Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

22 de Outubro de 2015, 13:00

Por

O comprador da TAP tem dinheiro?

A forma como o Governo conduziu o processo de privatização da TAP é surreal. Leis, regras europeias, caderno de encargos, alegado incumprimento de contractos (de membros de consórcios) e falta de dimensão/capital dos potenciais compradores, nada importa na ânsia de privatizar a TAP.

A última notícia é que a “A Azul, a transportadora aérea brasileira de David Neeleman, o sócio de Humberto Pedrosa na compra da TAP,” teve prejuízos de 53 milhões de euros nos primeiros seis meses de 2015 e que a Azul está a atravessar dificuldades devido à desvalorização do real face ao dólar.

Ou seja: a Azul não só é mais pequena que a TAP – em termos de volume de negócios e de activos é 45% e 65% da dimensão da TAP, respectivamente – como, a confirmar-se a tendência dos primeiros 6 meses do ano, poderá registar em 2015 prejuízos superiores aos do grupo TAP. E os capitais próprios da Azul também são negativos (em -66 milhões de euros no final de 2014, cerca de -119 milhões de euros em Junho de 2015).

Acresce que do ponto de vista estratégico o negócio é muito arriscado. A TAP já depende em grande medida (~25% do volume de negócios) do mercado brasileiro e com a aquisição pelo grupo de David Neeleman vai ficar ainda mais dependente da evolução da economia brasileira que, como se sabe, atravessa na actualidade uma grave crise de balança de pagamentos e uma crise no sector da aviação.

E é a este comprador que o Governo planeia vender o maior exportador nacional?

O Governo e, em particular, o Secretário de Estado dos Transportes, deveriam saber que as leis e as regras estão lá para ajudar. O objectivo não pode ser levar a “sua” vontade em frente, a todo o custo, mas sim não facilitar em nenhum dos critérios que a lei e as regras determinam. Porque de boas intenções está o inferno cheio…

Comentários

  1. Com crédito na banca de 1,2 mil milhões de euros, qualquer empresa se pode armar em grande exportador. Se bem me lembro, nos anos 90, a TAP levou 900 milhões de injecção e uns anos depois já tinham estoirado tudo. Essa das exportações é boa, e que tal as importçoes (combustível, sobre o qual paga 0 de impostos), 1,8 mil milhões na conta de fornecimentos e serviços externos e 200 de custo de mercadorias vendidas? Se calhar é tudo daqui… Acho que a Airbus tem capital português. A TAP está falida, joga num campeonato onde não consegue competir, pois a “lei não escrita” do sector público português impede-o e não tem dimensão suficiente para lutar. Sonhos cor-de-rosa com Bruxelas no meio, será 10 vezes pior que vender, e já. Nos dois últimos anos o grupo não gera sequer o suficiente para pagar o serviço da dívida que tem. Como será possível defender uma participação pública para uma empresa que durante os últimos 20 anos destruiu valor a esta velocidade, sendo pública?

    1. Caro Miguel Vaz Pinto,

      O problema que enunciei neste post é que o Governo pretende vender a TAP a um comprador, em que a empresa de referência do principal sócio é uma companhia aérea mais pequena, que está descapitalizada e que isso agrava o risco para a TAP e para o País. O seu comentário é, ao invés, sobre o valor/virtudes da TAP.

      Os seus argumentos parecem ser: a TAP não vale nada, não é competitiva, não exporta quase nada (em termos líquidos) e não gera valor para o País, pelo contrário gera prejuízos (“destrói valor”). Mais, que é muito pequena para competir. E que por isso o Estado (e o País) já tem sorte em se ver “livre” da TAP.

      Não concordo com nenhuma dessas asserções, que parece assumir como factos. Peço-lhe que, se tiver tempo e interesse, olhe para os números e que, me dando o benefício da dúvida, procure quantificar cada um desses termos. Foi esse o exercício que fiz para suportar a argumentação que tenho desenvolvido.

