Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

10 de Fevereiro de 2016, 08:53

Por

União Europeia e URSS no teste Ovolmaltine

Porfírio Silva foi atacadíssimo por ter simplesmente declarado, em plena crise da negociação orçamental com a Comissão Europeia, que a União Europeia parece estar a tornar-se uma nova URSS, mesmo que sem um KGB. A imagem é colorida, como muitas metáforas, e nem estou certo do que queria dizer o deputado e dirigente do PS nem sou seu intérprete. Mas percebo, porque há mouro na costa, o que toda a gente percebe: Porfírio Silva estará irritado com a pesporrência europeia e com o caminho que isto está a seguir (a tal URSS readaptada), e não lhe consegue descortinar a pulsão democrática da promessa e da ilusão original.

Apareceu logo a terreiro quem adivinhasse que anda por aí um velho-tempismo, mais uns quantos que proclamaram o seu horror perante a crítica à vaca sagrada. Houve mesmo um eurodeputado que foi fazer queixinhas em Estrasburgo, perante o plenário que ficaria aturdido se não estivesse vazio (e, como já não é a primeira vez do dito cujo, o hábito queixante faz o monge). E juntou-se-lhe outro eurodeputado, este do PS, a clamar que a Europa “é imperfeita. Será. Como sabemos, a perfeição é um privilégio dos monstruosos sistemas totalitários“, e não queremos a Europa em tais preparos. E veio mais um ex-eurodeputado do PS que interpretou a analogia com a URSS como um sintoma fatal de uma deriva à esquerda, acrescentando, com uma solenidade que é só dele, que “concordemos ou não com este reposicionamento do PS na cena política (que não acompanho), trata-se porventura da mais importante evolução política do PS desde que Mário Soares ‘meteu na gaveta’ o socialismo tradicional e abraçou decididamente uma orientação social-democrata no quadro da União Europeia.” “Porventura”, então, a “mais importante evolução política do PS” desde a façanha de Mário Soares, mas agora Vital Moreira não acompanha (na altura também não acompanhou, já agora).

A Europa, essa Pátria que não conhece pátria, pode ser conversada mas não pode ser discutida, pode ser olhada mas não pode ser questionada, é o que se ouve nos salões, onde se treme de pavor perante a ideia de que o consenso se esfume.

Porfírio Silva foi aliás, no passado e muito recente, um dos homens do consenso, um dos arautos da indiscutibilidade da União e dos seus tratados. Era ele quem escrevia em período eleitoral “um pequeno tratado sobre a cagufa em política”, sendo “cagufa” o atrevimento de não se apoiar a proposta do seu partido, europeísta ortodoxo dos sete costados.

Melhor do que ninguém, Teresa de Sousa afinava então pelo mesmo diapasão e avisava os candidatos presidenciais e os partidos de que tinham que se submeter ao “teste Ovolmaltine”: “Dito isto, proponho que todos os partidos e personalidades que queiram candidatar-se ao Palácio de Belém coloquem atrás deles, nas suas aparições públicas, um daqueles reclames luminosos que havia há muitos anos nos telhados dos prédios mais altos, sempre a piscar qualquer coisa como ‘Beba Ovomaltine’. Neste caso, ‘a União Europeia é a nossa casa e não tencionamos mudar’. Não há dúvidas quanto ao PS e ao PSD, mas há muitas dúvidas em relação a outros partidos ou personalidades que compõem a nossa paisagem política, mesmo que prefiram manter uma prudente ambiguidade.” O título desta crónica era “O PS está onde sempre esteve” e imagino a surpresa da autora, ou quem pensa como ela, ao descobrir agora que Porfírio Silva, tão confiável, tão europeu, mergulhou nos abismos da dúvida ou até da insídia contra a regra Ovolmaltine.

A questão é então esta: porque é que o dirigente socialista, se não me engano responsável pelas relações internacionais do seu partido, tem este desabafo? Para muitos outros, a explicação é esta: porque a experiência deste governo, curta mas vivida, mostra que Portugal negoceia com um muro de betão, com a irracionalidade económica e com a irrazoabilidade política, com a descarada assimetria de critérios, com tudo o que cria esta monstruosidade de poder inexpugnável, essa mesma que leva a Comissão a decidir que o governo vai decidir capitalizar o Santander por via do Banif ou que leva a mesma Comissão a indignar-se contra a redução da sobretaxa do IRS, mesmo sabendo da decisão do Tribunal Constitucional nesse sentido.

