Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

23 de Dezembro de 2015, 08:26

Por

Quer mesmo saber como meter uns milhões ao bolso?

Esteja atento, é a primeira recomendação. Mas se tiver amigos, eles avisam-no. Actue depressa: se souber de um banco em vias de se afundar e cuja direcção faça hoje ao início da tarde um comunicado a anunciar que tem um comprador, tudo a correr sobre rodas, mande comprar acções desse banco ao fim da manhã e venda antes do fecho da sessão. Não gaste muito, não há mercado para isso. Cem mil euros. Ganha em três horas cinquenta mil. Não é mau, também não teve muito trabalho, dá para o fim de semana.

Para ganhar milhões e não ninharias, é preciso ter outro estofo. É preciso sobretudo endividar-se muito. Esteja sempre preparado, crie empresas e grandes negócios a tempo, evite registá-los em Porto Rico, ficou com má fama depois de ter sido muito gasto, mas Ilhas do Canal, Bahamas, Delaware ou Vanuatu, tudo serve. E peça crédito bancário, muito. Depois, comunique ao seu amigo na administração que a coisa correu mal, ele vai declarar que o crédito é incobrável, assunto arrumado, tudo entre cavalheiros. A beleza de passar de uma rubrica para outra é esta, não tem que pagar o crédito que é um débito. Se for accionista, melhor ainda, eles mal olham para a ficha e “xotor porque é que se há-de incomodar”. Foi assim no BCP e é a regra de ouro entre as pessoas responsáveis deste país. Somos uns para os outros, com classe.

Quando souber que o banco vai ser intervencionado, agora diz-se “resolvido”, mexa-se ainda mais depressa. Dívidas e dívidas, endivide muito as suas empresas da constelação Ilhas do Canal-Bahamas-Delaware-Vanuatu, os negócios dos últimos dias são os melhores. Vai tudo desaparecer na voragem, o Estado vai pagar isso tudo, vai incluir a sua dívida no “banco mau” e nos seus incobráveis, e vai portanto compensar o capital que falta ao “banco bom”. A sua dívida é um “activo” que foi desactivado.

Pode ainda fazer um contrato com o Estado, uma parceria. Garante um serviço e eles pagam uma renda. Muita uva para pouca parra. Ou uma privatização, sobretudo se for uma empresa rentista de um monopólio, mas isso vai rareando e é preciso muitos amigos muito amigos. A TAP está uma maçada, os transportes de Lisboa e Porto uma arrelia. Não se meta nisso para já, vá pelo seguro, o débito que é crédito é o melhor, garanto-lhe.

Recomece sempre. A vida é uma aventura, viver não custa, o que custa é saber viver. E não se esqueça, não dê entrevistas enquanto o problema está quente, fala-se demais nesses dias, mas, mal passar a excitação dos plebeus, pode voltar a aconselhar as autoridades sobre as medidas para reforçar a credibilidade da economia. Bonomia, boa disposição, é isso que vale milhões e recomece sempre.

Comentários

  1. O Estado não está a defender os rendimentos das pessoas responsáveis pelas práticas que descreve acima. Esses rendimentos, salvo arresto judicial, posterior processo e pagamento de indemnizações, já estão garantidos. Assim como estão garantidos os prémios dos gestores (salvo o dito processo judicial) e os dividendos dos acionistas (muitos dos quais provavelmente se livraram das suas ações em bom tempo). Está, isso sim, a garantir as poupanças de emigrantes e a salvaguardar as perdas eventuais de depositantes públicos. Entre duas soluções más (resolução ou liquidação) que são aquelas permitidas pela legislação comunitária atual, o Governo escolheu a menos má. Eu também preferiria a solução que o Governo anterior deveria ter adotado há anos, integração do BANIF na CGD. Quanto à questão da penalização dos ‘grandes depositantes’, 100 mil Euros não é um grande montante. Basta ver o caso, descrito pelo JN, de um carpinteiro português de 44 anos, emigrante na Suíça, que perdeu 300 mil Euros em veículos tóxicos do BES, banco em que o Estado tinha empenhado a sua palavra (o que quer que pensemos de Passos e de Cavaco, eles foram eleitos pelo Povo). Convém não esquecer que o Estado sustenta a Banca também para proteger as poupanças da classe média, que alimenta o Estado Social com os seus impostos. Seria bom que nesta Guerra, a Esquerda identificasse bem quem são os adversários e quem são as vítimas… Não se reduz o risco moral fazendo estas últimas pagar os desmandos dos primeiros… Senão, as vítimas acabam a votar na Direita ou na Extrema-Direita (já tem acontecido)…

