Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Janeiro de 2016, 11:46

Por

Para ti, que só nos conhecemos nestas páginas

Disseram-nos, a ti e a mim, que esta eleição presidencial estava resolvida à partida e que, de qualquer modo, vale pouco. Disseram-nos que os poderes do presidente são escassos e, quando relevantes, devem ser reduzidos à cerimónia, ao protocolo, à gala. Disseram-nos que as candidaturas só querem que tudo acabe depressa e que o povo só anseia que alguém substitua o professor ao serão de domingo. E sabes que te querem levar à certa.

Não te falarei por isso de cada candidata ou candidato. Estamos à beira da votação, sabes o que penso e não teria cabimento neste espaço no PÚBLICO fazer qualquer prolongamento de campanha eleitoral. Escrevi aqui o que pensava sobre os temas importantes para nós todos e sobre os pontos fortes e fracos de cada candidatura sem excepção, dei a minha opinião, terás discordado ou concordado e assim seguiremos. Mas quero agora falar-te de outra coisa, que é de facto mais importante.

Não é da necessidade de irmos votar, isso vai de si. A democracia que desiste e que se aborrece é um insulto a quem passa dificuldades. Por isso tu e eu votamos para cuidarmos. Mas é ainda de outra coisa que te quero mesmo falar. É da escolha de como vivemos quando somos chamados a decidir.

Portugal tem um problema, os riscos de menorização do nosso país no concerto europeu. Tem ainda outro problema: uma elite gananciosa, agressiva nos seus privilégios de casta, arrogante na altura social. Os dois problemas juntos são um tormento. Eles fazem da política um vazio, uma tristeza arrastada, tantas vezes uma vileza, servida por gente sorumbática que acha que a pose de Estado é engolir um pau de vassoura e olhar de cima para baixo. O discurso é justificação, a ordem é acomodação, o mando é obediência, pois para esses Portugal é uma fatalidade.

Por isso a eleição presidencial é importante. A presidência conta: não viste como contava durante os 53 dias da crise pós-eleitoral de outubro e novembro? A presidência conta mesmo: já notaste quantos milhares de milhões custaram a Portugal as aventuras bancárias, a incúria do governador do Banco de Portugal e ninguém a defender um regime financeiro que proteja os depositantes e os contribuintes?

É preciso portanto coerência e firmeza. Cumprir compromissos e garantir regras. Mas para tudo isso é preciso mais, muito mais.

É preciso paixão. É preciso ouvir as pessoas. É preciso gostar da luta. É preciso alegria. É preciso um brilhozinho nos olhos e saber para onde se vai.

Vota e vota com o teu brilhozinho nos olhos, tu saberás o que o teu coração te dita.

Comentários

  1. Ontem fui ao cinema. A queda de Wall Street lá nos mostra uma vez mais como gente que nem parece gente, sem ter sido votada nem ter qualquer legitimidade, interfer, decide a vida de centenas de milhões de pessoas simples, confiantes, crédulas e certas de que, trabalhando, vivem seguros, protegidos por poderes responsáveis e sérios.

    Vê-se ali como os poderes eleitos e as personalidades legitimados unicamente servem para levar os cidadãos a acreditar, confiar, que tudo está bem e normal ao mesmo tempo que sabem que está a ruir o sistema tão seguro como um castelo de cartas.

    Eles, os que não precisam de ser votados fazem e desfazem como querem o que do dinheiro de quem trabalhou toda a vida para acabar na pobreza compulsiva.

    A democracia, como a que nos vendem não escrutina o poder que decide, apenas dá credibilidade a quem nos postos chave faz de conta que está tudo bem.

    Recentemente o Presidente da República Portuguesa fez esse papel de dizer que está tudo bem no BES e levar as pessoas comuns a lá enterrarem o seu dinheiro.

    O voto útil seria o que elegesse alguém que não fizesse esse frete aos gananciosos que nunca se sujeitam a votos e tudo decidem sobre as nossas vidas.

  2. O grande problema dos portugueses é que a “democracia” portuguesa só deixa escolher pessoas, quando o que é realmente importante é escolher leis, essas pessoas que alguns portugueses escolhem uma vez eleitas fazem o que querem não o que o povo quer, assim o povo não ordena nada, quem ordena é a cabeça dessas pessoas que foram eleitas que assim tomam o lugar de autênticos ditadores, daí o sentimento de grande parte do povo que não vota de que não vale a pena votar, porque na realidade o voto só serve para dar o tacho aos políticos, assim o que deveria ser uma democracia está transformada numa autentica ditadura disfarçada de democracia.

