Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

19 de Novembro de 2015, 00:25

Por

Quanto custou afinal a resolução do BES?

O BES, no final de 2013, era um banco com activos de 80,6 mil milhões de euros, 7 mil milhões de euros de capitais próprios e dívida subordinada de cerca de mil milhões de euros. A 11 de Junho de 2014, realizou um aumento de capital de cerca de mil milhões de euros.

Depois de perdas de 3,6 mil milhões de euros no primeiro semestre de 2014, anunciadas no final de Julho, o Conselho de Administração do Banco de Portugal determina a aplicação de uma resolução bancária a 3 de Agosto de 2014.

A resolução bancária impôs perdas totais aos accionistas, a credores subordinados e a alguns outros credores do BES (e.g., depósitos de administradores do BES).[1] Em Dezembro, mas retroactivamente a 3 de Agosto de 2014, como se sabe, o Banco de Portugal passou do Novo Banco para o BES, uma dívida de 834 milhões de euros a uma sociedade da Goldman Sachs. Além disso, o Fundo de Resolução injectou 4,9 mil milhões de euros no Novo Banco que, contabilizando os itens acima descritos, foi criado com cerca de 72,3 mil milhões de euros de activos.

Note-se que cerca de 2,8 mil milhões de euros desses activos eram (e são) créditos fiscais concedidos pelo erário público, por conta dos prejuízos registados pelo BES. E que aparentemente em resultado dos prejuízos registados em 2014 pelo BES, o Novo Banco pôde contabilizar mais 1,8 mil milhões de euros de activos por impostos diferidos, quando comparado com o que o BES detinha no balanço no final de 2013.

Ou seja, num banco com 80,6 mil milhões de euros de activos a 31 de Dezembro de 2013, estima-se que a reestruturação do passivo do BES, os créditos fiscais e a injecção de capital no Novo Banco somem cerca de 17 mil milhões de euros.[2]

Não será essa a dimensão das perdas contabilísticas registadas por privados, erário público e Fundo de Resolução no processo que culminou com a resolução do BES. Mas é possível estimar as perdas a partir desse valor: se, por exemplo,  o Novo Banco tivesse sido “vendido” por 3 mil milhões de euros – como pretendia o Banco de Portugal e, note-se, não foi possível privatizar o Novo Banco a esse preço -, as perdas contabilísticas desses agentes económicos teriam sido de cerca de 14 mil milhões de euros (=17-3).

Desde Agosto de 2014, o Novo Banco tem vindo a reduzir a dimensão do seu balanço, nomeadamente vendendo activos, perdoando créditos (aceitando reestruturar a dívida de clientes) e ainda reduzindo as suas disponibilidades líquidas. Os activos do Novo Banco diminuem 10,5 mil milhões de euros entre Agosto de 2014 e Junho de 2015. Mas desse montante, cerca de 6,8 mil milhões de euros explicam-se por um perdão de dívida ao BES Angola de perto de 3 mil milhões de euros e o restante por redução do dinheiro em caixa, esta última expectável dada a normalização da situação do Novo Banco.

E agora, apenas 15 meses passados sobre a data da resolução, um teste de stress do Banco Central Europeu indica que o Novo Banco não tem capital suficiente e que têm de ser injectados mais 1,4 mil milhões de euros de capital nesse banco.

Como é que se pode compreender que após a realização, a 3 de Agosto de 2014, da resolução bancária especial no BES, que culminou numa reestruturação (redução) dos passivos do BES e em perdas globais que provavelmente estarão em torno dos 14 mil milhões de euros, seja agora necessária nova injecção de capital no Novo Banco de cerca de 1,4 mil milhões de euros?

Um erro de 10% nas contas?

 

 

 

 

[1] Os “lesados do BES” não estão neste grupo de credores.

