Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

4 de Março de 2016, 09:46

Por

As contas de Maria Luís Albuquerque

Ao aceitar o cargo de administradora numa empresa financeira que fez parte do processo Banif ao longo dos últimos dois anos, Maria Luís Albuquerque acertou em algumas contas e errou noutras.

Não acertou na sua conta política. Dela se falava para sub-chefe do PSD ou mesmo para substituir Passos Coelho um dia próximo, o que agora parece mais difícil. Ou se vai para um lado ou para outro. A não ser, e ainda se pode admitir tal extravagância, que no PSD isto dê medalha. Mas, a considerar o silêncio acabrunhado nas hostes laranjas, parece que Albuquerque não criou uma vaga de fundo de simpatia.

Acertou a conta do seu rendimento. Se continuar deputada, logo se saberá quanto, porque será obrigada a declará-lo e o segredo terminará e, isso sim, será embaraçoso. Se for o que se espera, muito embaraçoso; se for algo menos do que o que se espera, duplamente embaraçoso.

Mas desacertou a conta do parlamento. Uma deputada que vota o Orçamento Rectificativo sobre o Banif, ou o que vier a seguir, e que é agora paga por uma empresa que é beneficiária de decisões que possam ser tomadas nesse âmbito?

Acertou, em todo o caso, com a conta do costume, e isso é que parece importar. No livro “Os Burgueses”, que escrevi com Teixeira Lopes e Jorge Costa, fizemos o levantamento das relações empresariais de todos os 776 governantes desde 1975 (não incluímos, porque foi escrito antes disso, o efémero segundo governo Passos-Portas nem o actual; a base de dados com todo o detalhe pode ser consultada aqui) e identificamos 230 que foram para o governo a partir de posições de direcção no sistema financeiro, ou que ao sair foram para administradores de bancos e empresas financeiras, ou que foram e voltaram. Quase um em cada três, portanto. A ligação dos governantes à finança é uma constante da nossa vida política. Maria Luís Albuquerque segue uma notável genealogia.

Desacertou finalmente a conta do Estado, ou seja, destes modestos contribuintes que somos todos. A empresa que vai co-administrar é mesmo um “fundo abutre”, na linguagem técnica do mundo financeiro: compra activos desvalorizados para os vender depois com mais-valias rápidas, seja pela imposição de ganhos por via judiciária contra a dívida pública se houver uma reestruturação, seja pelo benefício da avaliação errada do preço a que os comprou e da pressa com que foram vendidos. Não vos pergunto se já adivinharam quem vai pagar esta aventura.

Contas feitas, Albuquerque cuidou da sua conta financeira, descuidou da sua conta política, desprezou a da democracia, ignorou a dos contribuintes e fez as contas que muitos outros governantes já fizeram. Dizem que é assim que se é “racional”: eu por mim e os outros que se cuidem.

Comentários

  1. Quando leio o comentario do senhor Francisco louca e a opniao de todos os intervenientes ( exemplo Sr. Manuel Reis )ai sim orgulhe.me de ser Portugues veem a realidade dos politicos corruptos dos seus intéresses pessoais e nao os intéresses do nosso Portugal e dos Portugueses ( eu desde a idade dos 15 anos ate aos 63 anos vivi no estrangeiro muito chorei , muito esperei um dia regressar e regressei à dois anos quando vi aquilo que faziam aos portugueses ao nivel dos salarios , da saude , e IMIGREM , fiz as minhas malas vendi a minha casa e voltei de onde tinha vindo e nao volto mais a Portugal .

  2. Lamento mesmo que vocês não tenham feito um documentário de “Os Burgueses” como fizeram para “Os Donos de Portugal” (disponível, aqui: https://vimeo.com/40658606) — a “tiragem” do documentário é potencialmente infinita e gratuita e a visualizão de dados que vocês desenvolveram (salta aos olhos, aqui: http://www.osburgueses.net/consulta/index.html) prestar-se-ia muito bem em suporte vídeo.

    Terminaria com um pedido em jeito de questão: seria possível ao Francisco Louçã partilhar (por exemplo, na sua página facebook) os gráficos que mostra no “Tabú”, para que possam ser consultados fora do contexto da emissão?

    1. Com todo o gosto, já o fiz no passado, tem faltado tempo para proceder a essa divulgação… vou tentar. O documentário são muitos meses de trabalho de uma equipa que agora está muito ocupada noutras guerras, mas seria uma excelente ideia.

  3. Haverá leis a fazer para tentar evitar estas situações, pelo menos a posteriori…. Mas, mutatis mutandis…, é a velha história: condenam-se os corruptos, e não os corruptores, por que condenar os corruptores seria condenar este sistema com que somos obrigados a conviver. O grande defeito da democracia é de não nos dar armas para combater a indecência, a falta de educação e de respeito pelos outros, nem valorizar a elegância e a honestidade. Isso deveria ser a base de qualquer sistema político. Muito pelo contrário, ainda se aplaude este tipo de comportamento, o vale tudo. Não sei como se podem educar crianças neste contexto nauseabundo.

