Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

2 de Dezembro de 2015, 08:56

Por

Não há nada como uma casaca alinhada e dar graças ao Altissimo (em latim)

espadaO mais garboso dos cronistas da nossa imprensa, o decano que todos aspiramos a imitar um dia, o guia que dirigiu a nossa lenta e ponderada reconversão ao liberalismo, ao conservadorismo, aos bons costumes e à Santa Madre Igreja, numa palavra, ao gentlemanship, João Carlos Espada, dedicou um luminoso escrito ao escândalo que foi a não-comemoração do 25 de Novembro.

Indignado (mas solene, como um cavalheiro), Espada reagiu à provocação da esquerda como só um estadista sabe fazer: voou para Londres. Ele explica: “Quando soube que o nosso Parlamento não ia assinalar a efeméride, decidi comemorá-la numa atmosfera ocidental. Rumei a Londres, capital da resistência ao nazismo e ao comunismo no século XX, sede da mais antiga democracia parlamentar do planeta.”

Chegado a Londres e exprimindo a sua indignação pela falta da efeméride, fez o que faz um estadista que vai a Londres exprimir a sua indignação: foi jantar. “Foi no Oxford & Cambridge Club que, na terça-feira passada, participei em (mais um) jantar de comemoração dos 50 anos da morte de Churchill, a 24 de Janeiro de 1965. (…) No final, brindámos à memória de Churchill… e à Rainha. No início do jantar, tínhamos dado graças a Deus, de pé e em latim, pela refeição que íamos ter.” E espero que também pela salvação das nossas almas, porque encomendados em latim é muito mais salvífico.

Continuou Espada a mostrar a sua indignação e, portanto, a jantar. “Fui entretanto a Oxford, assistir a um debate, na Oxford Union, a imponente Associação de Estudantes (de que sou, orgulhosamente, “life member”). Como habitualmente, foi precedido de jantar, de “smoking”. Os líderes masculinos da Associação de Estudantes, como manda a tradição, estavam de casaca. A líder feminina de vestido comprido. De novo agradecemos a Deus a refeição, de pé e em latim, antes do jantar. De novo brindámos de pé, no final, com um excelente Porto: à Associação de Estudantes, aos oradores convidados e… à Rainha.”

Repararam na subtil distinção, no primeiro jantar as graças foram dadas pela refeição, com brindes por Churchill e pela Rainha, no segundo jantar foram pela Associação, de que Espada é “life member” pois claro, pelos oradores e pela Rainha. Sempre em latim e de pé.

Espada continua. Na sua afirmação de indignação pelo desrespeito pela efeméride, prosseguiu indignado, agora de volta a Lisboa. Explica ele: “De regresso a Lisboa, na sexta-feira, participei na 4ª edição do Lisbon Strategy Forum, promovido pelo Embaixador da Polónia, Bronislaw Misztal. Foi uma celebração da NATO e dos valores ocidentais que ela protege. (…) Vinte embaixadores de países da NATO participaram no evento e no almoço que o encerrou.”

Portanto, de terça a sexta-feira, dois jantares e um almoço, tudo em prol da afirmação da novembridade. No entanto, repararam o risco que corremos, a ameaça da dissolução dos bons costumes: no almoço da NATO, logo a NATO, a nossa defesa, a nossa espada, não se deram graças a Deus, de pé e em latim.

Acho que estamos perdidos.

Comentários

  1. Depois de ler todos os posts chego à seguinte conclusão: o Prof. Louçã foi certeiro e os posts são elegantes e bem escritos na generalidade. O Espada tem de perceber que escrever à segunda-feira no PÚBLICO exige algo mais do que simples baboseira liberal. Nem é a questão do 25 de Novembro: o Espada julga que está num país de parolos. O Espada é estúpido, no sentido do artigo que esta semana foi publicado neste Jornal, acerca de um estudo elaborado por um académico da Hungria: sobrevaloriza as suas próprias capacidades(desprezando por acréscimo as capacidades dos outros). É o mais alto grau de estupidez.

  2. Nos almoços da NATO nunca se dão graças a Deus. Quanto muito, permite-se que Deus dê graças à NATO. É uma questão de hierarquia.

