Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

15 de Março de 2016, 10:30

Por

As inovações do BCE

Na análise que fiz da proposta do BCE de retirar a nota de 500 euros de circulação, não identifiquei, de modo explícito, uma motivação que me parece importante: impedir que os bancos comerciais armazenem nos seus cofres grandes quantidades de notas de 500 euros e que passem a regularizar saldos negativos com outros bancos através de pagamentos em espécie e não através de transferências entre as contas dos respectivos bancos junto do BCE.

Esta é uma questão não displicente.

Como referido no meu último post, uma das componentes mais importantes das receitas da banca resulta da margem de intermediação financeira. Referi igualmente que essa margem de intermediação financeira medida pela “Net Interest Margin” (ou NIM) – a diferença entre a taxa de juro média a que os bancos emprestam dinheiro e a taxa de juro média que pagam pelos seus passivos – estava em níveis historicamente baixos.

Margem de intermediação financeira dos bancos da zona euro supervisionados pelo mecanismo único de supervisão e de bancos sistémicos (G-SIBS)

NIM Eurozone

Fonte: Bertray e Huizinga (2015)

O gráfico acima sugere que essa margem de intermediação financeira estaria, em 2012 e 2013, entre 1,4% e 1,5% no caso dos maiores bancos da zona euro sujeitos à supervisão do BCE. O gráfico do Deutsche Bank Research que apresentei no meu último post sugeria que a margem de intermediação financeira estaria ligeiramente acima de 1%. Desde então, deve ter caído para níveis inferiores.

O BCE, na sua reunião de 10 de Março, baixou a taxa a que os bancos depositam o seu dinheiro junto do Eurosistema de -0,3% para -0,4%, tendo baixado a taxa a que os bancos podem pedir emprestado para 0%. Ou seja, um banco pode pedir dinheiro emprestado ao Eurosistema sem nada pagar por esse privilégio. Mas um banco que detenha excesso de poupanças paga 0,4% ao ano ao Eurosistema. O objectivo parece ser combater a crise, forçando os bancos a emprestar o dinheiro à economia real, contra a vontade dos próprios bancos, aparentemente.

Ora se a margem de intermediação financeira média dos bancos europeus estiver entre 1% e 1,5%, então 0,4% representa entre 26,7% e 40% dessa margem de intermediação financeira.

Ou seja, se um banco comercial em vez de depositar o seu dinheiro junto do BCE o converter em moeda (notas de 500€) e o mantiver no cofre, embora suportando custos acrescidos com manuseamento desse dinheiro, pode melhorar a sua margem de intermediação financeira em alguns pontos base[1] e, desse modo, os seus resultados financeiros de forma muito mais significativa. Portanto, com taxas de juro negativas nos depósitos junto do Eurosistema, a banca enfrenta um incentivo para converter depósitos electrónicos junto do BCE em dinheiro e guardá-lo nos próprios cofres. E é mais fácil manter esse dinheiro em espécie se se tratar de notas de 500 euros.

Ou então os bancos podem criar (escolher) o seu próprio banco central privado para evitar estas “chatices” com o BCE.

Em resumo, o BCE está a aventurar-se por áreas de política monetária não convencional, cada vez mais sui generis e mais arriscadas, seguindo as “pegadas” de outros bancos centrais (como os da Suécia e da Suíça). Abordarei esta questão noutro post.

Inovar pode ser, em teoria, bom e um factor de progresso. Contudo, seria preferível que esta política pública do BCE fosse sujeita a um maior escrutínio do que até à data porque estas inovações têm consequências…

 

 

 

 

[1] Se os depósitos de um banco junto do Eurosistema representarem 10% dos activos totais, então com a conversão desses depósitos em dinheiro em espécie a margem de intermediação financeira poderia melhorar um máximo teórico de 4 pontos base (0,04 pontos percentuais), representando entre 2,7% e 4% da respectiva margem de intermediação financeira.

Comentários

  1. É preciso parar com a loucura dos “juros negativos”, só que ninguém tem mão nesses lunáticos que se instalaram no “BCE”. Parece-me que o Ricardo Cabral lhes descobriu a careca, no que respeita à nota de 500 euros. Lembro-me de Camus, que dizia que quando em política o desprezo aparece, o fascismo está à espreita.

  2. Interessante ponto de vista. E uma dúvida, será que a preferência pelo numerário em notas vem aproximar o sistema bancário do padrão-ouro?
    À partida esta parece uma ideia desfocada ou até excêntrica, mas este é o ponto de vista da “escola austríaca” que sempre criticou o monopólio dos bancos centrais. Retornando ao paralelismo com o padrão-ouro, a existência de “lastro” na casa-forte é dispor de uma garantia de “liberdade” para a emissão privada de notas de crédito…
    Agora imaginemos que as notas de euro substituía o ouro na criação de um padrão fixo dentro da mesma zona monetária. Com lastro em euros, nada impediria a emissão de “moedas” privadas complementares e desmultiplicadas ao euro!
    (Ou porventura até a emissão privada de moeda sem lastro na divisa oficial, circulando em circuito fechado e em pagamentos parciais – tal como sucede com o Banco WIR na Suiça)

    Talvez a solução para o marasmo e rigidez em que nos encontramos passe precisamente por encontrar formas não-convencionais e de reinventar o “dinheiro”. Pense nisto!

    1. Hayek defendia a livre concorrência entre moedas, tanto quanto eu saiba. Ela já existe parcialmente, porque podemos recorrer às dos outros países, mas é uma concorrência muito imperfeita. Eu preferiria pensar primeiro em limitar os poderes dos actuais banqueiros centrais, impedi-los mesmo estatutariamente de tomarem medidas “não convencionais” sem autorização de todos os países membros, por exemplo. Parece-me claro que as luminárias que têm assento em Frankfurt vivem num mundo à parte, em que não têm que prestar contas a ninguém. Isso é sempre mau.

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