Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

11 de Dezembro de 2015, 15:00

Por

Baptismo de fogo

O XXI Governo Constitucional tomou posse há exactamente duas semanas e um dia e tem muito para fazer:

– Impedir que o défice de 2015 ultrapasse os 3% do PIB

Como se sabe o défice “namora” os 3% do PIB mas pelo lado do excesso, pelo que o Ministro das Finanças (MF) acaba de anunciar medidas extraordinárias;

– Convencer o Eurogrupo (céptico) a aprovar a sua estratégia orçamental;

O MF comprometeu-se, na recente reunião de apresentação no Eurogrupo, a entregar no início de Janeiro de 2016 um projecto de OE 2016 que respeite as regras orçamentais europeias;

– Convencer a agência de rating DBRS a manter o rating da dívida da República;

– Beneficia do preço do petróleo em queda e do 2º programa de expansão quantitativa do BCE, mas, à semelhança do anterior governo, enfrenta bolsas e mercados cambiais instáveis, com, por exemplo, desvalorizações sucessivas da moeda chinesa;

– Resolver o caso Novo Banco:

O plano do Novo Banco, tendo em vista a melhoria dos rácios de capital de 1400 milhões de euros, foi submetido ao BCE e, aparentemente, será o Banco de Portugal a conduzir o respectivo processo de reestruturação e reprivatização.

O Novo Banco tem 9 meses para cumprir as exigências do BCE: atendendo à sua dimensão e relevância esse cumprimento terá certamente um elevado impacto económico, financeiro e até social no País;

– Como reaver os 1100 milhões de euros de dinheiros públicos “investidos” no Banif?

As acções do Banif caem a pique e este tem problemas em devolver os 1100 milhões de euros dos contribuintes nele aplicado pelo anterior governo.

 

Entretanto notícias recentes sobre “recentes” privatizações darão que pensar:

– O multimilionário dono da Fosun “está incontactável” – na China “andam a desaparecer” (multi)milionários aparentemente em resultado do crash bolsista nesse País –; de acordo com alguma imprensa chinesa, citada por jornais internacionais, o gestor terá sido detido pelas autoridades; as acções da Fosun foram ontem suspensas na bolsa de Hong-Kong (após forte queda) e a dívida do grupo Fosun, em dólares com maturidade em 2020 e taxa de juro (cupão) de 6,875%, caiu ontem cerca de 15%; ora a Fosun é a principal accionista da Fidelidade, a maior seguradora a operar em Portugal. A Fidelidade tinha adquirido 1100 milhões de euros de dívida de uma subsidiária da Fosun com sede num paraíso fiscal, maturidade em 2023 e taxa de juro de 3,38%. Aparentemente, a Fidelidade já vendeu parte dessa dívida. Mas, se ainda tiver próximo de mil milhões de euros de dívida da Fosun (e se essa dívida for contabilizada ao preço de mercado) o dia de ontem poderá ter reduzido os capitais próprios da Fidelidade em mais de 150 milhões de euros, numa assentada só. (E a Fidelidade já se tinha comprometido antes disso a realizar um aumento de capital).

– Um dos concorrentes à privatização da TAP queixou-se da forma como o anterior processo de privatização foi conduzido e, em particular, das “garantias estatais” oferecidas ao concorrente vencedor: afirma que se soubesse que as condições do caderno de encargos iriam ser alteradas nesse ponto, não teria abandonado o processo da privatização –  como tinha argumentado em post anterior. O governo PSD-CDS e os compradores da empresa arranjaram forma de “armadilhar” o negócio de modo a ser muito difícil revertê-lo (nomeadamente, antecipando a injecção de capital e comprometendo logo parte desse capital, mesmo antes da posse do novo governo). A trapalhada da privatização da TAP, creio, não acabou aqui… .

Para já, é certo que o novo governo tem nas mãos alguns “bicos de obra”…

Comentários

  1. Prova de fogo? Eu diria banho de realismo.
    O governo tem mais que largar de vez o tom eleitoralista e governar.
    Cedo gastou o primeiro joker: culpar a gestão anterior. Agora tem mais é que mostrar como se faz.

  2. Ricardo Cabral: acho que esta a exagerar. Portugal passou por muito pior em 2011 aquando da pre-bancarrota e, o anterior governo juntamente com os Portugueses, resolveram o problema. O pais hoje, comparado com 2011 esta numa muito melhor posicao para resolver os problemas que tem. Nao tem a troika com revisoes de 3 em 3 meses. Nao tem juros a 7-8%. Nao tem o defice a 11%. Tem problemas, Claro, como sempre teve. Mas nao e precisa muita sorte nem talento para gerir as coisas bem. Claro que nao ha dinheiro para as tudo quilo que o Dr Antonio Costa sugere que se faca. Mas ainda bem.
    Com todo o respeito, se apelida o que este governo tem que fazer de “prova de fogo”, qual e (foi) a sua opiniao sobre o que o anterior fez nos ultimos 4 anos? E important que os Portugueses sejam justos na avaliacao do desempenho dos governantes. E exagerar nas dificulades nao e bom, para todos nos.

    1. Sr. afa ( a propósito: pertence aos célebres afas descendentes dos duques da Garra que, por casamento com os afas, deram a ilustre família dos Garra-afas! Não posso estar enganado, pois não?): é difícil não compartir o seu estado de felicidade. Que país tão lindo, meu deus! Fosun, Banif, tudo se resolverá, é claro! Não deixemos que tais detalhes do destino estraguem a nossa enorme e cuniculática felicidade! O problema deste país é os que nunca estão satisfeitos! Quanto a mim, basta-me respirar o santo ar da varanda, ouvindo a suave brisa que parece mansamente murmurar “paf!..paf…paf… para ficar em místico êxtase! Mas afa, tenho de concordar que nem todos estão embrenhados neste transe. Há tipos como este Sr. Cabral que estragam um pouco o ambiente. Oh! Meu Deus, até quando?

  3. A Fidelidade foi vendida a um “multimilionario” que desapareceu? a minha alma esta parva.Vou fazer o mesmo,acho que pago impostos a mais,portanto lá para Abril…desapareço.Ou se calhar,é já hoje.Cambada de malucos…

    1. Joao Lopes: porque esta preocupado com o facto de alguem que investiu 1000 milhoes em Portugal ter fugido? Nao vejo qual e o problema. O dinheiro ja ca esta. Se a empresa fechar abrira outra. Nao ficaremos sem seguradoras, certo?
      E um assunto privado. Investiu em Portugal. Deixou gestors (portugueses) a gerir a empresa e fugiu para a China. Optimo. Qual e o problema. Nao consigo perceber.

    2. errado sr afa
      a fidelidade foi vendida por mil milhoes de euros à fosun
      os novos donos da fidelidade (fosun) fizeram-na logo a seguir comprar 1100 milhoes de divida da fosun (a eles próprios)
      Na prática compraram uma seguradora e ainda lucraram 100 milhores, pois a divida da aquisição foi toda transferida para a empresa
      uma bela negociata à la PAF que defraudou escandalosamente os contribuintes

      entretanto se a seguradora falir, deve dar um belo bico de obra

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