Evitarei ser mais enfático no reconhecimento da preocupação de Porfírio Silva, para que não lhe seja atirado este meu reconhecimento, tão criminalizável pelos salões tudoeuropeístas, tanto mais que o próprio, instigado pela reprimenda de Vital Moreira, veio esclarecer que “nada do que eu disse, designadamente naquela entrevista, constitui qualquer mudança relativamente à posição tradicional do PS face à Europa”.

Mas que alguma coisa está a mudar em Portugal, lá isso está. E não é o cartaz Ovomaltine.

Comentários

  1. O teste OVOMALTINE está aqui: dívida OT 10 anos a negociar em mercado secundário a 5,02% !!! É o maior valor desde os tempos terríveis de 2013 !!! Este é o teste e este governo chumbou com uma negativa de 2 ou 3 !!! Espero que os apoiantes deste governo de fanáticos possam rapidamente pedir desculpas pelo descalabro a que estão a conduzir o País !!

    1. O descalabro ocorrerá sempre, de uma forma ou de outra.
      Se estrebuchamos, penalizam-nos, dão-nos uma palmada…
      Se alinhamos, “roubam-nos a lancheira”.
      Note-se, não sou nem pro-PAF nem pro-PS/Geringonça e, na minha opinião o problema é precisamente os cidadãos posicionarem-se acefalamente pró ou contra algo, por tal lhes ser “indicado” pelos partidos que eles adoptaram, como se adoptam clubes de futebol… para a vida e acriticamente.

    2. oh palerma pafioso, e agora estão no valor mais baixo!
      Ahn? Não te ouço! deves ter parado de tocar e enfiaste a viola no saco! OQC!

  2. Apesar de no caso português as posições europeias sempre terem estado nos programas partidários e o designio Euro ter mais de 75% votos nas eleições de 1995, eu gostaria imensamente que todas as fases de integração europeia tivessem sido referendadas para não haver as desculpas que agora muitos tentam inventar. Neste contexto, também o sufrágio directo para a Comissão Europeia seria o consolidar do passo que se deu nas últimas eleições para o parlamento europeu. Eu sou a favor de eleições, coloca as coisas no seu devido lugar, desde os PNR a Livres e Joanas. E o tempo do BE lá há-de chegar…
    Sobre o muro de betão do Sr Porfírio…. Ainda bem que existe!!! Sem ele seria o regabofe e daqui a nada estariamos de volta ao tempo de se fazerem desvalorizações de 30%, inflação de 20% e toma lá um aumento de 10% para ires embora todo contente mesmo tendo perdido 10% de poder de compra. Disso já tivemos nos anos 80 e serviu para uma nova bancarrota.

    Gosta-se muito de gabar a política expansionista dos EUA, mas quem o faz esquece-se do pequeno detalhe que cada barril de crude que se arranca do fundo da terra permite ao FED imprimir mais x dolares, assim como outras commodities. Essa é a arma que faz do euro uma moeda realmente fraca.

    Cumprimentos.

    PS – Há duas semanas ouvi-o defender a subvenção para o ex-PR pelos motivos que expôs. Curiosamente, ontem dei-me conta que um tal de Jorge Sampaio , faz parte do Conselho de Administração da PARTEX oil & gas… (remunerado ou não parece-me não interessar para o seu argumento e não é Gulbenkian é partex mesmo.).
    Não leia a minha observação com olhos populistas, na minha óptica qualquer cargo político – que não deveriam ter reeleição – deveria receber por ano (eg) 90% da média anual dos rendimentos de trabalho declarados em IRS nos últimos 3 anos com um caput de (eg) 100 salários mínimos. Política deve ser um serviço à sociedade, não um emprego.

  3. Caro professor… quanta retórica para justificar o incumprimento de promessas avulso. Quanta retórica para justificar uma fraude (ou serão duas?).

    “Porfírio Silva estará irritado com…”, não é só Porfírio Silva, é também o senhor e todos aqueles que precisam de branquear o embuste que foram as promessas da auto instituída pseudo-coligação de conveniência perante um orçamento que rejeita o fim da tão prometida austeridade, promove a diferenciação entre cidadãos (públicos vrs privados) e debilitará ainda mais a actual situação social.

