Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

11 de Fevereiro de 2016, 10:01

Por

Os bancos da Europa demasiado grandes para falhar

Em Portugal vivemos recentemente os dramas do “bail-in” – eufemismo que significa que depositantes e credores seniores participam no resgate a um banco em dificuldades no âmbito da aplicação de uma medida de resolução – com o Banif e Novo Banco. Mas os dois bancos apresentavam rácios de capital relativamente sólidos mesmo antes da intervenção. Em particular, os seus rácios de alavancagem eram de 5,9% e cerca de 8%, respectivamente, muito acima do mínimo legal exigível (3%). Após o “bail-in” de credores seniores realizado a 29 de Dezembro, os rácios de alavancagem do Novo Banco serão de cerca de 10%, mais de 3 vezes o mínimo legal exigível.

A aplicação parcial das novas regras da União Bancária em Portugal no final de 2015, embora fora do mapa da agenda mediática europeia, provavelmente contribuiu para o clima de pré-crise que se vive nos mercados financeiros europeus e também internacionais, com as acções de grandes bancos europeus, como o Deutsche Bank, a sofrer quedas acentuadas ao mesmo tempo que se regista uma subida acentuada dos preços dos “seguros” contra o incumprimento da dívida bancária (CDS).

O rácio de alavancagem do Deutsche Bank era de 3,6% no terceiro trimestre de 2015, com analistas a discutir a necessidade de capital que o banco enfrenta para subir esse rácio para 5%. O rácio de alavancagem do Santander era de 3,7% no terceiro trimestre de 2015 e outros grandes bancos europeus também apresentam baixos rácios de alavancagem, a ponto de se discutir a alteração das regras de supervisão bancária para eliminar o requisito mínimo de 3% e de um analista do Deutsche Bank sugerir que é necessário abolir o dinheiro em espécie.[1]

Uma fonte próxima do governo alemão não teve pejo em dizer que o governo alemão interviria se alguém procurasse adquirir o Deutsche Bank.  Mas a verdadeira questão é se se aplicariam ou não as novas regras da União Bancária a um banco demasiado grande para falhar (do inglês, TBTF ou “Too Big To Fail”) e ainda por cima a um TBTF alemão. É provável que não.

O certo é que o problema bancário da Europa não está nos pequenos bancos, mas sim nos TBTFs. O balanço médio (total de activos) dos 15 maiores bancos da Europa é de 1,3 biliões de euros, cerca de 7,3 vezes o tamanho da economia portuguesa.

Portanto, o problema do BCE é o que fazer com estes TBTFs. As regras da União Bancária – ao representarem uma alteração radical da forma de intervenção pelas autoridades, ao serem regras demasiado rígidas que só contemplam uma resposta possível, e ao serem aplicadas, de forma arbitrária, em Portugal e, em menor grau, na Itália – contribuíram para o pânico que agora se vive.

É importante seguir de perto os desenvolvimentos neste sector. E esperemos que o governo português, a partir da prática de outros governos, como o alemão e o italiano, repense a sua estratégia para o Novo Banco. Porque se nada fizer, se não defender vigorosamente o interesse nacional, o Novo Banco será “comido” por um destes TBTFs e todo o dinheiro público lá metido servirá para colmatar as lacunas de capital desses bancos demasiado grandes para falhar, ou para sequer salvar.

 

 

 

 

 

[1] Se todos os pagamentos forem realizados através de transferências bancárias electrónicas, deixa de ser necessário dinheiro público. Em particular, os grandes bancos internacionais deixariam de estar obrigados a converter os seus depósitos (i.e., a sua moeda privada) em moeda pública. Por conseguinte, essa tese significaria, na prática, a eliminação da moeda pública e sua substituição por moeda privada, i.e., moeda criada pelos (grandes) bancos privados. Nessas circunstâncias, esses bancos não estariam sujeitos a corridas bancárias, porque poderiam sempre “imprimir” mais moeda privada (desde que continuassem a ter o apoio de outros grandes bancos privados).

Comentários

  1. A confusão entre Riqueza e Moeda continua.

    Da mesma forma que a palavra “vaca” representa uma Vaca, mas não é uma Vaca, 0.14€ representam uma Carcassa, mas não são uma Carcassa, e 0.65€ representam uma Bica, mas não são uma Bica.

    A Moeda representa Riqueza mas não é Riqueza e baseia-se na confiança. Na confiança de que se for com 0.14€ à padaria posso comer uma carcassa é que se for com 0.65€ ao café posso beber uma bica.

    Por isso é que as moedas metálicas antigas eram cunhadas. O cunho era aquilo que garantia o peso e a pureza do metal e que, portanto, dispensava os cambistas e as suas balanças. Também por isso uma quebra da moeda era considerada como sendo uma coisa muito grave.

    Quem cunhava as moedas eram os estados, os reis, eram eles que eram os garantes do peso e da pureza, da autenticidade. O que também acarretava que a falsificação da moeda tivesse estatuto de crime de lesa-magestade.

    1. É sempre bom recordar tempos que não conhecemos… Até porque eles podem voltar, se não temos cuidado! Embora longe do artigo de Ricardo Cabral, é importante a distinção que faz entre valor e preço, que todo o jerico confunde. O tuga, infelizmente e regra geral, julga que se é rico porque se tem dinheiro. Ora, é exactamente ao contrário, tem-se dinheiro porque se é rico. O tuga julga que os alemães são ricos porque têm muito dinheiro, obtusamente incapaz de perceber que os alemães têm muito dinheiro porque são ricos. O tuga não quer ser rico, dá trabalho, demora tempo. O tuga quer mesmo é ter dinheiro. E é exactamente porque confunde a coisa com o seu símbolo que nunca terá o símbolo. Temos o sol…

    2. Deixa lá ver se eu percebi: tem-se dinheiro porque se é rico é-se rico porque se trabalha. É certo que a ignorância da juventude acarreta sempre uma certa arrogância e ainda bem, mas ó menino liberal não se pode ser tolo a vida toda. Temos todos de pensar um poucoxinho. Como dizia o meu pai é a diferença entre ter 20 anos de experiência 1 ano de experiência 20 vezes.