      Cordiais cumprimentos,

      RC

  2. O David é um dos acionistas da Azul, como também é um dos compradores da TAP. Não foi a Azul que comprou e sim o David em pessoa física, ele também é sócio da Jetblue dos EUA. Ele tem poder de fogo e muitos investidores por trás. São negócios distintos, e investimentos diferentes. A azul vai ser uma empresa parceira da TAP mas com administrações e capitais separados, não são do mesmo grupo.

    1. Caro Fábio Canhete,

      reconheço que uma frase no texto parece dar a entender que é o Grupo Azul que é o comprador da TAP, mas não é isso que eu disse ou que pretendia dizer.

      O capital ao dispor de David Neeleman e dos seus investidores não é infinito. E se a sua empresa de referência (a Azul) está descapitalizada (i.e., tem capitais próprios negativos), porque é que ele não a capitaliza? E onde vai encontrar recursos para capitalizar uma empresa mais descapitalizada que a Azul (a TAP)?

    2. Caro Ricardo Cabral,
      Se você for avaliar as condições de capitais de várias companhias aéreas mundo afora muitas tem déficit orçamentário em um ano e posteriormente lucros e assim vai, simplesmente eu não sei analisar a matemática financeira no setor de aviação para dizer as vantagens de investimento porque é muito complexo, muitas empresas mesmo no prejuízo ainda são saudáveis. Para você ter uma idéia a Azul durante anos operou no vermelho e recebendo muitos mas muitos investimentos dos seus investidores. Ela fechou um acordo de venda de ações com a United para fortalecer o caixa neste ano, tem ainda a possibilidade de venda de ações na bolsa, uma certeza eu tenho, quebrada ela não está. O Grupo LATAM também operou no prejuízo enorme e mesmo assim não pode ser considerado “quebrado”. Quero só complementar algo, David Neeleman não é nenhum aventureiro, ele na sua carreira teve grandes êxitos, a JetBlue se for pesquisar o processo de criação da empresa e hoje o que ela é, já merece muito respeito, agora se for ver o capital que ele conseguiu colocar na Azul e transformar na terceira maior companhia do Brasil com a maior malha aérea e com o maior número de cidades atendidas entrando estrategicamente em mercados pouco assistidos e transformar um aeroporto periférico em um Hub com grandes resultados a entrada dele na TAP com certeza será de bons resultados, minha torcida sempre foi para que os irmãos Efromovichs assumissem a companhia de vocês, mas tanto os Efromovichs quanto o Neeleman a TAP está em boas mãos. E se o negócio for bom e como tem um excelente vendedor e estrategista por trás como está ocorrendo neste caso, tenha a certeza, que capital financeiro para a TAP não deve faltar, eles não são aventureiros.
      Um abraço.

    1. Caro Liberal,

      Agradeço o seu comentário. Pode ser verdade, mas tal não é desculpa para voltar à idade da pedra “com a criação destrutiva” de todas as grandes empresas nacionais, a la Cimpor e à la PT… É que a situação, depois, melhor não fica…

      E além disso o vendedor encontra sempre uns trocos de alguns milhares de milhões de euros para realizar as aplicações financeiras mais sui generis possíveis…

    2. No mundo especial de Ricardo Cabral, o vendedor – estado português – pode sempre ter mais dinheiro. Basta taxar mais, ou no limite começar a expropriar. É irrelevante no mundinho especial do Ricardo Cabral, os aumentos de capital realizados às Cimpores, PTs, e TAPs deste Portugal. É irrelevante que a TAP foi criada e mantida há mais de 70 anos com rios de dinheiro público – como sabemos o transporte aéreo é fundamental para pobres – com legislação à medida, como monopólios de linhas, com direitos adquiridos para funcionários muito longe dos direitos adquiridos dos contribuintes que pagavam a TAP, mas não puderam lá viajar durante décadas.

