Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

7 de Março de 2016, 09:37

Por

Mr. Scrooge and Dr. Moedas

Diz Carlos Moedas, agora comissário europeu, que não há consenso para a reestruturação da dívida. “No curto prazo”, tem o cuidado de acrescentar. Em todo o caso, a questão é uma garotice, sublinha o comissário: “Sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele, exactamente porque sei que há outras maneiras de conseguir avançar na Europa e não estar a ir para temas onde não vamos conseguir qualquer tipo de consenso”. Ele não consegue “intelectualmente perder muito tempo com ele”, para que havemos de o incomodar.

Houve um tempo, mas isso foi ainda antes de ser comissarionado, e já vai para meia dúzia de anos, foi quase no século passado, que um certo Carlos Moedas achava que “intelectualmente” o problema merecia consideração. De tal modo que até o entendia como prioritário e ia “falar com os nossos credores” para lhes impor uma perda implacável, porque “só resta o caminho da reestruturação da dívida”. Não resta mesmo mais nada, assim afirmava corajosamente o futuro comissário. A 26 de maio de 2010, receitava ele:

“Se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 teria que apresentar um superavit primário de 6% ao ano durante 5 anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis? Eu tenho muitas dúvidas e por isso só nos resta o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80. Este é um caminho árduo e complicado, a tal parede que tanto se fala, mas que nos permitiria começar de novo”.

O “caminho árduo e complicado” ficou pelo caminho. Deitar abaixo a “parede”, talvez outro dia. É o cheiro do poder, dirão os leitores mais maliciosos. Ainda não era secretário de Estado, ainda não era Comissário, ainda não estava lá em cima, dizia o que pensava, agora é vê-lo, senso e oficialismo, bem sei que é isso que estão a pensar. Tudo errado, é simplesmente o peso da responsabilidade, mas claro que antes eram declarações responsáveis, só que hoje são ainda mais responsáveis. Agora, meia bola e força, “sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele”. Como é que Moedas havia de ouvir Moedas?

Charles Dickens fez destas dúvidas dilacerantes um conto de Natal, em que Mr. Scrooge é perturbado pelo fantasma do seu próprio passado e pelo do seu futuro. Para descanso de todos, espero que o fantasma de Moedas nunca povoe os sonhos do comissário Moedas. Isso seria “intelectualmente uma perda de tempo”. Nem de dia nem de noite ele aceita “estar a ir para temas onde não vamos conseguir qualquer tipo de consenso”. Ele é homem de consenso, mesmo que esse consenso seja difícil consigo próprio, em particular se se lembrar do seu antigo eu.

Comentários

  1. gostarira de ter lido um comentário tipo..
    tantas cabecinhas pensadoras tanto blá blá está na cara que só saimos do pantano enquando a divida nao for renegociada nem temos ninguêm com eles no lugar para o fazer enquanto o blá blá continua o povo assiste calmo e sereno penso que as forças já se foram

  2. É impossível viver com esta dívida. É como caminhar com pesos nas pernas. Fomos conduzidos para esta situação. Estamos a pagar um preço muito elevado.

    Temos boa memória: o Governo Passos/Portas agravou a situação, apesar do brutal ajustamento que impôs. O Snr.Moedas, lembro-me bem, considerou muito bom um programa do FMI para aplicar ao País. O autarca de Cascais, também do PSD, meteu-o na ordem e ele calou-se. Um político pouco relevante.

    É preciso fazer alguma autocrítica:
    – Os partidos do “centrão”, com o apêndice CDS, não tiveram senso e inteligência ao longo destes quarenta anos desde o 25 de Abril. Os escândalos têm-se sucedido. Aproveitamentos políticos. Os Bancos que causam permanentemente danos ao País.

    Eis os números do Orçamento 2016:

    – O serviço da dívida(que ronda mais ou menos 8.500 milhões de euros) equipara-se ao valor orçamentado para a Saúde, que corresponde a aproximadamente 5% do valor do PIB(170.000 milhões de euros, aprox.). Não há esperança para o futuro. Não é possível perspectivar o futuro com este compromisso permanente e que todos os anos se agrava, porque os défices vão-se perfilando, ano após anos.