  3. Prezados senhores e amigos,

    Se nos debruçar-mos nos escritos que todos aqui nos deixam, verêmos com algum arregalar de olhos que todos escrevem bem direito e com verdade.Deparamos-nos aqui com opiniões divergentes, mas que no fundo todas convergem para o mesmo.
    Este mesmo, é, como nos todos sabemos, ” A democracia no nosso Portugal”.
    O povo Português, permitam-me que vos diga abertamente, nao é rancoroso, mas infelizmente é deficiente visual ou seja -cêgo. Passo a explicar:
    Como é que o Povo português pode esquecer os carrascos que têm tido ha décadas?
    Como é que o Povo Português pode perdoar aqueles que ha tantos anos lhes tem sugado o sangue?
    Como é que o Povo Português pode acreditar naqueles que ha dezenas de anos os tem enganado?
    Como é que o Povo Português pode enfrentar aqueles que ha mais de quarenta anos os tem vilipendiado?
    Meus caros senhores, O povo Português nao consegue desgarrar-se destas masmorras que nos todos dizemos chamar-se “Democratia.
    Numa democratia, E o Povo que decide,e escolhe os seus destinos. Ora em Portugal o povo tem votado por uns e por outros e todos esses outros falsearam e desrespeitaram esse mesmo Povo.
    Algumas vez o povo votou ou foi ouvido para que Portugal assinasse o tratado de Lisboa, Nice, Mastriche? … Ora bem meus senhores, estes tratados foram assinados à margem do parecer do Povo. Resultado disto? Foi aquilo que se viu e vê: Miséria, fome, privaçao de direitos, humilhaçao e desrespeito. Quem é que nos impoem estes valores? Meus caros senhores: “A UNIAO ECONOMICA EUROPEIA. Enquanto nao batermos com o pé e disser-mos basta, estes lembedores de botas da senhora Merkel que sao todos os eleitos ,tanto de direita como de equerda, et digo de esquerda porque a esquerda portuguêsa nao é capaz de dizer e assumir a evidência que Portugal tem que sair do Euro e da Europa para poder decidir dos seus propios destinos E restablecer a sua dignidade e o respeitodiginade. Deixo aqui entre parentes que o P.S. nem sequer é – contrariamente ao que dizem ser- um partido de esquerda.
    Em comclusao eu diria o seguinte: O povo português vive numa UTOPIA. e mais nada pode sugerir aos seus carrascos senao para o ajudar a subir para o cadafalso, porque depois de golhitonado a descida, fa-lo-a sozinho.

    Péço desculpa pelos erros ortograficos mas este texto foi escrito com um teclado regido pelas normas Francesas.
    Fernando

  4. Lindo texto! Por mim, vou votar. E até era para ganhar, mas, e é pena, não sei se ganharei, se ganharemos. Ocorre-me no entanto agora uma ideia, que aliás já tive há algum tempo, mas que só agora aqui exprimo, se não se importam. É a propósito da “tal de” União Europeia (as aspas são para me distanciar, peço desculpa, de quem tem uma posição a meu ver excessivamente crítica em relação à UE), é o seguinte: só a França e mais um ou dois gatos-pingados é que enviam às Cimeiras de Bruxelas o seu Presidente da República, para além do respetivo Primeiro-Ministro. Todos os outros Estados-Membros, incluindo Portugal, se limitam a enviar o seu Chefe do Governo. A pergunta que se coloca, e trata-se de uma sugestão de mudança em relação à situação atual, é a seguinte: por que é que doravante o futuro, ou a futura, Presidente português, ou portuguesa, não tomaria a decisão de acompanhar António Costa à Cimeiras de Bruxelas? Existe algum obstáculo que a tal se oponha? A existir, não pode ser transposto? Não se tratará apenas de uma questão de tradição? O nosso futuro, ou a nossa futura, maioral não pode ser timorato/a nessa matéria, deve ser ativo/a, interventivo/a, proativo/a, estar presente, dizer da sua lavra no Santo dos Santos da UE. Na realidade, trata-se aqui de muito mais do que uma simples sugestão: é um pedido.

    1. João Macedo, concordo consigo ao sublinhar a importância e a gravidade das políticas e instituições europeias, que prejudicaram a resposta à crise, se não é que a estimularam. Ao longo da semana voltarei a escrever sobre o tema, porque é ele que vai decidir do futuro, como se nota nas pressões da Comissão Europeia a propósito do esboço de Orçamento que começou a ser discutido.