      Nesse mundinho é irrelevante o “preço económico” de Portugal ser um dos mais atrasados a perceber os benefícios de mercados em concorrência que continuam a gerar IVA, IRS, etc dos funcionários para o país, mas com a mais valia de preços competitivos para o cliente, e finalmente desligados do contribuinte. Essas contas não interessa fazer. Esse “custo económico” brutal para a economia ao longo de 70 anos, não interessa deduzir ao ridículo valor que calculou para o “valor económico”. Se isso fosse relevante, provavelmente iria chegar à conclusão, que a única óptica que interessa é precisamente a do “accionista” pois é a única clara como água.

      Ricardo Cabral não fala sobre economia, fala sobre socialismo. Não é “professor” de economia. É professor de “socialismo” das oligarquias empresariais protegidas pelo contribuinte com aumentos de capital e transferências arbitrárias, retirando dinheiro precisamente das empresas que realmente funcionam, que realmente exportam, para de forma arbitrária beneficiar uma empresa pública. Tudo com legislação à medida. E claro que com o dinheiro dos outros, as CIMPORs, PTs e TAPs funcionam todas muito bem. Se houver problema, o contribuinte paga e nem sabe que está a fazê-lo. Em concorrência já não é bem assim. A Air France que o diga, pois já vai despedir 3000 pessoas. Sem apelo nem agravo.

      É um mundinho especial de socialistas funcionários públicos, desligados da economia real.

    3. Caro Ricardo Cabral, aquilo que eu lamento como cidadão português é o PREÇO pelo qual muitos dos activos estão a ser entregues a chineses e a outros oportunistas, já que gente com mais peso económico nem se digna aparecer por países socialistas falidos. Mas não me aflige mesmo nada que a TAP seja uma empresa privada, apesar de isso não ser ainda verdade, pois foi vendida com condições leoninas, que fazem com que o comprador quase não possa fazer nada durante anos e anos.

  3. Não é mentira nenhuma. Não têm de dar lucro para ser a maior exportadora. A venda de passagens fora de Portugal é uma exportação de serviços e uma importação de divisas, visto que o serviço é pago no estrangeiro e a receita entra em Portugal.
    A TAP têm um volume de receita anual, só de venda de passagens superior a 1000 milhões de USD

  4. Maior exportador nacional? Que grande mentira é esta!! eheheh. Quanto lucro deu nos últimos anos ao erário público se exporta assim tanto?

    Uma crónica totalmente errada e enviesada pela cegueira socialista. Sabe qual o problema? É que pessoas que pensam assim ainda não pagam suficientes impostos.

    1. Ser o maior exportador e dar lucros são dois assuntos distintos. Por muito que se exporte, se os custos de operação forem demasiados altos não existem receitas que cheguem.

    2. Transcrevo do relatório anual da TAP, que o aconselho a consultar.

      “O Grupo TAP reforçou, em 2014, o
      posicionamento do seu contributo para o
      volume das exportações nacionais, com uma
      contribuição global de EUR 2.400,9 milhões,
      em vendas e serviços prestados no mercado
      externo, mais 1,1% que em 2013.”

      Esse montante representa 89% do volume de negócios do grupo.

      E sim, o Grupo TAP dá um enorme lucro ao erário público. Primeiro directamente, através dos impostos pagos directamente, pelos impostos pagos pelos funcionários que emprega e pelo IVA que paga nas aquisições que realiza. E depois indirectamente, porque deve injectar pelo menos 1100 milhões de euros de divisas, em termos líquidos, na economia nacional todos os anos.

      Estimei no passado o valor presente da TAP para a economia nacional em 27,3 mil milhões de euros, 2,7 vezes as reservas de ouro em Portugal (vide http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2014/10/01/quanto-vale-a-tap/).

      A óptica accionista não é a única forma de avaliar o valor económico de uma empresa…

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