Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Março de 2016, 09:00

Por

Em defesa do bacoco

Henrique Raposo deve ter qualidades que o destacam, embora na pobreza do meu conhecimento as ignore e disso me penitencio. Não sei de arroubos literários, de profissão competente ou de outras artes, que as terá por certo. Sei, em contrapartida, da sua inclinação para a leveza, do seu gosto pelo insulto, da sua ginástica posicional e do interesse que nos é oferecido pelas crónicas em que todos os sábados partilha pensamentos iluminados com a sua audiência.

Parece agora que um livrinho sobre o Alentejo, de onde o cronista será originário, lançou polémica. Em si mesmo, isso nada nos diz: há polémicas excitadas sobre nada e faltam polémicas sérias sobre tudo. Leio aliás o que se transcreve do livro e parece-me exagerado, afinal o homem não gosta da sua terra, não há nenhuma lei que a tanto o obrigue (“Eu vivia marcado pela ausência de raízes (…) queria olhar-me ao espelho para ver o regresso do filho pródigo do Alentejo, queria que o Alentejo fosse a minha prometida. No dia em que comecei estas viagens – o dia do casamento – já não tinha grande esperança, mas ainda pensei na possibilidade de um milagre, de uma epifania que me levasse a bater no peito com fervor marcial, ‘sou alentejano’”). Além disso, o homem, além de não gostar do Alentejo, não gosta dos alentejanos, que trata com aquela sobranceria do barão que se aborrece com a plebe tumultuosa e manienta que o incomoda com pedidos (“Além de desconfiar dos vizinhos, do Estado e da Igreja, o alentejano desconfia da própria família. O estado da natureza está no sangue”). Mas o que esperavam dele? Tudo banalidades.

Terá sido uma entrevista sobre o livrinho, em que o autor espraiou a sua graça, que mais aborreceu os alentejanos. Raposo tem aquela forma simples, que só cabe aos grandes espíritos, de tratar as questões difíceis do alto da burra. Ora, parece que há quem se amofine com isso e não devia. Mesmo quando o caso é sério: parece que para o cronista as alentejanas não terão o desforço de dar nome à violação, ele chegou e pronto (ou prontos?) e vai por aí adiante. Que o Raposo tem uma forma curiosa de ver as mulheres, já se tinha notado. E isso ainda mais terá aborrecido quem o escutou ou lê, mas é tudo colheita da mesma pradaria.

Dessa indignação, um “incêndio” diz o Expresso, uma ”fúria”, diz o Observador, uma espécie de fatwa, escreve logo pressuroso um outro cronista, a ver no caso uns Versículos Satânicos e nos críticos uma horda de assassinos em potência, uma “turbamulta“, acrescenta outro, e e de tudo isso resultou uma saída tonitruante do Raposo: “Depois disto tudo acabar, uma coisa é certa: sairei mesmo da internet”. Mas, tranquilizem-se os leitores, “sair da internet”, não há que temer, “não é o mesmo que sair do mundo”. Ele cá ficará.

Pedro Boucherie Mendes, que o entrevistou na Sic Radical, tomou as dores do autor no twitter e gritou que “Não se percebe nada do que é a liberdade neste país de merda”. Ferreira Fernandes veio deitar água na fervura, que já era muita, e argumentar simplesmente que o cronista tem direito ao seu livro, pois claro.

Portanto, o assunto não tem assunto. Para o Alentejo, é indiferente o que pensa o Raposo. Para os alentejanos, com franqueza, nada muda na sua vida. Para o Raposo, é um livro para o curriculum e, se é nisto que se quer fazer notar, boa sorte. Se é um livro, se é um pensamento, se é uma pose, tem todo o direito do mundo ao livro, ao pensamento, à pose.

O bacoco faz parte da nossa liberdade e este “país de merda”, o tal que incomoda o entrevistador do cronista, sabe muito bem que esse valor da liberdade começa precisamente pelo bacoco, estimula a crítica, aceita e naturaliza a diferença, e até inclui o pensamento, quando não for pedir demais.