    Responsabilizar os outros é fácil, justificar o duplo aumento do imposto sobre os combustíveis (e seus derivados) é bem pior… empurra-se então com a barriga.

    Porfírio Silva e outros que tais esforçam-se por justificar (ou será iludir), perante os incautos, que as promessas populistas que branquearam a “tomada do poder”, só não são possíveis porque existem uns “bichos papões” que teimam em “sodomizar-nos” (permita-me a vulgaridade) quando já se percebeu que a demagogia é como a mentira… também tem a perna curta.

    Caro professor, se tivermos em conta as promessas populistas esquerdistas, este OE é uma fraude porque as ditas promessas, de tanto utópicas, não passaram disso mesmo, promessas. E toda a esquerda sabia de antemão que não seriam permitidas veleidades.

    Basta dizer o que eles querem ouvir… é assim, não é, professor?

  4. É raro em Portugal ver alguém a verdadeiramente pensar saudavelmente a questão europeia e a posição de Portugal na União Europeia. A UE é normalmente vista como uma coisa abstracta e imutável, uma espécie de valor transcendental quase mitológico tido como intocável e inquestionável – a Deusa Europa. Veja-se Cavaco Silva. Mas veja-se também, até certo ponto, a afirmação quase-mitológica de Porfírio da Silva. É aqui que reside o primeiro obstáculo. Na realidade não se tem uma ideia clara do que é no presente e concretamente a UE, que forças a gerem, para onde se move. Ora sem esta noção do que é concretamente (e não mitologicamente) a UE será impossível pensar a sua relação com Portugal.

    O que é então, hoje em dia, a UE? Vou apenas referir dois pontos que me parecem importantes. (1) Se historicamente a UE tinha uma certa filosofia de coesão social e solidariedade entre os povos europeus, esta tem vindo nos últimos tempos a ser substituída por uma ideologia neo-liberal do “cada um por si” que motiva a concentração de recursos capitais em centros de poder industrial, económico e financeiro em vez da uma distribuição equilibrada; (2) A expansão ao Leste complicou muito a possibilidade de se encontrar ao nível europeu uma política coerente que seja sensível às diferentes circunstancias históricas, culturais e ideologicas (muito diversas) no todo da UE. Ficou assim mais difícil modelar as políticas macro-económicas europeias às circunstâncias particulares específicas de cada nação.

    Dito isto, é óbvio que estes desenvolvimentos são prejudiciais para Portugal. Fomentam, por um lado. a fuga de capitais e centros de decisão de Portugal. E fomentam, por outro lado, uma crescente inflexibilização monolítica (daí o “desabafo” de Porfírio da Silva) das políticas europeias e da sua persistente cegueira às particularidades socio-culturais dos pequenos estados periféricos como Portugal. Ora parece-me evidente que a economia de cada região europeia se deveria desenvolver em harmonia e de acordo com a cultura, valores e maneiras-de-viver de cada região. Tentar aplicar a Portugal um modelo económico abstracto tirado a papel químico do modelo Alemão (um país com uma cultura puritana, radicalmente diferente da mediterrânea) só pode ter um fim:- a criação de um monstro disfuncional.

    O que Portugal deve fazer, a meu ver, é tentar estabelecer uma união estratégica com os outros países mediterrâneos europeus, para defender, no seio da UE, as suas especificidades. Estas últimas devem ser vistas como um recurso valioso que poderá contribuir para o desenvolvimento da UE como um todo, em vez de serem vistas como particularidades de segunda a serem “terra-planadas” para não obstruir o avanço da Deusa Europa.

  5. já nem na direita se encontra um partido patriótico, com dúvidas e cautelas quanto à União Europeia. Os únicos que fizeram esse caminho foram os da esquerda (PCP e Bloco).. Tempos estranhos

    1. “… partido patriótico”? isso é o quê?
      “Os únicos […] (PCP e Bloco)..”?????? a destruir o pouco que nos resta? a hipotecarem o futuro?
      “Tempos estranhos”… sem dúvida… e de défice intelectual também!