[2] O balanço do banco alterou-se muito durante este período, nomeadamente, com saídas de depósitos, venda de activos e o registo de elevados prejuízos. Por isso, estima-se a reestruturação do balanço do banco adicionando as perdas imputadas a credores (~2,3 mil milhões de euros) e accionistas (~8 mil milhões de euros), à injecção de capital no Novo Banco (4,9 mil milhões de euros) e à variação dos activos por impostos diferidos (+1,8 mil milhões de euros), i.e., 17=1+1,3+7+1+4,9+1,8.

 

Comentários

  1. como é possivel um habitual e permanente comentador economico e entrevistador da SIC ter manifestado a sua opinião
    dizendo que o NÃO de PPC a Ricardo Salgado tinha sido a coisa mais acertada que viu fazer a PPC ???!!!

  2. Caro Ricardo e HS então os portugueses ainda Estao a salvo,então n começaram já a contribuir? Entao o que é FR? É alguma empresa,instituição, ligada ao BCE?n tem de pagar impostos em Portugal?só serve p descarregar lixo tóxico financeiro! Acabem com essa demagogia, o FR é português,foi criado p Portugal e com dinheiro dos contribuintes, diretamente e indiretamente! Quem injetou o dinheiro? Foi o estado ,que o vai pagar? Os bancos, e como? Com o dinheiro que eram para pagar os impostos das mais valias que fazem todos os dias,logo o estado vai receber menos dinheiro dessas empresas financeiras, logo os contribuintes são lesados
    Se o FR fosse a salvação, ainda n vos passou por a cabeça que essa dita alma tinha descoberto a salvação das dívidas.
    FR p segundo.social,FR p reformas, FR p TAP, FR p empresas construção civil e etc,etc.
    N sejam demagogos, o FR é mais 1 nacionalização só contrário encapotada

    1. HS

      Como deveria ter sido feito ?
      Na giria , dir-se-ia ” atempadamente pegar o boi pelos cornos” e o não deixar tanto tempo à solta …

    2. Atempadamente nao existe em tempo de crise. A questao, que se saiba, era o que fazer quando a casa ja estava a arder.

  3. Convenhamos caro Ricardo Cabral que um desvio de 10% nas contas, como diz, não choca ninguém que tenha noção da magnitude desta situação, e dos prejuízos que o Novibanco tem vindo a registar consecutivamente desde há mais de um ano. Na verdade, apesar de eu não dispor dos números, é bem possível que esses prejuízos desde 1 de Julho de 2014 sejam um valor muito próximo dos 1.400 milhões do reforço exigido.

    Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é só o começo. Também seria interessante esmiuçar a evolução das contas do Novibanco no que respeita a novo crédito concedido ao Estado (todo), a empresas privadas e a particulares desde 2014, e comparar esses números com os relativos à gestão privada do GES. Digamos que não me surpreenderia, isto para não dizer mais, descobrir que o Novibanco é agora mais uma fonte de empréstimos para o nosso Estado falido e seus satélites vorazes. A resolução do Banco Espírito Santo é uma história muito mal contada, e que faz lembrar a máxima de que a História é escrita pelos vencedores. Aflige-me o misto de ingenuidade e de credulidade com que jornalistas, especialistas e depois todos os outros ouvem as palavras “santas” que emanam dos políticos e autoridades bancárias. Só a conversa de chacha com que nos garantiram que o BES não tinha sido nacionalizado dava para vários programas de humor.

  4. Se so as perdas com o BES Angola (“perdao de divida”, ocorrido apos a resoluçao) foram de 3 mil milhoes nao causa grande espanto que os recentes testes de stress tenham apurado defice de capital de 1,4 mil M. Este defice nao tem necessariamente de ser suprido com injeçao de dinheiro fresco; vai certamente ser pelo menos em parte remediado atraves de vendas de activos, com lucro. Se nova injeçao de capital for necessaria julgo que sera de novo a cargo do Fundo de resoluçao. Em resposta a alguns comentarios abaixo, julgo que ainda é cedo para saber se a resolucao vai acarretar perdas para o sistema bancario/FR. Ainda nao é uma inevitabilidade. Actualmente o contribuinte nao esta diretamente exposto a perdas, mas seria afetado se o estado tivesse de injetar dinheiro na CGD em consequencia de defice de capital causado por perdas do FR. Mas este é tb o preço a pagar pelo facto da Caixa ser banco publico, no qual de resto o estado tem injetado boa maquia de dinheiro nos ultimos vinte anos e bem antes da crise.