Fazer desta coisa que foi cometida por Raposo um caso nacional é que só mesmo por desfastio.

Comentários

  1. Boa noite,
    Francisco Louça, lembro-me de que, aquando das suas primeiras aparições no parlamento, muitas vezes, lhe achei graça, pela sua irreverência e aquela forma muito sua de dizer certas barbaridades, algumas delas verdadeiras, por sinal. Depois, depois, os anos foram passando. ficou-lhe a forma agressiva, a crítica fácil e o “acomodar-se ao lugar”.
    Mas, hoje, achei-lhe graça. Ainda que me pergunte porque não fez o “trabalho de casa”.
    Não li o livro, li um capítulo, publicado no Observador, acerca do suicídio. Essa banalidade.
    Sou uma das representantes do Grupo “Henrique Raposo – O inimigo nº 1 do Algarve e Alentejo”, mais conhecido por “A Turba”, a “Intifada Alentejana” ou a “Turbamalta”, de todos gosto mais do último, parece-me mais enciclopédico, ainda que, por qualquer razão. me faça sempre lembrar aquela frase célebre do nosso histórico cinematográfico “Ah, ele até sabe o que é o esternocleidomastoideo.” (diga agora que sim com a cabeça, Francisco Louçã, que ele mexe-se, o músculo,claro).
    Estranhamente, também, sou de centro direita, aquela que, por qualquer curioso desvio do eixo da terra, passou agora a ser chamada de direita radical.
    Mas sou, acima de tudo, apenas uma alentejana suicida, amoral ou imoral. Não percebo nada de sociabilizar e descendo de uma trupe de maltezes sanguinários e de violadores de mulheres, tão estúpidas, tão estúpidas, que nem sabiam o que era serem violadas, isto, obviamente, porque lhes faltava a palavra. Porque, coitadas, sabiam lá distinguir o bem, do mal. E, como é óbvio, estes meus ascendentes, os homens, nem sabiam o que era uma criança, também não tinham a palavra, nem essa, nem carinho.
    Sou, sim senhor, isso tudo. Devo “de ser”. Pois disse-o o fragilizado cronista, com histérica e emocionada perturbação, remexendo-se, gesticulando, contorcendo-se, quiça, revendo os terríficos momentos de infância, passados na casa dos seus tenebrosos avós, nesse pavoroso Alentejo.
    E, por aqui me fico, aconselho-o, vivamente, a ver a entrevista, moderada pelo irritante moderador, o qual, do alto da sua superioridade moral e intelectual, nos apodou de portuguesinhos e especiméns, nos seus inocentes posts, na sua (dele) cronologia do facebook, a qual, dizem vários iluminados, foi por nós denunciada, desaparecendo, para nunca mais ser vista.
    De uma suicida Alentejana

    Teresa Varela
    Pela Dignidade do Povo Alentejano

  2. Parafraseando um comentário à defesa que o Henrique fez do Henrique no «Expresso», «Je suis turbamulta»!
    Para ser inteiramente franco, suspeito que o jovem cronista Raposo sabia que o seu livrinho iria levantar celeuma e, por essa via, garantir a sua quota de publicidade gratuita. O Raposo está longe de ser «frágil» e «inocente» e nós (contra mim falo) — e o Louçã — estamos, possivelmente, a contribuir para a tal quota. Recordo, no campo oposto, o quanto o agora agraciado Sousa Lara terá contribuído para promover o Evangelho do Saramago.

    1. O Evangelho de Saramago é seguramente uma das melhores obras escritas em português, pelo que o silêncio de Sousa Lara teria sido uma dádiva de deus e não uma mãozinha para a sua divulgação, consta que uma grande obra perde em impacto na crítica quando é comentado por um ignorante e assim foi, a obra foi quase ignorada. Mas não será assim com todas as grandes obras, ao invés do destrambelho que representa este caso sem substância?