  2. f, aquela famosa equação da moeda de Keynes, durante muitos anos não foi levada sério, o motivo especulação estava la, a questão era que se habia especulação e as coisas andavam para o torto, a quantidade moeda de oferta diminuia e a taxa de juro aumentava, a quantidade de moeda para rendimentos diminuia com efeitos recessivos, a toda uma argumentação de keynes sobre a rigidez da taxa de juro com padrão ouro que nas condições actuis de moeda fiduciaria se tornam mais complicadas, a taxa nominal desce mas a taxa real tende a ser rígida quando os preços tendem a diminuir mais, obstaculizando a politica monetária . Um efeito benéfico aumento da oferta esta limitada pela prefência da liquidez, o quantitive ease não consegue ser o único impulso para a economia real, funciona mais é limitado, e ha o problema justamente da especulação, a actual e a passada, boa parte do aumento da oferta monetária vai para equilibrar os balanços provocados pelos investimentos financeiros especulativos, que o diga o Berardo, pouco se transmite para a economia real, so forçando com um aumento da procura de moeda por parte do governo, mas esse caminho esta limitado com o Tratado Orçamental, os alivios são urgentes. A teoria de Keyes parece aplicável, embora ela não contempla a amizade entre especuladores e donos de bancos, entre donos de bancos e ministros e entre ministro e a divindade capitalista que arrastra a todos para a pobreza e deixa os palacios em festas radiantes. Os amantes do dinheiros não deberian ser apenas tratados por Freud, como alguma vez dize o Keynes, mas pelo Beria tal é o estado da minha indignação,

  3. Falta saber se os cofres do PS e dos seus amigalhaços vão ficar cheios… Parece-me que esta é uma solução para salvar amigalhaços e meter algum ao bolso. Para terminar, àqueles que se sentem indignados com esta situação, façam um exame de consciência e perguntem em quem votaram… se calhar encontram aí os culpados.

  4. Caro Francisco Loução. A título de declaração de interesses sou um chamado “neo-liberal” e já trocámos impressões por estas bandas. Só que desta vez estamos totalmente alinhados. Tenho no entanto de lhe deixar a minha apreensão pela forma muito modesta como o “seu” Bloco tem deixado passar esta situação sem ter partido muito mais loiça. Daqui por uns dias já se poderiam aplicar as novas regras de bail-in que exigem participação nos depósitos mais elevados. Como pode a esquerda permitir que o contribuinte tenha de pagar as perdas de um negócio entre privados?

  5. O problema persiste e não se vislumbra vontade de montar a guarda. Todos se esmeram a denegrir a incúria dos gestores e a ganância dos actores, mas ninguém aponta o dedo à política, essa que ouve prontamente os desejos da finança e das corporações e permite, muitas vezes de forma tácita, que eles façam a lei quando lhes convém e a denunciem quando lhes causa afronta. O problema parece estar na postura política que, por arredada que está da tomada de decisão, acaba a fazer o papel de bombeiro nas investidas da finança. O problema é político e se nos acobardamos quando enxergamos que quem governa é a economia, acabamos a eleger corporações de vigaristas dissimulados que, por não estarem obrigados à prestação de contas em responsabilidade civil, exercem funções públicas como se estivessem em lua-de-mel, ninguém sabe o que fazem, porque o fazem ou se o fazem e mais grave ainda, não pedem factura do que fazem, por isso ninguém consegue medir as consequências nem o custo de tal liberdade. O problema é político, veja-se a abrangência que os delitos descrevem, ela diz-nos que a teia tem o seu epicentro nos governos e o seu atractor na passividade dos cidadãos que descarregam no voto uma procuração de irresponsabilidade.

  6. Escreve lindamente. No entanto, o Bloco acabou de mostrar, na AR, que é um Partido do regime instalado que é tão criticado pelo Professor Louçã.

