Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

6 de Janeiro de 2016, 10:45

Por

A trama do Banif adensa-se

Na sua detalhada análise das contas disponíveis do Banif, Ricardo Cabral apresentou aqui no blog as seguintes conclusões:

“1. Se as contas do Banif estavam ‘limpinhas e direitinhas’, como defende o antigo presidente do banco, então, após a resolução, utilizando estimativas conservadoras, os capitais próprios do antigo Banif aumentariam para 3,6 mil milhões de euros e os rácios de capital CET1 para cerca de 40%, ou seja, 5 vezes os rácios mínimos legalmente obrigatórios – algo similar ocorre mesmo que existam imparidades adicionais significativas no balanço.

2. A informação que foi tornada pública é, posto isto, insuficiente, porque oculta as razões e formas da intervenção e as suas consequências;

3. O Santander compra um banco supercapitalizado pagando muito menos do que o valor contabilístico do banco – a intervenção parece ter sido desenhada para recapitalizar o Santander em alguns milhares de milhões de euros;

4. É estranho que a Direcção Geral da Concorrência da Comissão Europeia, após uma análise que necessariamente demorou menos de um dia afirme que não existe ajuda estatal ao Santander e que, afinal, a ajuda estatal ao Banif, de 1100 milhões de euros, concedida em Janeiro de 2013, era legal, três dias depois de ter declarado que tinha dúvidas se essa ajuda teria sido legal.”

Estas conclusões são gigantescas e chamo a atenção dos leitores para o seu significado.

Elas demonstram que a operação imposta pela Comissão Europeia, com a intervenção do Banco de Portugal e a aprovação do governo, tinha um objectivo bem definido: beneficiar o Santander. Sabe-se entretanto que as autoridades europeias afastaram todos os outros concorrentes e que a proposta do Santander era inferior a outras. O Santander ganhou tudo o que queria da forma mais fácil.

E ficou com um banco com um rácio de capital que anda pelos 40%, comprado a preço inferior ao seu valor contabilístico. Foi a lotaria de Natal, emitida com um só número e vendida ao cliente preferido, que tinha portanto a certeza de ganhar.

Ora, isto tem quatro consequências políticas.

A primeira é que torna mais surpreendente a corrida de muitos candidatos presidenciais para apoiarem esta decisão, com as mais estranhas justificações (não havia outra hipótese, dou o benefício da dúvida, acredito no governo, aceito a escolha do Banco de Portugal, venham elas de Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Edgar Silva).

A segunda é que o governo, se não sabia, tem agora uma oportunidade de corrigir e reverter a sua decisão, ou de impor ao Santander novas condições.

A terceira é que o Banco de Portugal fica mais uma vez exposto num negócio de contornos preocupantes. O governador tinha aceite a sugestão da ministra das finanças do governo anterior de evitar qualquer intervenção antes das eleições, o que constitui uma falha grave dos seus deveres, e agora completou o processo com uma intervenção errada e prejudicial.

A quarta é que a Comissão Europeia é o que é.

As quatro conclusões políticas merecem ser discutidas em toda a sua implicação.

Comentários

  1. FL e RC ( 2- economistas -2) comentam a resolução do Banif. São ambos enfáticos a constatar que o Banif mostrava râcios de solvabilidade “elevadíssimos”. Daí concluem ser manifestamente incompreensível, i.e., errada , a medida.
    Caros professores Louca e Cabral:
    Colômbia Uni – Barnard School – Money and Banking – Perry Mehrling ( também do INET )
    ” Solvancy gives you a headache.
    Liquidity ( the lack of it) kills you quick” .
    Ou voltando a Portugal :
    João dos Santos ( psicanalista, pedoterapeuta, pedagogo ) :
    ” se não sabe porque pergunta?”

  2. Caro Francisco,
    A análise está correta em todos os prismas, no entanto peca pela falta de um dado que ajuda a esclarecer alguma da confusão à volta deste negócio (ruinoso e apressado).

    Mesmo que tivesse sido, como foi, aceite o “desenho” de Bruxelas que permite ao Santander (e, indiretamente, ao Estado Espanhol) um “balão de oxigénio”, poderia ter existido um menor impacto direto nas contas públicas Portuguesas, se a intervenção tivesse sido assacada essencialmente ao “fundo de resolução” e menos ao Estado diretamente.
    No entanto, esta medida, que teria sido a mais correta do ponto de vista técnico, não foi possível, por uma razão assustadora: nenhum Banco do sistema, nem mesmo a CGD, aguentaria este impacto nas suas contas.

    Era a falência técnica de todo o sistema, com a perda do estatuto de contrapartes do BCE e, como tal, o “colapso final”.

    Se, este cenário dantesco, ocorreu com um Banco de dimensão média baixa, ficam duas questões que nos deveriam preocupar a sério:

    1) Como vai ser com o próximo?

    2) Será possível que seja só incompetência do BdP? Ou começa a configurar outros contornos mais incomodativos?

    1. Tudo certo, mas é de considerar que a dimensão da intervenção é injustificada, como aqui demonstrou o Ricardo Cabral. Os números do BdP estão errados.