  3. Quando leio textos como este do Dr. Francisco Louçã, em que conscientemente goza um autor fragilizado (independentemente dele se gostar ou não), num momento em que Henrique Raposo é atacado cobardemente e sem hipótese de defesa a coberto das redes sociais, fico com a impressão de que o Dr. Francisco Louçã, sabendo bem o que está em causa, realmente dela não quer saber, limitando-se a aproveitar todas as oportunidades de que previlegiadamente dispõe apenas para exercitar uma cartilha sectária e sem equilíbrio de análise que em muito o diminui.

    1. Fragilizado? Um cronista de todas as semanas no maior jornal português? É preciso tino.

  4. o pingo amargo não merece tanta publicidade,por outro lado,o interior portugues(estive em idanha a nova,este fim de semana),está uma …vergonha.casas abandonadas,idosos,e jovens desempregados e sem futuro.o raposo,fala em suicidio,marialvismos e outros que tais:olhe,raposo,é preciso coragem para viver no interior(alentejo ou outro),coragem essa,nunca patrocinada por fundações da mercieiros,ou belos apartamentos nas av.novas com corcertos à borla na gulbekiam.

  5. O Raposo sonha em ser um dia um Eça ou um Ramalho das Farpas, mas tudo o escreve está ao nível de uma Margarida Rebelo Pinto no masculino. Como diz o povo ” Quem dá o que tem , a mais não é obrigado”

  6. Fiquei a saber da “questão” através da crónica do Ferreira Fernandes.
    Ele escreve:
    “O livro ia ser lançado num sítio mas já não vai, para o sítio não estar ligado ao livro – o que não diz nada do livro, e muito do sítio. Mudou-se para outro lugar, Bertrand (Picoas), dia 8, às 18.30, e a editora avisou a PSP. Fiquei avisado: devo lá estar.”.
    Eu também vou lá estar para encontrar o Ferreira Fernandes e dizer-lhe: “eu também fiquei avisado e vim fazer-lhe companhia. Quem lança o livro? É mesmo sobre o quê?”.
    Talvez compre um exemplar, que duvido que venha a ler – (sofro do síndroma de Stendhal e, por conseguinte, sofro a angústia de saber que não terei tempo para ler tudo o que de belo já se escreveu) – para mais tarde explicar à minha filha que o Processo em curso começou com estas pequenas intimidações. Confesso que há um interesse especulativo por detrás: como virá a constar de um index, irá sofrer uma apreciação. Há que detectar as oportunidades de negócio. Ouvi dizer que as edições do Mark Twain não censuradas são muito procuradas.

  7. Henrique Raposo, na sua crónica “Carta de Amor ao Alentejo”:

    “Primeira premissa: respeito o Alentejo, toda a minha família é alentejana, os alentejanos terão sempre em mim um aliado contra a parvoíce das anedotas; continuarei a escrever sobre o Alentejo até que os meus antepassados tenham a dignidade literária que merecem. Dignidade, essa, que não existe nas mitologias que se servem do Alentejo, o neorrealismo e a ideologia do turismo que reduz a zona mais interessante e trágica do país a uma espécie de Disneylândia do silêncio.”

    Sendo o objectivo declarado de Henrique Raposo o de dar “dignidade literária” ao Alentejo, penso que o seu adversário de fundo será mais do que a “ideologia do turismo” (literariamente inexistente) o Neorrealismo. Parece-me claro, como imagino que pareça a todo aquele que conheça o Neorrealismo português (e não só), que o objectivo literário declarado de Henrique Raposo promove o objectivo ideológico, desde sempre, do que escreve o Henrique Raposo para o Expresso — ele terá mesmo feito o favor de nos alertar para a importância da “ideologia” para a “primeira premissa” do seu livro.

    Não sei nada da misoginia de Henrique Raposo (e sinceramente não vejo porque não teria chamado Pedro Filipe Soares de “truque de ventriloquia de Francisco Louçã” se P.F.S. fosse o porta-voz do Bloco de Esquerda — visto que é a isso que o Francisco Louçã se refere). Mas sei o que diz o próprio das “alentejanas antigas” (uma pequena imprecisão sua, Francisco Louçã); pode resto ler-se sempre na mesma crónica: “existia uma subcultura de bastardia no Alentejo, fruto de um abjeto marialvismo que via a mulher como propriedade privada dos desejos do homem da casta superior. As minhas avós e bisavós estão entre as vítimas desta violência marialva.” Misoginia? Eu não vejo nenhuma.