  3. E diz Espada:”Um dia alguém vai ter de me explicar por que motivo um dos nossos políticos mais bem preparados — Durão Barroso — não é candidato à Presidência da República”. Sir Espada, vossa alteza não desanime! Ainda é possível! O prazo de candidatura só termina a 24 de Dezembro. Tal como em 2004 recebeu de presente o cargo de Presidente da Comissão Europeia, talvez o Pai Natal lhe ponha as 7500 assinaturas no sapatinho. E até lhe ofereça as renas para o transportarem ao Tribunal Constitucional (qual a admiração? O candidato Vieira já lá foi de burro…)

  4. Espada encontra em Londres uma atmosfera occidental ?
    Uma cidade onde mais de metade da população não é nem branca nem Britânica ?
    Onde não entra a “esquerdalha”?
    Mas nas eleições de Maio o Partido Trabalhista ganhou quase todas a circunscrições, (Westminster & Chelsea, uma excepção), e o candidato mais bem posicionado para ser eleito Mayor em 2016 é…Sadiq Khan, Paquistanês e Muçulmano !
    Espada entrou num verdadeiro time warp e desembarcou nos anos 50 onde vive feliz e para sempre a sua doce ilusão.
    Ah é verdade, a palavra “bimbo” entrou na lingua Inglesa, (a man or fellow, often a disreputable or contemptible one ).
    Terá o empertigado Espada tido alguma responsabilidade ?

  5. Espada é inconfundivel. Como Maistre traiu a Revolução que o empregou. Trabalhos maquiavélicos…
    A ” elevação ” é tão supersónica que, de alguns anos a esta parte, se confiou a um Deus.

  6. Louçã pensa que tem piada e goza com o latim, mas quando o ouço, noto sempre um jeito padreco no falar. Será uma vocação frustrada?

  7. É sempre comovente ver o luso nativo pregar loas à ‘impoluta’ democracia britânica. Fica-se até com a sensação de que o jugo sobre a Irlanda foi cometido por outro povo; que o abate a sangue frio de multidões desarmadas na Índia, ocorreram apenas no cinema; que a caça ao aborígene australiano (e ‘caça’ não é uma hipérbole, é o termo mais próximo do que ocorreu sobre uma etnia que os britânicos demoraram a considerar pertencer à raça humana) é uma mistificação, e que não é a Grã-Bretanha a campeã das desigualdades sociais entre as nações mais ricas da Europa. É comovente, mas, sobretudo, embaraçoso que alguns portugueses se prestem a ser a quota mínima que aos povos ‘inferiores’ os Britânicos de gema (os tais do white tie e do Port wine ) sempre guardam um lugar à mesa, em nome da sua grandeza imperial. A verdade, a verdade, é que até em smoking e debitando latim este luso-tipo é representativo de uma certa saloiice nacional.

    1. Grande Maria Couto desde já a minha concordância e simpatia, como se pode ver desde há pouco mais de uma década começou a brotar uma estirpe de Churchilleiros que já nem sei bem se são uma geração espontânea ou se são organismos geneticamente modificados por grandes “engenheiros” da ideologia e da psicologia como os Paulos Portas desta vida, que de resto foi o primeiro de que me recordo a passar a evocar sistematicamente Churchill. Muitos desses Churchilleiros conhecem a história, os outros apenas conhecem a faceta de resistência ao nazismo e ao comunismo a que os primeiros decidiram dar enfoque para criar esta nova religião, é pena, se o pessoal procurasse mais informação genuína fora do sistema seja ele qual for, o povo aqui e noutras latitudes andaria certamente mais bem informado sobre o que é o quê, haveria certamente menos papagaios e infinitamente menos gente de má índole a decidir sobre os destinos da humanidade.

    2. Excelente comentário minha cara. Emproado e pobre de ideias, mas com um ideário semelhante . Fica a pergunta..Quem será que pagou os jantarinhos, a viagem e os smokings? Espero que nao seja eu e os do costume. Que paneleirices, como se diz nas Caldas da Rainha, aquela terra onde a ceramica e a olaria se exprimem como alguns de nós gostaríamos e nao podemos…

  8. Sobre a chinesice do tal de Espada, estamos conversados. Mas que dizer de um professor que se dedica a ir buscar as atoardas do dito e faz crónica com isso? Qual o fim? Só se for para mostrar aos indígenas que até mesmo um credenciado político (a avaliar pelos cargos que exerceu como consultor de antigo e atual PR) tem dias maus. Mas quem os não tem? Louçã que o diga! Hoje foi na mouche. E com tanto assunto sério para tratar, santo Deus!

    1. Não peça a quem passou a vida na intifada que construa um castelo com as pedras. É como pedir ao sol que nasça a poente.