    Para não prejudicar um restaurante onde um “sôtor engravatado” come à bruta e não paga, o Bloco apresenta a conta a quem nunca entrou, nunca comeu e não tinha dívidas nesse restaurante.

    Ao chamar a atenção para a vítima (o restaurante) que “não pode ficar prejudicada”, todos esquecem quem comeu sem pagar.

    É muito conveniente e mostra de forma cristalina o País violento e perigoso em que vivemos. Ainda falam da Coreia do Norte…

    1. Talvez convenha saber do que fala. A esquerda rejeitou o orçamento que “apresenta a conta a quem nunca entrou”. Parece que foi o PSD quem apoiou esse orçamento, o que aliás se compreende porque é, com o CDS, responsável por ele.

    2. Escrevi antes da votação. No entanto mantém-se a conclusão. Entendimentos com Gangsters tornam-nos Gangsters.

    3. Ou seja, seja de uma forma ou o seu contrário está sempre certo. Abençoados os que têm sempre razão, qualquer que seja a razão.

    4. Está enganado (tal como eu estava): o sentido foi precisamente o oposto porque a votação ainda não tinha terminado. Entretanto eu já tinha escrito uma correcção.

  7. Eu sei como ficar rico em Potugal:é fundar um banco(e não assalta-lo,porque isso é uma maçada faz-se muito barulho com botijas de gás),ter amigos “para sempre”,e mandar lixar os contribuintes.e as eleições.e não falar por estes dias(certo malta da cds e psd que acabam de dar um valente Paf nos portugueses.Parabens)

  8. Caro Louçã, como suposto estudioso de fenómenos feirantes deveria estar contente com a mudança estrutural que se está a dar. Afinal é um passo histórico que está a decorrer.

    Os banqueiros fazem empréstimos para os seus amigos (chamados de investidores) não pagarem. Depois apresentam a conta para os contribuintes pagarem esse dinheiro dado aos amigos. Banqueiros e investidores (ditos “mercados”) ganham dinheiro e os contribuintes ganham uma dívida para terem uma razão para trabalharem a vida toda. É um sistema que deveria agradar a todos: os “mercados” gostam e dão uma razão aos que defendem o mantimento da condição de trabalhador aplicada aos cidadãos.

    À parte o folclore, observa-se uma mudança estrutural do papel do estado. Deixou de ter o papel de redistribuir o dinheiro e passou a ter o papel de concentrar o dinheiro nos “mercados financeiros”. A deflação é o resultado deste novo papel, o dinheiro é simplesmente retirado do mercado não financeiro pelos estados.

    Há outro ponto interessante, com este esquema o “capitalismo financeiro” deixou de precisar da feira de mercadorias (ditos mercados não financeiros). Se é o contribuinte que paga, e não o cliente, então deixou de ser necessária a chatice dos trabalhadores, feira de mercadorias e afins coisas poluentes. Finalmente o capitalismo viu-se livre dessa coisa dos clientes, trabalhadores e feiras.

    Portanto com este sistema, do estado ser cobrador de rendas do “capitalismo financeiro”, o estado provoca deflação, retira as valias das operações de mercado não financeiro e, para finalizar, torna impossível a prática de operações de mercado não financeiro. Tem piada o capitalismo ser o principal destruidor da “economia de mercado”.

    Há também o sarcasmo divertido dos arautos da “economia de mercado”. Dizem as criaturas universitárias que é necessário salvar este sistema (de pagar o dinheiro que os banqueiros dão aos amigos) para não haver um risco sistémico. Quando salvar bancos é o principal risco sistémico para toda a “economia de mercado”.

    Como se pode observar hoje este “capitalismo financeiro” só produz deflação/desemprego/recessão e inviabiliza paulatinamente a prática da dita “economia de mercado”. A bandalheira do sector financeiro é um caso menor comparado com o destruição estrutural que a solução dos arautos universitários provoca. Há que dar mérito aos universitários, são constantes na ignorância ao longo de toda a história da sua existência.

    São tempos interessantes, pode ser que ainda venhamos a tempo de ver o colapso dessa vivência medieval, em torno da insalubre feira, a aturar vontades de feirantes, universitários ignorantes (passo a redundância), alquimistas do lixo (comunidade científica) e boçais cães de feirante (trabalhadores).