  4. Uma melhor proposta do que a apresentada pelo BE (do período de nojo) era dar aos deputados horário de trabalho obrigatório (picar ponto e contar faltas) e ordenado mínimo + 40 euros para transportes e refeições. Apesar da nobreza da função dispensar honorários, e como sabemos todos os deputados possuem um sentido de missão e um sentido ético altíssimo acho justo que assim seja até porque muitos deles têm filhos para criar e pais doentes, sendo necessário o ordenado mínimo para para pagar os colégios as casas os medicamentos as férias os carros enfim o necessário para a vida com dignidade que o salário mínimo permite.

    1. Caro Adriano, é precisamente esta a questão: os privilégios dos cargos políticos tornam-se cada vez mais inadmissíveis e obsoletos. Um cargo político é um serviço público, ponto final. Tal como o do mais humilde amanuense de qualquer serviço público, nem mais.

  5. Casos abomináveis como este não deixarão de existir, enquanto os ministros, secretários de estado e outros cargos politicos não sejam remunerados devidamente e consequentemente responsabilizados materialmente por decisões danosas. Um ministro deveria ser pago a preços de mercado para a responsabilidade da tarefa; não faz sentido que quem decide sobre milhões de euros dos nossos impostos, esteja em condições de ser tentado por ofertas por parte de interessados nas suas decisões, ou que pro-ativamente, busque ligações e influencie, no sentido de utilizar o seu anterior cargo, para encontrar um emprego bem pago.
    Num caso extremo, o primeiro ministro de Portugal, não deveria ser menos remunerado do que os CEOs das grandes empresas; no fundo somos todos acionistas desta companhia que é Portugal. Neste caso, por certo, que teríamos pessoas bem mais habilitadas e bem mais interessadas, na boa gestão dos dinheiros públicos.

    1. pelo que compreendi mas que nao concordo nenhum politico é obrigado a o ser.se em portugal o politico ę mal pago entao porque nao fazem como milhares de portugueses IMIGREM penso que nao teriam grande sosseço pela incompetencia

  6. “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” – Mateus 6:24.

    Maria Luísa Albuquerque há muito que escolheu servir “Mamon”(o dinheiro).

  7. A D. Maria Luís é deputada? Deve ser azar meu mas não a vi intervir em lado nenhum. Tenho acompanhado razoavelmente a atividade parlamentar e acho patética a táctica do PSD de colocar nas mãos de uns aprendizes de “jovens turcos” as matérias relacionadas com economia e finanças, em vez de utilizar a douta experiência de quem nos governou durante quase 5 anos…Talvez sentindo-se sub-aproveitada resolveu fazer um “jobswap” e vai trabalhar para uns senhores que, ao que parece, são avaliadores e cobradores de dívidas pelo que talvez ainda a vejamos vestida de fraque. Não sei se vai é continuar como deputada, já que, por coerência, se espera que cumpra a semana de 40 horas que resolveu impor a todos os portugueses que trabalham, particularmente aos do sector público. Acumular a duas funções pode ser cansativo.

  8. Excelente crónica, Francisco Louçã. Seria impossível dizer aqui tudo o que aprendi com o vosso “Os Burgueses”, é uma verdadeira cosmologia do país político que tem sido o nosso depois de Abril.

    Lembrando o livro acabado de sair de João Rodrigues, talvez mereça ser referido aqui também o blogue em que ele intervém juntamente com Ricardo Paes Mamede, entre outros: http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt — o nome do blogue, muito engraçado e como muitos saberão, é uma homenagem a Vittorio de Sica.

  9. Que se lixe a vida política, desde que se possa ter um rendimento alto, num cargo não-executivo. Sabem quem é que tem razão? O Prof. Paulo de Morais, muito antes e durante a sua campanha presidencial denunciou muitos casos como este. E ninguém lhe deu ouvidos. Agora espantam-se por isto acontecer. Mas não faz mal, amanhã há futebol, para a semana já não se fala nisso. E ela continua a receber o dela, dado pelos seus novos amigos. A quem deu do nosso dinheiro.

    1. Toda a gente denuncia, toda a gente sabe, mas a indignação não é muito grande. Nos circuitos onde este tipo de coisa é possível a controvérsia é nula porque estão todos à espera da sua vez: chama-se fazer carreira. Quem fica na lama são sempre e apenas os ‘políticos’ quando estas atitudes são as dos cidadãos que desprezam a política e apenas a usam para encarreirar. Se queremos ganhar alguma coisa resta-nos fazer apostas sobre o próximo.

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