    1. Caro HS,

      O BdP tinha dúvidas sobre a qualidade do empréstimo ao BESA e por essa razão inicialmente o empréstimo permaneceu no BES. Só depois foi transferido para o Novo Banco e essa transferência na prática resulta num aumento dos capitais próprios do Novo Banco, mesmo só recuperando 5% do total do empréstimo.

      Parece-me que a operação foi subdimensionada à partida.

    2. A historia do emprestimo ao BESA é de facto o episodio mais surrealista da saga do BES e nunca vi nenhuma explicaçao cabal do BP ou da administraçao do NB sobre i) o misterio dos creditos que eram dados como tendo garantia do estado angolano mas que depois deixaram de ter (quando garantias de credito so sao dadas a operaçoes concretas) ! Ii) porque razao o NB nao pode acionar a garantia iii) porquê o acordo “amigavel” com o estado angolano ? Tendo ficado inicialmente no BES mau foi depois passado para o NB quando a trapalhada foi apurada é tb algo que nao entendo bem. Pergunto me se o BP esteve de facto bem em toda esta historia e acautelou devidamente os interesses portugueses.

  5. A questão é saber quanto é que desses 14 mil milhões vai custar a nós, ao erário publico, direta ou indirectamente? Esse numero é que gostava de saber! Porque como mostra no artigo, muita coisa está escondida em perdões de impostos e outros truques.
    Obrigado pela resposta

    1. Caro Manuel Pinto,

      é difícil estimar. Parece-me que as perdas do Fundo de Resolução, que serão de vários milhares de milhões de euros, serão suportadas pelo erário público, porque a restante banca irá legitimamente protestar.

      O empréstimo de 3,9 mil milhões de euros foi feito a uma taxa de juro (2,95% inicialmente, subindo 0,05 p.p. por trimestre) abaixo da taxa de juro implícita da República (~3,9%). Isso significa um subsídio anual do Estado de cerca de 37 milhões de euros.

      É possível que o Novo Banco não venha a utilizar a totalidade dos créditos fiscais, sobretudo se a lei vier a ser alterada para reduzir o prazo para deduzir prejuízos aos impostos.

      E finalmente há os impostos que deixam de ser pagos por sobretudo empresas que registaram perdas e podem deduzir essas perdas nas mais valias que realizam com outro activos financeiros, bem como em resultado da menor despesa de compra de quem perdeu parte do seu património.

  6. Desculpe, mas gostaria de perceber isto ao meu nível de ignorância. Com perdas contabilísticas estimadas de 14 mil milhões de euros, então, se fôssemos 10 milhões os donos do banco, caber-nos-ia a cada um, percas de 1400€? É que metade dos portugueses declaram receber 150€/mês em mediana (Pordata). Teriam eles de trabalhar cerca de 10 meses para cobrir essas percas?

    1. Desculpe colocar isto ao meu nível de ignorância; 14 mil milhões de euros de perdas daria 1400€ por pessoa, se fôssemos 10 milhões os donos do banco?

    2. Não, porque os accionistas (i.e., donos) do banco só suportaram parte das perdas, e alguns dos accionistas e credores eram não residentes (i.e., estrangeiros).

      Ou seja, não faz muito sentido dividir as perdas pelo número de portugueses. Dito isto, os 14 mil milhões de euros de perdas a dividir por 10 milhões de portugueses equivaleria a 1400€ por português e portuguesa.

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