Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Janeiro de 2016, 11:28

Por

Os erros de Marcelo

É provável que as sondagens deste fim de semana continuem a afirmar uma vantagem de Marcelo Rebelo de Sousa a ponto de lhe darem uma vitória na primeira volta. Veremos se é assim. Mas as sondagens publicadas até agora, e presumo que as seguintes, não conseguem estabelecer nenhuma convicção razoável sobre os resultados eleitorais, nem sequer sobre uma decisão de primeira volta.

Enganos das sondagens

As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal, pela simples razão de que estão em curso mudanças importantes, como se verificou em Outubro. Recordo que a sondagem que é publicada mais regularmente afirmava, uma semana antes das eleições legislativas, que o PS estava à frente e que o Bloco ia baixar. Enganou-se em tudo.

Nas eleições presidenciais, esta dificuldade de inquirir o universo eleitoral agrava-se por outra incerteza: a abstenção é maior. Nas sondagens, as pessoas inquiridas, uma vez perguntadas, respondem de acordo com a sua preferência, mas tendem a ocultar se não vão votar, portanto as projecções são duvidosas. Se houver abstenção grande, em particular à direita, a possibilidade de uma segunda volta aumenta substancialmente.

De facto, o haver ou não haver uma segunda volta depende só de dois factores: se Marcelo consegue polarizar e levar à mesa de voto os eleitores de direita e de centro que com ele simpatizam, e se outros candidatos e candidatas conseguem mobilizar os seus apoiantes, evitando a ideia de que está tudo resolvido e não vale a pena, ou que as eleições presidenciais são indiferentes, ou que o cargo nada conta, ou, pior, que não há nada a fazer.

Todos contra Marcelo?

Por isso, a minha conclusão – e recomendação a quem disputa as eleições, que não Marcelo – é esta: ignorem a segunda volta, concentrem-se no que conta mesmo, que é o dia 24 de janeiro. Quanto mais falarem de segunda volta mais se afastam dos eleitores, mais se refugiam numa bolha de discurso político que enumera as conveniências próprias das candidaturas mas que nada tem que ver com a vida das pessoas.

O “todos contra Marcelo” ou “tudo contra Marcelo” é um favor a Marcelo, pois é duvidoso que mude a atitude dos outros eleitorados mas certamente ajuda a motivar os eleitores de direita e assim dispensa esse candidato de o procurar fazer, mantendo-o no conforto do seu discurso passeante e costista, como se nada fosse com ele.

O erro de Marcelo, que é o risco da sua campanha etérea, fica minorado se os temas políticos destas eleições forem esvaziados pelo enunciado dos cálculos de outros candidatos, se a conversa se reduzir a calculismos eleitorais sem destino nem proposta. Precisamos de ouvir o que cada candidato e candidata tem a dizer sobre Portugal, a Europa, a crise social, as alternativas. Só isso é que vale um voto.

As vulnerabilidades de Marcelo

Ao passar dos dias, Rebelo de Sousa mostrou duas vulnerabilidades. A principal apareceu nos debates, primeiro com Marisa e depois com Nóvoa.

Ele tem muita dificuldade em explicar o inexplicável, as suas frequentes mudanças de opinião sobre o mesmo tema no mesmo período, ou seja, um jogo de oportunidades. Que um comentador ou um político mude de opinião, é natural e só é errado se não tiver uma explicação honesta para as suas razões, mas que defenda deus e o diabo nos mesmos dias ou perante os mesmos casos já parece estranho. Ser volúvel, ou impreparado, é o que não queremos num presidente. A primeira vulnerabilidade de Marcelo é aparecer aos eleitores como sendo fácil e esse é o argumento mais forte para os seus adversários.

A segunda vulnerabilidade é a imagem de sobranceria da sua campanha, precisamente por que é muito popular. É claro que Marcelo entra no cangalheiro ou na farmácia, distribui toalhetes e beijos, comenta o treinador do Real Madrid e outras trivialidades como se fosse o tio rico da América que chegou à aldeia e que vem cumprimentar a parentela. Isso vai bem. Mas é só isso um presidente? Não suspeitará a senhora da funerária, a da farmácia, e a que recebeu o toalhete, que nunca mais vê o passarão depois de ele ser eleito? Ao não dizer nada sobre nada, excepto o penhor do seu amor pelo governo Costa, Marcelo esvazia a relação futura com os eleitores. Calado ou falando muito sobre nada, não se compromete com ninguém.

