitários permitiram as marés cavaquistas e o PSR lutava pela eleição de um deputado em D. Maria, será que o Prof. Louçã de então se permitiria fazer consigo próprio uma graçola semelhante à de cima?

  2. Esta crónica revela um espírito muito democrático. Revela, sobretudo, qual o destino que terão as oposições se FL e Cia chegarem ao poder. E o destino de jornais que lhe facultam, muito democraticamente, um campo de batalha para a destruição das ditas (da oposição e da democracia). É um filme já visto milhentas vezes.
    Saúde.

  3. Passos Coelho é evidentemente um oportunista migrante como os seus companheiros Relvas e C.ª do assalto ao poder do PSD e depois do Estado português.
    O que lhe está colado à pele para sempre é o desempenho empenhado no empobrecimento dos portugueses como súbito da Troika e da submissão incondicional a Schäuble.

    O PSD está decapitado e sangra eleitores enquanto no lugar da cabeça tiver Passos Coelho.

    Passos Coelho é a bandeira da austeridade que esmifra Portugal a favor de um “estado paralelo, privado e privativo” que não investe, não cria riqueza tornando o país incapaz de pagar os juros da dívida que contraiu e o subjuga.

    Isolado dos portugueses, dos eleitores que traiu, dos ex-dirigentes do PSD, espera que tudo corra mal a Portugal para se apresentar como o D. Sebastião da lenda.

  4. Magnifica crónica! O Jacques Delors frisa numa pré-publicação de partes de um livro de entrevistas no Nouvel.Obs, que está muito pessimista sobre o futuro da Europa por causa da mediocridade dos seus dirigentes…Rangel-Passos e Cia contribuem assustadoramente para a crise sistemica que nos manieta e avilta.

    1. Extatordinario descaramento. Quanto ganha este brillhante cronista, para eacrever algo que depois de lido nada se retem, num jornal privado, do homem mais rico de portugal, que encarna o pior pesadelo dos lousãs da vida. Haja decoro. Gostam tanto de dinheiro como eu, com uma diferenaça; eu não o ganho a dizer mal de de quem o cria e muito menos de quem mo paga. Já agira, gostav de saber a que horas foi escrito esta crónica. Apenas por uma questão de flexibilidade laboral.

  5. Que o PSD não é um partido social-democrata concordamos. Que a social-democracia não existe já discordamos. Relembro ao professor a história das internacionais. Como bem sabe é uma ideologia de esquerda e reformista. Certos ou errados acreditando na revolução ou não estão no seu direito. Se quer saber na minha opinião insignificante o partido actual português mais social-democrata é o BE. É um partido de esquerda, democrático (mais ou menos democrático… Tem fazes internas muito pouco democráticas) e reformista por isso enquadra-se no parlamento e o que faz lá são reformas. É social-democracia.

  6. Incrivel:o congresso do psd começa no dia das mentiras,e com a ajuda de paulo rangel pode-se perfeitamente transformar no festival de rock pesado por excelencia,assim a modos que…agressivo.Algodão nos ouvidos e tenham um bom fim de semana,com trash metal ,musica trance,enfim qualquer coisa bem potente.

  7. Aqui, como no Brasil, a direita tem de resgatar o Estado, depois dos gastos desmesurados da esquerda, e consequente dívida publica.
    Assim foi em Portugal em 2012, assim irá ser provavelmente no Brasil. Basta os Brasileiros olharem para a Venezuela para não quererem que seja o PT a resolver a crise que, dizem é do petroleo.
    Na realidade, quando o estado absorve demasiados recursos de uma sociedade, esta fica mais pobre, já que os recursos são limitados, e terá de diminuir o investimento privado, mais eficiente, e consequente.
    Assim será em Portugal.
    A maior duvida em Portugal hoje, é saber como vai cair este governo. Todos querem que caia antes da crise, mas ninguem o quer deitar abaixo. Será a Europa a fazer o favor a Costa?
    Ninguem é contra os seguros sociais, mas no límite, serão mais os que recebem do que os que pagam.

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