    É necessário, porventura, empreender consensos europeus.

    É um quadro de desespero. Os credores e os chamados “mercados” espreitam. Não darão tréguas.

    1. Nelson Faria, não há quadro de desespero nenhum, neste momento está em cima da mesa a viragem da página da Austeridade, demasiado demasiado tímida é certo, mas o acordo do PS com a Esquerda assegura essa viragem. No futuro próximo, o PS terá de optar entre esse rumo ou de acabar com o acordo e ceder à chantagem dos poderes europeus.

      A Esquerda, toda ela, terá de preparar desde já o “dia seguinte”, sabemos todos que o PS cederá se ultrapassar o seu problema eleitoral, seria preciso ser muito ingénuo desmentirmos o que a sua história confirma inequivocamente — o que quero dizer com problema eleitoral? Ricardo Paes Mamede explica:

      “É preciso muito mais do que um cravo na lapela de António Costa para que o PS governe à esquerda. É preciso quem se apresente a votos assumindo que não haverá governo de esquerda sem o PS, mas que o PS nunca será suficiente para que se governe à esquerda. Até lá, as pessoas continuarão a votar em quem lhes oferece alguma perspectiva de uma governação diferente – mesmo que a diferença seja mínima.”

      Nas últimas eleições legislativas o país apercebeu-se disto mesmo, não caiu no embuste e exigiu mais, mas será preciso não esquecer que António Costa está há muito em campanha pré-eleitoral para nos convencer do contrário.

  3. Senhor Louca nao à nada fazer com a direita esse moedas foi para o parlamento europeus ganhar 20 mil euros ja ficou um babado , outro Palhaco que e o PR. mal agora chegou decidiu que o dia de Portugal fosse em Paris nao e mesmo a gozar com os portugueses , para um Pais que esta quase na bancarrota entao nao vai aquele parvo gastar mais dinheiro en tolices ,eu nunca vi nenhum PAIS irem a Portugal festejar os feriados deles eles nem sabem onde esta Portugal ( sempre os mesmos pedintes

    1. calma josé vai tudo de bicicleta com a propria claro um espetáculo que começa dentro de momentos

  4. E é esta gente (neste caso um ajudante de Passos Coelho) que veste a farpela conforme o cenário que nos têm governado e destruído. Lamentável a entrevista que deu a este jornal onde mostra bem a sua conveniência actual.

  5. Sinceramente, Moedas dá pontapés na gramática: “sinceramente, é daqueles temas em que eu não consigo intelectualmente perder muito tempo com ele”. Enfim …

  6. A reestruturação das dívidas é impossível. É impossível, entenda-se, até se tornar inevitável.

    É extraordinário que o BCE esteja à beira de anunciar medidas que basicamente são consequência dos efeitos negativos (excesso de reservas) decorrentes seu próprio programa de “quantitative easing”: a redução das taxas de depósitos.

    Depois, como o QE não está a resultar no que toca a impulsionar a economia, a solução vai ser… mais QE!

    Claro que poderia, em alternativa, avançar-se pela via de um programa de reestruturação das dívidas públicas europeias através de um mecanismo de gestão de dívida Europeu. É o que alguns economistas (divergentes) andam a propor há anos! Mas isso é tabu. Afinal, isso fere os interesses do sistema bancário, que deixaria de beneficiar dos juros dos títulos de dívida que transitassem para o “tesouro Europeu”.

    E assim vamos andando nesta Europa, “business as usual”. Enquanto tudo se desmorona à nossa volta.

    É impossível, dizem-nos. Até se tornar inevitável.

  7. Mas tenha cuidado porque se a moda pega ainda vai ser atazanado com o seu fantasma que antes falava mal do PS, o que dirá ele ao ve-lo lamber agora as Costa primeiro da Geringonça?

    1. Parabéns pelo excelente português!
      Caro António Teixeira, responda-me por favor!
      Em que escola privada andou?

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