Ser popular é fácil. Mas Marcelo está assim a dizer que, nada dizendo, não leva a campanha muito a sério, que é simplesmente uma diversão ou uma maçada que tem que ser cumprida, à espera da recompensa inevitável.

Finalmente, está também a dizer que o seu conceito de presidente é o de um cônsul que, sem compromissos com os eleitores, fará o que lhe der na veneta em cada momento. Facilidade demais.

Nos únicos momentos em que fala de Portugal, Marcelo fala de Costa e de como apoia as medidas do governo a que se opôs durante a sua vida inteira. Espera irritar alguma direita, mas não ao ponto de perder os seus votos; espera conseguir seduzir algum centro, ao ponto de captar os seus votos. Mais uma vez, é calculismo e facilidade demais.

Portugal precisa de um ou uma presidente que não seja fácil.

Comentários

  1. Caro Doutor Louçã, Como democrata que é e dado ter voz nos media privilégio que não assiste a todos nós queria deixar um pedido para, pos eleições, introduzir na agenda da actualidade alguns temas: 1) Referendo à UE e EURO, 2) Se o UK sair da UE não deveria haver um debate sobre se faz sentido ter obrigações militares na UE e ao mesmo tempo honrar o tratado de Greenwich. Neste momento não se vislumbram conflitos bélicos na Europa Ocidental mas em Politica e Estratégia tem de pensar se a longo prazo, 3) A resoluçao 2a parte do BES que parece justa mas que ao ser feita tao tardiamente pode ser considerada uma decisão retroativa. Ha muitas pessoas indignidadas com o Banif mas ao mesmo tempo muito aflitas porque os investidores dos mercados financeiros estao a dizer raios e coriscos do País. Há que ser coerente. Uma resoluçao em que 1o perdem os accionistas, em 2o perdem os credores juniores, em 3o perdem os credores seniores, e ao mesmo tempo o contribuinte so assegura os depositos garantidos parece bastante ajuizada. Ha risco nos mercados e parece e que alguns investidores querem é mama. Mesmo os depositos acima de 100 mil euros nao estao garantidos e provavelmente estao ao mesmo nivel dos obrigacionistas seniores a nao ser que se mude a lei. Na decisão do BES a unica coisa que parece muito errada errada é uma decisão fora de tempo. Se a divida mudou de mãos no mercado secundario apos a 1a resoluçao parece ilegal agora vir tomar uma decisao retroativa. Tambem é estranho deixar depositos acima de 100 mil euros fora isto sem uma lei que os proteja. Em alguns Países subiram o limite da garantia para 200 mil mas em todo o lado so os depositos ate um valor estao garantidos. Que se suba o limite, que se altere a lei, que seja tudo claro mas que se evitem decisoes avulso e adhoc em funçao do que uma pessoa decide… Tem de haver 1 lei coerente e transparente e segui la. Temo que este envolvimento do BES ainda va custar dinheiro aos contribuintes por ter sido tomada tardiamente. Acho estranho dois fatos. 1) os altos dirigentes do BOP que fazem esta trampa ainda estao nos seus lugares, 2) o actual governo mostra se contra atribuir perdas aos obrigacionistas seniores … Sendo assim quem pagaria eram os contribuintes. Afinal que governo de esquerda é este?

  2. O marcelo ganhou isto com uma perna às costas, nada mais fácil do que visitar alguns lugares e esperar pelo funeral do adversário moribundo.

  3. Pois é, mas o problema são os favores que o Marcelo terá de pagar aos agentes dos partidos que o apoiam. Ou pensam que o fazem desinteressadamente? Nisso, o Novoa está muito mais à vontade.

  4. Continuo sem saber onde estão publicadas as ditas cujas sondagens de 2016…. Com respectiva folha técnica como manda a lei.

  5. “Por isso, a minha conclusão – e recomendação a quem disputa as eleições…”

    Caro Louçã, convenhamos, quantas eleições é que já ganhou neste país? De onde é que lhe vem essa autoridade para recomendar? Do seu currículo como político?

    Um professor universitário é um treinador de bancada. Não tente passar o treinador de bancada da bancada saloia que é a universidade. O resultado é sempre mau. Quando não é mau para o próprio é pior para o país.

    Marcelo e Nóvoa são a demonstração da nulidade e miséria cultural, características da bancada universitária. A mesma bancada de onde veio Cavaco e um tal de Salazar. A bancada universitária deveria começar a ter alguma vergonha na cara.