    3. Pode-se ser rico sem ter dinheiro, basta que se seja auto-suficiente, como o eram em grande medida muitas vilas romanas na Hispaniæ, fazendas no Brasil e roças em Angola.

      O dinheiro só se torna necessário quando não existe auto-suficiência alimentar e só é possível comer trocando algo por comida, situação típica das cidades, polis ou urbes desde Ur, na Suméria.

      Tudo isto tem muito a ver com o tema porque o tema é, exactamente, o dinheiro e o saber-se quem assume a responsabilidade de garantir o valor da moeda, isto é, garantir que quem tem uma noa de cinco euros tem algo mais que um papel pintado de verde.

    4. Fala-se em jericos … e eles aparecem. Passando à frente, sim Álvaro Athayde, o dinheiro não existiu sempre, mas existiu sempre para o homem civilizado, e não especificamente na nossa civilização. É, de facto, mais coisa das cidades do que dos campos, mas isso durou apenas até ter acabado a economia de subsistência e de troca directa, que convenhamos, era de uma atroz pobreza face à economia de mercado. Também concordo que rico quer dizer muitas coisas, e claro que eu empreguei a palavra mais no sentido de riqueza material do que no sentido de riqueza espiritual. Assombro-me por vezes com a facilidade com que alguns líricos (de esquerda?) desprezam a riqueza material, como se fosse seres desencarnados, já mortos…
      Toca na questão do valor da moeda, que só tem valor se for escassa, tal como qualquer outro bem económico. Obviamente também não pode ser escassa demais, é um delicado e permanente equilíbrio, que foi confiado a instituições, os bancos centrais, que manifestamente nunca estiveram à altura das dificuldades. Mas nunca pode haver garantias. Veja o meu caro, se soubéssemos que um imenso cometa ia embater e destruir a Terra dentro de um mês, todo o mundo iria querer gastar todo o dinheiro de que dispõe, e ele perderia todo o seu valor, porque ninguém iria querer dinheiro nessa altura. Q.E.D.!

    5. Três pontos, caro Liberal:

      PRIMEIRO
      «Veja o meu caro, se soubéssemos que um imenso cometa ia embater e destruir a Terra dentro de um mês, todo o mundo iria querer gastar todo o dinheiro de que dispõe, e ele perderia todo o seu valor, porque ninguém iria querer dinheiro nessa altura.»

      Se tivesse vivido “situações limite”, ou se compreendesse as que estão descritas na literatura, não diria uma coisa destas.

      SEGUNDO
      A oposição Material-Espiritual é uma falsa oposição, tal como o era a oposição Onda-Partícula, ou Matéria-Energia.

      Já leu “O Fenómeno Humano”, um livro de Pierre Teilhard de Chardin S.J.? E não se assanhe por ele ser jesuíta, o conceito de Noosfera foi originalmente proposto por Vladimir Ivanovich Vernadsky.

      TERCEIRO
      A “democrática” Atenas foi derrotada pela “autocrática” Esparta na Guerra do Peloponeso (431 –404 a.C.) e Alexandre III da Macedónia (336 –323 a.C.) era tão indo-europeu e tão autocrata quanto Dario III da Pérsia (c. 380 –330 a.C.)-

    6. É uma velha táctica cripto-comunista, desconversar e dar-se ares de “cultura”. Esperava mais de si Álvaro Athayde.

    7. «É uma velha táctica cripto-comunista, desconversar e dar-se ares de “cultura”. Esperava mais de si Álvaro Athayde.»

      Ih in ih, só esta me faria rir, caro Liberal, ah ah ah

  2. Não terá sido isso que aconteceu ao Banif? Ser comido por um TBTF (Santander) e, com o dinheiro lá metido pelo Estado, capitalizar o gigante espanhol?

  3. “Sistema monetário”…”criação do dinheiro pela Banca privada”

    É um tema geralmente excluído (não inocentemente) da luta político partidária do dia a dia. Mas nele está o epicentro da esmagadora maioria dos problemas económicos do País e do Mundo.

    São temas pouco conhecidos pelo vulgar cidadão…Deixemos isso para as elites financeiras, os “donos disto tudo”.

    Sejamos pois obedientes ovelhas…usadas para produzir lãs para os nossos donos que nos alimentam e nos mantêm como escravos.

    Nós gostamos de ser ovelhas… É confortável…

  4. (1) Se as regras da UE mudarem consoante a cor do País da Instituição Financeira então é claro que Portugal tem de saír deste Sistema. Somos todos iguais mas há uns mais iguais do que outros.

    (2) Se os Bancos pudessem criar moeda indiscriminadamente iríamos ter taxas de inflação “bonitas”, e a taxa de câmbio do EUR passava a ser pior do que a do BRL.

  5. Não podemos aceitar a desmaterialização do dinheiro, porque é a nossa liberdade que está em jogo. Haverá uma corrida ao dólar, ao ouro e à prata, se isso for tentado, e será uma maneira de nos mandar de novo para o século XIX. Quanto aos “deutsche banks”, que se danem.

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