  9. Está na altura de ser criada uma força de investigação que investigue e publique a lista de pessoas e empresas que atuaram dessa forma. Eu como contribuinte, exijo saber quem são os responsáveis pela falência dos bancos que fui obrigado a resgatar.

    1. Essa força de investigação está ao alcance do BE. O BE tem hoje condições únicas para fiscalizar o governo por dentro. Nada de comissões de inquérito. Falo mesmo em forçar a entrada nos gabinetes ministeriais para ler todos os dossiers e começar a chamar os bois pelos nomes. Tem uma verdadeira oportunidade histórica de denunciar os cruzamentos de interesses e cumplicidades do centrão. Tem uma oportunidade histórica de fazer ruir este regime podre. Se tiver que ser, que reclame lugares nos gabinetes ministeriais. Aposto que em menos de nada veríamos o PS e PSD formalmente alinhados na defesa das respectivas clientelas. Esta negociata, uma vez mais, tem como principal objectivo salvar uns quantos e ocultar informação do povo. Basta-me ouvir Alberto João Jardim a elogiar a medida para ficar desconfiado. Para a questão do dia, o BE tem condições para dar resposta.

    2. Não entendo a resposta de F. Louçã. Este está farto de saber que TODOS os bancos Portugueses, e não só, estavam á partida falídos. A aposta desmesurada, com apoio fiscal do estado, ao imobiliario resulta nisto sempre. Para a direita capitalista, é o preço do desenvolvimento. Para os comunistas obviamente, é um roubo, e não os censuro por assim pensarem, mas só a estes aceito este veredicto.

    3. Exactamente, se o nosso dinheiro vai ser usado para pagar empréstimos que outros contraíram e para pagar depósitos milionários, eu tenho direito de saber quem são. Isto é um caso que os jornalistas devem investigar e divulgar.

    4. Mas será que é preciso o contribuinte chegar ao ponto de exigir essa Lista de empresas e pessoas envolvidas nessa fraude?
      Qual é o papel do Banco de Portugal e Ministério Público? O que andam estas instituições a fazer? Porque razão continua em funções o Dr. Carlos Costa este senhor já devia ter sido destituído pelo BCE, parece-me que não só as instituições nacionais como também europeias perderam a credibilidade… O que o contribuinte pode fazer? Manifestações… servem de alguma coisa? Soluções?

  10. Análise implacável, certeira e corajosa,dr. Louçã. Talvez fosse curial acrescentar, objectivamente, a derrota clamorosa -ética,politica e moral – que os escrfibas videirinhos da galáxia neo-conservadora de o Observador sofreram com a revelação de mais este ” cambalacho” politico-financeiro em múltiplas dimensões.. Resta saber o que irá fazer o governo…depois de aprovado o projecto de resolução.Enrolar-se em retóricas com estafado estilo burocrático e cedências psicóticas à miserável lógica do T.I.N.A.(there is no alternative) ?

  11. Caro Francisco Louçã, o que descreve são as maneiras “legais” de ficar rico. Principalmente os banqueiros!
    Há outras maneiras de ficar rico, também “legais”! Principalmente os políticos corruptos!

    E há mais políticos que banqueiros.

    Aproveito para lhe desejar um Bom Natal e para o felicitar pela nomeação para Conselheiro de Estado.
    Espero que os seus “conselhos” ao PR não sejam norteados por ideologias políticas mas sim que se traduzam em conselhos a Bem da Nação.

    João Albuquerque

  12. Eu não sei como é que ainda há pessoas em Portugal que defendem que os bancos comerciais, donos dos nossos depósitos, não devem ser públicos.

    Como é possível, termos um Presidente que foi acionista do BPN, outro banco falido, ainda vir acusar os outros de radicalismo ideológico, quando foi ele próprio que privatizou os bancos, nos anos 80, àquelas famílias com poucos escrúpulos!!??

  13. Quer mesmo saber como meter uns milhões ao bolso?
    Ponha as suas poupanças a render no banco que pague melhor. Quando falir o contribuinte paga. Os bancos que faliram tinham os produtos mais bem remunerados, na tentativa de se financiarem, ou por burla. Uma boa parte dos prejuízos são para pagar estes depositos de bem mais de 100000 Euros.

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