    1. o Senhor com o seu comentario disse tudo Marcelo e companhia e a miseria cultural de todos os politicos politicos portugueses

  6. Professor Doutor Francisco Louçã,
    Não discuto (publicamente) política por dever profissional.
    Mas discuto questões profissionais. Por imperativo democrático.
    Espanta-me que um professor de ciência económica afirme, sem provar, que “As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal…”. Para tal serve-se de uma única sondagem. Falando de cátedra, mas de curto alcance, como prova. Eu diria, utilizando as suas funções docentes, insuficiente, muito insuficiente. E, infelizmente, faltando à verdade.
    Orgulho-me de participar na direção de sondagens que são publicadas com a mesma regularidade do que aquela que refere e, penso, há mais tempo, na medida em que, em órgãos de comunicação diferentes, já ultrapassámos as duzentas sondagens mensais. Boa série, Prof. Doutor Francisco Louçã.
    Curiosamente, temos mantido uma consistência nos resultados apresentados, com algumas (raríssimas) exceções que confirmam a regra. Sugiro que consulte a tese de doutoramento na Universidade Complutense do Prof António Belo (ESCS de Lisboa) sobre estas matérias e, particularmente, sobre o desempenho das sondagens da AXIMAGE (período 2001 – 2011).
    Quanto ao período posterior poderá fazer essa pesquisa sem grande esforço, de pesquisa ou intelectual.
    Para poupar algum trabalho, lembro que nas legislativas a que se refere, bem no início de Setembro, antecipávamos, com mais do que razoável precisão, o resultado final. O que nos valeu algumas críticas ferozes (e infundadas) de pessoas que até considero do ponto de vista intelectual (que não do científico nestas matérias), como Pacheco Pereira. E, na sondagem que antecedeu o “fecho” do período de divulgação ficámos mesmo “em cima” da realidade.
    Peço-lhe, por isso, por favor, para bem de quem o lê, e no da sua própria reputação enquanto académico, que não utilize como argumentos “realidades autoprojetadas” que não correspondem à realidade verificada e verificável.

    1. Agradeço o comentário do responsável da Aximage. Escusava de fazer comentários insultuosos e pessoais, fica-lhe muito mal.
      Mas compreendeu a que me referia: ao exemplo que dei da sondagem antes das eleições legislativas (ou podia referir as sondagens na Grécia, no Reino Unido ou outras que têm registado a mesma perplexidade). Acho que não vale a pena contar a história de sucesso, as paisagens eleitorais mudam e isso perturba as sondagens como não podia deixar de ser, sobretudo quando a abstenção é muito grande.

  7. O calculismo e a facilidade demais, analisados pelo Prof. Louçã, no discurso da campanha presidencial de Marcelo, são um momento de um abissal processo de mediação politica ” escolhido ” pelo candidato apoiado pela direita parlamentar.Trata-se no modus operando marcelista de uma instrumentalização arriscada e perigosa de um processo de julgamento apoditico- subliminarmente referido/usado como universal e de necessidade absoluta- quje pretende agenciar todos os vectores do imaginário da direita moderna:afecto, consenso e o falso patriotismo da classe dominante. E isso pode funcionar de ujma forma perversa soberana e vencedora, como se viu, há algumas semanas atràs, pelas reacções expressas por alguns dos membros do programa da Sic-N, o Eixo do Mal…

  8. Entao os Portugueses ja olharem bem para esse trafulha do Marcelo nada diz sobre o futuro de Portugal nem dos Portugueses ,nao tem ideias , esse palhaco ja à varios anos naTV à iludir os Portugueses que ate pensa que ja ganhou as eleicoes ,com um présidente toleirao como esse tinha vergonha de ser Portugues ja vimos o que deu Cavaco .

  9. resumindo continuamos com falta de politicos.continuo a espera para que meu tempo ao ir votar seja bem gasto para mim e claro todos estas conversas pra boi dormir nao me levam a assembleia de voto

  10. Isto está tão mau de candidatos, mas tão mau, que até desejo que o oportunista do Marcelo, o popularucho, intriguista, fala barato, hiperactivo, criador de factos políticos, o esquerdista grouxo marxista, etc & so on… ganhe de cabazada para nos poupar à continuação deste martírio. Oxalá as sondagens anunciem uma votação massiva no figurão para que eu possa, sem culpa, pôr uma cruz ao calhas num dos outros. Espero é que não pensem todos como eu….