  3. Estas são as consequências de um sistema financeiro que tem todas as cartas na mão e face ao qual a vontade das populações e de governos democraticamente eleitos são autênticos reféns. Qual a quota parte de responsabilidade dos maiores acionistas do BCE nesta solução quase obrigatória? O que fica verdadeiramente em causa e em risco, se Portugal por intermédio do seu governo denunciar o negócio com o Santander e procurar alternativas que não sejam tão onerosas para os cofres públicos e para a economia nacional. Quando será que é a hora de mais um governo eleito democraticamente dizer que o rei vai nu? Que consequências pode isso trazer. É sem dúvida este o campo de batalha que coloca frente a frente a democracia e a ditadura de uma finança que manipula a seu belo prazer e em seu proveito, as instituições, a riqueza e a própria liberdade.

  4. Quanto ao BANIF a decisão deste governo em aceitar este processo parece absolutamente vergonhosa. Foram excluídos potenciais accionistas por não terem licença bancária??? Isto é ridículo pois o Banco depois de propriamente capitalizado continuaria com a sua licença. Estes investidores são accionistas de outros Bancos mas foram impedidos de o ser no caso do BANIF. Além do mais, porque não se esperou por 2016 e efectuar a resolução do Banco em que a recapitalizaçao ou resolução definitiva seria feita à custa dos credores acima de 100 mil eur e accionistas e não da República já que o capital foi perdido da mesma forma mas evitava se uma nova injeçao de capital. O negócio parece ter sido desenhado com 2 objectivos, 1) dar uma prenda ao santander que até se livra do risco de 2 mil milhoes de eur de activos (belas negociatas, assim também eu, mais uma PPP encapotada), 2) safar o pilim de alguns amigalhaços da Madeira e dos Açores. E já agora, ninguém tem culpa de nada? Se as contas estavam limpas então este governo tem de ser criminalizado por actos danosos, se as contas como parece ser o caso estavam sujas então há fraude. Ninguém assume responsabilidades pelas contas fraudulentas? Auditor, ROC, Conselho Administração? Tudo é permitido neste País a quem usa colarinho branco… E a notícia na TVI? Não há um processo crime contra esta estaçao de TV? Os Reguladores e a AR em matéria de mercados financeiros são completamente incompetentes ou coniventes com estes crimes na alta esfera financeira.

  5. O que é verdadeiramente estranho é o governo e os deputados da maioria na AR submeterem se às ordens dos Burocratas Europeus e de Instituições Europeias que zelam pelos interesses de alguns Países e não de outros. Tal como um bando de cordeirinhos bem mandados aceitam todas as decisões que vêm da UE mesmo que sejam prejudiciais ao País. É lamentável que partidos que defendem a Democracia noutros Países não aproveitem esta altura para exigir um referendo à UE.

  6. PS = PSD = CDS = ladrões = corruptos = maçonaria = máfia = clientela = boys = lobbies = miséria de Portugal e dos portugueses (lamechas, clubistas e amnésicos há 38 anos).

  7. As interrogações do Ricardo Cabral e as suas conclusões não só chegam a ser preocupantes, porque pôem a descoberto as dependências do BP e as debilidades da actuação apressada do governo de Costa, que adoptou como menos má, a solução desenhada em Bruxelas.A aplicação da política do TINA , não foi abandonada e, pela forma apressada como foi desenhada e concretizada a solução, que demorou quase um ano e sucessivas recusas de Bruxelas só são possíveis duas conclusões, ou o governo foi precipitado na apreciação e com a intenção de diminuir prejuízos para a instituição e evitar a corrida aos depósitos depois da notícia posta a correr pelo CM, acabou por morder o isco ou, a solução aplicada será o princípio de perda completa da já reduzida autonomia e margem de manobra, nas futuras soluções para o NB, sendo a nacionalização dos prejuízos a única contrapartida que é aceite por Bruxelas.

  8. O que é animador nas finanças da UE é que não só o Eurogrupo não tem existência oficial, mas também as regras e dicisões da Comissão são feitas à medida, como antigamente nos bons alfaiates. A chamada Troika também não tem residência fixa, mas talvez o BCE, através do Victor Constâncio, possa ajudar a esclarecer esses mistérios. Suponho que ele tenha ouvido falar nesse banco em algum momento da sua carreira. Ou a Elisa Ferreira, do Parlamento Europeu. É a tal história, já nos habituámos a pagar, mas pelo menos gostaríamos de saber qual a razão para tentar evitar a repetição do fenómeno. Mas assim é muito difícil: não só não sabemos a causa, mas também o remédio vem sem a bula. E os governos ainda podemos apeá-los na eleições, mas como apear a Direção Geral da Concorrência?

  9. eu gosto de ouvrir o Senhor porque sabe o que dis penso ate que ao nivel dos politico deve haver muito poucos com a sua sabedaria . mas venho pour este meio nao falar do seu comentario. mas sim desse parvo do Ronaldo quando e que ele deixa de ser arrogante de andar a mostrar na internet o seu bem estar e toda a sua familia de atrasados porque essas pessoas esquecerem.se pour complète que ja forem pobres . uma parte dos portugueses que sofrem na pele com a crise e aqueles que estao na miseria devem pensar que esse menino babado esta à gozar com eles .

    1. José, continue a acreditar que foi concepção imaculada, vá buscar a burra e fuja para a bola. É doutrinário que a parvoíce traz felicidade, mas não confie senão o Herodes… lixa-o.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo