Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

2 de Setembro de 2015, 19:21

Por

Como está a Irlanda?

Karl Whelan fez uma apresentação a 18 de Agosto sobre a economia irlandesa. Este post salienta alguns dos aspectos mais interessantes da análise, que vale a pena consultar.

Essencialmente, a apresentação sugere que a Irlanda está “no bom caminho”. Após 7 anos de austeridade, o Orçamento do Estado de 2015 é o primeiro sem “austeridade”, com défice previsto inferior a 3%:

– O PIB real já está acima do pico atingido em 2007-2008[1];

PIB Irlanda

– O emprego começa a recuperar, mas ainda está cerca de 10% abaixo (~210 mil empregos) do pico (desconheço se o governo irlandês recorreu ao mesmo tipo de programas de estágio e de formação para baixar o nível do desemprego, como ocorreu em Portugal); também interessaria saber o que aconteceu à população activa (população empregada+população desempregada) e o impacto da emigração na mesma;

Emprego Irlanda

– é porque a queda rápida da taxa de desemprego que, em princípio, é um bom indicador não pode ser analisada só por si quer na Irlanda quer em Portugal …

Taxa de desemprego Irlanda

– O nível de salários na Irlanda é muito mais elevado que em Portugal com licenciados a receberem na mediana, em estágios, entre 1600 e 1799 euros e o salário médio bruto de primeiro emprego de recém-licenciados a atingir cerca de 2300 euros por mês, em 2014-2015, de acordo com um inquérito da “gradireland”. Uma realidade muito distinta da portuguesa;

– Entre 2008 e 2012, o saldo da balança corrente passa de -6% do PIB para +6% do PIB, o que significa que a Irlanda está a reduzir a sua dívida externa de forma acentuada;

Current Account Irlanda

– Segundo Karl Whelan, a Irlanda está a reduzir significativamente a sua “almofada financeira” o que permitiu, dado o crescimento do PIB registado, uma redução da dívida pública de 123% do PIB em 2013 para 110% do PIB em 2014;

– As taxas de juro mais baixas ajudam, bem como o facto de a Irlanda ter obtido condições especiais do BCE para 25 mil milhões de euros de dívida a muito longo prazo (cerca de 13% do PIB), que inicialmente era detida pelo Banco Central da Irlanda (BCI) e não tinha custos (o governo pagava juros ao BCI, que os pagava de volta ao governo). Karl Whelan estima as poupanças em cerca de 50% do valor facial da dívida, o que representaria cerca de 6,6% do PIB;

– A despesa pública com juros representou 4% do PIB em 2014, em contraste com 5% do PIB em Portugal, sendo a taxa de juro implícita da dívida pública irlandesa cerca de 0,7 pontos percentuais mais baixa do que a portuguesa;

Taxa de juros a 10 anos

– O crédito a famílias e a empresas não financeiras continua a diminuir de modo muito significativo: em particular, a taxa de redução do crédito a empresas está a deteriorar-se, com uma variação em redor dos -8% nos primeiros meses de 2015, face ao período homólogo de 2014, o que é um sinal negativo.

 

Será que estes dados significam que a “austeridade” funciona?

Na minha opinião não, pelos seguintes motivos:

– Os principais parceiros comerciais da Irlanda são a Inglaterra e os EUA que, no período em questão, registaram crescimento económico rápido, em contraste com o que ocorreu com os principais parceiros económicos de Portugal (com a excepção de Angola, antes da queda dos preços do petróleo). O desempenho dessas economias permitiu à Irlanda crescer através das exportações;

– A Irlanda registou entre 2008-2015 uma melhoria das suas contas externas de 12 pontos percentuais do PIB. Este tipo de política macroeconómica é do tipo “beggar thy neighbour”: não é possível a todos os países passarem simultaneamente de países deficitários a excedentários e, para a Irlanda o poder fazer, outros países no mundo viram as suas contas externas agravarem-se;

– O regime fiscal da Irlanda atrai muito investimento directo estrangeiro (e.g., Apple), sobretudo dos EUA, porque permite que as grandes multinacionais quase não paguem impostos. Isso significa que o emprego e o PIB são, em parte, determinados pelo que ocorre a essas grandes multinacionais. Ou seja, o desempenho da Irlanda é muito mais o resultado do desempenho das grandes multinacionais que estão localizadas na Irlanda – não “por acaso” – do que das políticas de austeridade impostas pela troika. Ora essas multinacionais tiveram um bom desempenho em anos recentes e “por arrasto” a economia Irlandesa também deverá ter beneficiado. Ou seja, o crescimento da economia Irlandesa pouco ou nada terá a ver com a “política de austeridade”;

– Quando se desencadeia a crise de 2008-2009, o ponto de partida da Irlanda era muito diferente do de Portugal: salários muito mais elevados e que tinham registado um crescimento acelerado nos anos que precederam a crise;

– Mas há um elemento comum que é preocupante quer na Irlanda quer em Portugal: o emprego não recuperou tanto como necessário e a Irlanda também assistiu a um surto de emigração dos seus jovens.

Em resumo: “Portugal não é a Irlanda”! A economia Irlandesa tem tido um melhor desempenho do que a economia portuguesa, nomeadamente no que respeita a crescimento económico e contas externas. E a Irlanda tem trilhado o seu próprio caminho, com algumas escolhas mais racionais: por exemplo, antecipou o pagamento da dívida ao FMI e reduziu a dimensão da “almofada financeira”. Portugal procurou imitar, mas demasiado tarde e com benefícios muito inferiores.

 

 

 

[1] Os gráficos apresentados neste post são de Karl Whelan.

Comentários

  1. «DIZ-ME COM QUEM ANDAS E DIR-TE-EI QUEM ÉS» – assim adverte a sabedoria popular.

    Bom artigo de Ricardo Cabral – elucidativo quanto à recuperação da economia irlandesa (mesmo tendo em conta as diferentes motivações na origem da crise – como, de forma atenta e oportuna, atirou certeiro o Sr. Liberal, no comentário abaixo).
    Entretanto, a menção que faz à interacção económicas com os principais parceiros comerciais tradicionais da Irlanda – Inglaterra e EUA – motiva-me aqui a outras considerações – diria, “geo-estratégicas” – na diferenciação entre a Irlanda e Portugal. E começo por questionar:- Será a economia irlandesa periférica?
    Portugal, Irlanda e Grécia representam um valor marginal do PIB da zona euro, em torno do 6%. E, com o agudizar da crise, vimos a imprensa internacional a destacar o termo pejorativo “PIGS”, para caracterizar o “mau comportamento” das economias periféricas [Portugal, Irlanda, Grecia e Espanha – acrescentando, numa versão alargada, a Itália, PIIGS]. Porém, como bem nota Ricardo Cabral, a Irlanda tem peculiaridade que convém destacar. Como assinalava o Jornal de Negócios (20/01/2014), citando Dan O’Brien: “Na Irlanda, olhar para o PIB pode ser enganador. Existe uma diferença de 23% entre o PIB e o Produto Nacional Bruto”. Acrescentando o diário: «A capacidade irlandesa de atrair empresas para o país é um dos principais motivos para uma saída mais rápida da crise. Com um stock de Investimento Directo Estrangeiro superior a 140% do Produto Interno Bruto (PIB) e uma procura interna ainda débil devido aos esforços de austeridade, a Irlanda vai para onde forem as suas multinacionais.»
    Vide: http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/a_irlanda_vai_para_onde_forem_as_multinacionais_estrangeiras.html

    Ora, a Irlanda, tal como Portugal ou Grécia, está na linha “fronteira” da Zona Euro… porém, a estratégia irlandesa, embora bastante dependente do capital estrangeiro (beneficiando de baixas taxas IRC e quadros jovens qualificados), o que a torna particularmente vulnerável a turbulências nos mercados globais, adquiriu uma certa “centralidade” no norte-atlântico – na confluência de blocos anglo-saxónicos: EUA (Dólar: $) e Reino Unido (Libra: £), mais o acesso às outras economias do Mar do Norte (ex. Islândia e Noruega). Neste sentido, a adesão ao €uro veio adequar-se, positivamente, ao delicado jogo de “identidades” nacionais – que tanto distingue e aparta, como aproxima, os “célticos” irlandeses do Reino Unido (ex “nações celtas”: Gales, Escócia, Cornualha, Ilha de Man – e ainda a Bretanha, na França), do parentesco e rivalidade histórica com os “protestantes” ingleses, e dos laços fecundos com os EUA, desde os primórdios da colonização aos movimentos migratórios…

    «A Europa jaz, posta nos cotovellos: / De Oriente a Occidente jaz, fitando, / E toldam-lhe românticos cabellos / Olhos gregos, lembrando. // O cotovello esquerdo é recuado; / O direito é em ângulo disposto. / Aquelle diz Itália onde é pousado; / Este diz Inglaterra onde, afastado, / A mão sustenta, em que se appoia o rosto. // Fita, com olhar sphyngico e fatal, / O Occidente, futuro do passado. /…/ O rosto com que fita é Portugal.» [F. Pessoa – Mensagem: O Dos Castellos]

    – E Portugal… para que nos serve o “€uro” à projecção da nossa identidade histórica? Findo o «Império», e feita mal ou bem a “descolonização”, a prioridade da política portuguesa externa foi quase exclusivamente a “integração europeia” (já iniciada como a participação frutuosa na EFTA, em 1961) – por via da adesão à CEE. Portugal é hoje o “rosto” atlântico, na linha fronteira da União europeia… Mas, para lá do Mar ocidental, o que “fita”Portugal? – Que outros novos mundos idealizados há por redescobrir para lá do oceano? – E que outro Mar a desbravar pode Portugal de novo fitar no “centro” do Mundo?
    Portugal é linha fronteira, periférica e marginal da fortaleza desta Europa… Marrocos (e o Magrebe), está-nos hoje mais distante do que a “mourama” de há 1000 anos atrás, ao tempo da islamização e da reconquista cristã, “a lança metida em África”, clamada pelo futuro Condestável na conquista de Ceuta de há 600 anos, ou nos sonhos de grandeza desmesurada desfalecidos em Alcácer-Quibir [1578] e na retirada definitiva de Mazagão pelo Marquês de Pombal [1769]… E, não obstante as afinidades (e rivalidades) históricas, das boas relações políticas e diplomáticas actuais, abrem-se novas portas ao incremento das boas relações comerciais (ex. em 2013, Marrocos chegou a posicionar-se no 10º lugar das exportações portuguesas – 438.2 milhões euros, fechando 2014 com 600 milhões (12º)).
    – O que dizer da CPLP? “Minha pátria é a língua portuguesa”, mas…

    «[…] Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse». Bernardo Soares [pseud. Fernando Pessoa]

    A Guiné-Bissau, não obstante o voluntarismo pela Paz do timorense Ramos-Horta, persiste em querer tornar-se num “Estado falhado”. A adesão polémica da Guiné-Equatorial é uma pedra no sapato na credibilidade da “Comunidade Países de Língua Portuguesa” – mesmo para os mais optimistas, que acreditaram que a entrada poderia influenciar positivamente a abertura do regime de Obiang. As relações com ANGOLA são ambíguas e melindrosas – por um lado temos os investimentos angolanos no nosso país, com Isabel dos Santos à cabeça, mais as exportações e os muitos portugueses a trabalhar e investir em Angola, por outro, temos as “intrigas”, “inimizades” e “amuos” de uma novela diplomática retratada no estilo “ressabiado” das crónicas do «Jornal de Angola» – e a culminarem no “falhanço” diplomático da apregoada “parceria estratégica” (não obstante as idas reconciliatórias de Portas a Luanda). E de tão mau “enredo”, a denunciar tão fracos protagonistas, compreende-se que os mais ilustres actores políticos da Europa olhem de soslaio para as relações de Portugal com a “antiga colónia” – como o demonstrou explicitamente o Sr. Martin Schulz quando, acusando a visita de Passos a Angola [2012], e o eventual direccionamento da política externa portuguesa fora da UE, traçou como prognóstico do “declínio” de Portugal!
    – E o que dizer das relações com o BRASIL? Tão próximo – e, simultaneamente tão distante!
    Pondo de parte a economia dos “afectos” que advém dos muitos laços e cumplicidades históricas, a começar pela raiz do idioma comum, não basta a boa-vontade do embaixador Mário VILALVA em querer criar um ambiente único nas relações luso-brasileiras. Para lá dos negócios, alguns deles verdadeiros “garimpos”, como o revelam as novelas brasileiras na aquisição da Cimpor e na fusão frustrada Oi/Pt, da manifestação de interesse dos brasileiros, pela boca do embaixador, nas “privatizações”, com destaque para a TAP e a tentativa falhada de adquirir os ENVC, mais os bons investimentos da Embraer em Évora… Para lá da cultura e do [des]Acordo Ortográfico, do Turismo, das migrações e das bolsas de estudo (mais o reconhecimento de habilitações e competências académicas)… Nota-se, para lá da pilha a “granel” de tudo isto, um relativo distanciamento político entre Lisboa e Brasília – minado ainda pela promiscuidade política do que se sabe dos escândalos de corrupção.
    Tal como com Angola, reclama-se por mais e melhor qualidade nas relações históricas luso-brasileiras.
    Tal como se espera do Brasil um maior e mais profícuo envolvimento na coesão e promoção dos valores da CPLP. Para mais, não esqueçamos que foi pelo contributo maior do Brasil – e muito em particular o empenho do embaixador em Lisboa, José Aparecido de Oliveira [1929-2007] – que a «Comunidade» começou a ganhar forma e dimensão política e diplomática!
    – Para quando, Sr. Secretário da CPLP, Murade MURAGY, a criação de um estatuto de «cidadania lusófona»?
    E das boas ou más companhias junte-se-lhes ainda os negócios da CHINA (EDP, REN, BES/Novo Banco, etc.) – também aqui denunciados pelo estimado Ricardo Cabral.

    Fernando PESSOA. «O GRÉMIO DA CULTURA PORTUGUEZA assenta os seus intuitos nos seguintes fundamentos:
    (1) Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, não são nações diferentes, contêm por sistema uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam.
    (2) A missão imperial a que têm que obedecer as duas nações que formam o Império Português encontra-se estabelecida nas seguintes origens: (a) como memória e tradição, a fundação da civilização universal moderna pelo Infante D. Henrique, (b) como propósito e utopia, a criação, pelos Sebastianistas, da ideia de um Império Português, designado como o Quinto Império, e formado em bases diversas das de todos os impérios passados, (c) como tipo de acção, a concentração em uma unidade espiritual, a criar progressivamente, da tradição em que assenta a razão histórica do Quinto Império, e da esperança em que reside a razão religiosa d’ele.
    (3) Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa.
    (4) Para fixação dos meios materiais do Império, há que adoptar a fixação da linguagem, e, antes de mais nada, a ortografia etimológica, excluindo as extravagâncias simplificadoras criadas pela influência da política estrangeira.»
    [vide: http://arquivopessoa.net/textos/1600 ]

    (Nota: este comentário foi escrito de acordo com as recomendações do corrector ortográfico disponibilizado pelo Público]

    1. António Anchas, o meu caro é um romântico, variante nostálgica! Se por acaso não conhece a obra do grande Manoel de Oliveira, estou certo de que se deleitaria com ela. Não que Manoel de Oliveira tivesse sido um romântico, mas partilhou consigo o fascínio por Portugal e pela sua História. Como aborda a temática da língua e da ortografia, parece-me que o simples facto de os “sábios” indígenas terem fabricado algo como o AO90, de os “estadistas” indígenas o terem aprovado, de as “elites” indígenas o terem imposto zelosamente sem pestanejar perante palavras como “receção” ou “espetador”, diz bastante sobre Portugal. E não é bom, o que diz.

    2. Parabéns pelo texto…
      Embora não esteja directamente relacionado com o artigo, nunca é demais lembrar a desgraça que os políticos (e outros, mormente o Malaca Casleteiro, esse pobre homem…) estão a fazer à lingua portuguesa com essa abjecção que é o Aborto Ortográfico.
      E, bem haja o “Público” e outras entidades colectivas e individuais que se opoem e essa abominação.

  2. Intitular-se ‘Liberal’ em intervenções públicas é forma do anonimato covarde. Responder com ideias idênticas àquelas que usei (reino do disparate) é falta de imaginação. Enfim, coisas de disparatado, restringido por capacidade limitada. Jamais oculto o meu ortónimo.
    Bom, já desperdicei muito tempo e não voltarei a fazê-lo.

    1. Até pode ser o meu apelido, Liberal. Por via das minhas inclinações ideológicas, eu sei bem o que são os “fascistas da palavra”, de que falava Sophia de Mello Breyner, porque eles me caem sempre em cima. Acontece que eu prefiro que eles me caiam em cima da alma, onde até são ornamentais, do que em cima do corpo. Aceito a cobardia, mas eu posso chamar-lhe outras coisas. Já agora, essa preocupação especial com o meu anonimato foi uma inovação do Francisco Louçã, o senhor também não mostra grande imaginação.

  3. O que é certo é que os irlandeses sofreram com a austeridade e continuam a sofrer, nem se percebe como se quer falar do assunto como se ele estivesse reduzido a cinzas quando a verdade é que tudo está por resolver. E que adianta comparar números de agora com outros anteriores e ao mesmo tempo sugerir – e toda a gente sabe que é verdade – que os números nas estatísticas e cálculos económicos são manipulados e manipuláveis com omissões dos factores que não interessam para os números finais apoiarem as teses que se pretende defender? Se não há cinismo há mero exercício intelectual que não resolve em nada as injustiças sociais que afligem a humanidade.

    1. Diga-nos só SOZ, quando e onde foram aquilo a que chama “injustiças sociais” resolvidas? Nos países comunistas, talvez?

  4. Não vou falar sobre as medidas de austeridade, porque acho que vários economistas de renome já o colocaram em cheque. Falo da diferença entre Portugal e Irlanda: em Portugal, raramente existe uma cultura de mérito, o nepotismo, clientelismo, a venalidade, a opacidade e corrupção é muito comum; cá existe muita burocracia feita à medida de alguns e legislação complexa e maçuda feita pelas e para sociedades de advogados e seus clientes privados; onde é na política (pelo bipartidarismo de 40 anos) que se forma muitos negócios chorudos e promíscuos que nada trazem de benéfico e que são lesivos à população e economia (PPP, privatizações de monopólios, obras faraónicas improdutivas e inúteis), pelo contrário lesa a população e economia…criando uma maior assimetria económica e desigualdade social com a receita dos impostos, que supostamente são usados para esbater e não fomentar a dita.

  5. Apples and Oranges:
    A situação da Irlanda sempre foi completamente diferente da Portuguesa.
    A Irlanda teve que absorver uma catástrofe ao nível do endividamento privado e do colapso do seu sistema financeiro, logo o seu endividamento não foi causado por causas estruturais da orgânica e da política do Estado Irlandês.
    Em Portugal tratou-se – sobretudo – de um excesso de despesa e endividamento do Estado, o que é um mundo de diferenças… com o factor agravante de que pouco ou nada foi feito para corrigir o problema estrutural em Portugal, pelo que a dívida permanece no sentido do seu agravamento ou, pelo menos, da sua não redução significativa.
    A Irlanda, pelo seu lado, só teve que apertar o cinto para pagar uma dívida que, sendo conjuntural, à partida não continuou nem continuará a se agravar.

    1. Claro que o melhor mesmo para a Irlanda teria sido não permitir a sua orgia imobiliária, que, como muitos teimam em ignorar, foi incentivada pelos respectivos Estados. O caso português nem foi dos piores. Boa análise Valter Duarte, e infelizmente tem toda a razão quando diz que “pouco ou nada foi feito para corrigir o problema estrutural em Portugal”. Eu costumo dizer que Portugal era um navio a afundar-se na borrasca em 2010, e agora é um navio cheio de água na calmaria. Só optimistas empedernidos ficam a contar com a calmaria.