    Enfim, já perdi tempo que chegue com aquele engraçadinho — como nos lembrava ontem, Francisco Louçã, existem mesmo muitos no jornalismo. E concordo, claro, ele tem todo o direito a dizer o que diz.

    Esclarecimento: também não li “Alentejo Prometido” e não me parece que vá lê-lo, não sei se é bom ou mau, mas suspeito que seja medíocre.

    (crónica completa de Henrique Raposo, aqui: http://expresso.sapo.pt/opiniao/HenriqueRaposo/2016-02-27-Carta-de-amor-ao-Alentejo)

  8. Para além da publicidade gratuita ao livro, de que Alentejo fala Raposo? O dos sem terra e dos malteses, o das aldeias e montes, o das praças da jorna, ou o dos terra-tenentes e seus homens e mulheres de mão, feitores e capatazes ? Não há um Alentejo apenas, assim como não há um Minho ou uma Beira Interior unidimensionais.

    1. Em tempo – Vivi muitos anos no Alentejo e em muitos alentejanos (m/f) – sobretudo do campo e dos montes – encontrei a capacidade que tinham de se rirem com e re-contarem as “anedotas” sobre si mesmos. Para além do valor da amizade, dada a quem provasse merecê-la. E também a solidariedade, do caminhar lado a lado ou na taberna, em coro, ondulante, como nas searas agitadas pela brisa campesina, para além da solidez dos sobreiros.

  9. Não li o livro e por isso nada posso dizer de substancial a seu respeito. Mas deixo uma pergunta. Alguém levaria a mal se Henrique Raposo viesse a lume fazer o retrato impiedoso de um seu eventual meio social de origem, se este fosse o da alta burguesia, dos meios católicos, da aristocracia, da classe média, e etc., lisboetas por exemplo?

    Aparentemente Henrique Raposo, figura declaradamente da Direita, cometeu o pecado socialmente inaceitável de retratar pouco favoravelmente pobres, que até votam CDU; e de dizer abertamente quão pouco gosta dos seus maus costumes. Se o retrato que propõe está desvirtuado, isso já não sei, nem vou ler o livro. Embora esteja tentado porque sempre me agradou a literatura confessional quando o autor se apresenta a si ao seu meio social, de origem ou presente, sem qualquer complacência.

    1. Para isso que pretende meu caro senhor José Manuel Ferreira, era necessário um cronista de outra lavra, alguém com capacidade intelectual , e com a visão critica de um Fialho de Almeida, coisa que este senhor Raposo nunca terá capacidade de ser. Em suma uma croniqueta feita há medida para a Fundação do Pingo Doce, e mais uma polêmica sem sentido.

    2. Repito que não li o livro e, como tal, as minhas observações de pouco valem. Creio, no entanto, pelo que me apercebi do levante que vai nas redes sociais, que Henrique Raposo comete várias faltas no seu livro que fazem dele, aparentemente um objeto tão irritante.

      Não apresenta, nem procura apresentar, qualquer coisa que justifique o poço de vícios em que parece querer mergulhar os alentejanos. Exigiria a inteligência que, ao menos, procurasse uma explicação, neste caso social ou económica, para o que tanto o incomoda.

      Até Nabokov justifica de algum forma a pulsão pedófila de Humbert Hubert pela sua adorada Lolita; e Raskolnikov sai de alguma forma justificado nos seus crimes, sob a pena de Dostoievsky. Mas estamos a falar de grande literatura, perdoem-me o pedantismo.

      Por outro lado, Henrique Raposo, ao que parece, dá de si uma lamentável imagem de arrivista. Ao lançar o anátema sobre o seu meio social de origem, sem a correspondente crítica ao seu meio social de chegada – que grande livro poderia ser! – apresenta-se como um burguês que procura dotar-se de uma boa consciência, social, moral e política. Numa palavra: reacionário!

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