  9. Por momentos julguei que o Fancisco iria mencionar as iguarias e o solar de que o seu camarada Varoufakis faz tanto alarde na imprensa cor de rosa, nos intervalos das suas narrativas em defesa dos pobrezinhos…

  10. A Espada falta-lhe aquilo que apesar de tudo os Britânicos (sobretudo os Conservadores) têm: ironia, sentido do ridículo e capacidade de se rirem de si próprios. Eles divertem-se imenso com os ‘indígenas’ provincianos (oriundos das mais diversas paragens) que periodicamente os visitam e que pensam que lá porque fazem brindes à Rainha e entoam orações em Latim (na tradição da ‘High Anglican Church’, imagino) já fazem parte da família. Será que Espada vê o ‘Downton Abbey’?Infelizmente, em Portugal, ele não é caso único…

  11. Eu nem quero imaginar onde esta gente irá comemorar o 25 de Abril, se é que ainda se lembram dessa data.

    Ou então até sei. Deve ter recebido também o mesmo SMS, quando o PSD-CDS decidiram por esta estrondosa Moção de Rejeição ao novo governo:

    “Para a Mealhada, já, e em força. Francisco Assis”.

  12. Levei uma manhã à procura do currículo do Sr. Prof. Espada, mas a culpa foi minha: procurei nos cursos das escolas de hotelaria, dadas as suas tendências gastronómicas. Afinal o senhor é professor de Política na Universidade Católica, onde leciona entre um jantar e outro. Segundo o seu colega César das Neves, não há almoços grátis, mas jantares parece que sim. Ou pelo menos com desconto de 50% nos jantares da Churchill Society, como ele próprio revelou.
    Quanto aos queixumes pela não-comemoração do 25 de Novembro creio que o problema é que era impossível: já ninguém se lembra do que se passou. A começar pelo próprio: no seu currículo, a sua intervenção cívica e política só começou em 1986. Se calhar estava à procura de quem o lembrasse de onde andava onze anos antes. Talvez uns comprimidos e umas terapias de regressão lhe avivem a memória, já que todos teríamos a ganhar se revelasse qual foi a sua posição política na reunião do Comité Central do Partido Comunista (Reconstruído) que decorreu por esses dias. Se fez um discurso Curchilliano ou de outro dos que estão sentados naquele “poster” de Ialta. E se estava de smoking ou de t-shirt e sapatilhas. Parecem simples curiosidades mas nós, os liberais somos assim.
    Na crónica, expressa ainda os seus receios de que os “camaradinhas” do Bloco e do PCP proíbam os agradecimentos de pé e em latim. Este receio é fundado: uma aturada pesquisa nos programas eleitorais permitiram-me descobrir que o Bloco é pela extinção imediata do Latim (já tem até um projeto de lei nesse sentido simbolicamente redigido em Sânscrito) e o PCP pretende criminalizar os agradecimentos à mesa. E, por influência de ambos, consta mesmo do Programa do Governo PS a proibição de qualquer pessoa se levantar de uma mesa de refeição sem ser para ir trabalhar (com a medida pretende-se, penso eu, contrariar uma tendência muito comum nos nossos jovens, o que é moralmente muito louvável). E já se fala da proibição da casaca! Tem razão Espada em pedir uma intervenção imediata da NATO.Ou estamos mesmo perdidos

  13. Eu estou perdido:sera este o novo filme dos Monty Python? um ex pctp mrpp vai para Londres e janta com a rainha…vou já telefonar ao Palin.Afinal o mundo não esta perdido…

    1. Não sei se o sujeito era do PCTP-MRPP, mas a ter sido não há motivo algum para espanto. Há uma prevalência de direitolas (sem aspas) com origem na esquerda revolucionária. Parece um fenómeno comum quando ascendem na escada do poder. O caso paradigmático é o Durão Barroso.

      https://www.youtube.com/watch?v=QvsYS4xX8oU (afinal era apenas fome pela sobremesa alheia)

      Alberto Caeiro

      Ontem o pregador de verdades dele

      Falou outra vez comigo.

      Falou do sofrimento das classes que trabalham

      (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).

      Falou da injustiça de uns terem dinheiro,

      E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,

      Ou se é só fome da sobremesa alheia.

  14. Brilhante. Adorei. Os seus dotes literários não são de deitar fora. Não estou a ser irónica. Ainda não parei de rir. :)

    Melhores cumprimentos, Sr. Prof. Louçã
    raquel

  15. Mais um que acabará dentro de poucos anos numa reserva natural perto da vila de Cuba (no Alentejo) a lutar heroicamente com a sua espada com os sobreiros-com-cabeças-de-António-Costa-devoradores-de-crianças. O que nos vale é o Alentejo ser grande, tolerante e pouco povoado…

  16. Amen
    Sempre gostei de ouvir essas figuras ímpares da Igreja – o SACRISTÃO
    Só com o que ouviam aos priores pareciam dominar mais e melhor o Latim da época.
    Alguns até tinham passado pelo Seminário e tinham aquele ar e aquele modo sacerdotal.
    Obrigado por me ter recordado essas figuras

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