  5. ola gostei do texto do professor e dos outros também.
    desculpem mas eu não faço mais parte deste circo
    cansei de tanta lenga-lenga que nos levou a este resultado
    como o planeta não se resume a esse cantinho então eu vivo e trabalho onde me respeitam como ser humano e alguém que produz que e útil no dia-a-dia
    nao me considero covarde ou derrotado apenas nao acredito mais nessa classe politica nao vou deixar que me levem o que resta os ossos
    boa sorte portugal

  6. gostei do texto do professor e dos outros.
    desculpem mas já não faço mais parte desse circo não me considero um derrotado nem um covarde apenas o planeta não se resume a esse cantinho por isso viverei onde me respeitam como ser humano como alguém que produz que e útil no seu dia -a- dia 40 anos de lenga lenga levou-nos a este estado por isso nao vou deixar levar também meus ossos boa sorte para portugal

  7. O “povão,” como alguns gostam de chamar-lhe, ainda está muito anestesiado. O ungido dos deuses andou muitos anos a catequiza-lo aos domingos à noite, nas mesmas televisões generalistas que o intoxicam de manhã à tarde, e de tarde à noite, com programas execráveis que o embrutecem e fragilizam irremediavelmente. É popular, como são populares os apresentadores de programas desses canais, os actores/actrizes de telenovelas rasteiras ou os protagonistas de reality-shows. Contra isto não se pode lutar, caro FL. Há que esperar mais uma geração, ou talvez mesmo duas, porque não há milagres. É claro que se pode ir abrindo uma ou outra brecha na engrenagem, mas pouco mais do que isso, helas! Por mim lá irei no domingo, com gosto, e nem era preciso pedir…

  8. Caro Francisco Louçã, lindas palavras, fiquei com “uma lágrima no canto do olho”.
    Sabe, o que é preciso é “Oliveira da Serra”!

    Não esse mas este: o azeite.
    Para olear a “geringonça”, senão só nos resta cantar o “fado”.

    João Albuquerque

  9. A resiliência das ideias que premiamos funda-se na insistência com que excluímos as ideias dos outros e com este aforismo conseguimos colá-las à ideia de fatalismo. Só que a ideia de que, ao fim de 40 anos de insistência na capacidade de a democracia produzir algo mais que conformismo e fatalismo de toda a espécie, se augure uma enésima vez a esperança de que algo mude, não passa de uma confirmação de que a sociedade obedece a ciclos repetitivos, sempre com os mesmos resultados e dos quais apenas a memória se apaga. Mas não é por isso que os homens deixam de participar na vida que se encena e desmonta, dia após dia, sugerindo a ilusão de que algo novo se constrói mas que no fundo sempre desmontamos para voltar a ter a ilusão de a viver, como realização, como vitória, como desafio, tudo se repete mas é isso que nos anima. Se votar participa activamente na montagem do espectáculo, não votar persiste na desmontagem do que se encena e neste dilema constante não há outra fatalidade senão a fatalidade ela mesma, que nos impõe de votar ou não votar para que a democracia seja de-facto.

  10. “Vota e vota com o teu brilhozinho nos olhos, tu saberás o que o teu coração te dita.” Mas podíamos votar para ganhar, ou não podíamos? Teria sido pedir demais? Tanto mais agora, que é necessário que ganhemos. Então por que não votamos para ganhar?

  11. É precisamente pelas razões apresentadas e outras, que não se deve votar se se quiser mudar alguma coisa. 40 anos de eleições levou-nos ao estado das coisas que refere. Quer mais? Se cada vez que comer marisco num determinado restaurante for parar ao hospital acha o sr professor que a solução é comer mais marisco no mesmo restaurante? Se a primeira vez me dei mal com as ostras a segunda com a lagosta a terceira com o camarao acha que hoje por tentar lavagante o resultado vai ser diferente?

    1. E o Adriano já tentou todos os “pratos”? Isso é que é coerência!!! Olhe, eu votei sempre nos que perderam!!! Isso sim….é ser coerente.

    2. Uma sugestão seria alterar a sua dieta, e deixar de fazer refeições exclusivamente à base de marisco. Penso que é essa reflexão que o Francisco nos queria deixar com o seu texto de hoje…

    3. Sim, o lavagante é muito melhor. É uma pena desistir agora que estaria pronto a escolher o melhor.

    4. Caro Adriano,
      Há um provérbio chinês que diz :

      « Não estamos derrotados enquanto não desistirmos».

    5. PSG, tem razão há que mudar de dieta, isso queria eu mas para isso temos de mudar de restaurante. Outro modelo. Aquele tipo de restaurante é uma marisqueira. Ou marisco ou prego e acabou. E funciona como se vê. Não é nenhum Ramiro. A amêijoa vem congelada.

      Paulo só – pode ter razão no que diz mas também pode estar errado. Coma o sr o lavagante se amanhã voltar de saúde eu como também.

      Isabel Gomes – há outro ditado chinês que diz “se mandares uma moeda ao ar 10 vezes e sair caras. Vai sair caras há 11” (isto é um provérbio chinês escusa de vir com probabilidades que bem sei que são acontecimentos independentes)

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