  11. As sondagens prestam-se a manipulações, é verdade, mas apenas dentro de certos limites. Marcelo, em principio devia ter não mais que 41% de intenções de voto (34 + 7, psd-cds). A possibilidade de uma vitória à primeira volta com mais de 50% é por isso alarmante. Por um lado evidencia a completa burrice do eleitorado depois de dose dupla de cavaco, como, também, demonstra a incompetência de uma alternativa credível à tendência para a burrice portuguesa na hora do voto. Depois nunca ninguém votou… na asneira. O que concluo é que as candidaturas devem ser muito , mas mesmo muito mais vigorosas no alerta para essa possibilidade.

  12. Para além de alguma falta de verificação (e.g. “As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal”), o Francisco Louçã barra qualquer comentário que eventualmente não agrade. Independentemente da forma de escrita. Mesmo que tenha sido sustentado, ponderado e escrito com cuidado.

    A tolerância a opiniões diversas é realmente avaliada nestas situações.

    Quando a opinião é diferente, é calada. É isto diferente do que se fazia antigamente?

  13. Concordo que “todos contra Marcelo” pode muito bem terminar com a vitória de Marcelo. Contudo, depois de ler o seu artigo, concluo que está a fazer o que critica aos outros candidatos: um ataque cerrado, mesmo que inteligente, a Marcelo.

    1. Tem razão, critico a base, a orientação e o curso da candidatura de Marcelo e faço-o da forma que me parece mais forte. Não é assim o debate democrático?

    2. Sim, eu considero Francisco Louçã democrata. Porém, pergunto se a sua crítica teria a mesma forma, caso as circunstâncias fossem outras. Não terá que ver com o facto de Marcelo ter mais simpatizantes nalguns sectores do povo que vota à esquerda do que seria desejável? Ser democrata não significa ser isento. Isso, acho que ninguém é. Eu voto em Marcelo e penso que vencerá. Contudo, se ele não se tivesse candidatado, votaria, provavelmente, em Maria de Belém. Quer seja Marcelo, Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa a ganharem as eleições, a Vida continua. Acho que cada um deles está à altura. Espero que ganhe o melhor para Portugal. Acho que isto é Democracia!

  14. Marcelo é muito Malandreco! Vejamos:

    1. Ainda era bebé, nem falava, e logo foi escolher para padrinho Marcelo Caetano;
    2. Só que, depois, lá para 1972, começou a dizer mal do padrinho, quer na SEDES, quer no jornal Expresso, de que foi um dos fundadores e que então era um semanário muito lido e até liderava a oposição a Marcelo Caetano (não sei o que é que em 1973 o Nóvoa, a Maria de Belém e os outros candidatos a PR andavam então a fazer);
    3. Entretanto, o malandreco do Marcelo teve o atrevimento de ser o melhor aluno da Faculdade de Direito e desde há 30 anos que é lá um dos seus mais brilhantes professores catedráticos;
    4. Mas o malandreco Marcelo fez pior: entre 1975-76 foi um dos mais brilhantes deputados à Assembleia Constituinte;
    5. Pior ainda, o malandreco Marcelo foi um dos pilares das importantes revisões constitucionais de 1982 (acabou com o Conselho da Revolução) e a de 1987 (foi dele a proposta de reduzir os deputados para os atuais 230, que, diga-se, ainda são muitos);
    6. Mais, como presidente do PSD e líder da oposição, não só viabilizou três OEs ao governo PS de A. Guterres, como até, vejam lá o atrevimento do malandreco Marcelo, apoiou a adesão de Portugal ao euro! (continuo a não me lembrar do que andaram a fazer então os outros 9 candidatos a PR…);
    7. Começou então Marcelo uma carreira como comentador político, na TVI e RTP, mas tudo porque Sócrates não tinha sentido de humor e conseguiu correr com ele da TVI. Foi então contratado pela RTP, mas, por igual falta de humor, Santana Lopes correu com ele e lá voltou o malandreco Marcelo para a TVI, onde logrou bater todos os recordes de audiência;
    8. Será por tudo quanto antecede que temos os outros 9 candidatos a PR quase todos os dias a dizer mal dele? Serão invejosos do malandreco Marcelo?
    Apesar disso, surpreendentemente, há por aí muita gente a dizer que ele é o melhor candidato a PR! Mas o importante é que todos votem – e votem bem – em 24/1. Por Portugal!

    1. Professor de direito vindo das graças do Estado Novo que se tornou político e, posteriormente, estrela de televisão. Vê ? Não há nada como um bom resumo para facilitar a vida às pessoas. E já agora, o que tem a ver a “biografia” de Marcelo com o comentário de Francisco Louçã ? É para “inchar” o Marcelo perante os outros candidatos ?

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