    2. Insulto? Vê algum insulto?

      Refere-se ao “défice intelectual”?
      Lamento a sua interpretação errada. Ao invés do que pensa não é nada pessoal… hoje a política tornou-se demasiado demagógica porque basta as pessoas ouvirem o que querem ouvir para acreditarem em utopias… pensar, passou a ser demasiado trabalhoso… criticar, tornou-se bem mais fácil.

  6. «A Europa, essa Pátria que não conhece pátria, pode ser conversada mas não pode ser discutida, pode ser olhada mas não pode ser questionada, é o que se ouve nos salões, onde se treme de pavor perante a ideia de que o consenso se esfume.»

    Quando e onde é que a Europa não pode ser discutida? O que se mais faz e se tem feito é discutir a Europa. Fá-lo o Francisco Louçã e centenas de comentadores da nossa praça, e milhares de seus confrades por esta Europa fora, que até parece que fizeram disso profissão.

    Parece-me profundamente demagógico e populista insinuar que há uma espécie de forças malévolas que não deixam que a Europa seja discutida. Será que é muito difícil compreender e aceitar que a milhões de pessoas por esta Europa fora que querem a Europa como ela existe hoje em dia. Não têm também eles o direito de defenderem o projeto em que acreditam?

    Claro que para o BE, partido com vocação de vítima e que agora é um partido de poder, é necessário esse folclore de que forças malévolas conspiram e procuram silenciar a «o clamor do povo, o brado dos deserdados…» contra a Europa Mas que fita!

    Será que não percebe que aqueles que defendem a Europa e as suas políticas – e não são poucos – têm também direito a defenderem publicamente as suas ideias, ideias em que acreditam, sem que isso comporte qualquer forma de censura ou vontade de silenciar.

    Os europeístas convictos – é o meu caso – que eu saiba nunca censuraram as suas ideias do Francisco Louçã relativamente à Europa, ou da seus confrades, que eu saiba… Compreendo que seja muito útil ao BE esgrimir imaginários inimigos dos povos europeus, uma raça maléfica que assentou praça em Bruxelas, mas francamente, deixe-me que lhe diga, a demagogia tem limites, Francisco Louçã.

  7. A Europa que hoje é projectada no cenário internacional é uma Europa sem personalidade, sem liderança. Não existe meta, não existem objectivos visíveis. Os “líderes” são de quinta categoria, sem nenhum preparo, sem quaisquer capacidades de gerir nem uma tasca, sequer um grupo gigantesco de nações. É cada pais por si. Uma total falta de união.

    Os EUA continuam na liderança do mundo. No oriente temos a Rússia e China como destaques, a América do Sul e Central não existem e a Europa é apenas um servo dos EUA.

    1. Caro Nuno,
      Concordo com o que diz mas usou um péssimo exemplo para insultar esses incapazes que foi “não seriam capazes de gerir uma tasca”. Ora apesar de verdadeiro, não é bom exemplo porque efectivamente uma tasca é desafio grande de gestão. Vejamos: É um negócio centrado no trabalho e nos trabalhadores. A mercadoria adquirida para transformação é perecível e muda de qualidade a cada minuto que passa. Os preços da mercadoria adquirida flutuam diariamente às vezes escandalosamente o que obriga a uma boa carteira de fornecedores e há constante gestão dos mesmos. As margens são ridiculamente baixas e a exigência da clientela é altíssima a concorrência um mar. Se aplicasse as mesmas margens que tenho numa imperial vendida a 1euro (toda a gente acha razoável) venderia as iscas a 25euros(teria direito a notícias no jornal). É um exercício regulado até ao limite do credível. A qualquer momento homens armados podem entrar e fechar o negócio porque a cor da tábua do pão é azul, ou porque quem o corta não tirou os brincos. Apesar da recente complacência do IVA a taxação das tascas é altíssima comparado com outros negócios. E etc e etc e etc, paro por aqui para não chatear os leitores mas poderia escrever um livro. É um erro muito típico dos portugueses acharem que toda a gente é capaz de gerir uma tasca. É falso. São mesmo muito poucos aqueles que o conseguem com sucesso e todos eles antes de as abrir trabalharam longos anos no assunto. Tem complexidades que a maioria não sonha.

      Para a próxima dê exemplos como “não eram capazes de vender armas” ou “não seriam capazes de gerir um banco” ou mesmo “abrir um bar” que comparado com uma tasca é uma tarefa de caca.

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