  6. Esquece-se Ricardo Cabral que a Irlanda “rebentou” seis meses antes de Portugal, pelo que o caso português está desfasado no tempo. Claro que as justificações sobre os benefícios da competitividade fiscal não colhem, porque essa competitividade fiscal era ainda maior antes da bancarrota irlandesa. Os amigos anglo-saxões foram importantes durante os anos difíceis pós-2010, mas a Irlanda é um país da zona euro, e, ao contrário do que diz Ricardo Cabral, passou por uma cura de austeridade algo escusada, porque se meteu onde não se devia meter, no imobiliário. E resultou. Mesmo no Estado português, apesar de ter resultado minimamente, foi a falta de austeridade, e não o seu excesso, que impediu melhores resultados. O argumento estafado de que a austeridade não resulta é semelhante ao argumento de que as dietas de baixas calorias não fazem os gordos emagrecer. Claro que a austeridade estatal começa por não ser estimulante para o crescimento económico. A cura de desintoxicação de um drogado também não lhe dá grande prazer.

    1. Nem mais, gostei muito do comentário. Acrescentaria apenas a pergunta óbvia a este tipo de argumentos simplistas: ‘O que sugere? Continuar a aquecer a economia e a aumentar os salários acima da produtividade do País com dinheiro emprestado?’

    2. “foi a falta de austeridade, e não o seu excesso, que impediu melhores resultados” – Que resultados, maior pobreza? para si, se um doente não morre da doença, deve morrer da cura. Vê-se bem que é dos que não sofre com a crise, senão não falava assim.

    3. Como o lj insiste em ignorar, a despesa pública em Portugal não tem mostrado grandes sinais de “austeridade”. A austeridade foi mais para os contribuintes, do que para o Estado e seus dependentes. Já agora, como qualquer outro, eu sou contribuinte. Enfim, resultados há, a dívida pública deixou de aumentar, está estabilizada nos 200 GE desde o Pinto de Sousa, e Portugal tem de novo crédito, apesar de eu ter as minhas dúvidas de que isso venha a ser bom para nós. Só três anos de Troika pode-se vir a revelar “pior emenda do que o soneto”. Caro Luís Gouveia, não estamos livres do que sugere, o programa do PS está cheio de coisas belas, mas a ser pagas com dinheiro emprestado, como diz. Não me surpreenderia nada com mais impostos também, afinal sou lisboeta!

    4. Tão liberais, dão asas à imaginação para esvoaçar pelo reino do disparate. Ricardo Cabral recorre a informação e análise consistente de Karl Whelan (conhece?) para demonstrar que a recuperação económica na Irlanda se sustenta no desenvolvimento da actividade económica e não nas políticas de austeridade. Tenha-se em consideração o tecido empresarial robustecido pelas companhias internacionais de origem anglo-saxónica e os níveis de salários, comparando-se em simultâneo com os rendimentos de trabalho pagos hoje em Portugal (1/5 dos assalariados recebe o SMN, o que não deve ser o caso das bestas liberais). As crises tiveram origens diferentes e depois? As responsabilidades das dívidas, na expressão financeira, não foram assumidas em ambos os casos pelos Estados? Independente das causas, dívida pública é dívida pública. Uma última pergunta: por que razão, então, a amanuense Albuquerque se esforça para fazer ‘copy and paste” da política do governo Irlandês face à dívida e às políticas de tesouraria? Só não conseguiu igualar os juros. Caprichos dos mercados.

    5. No reino do disparate temos um novo súbdito fiel, Carlos Fonseca. Quando é que eu disse ou sugeri que a recuperação da Irlanda não se sustentava no sector privado? Quando é que eu disse ou sugeri que o investimento anglo-saxão, já presente antes da bancarrota, não era importante para a economia irlandesa? Quanto à “amanuense” Mary Lou, ela pouco pode fazer, por isso faz flores. Ao menos é poético!

    6. Tem toda a razão o Liberal: o estado fez zero austeridade em si mesmo. O estado e respectivos funcionários públicos passaram ao lado da falência socialista em 2011. Caiu tudo sobre os contribuintes.

      Agora ainda vem dizer que a austeridade não tem nada a ver com a magnífica recuperação da Irlanda. Eu sei que é chato ter de justificar o afundanço da grécia pela extrema esquerda, e ainda mais de justificar como a austeridade funciona brilhantemente para corrigir desequilíbrios…mas é assim mesmo. A austeridade funcionou e funciona. Irlanda é caso paradigmático.

    7. Agradeço os apoios, que não costumam ser muitos. José, ainda acrescentaria que austeridades há muitas. O Estado, ao cortar, tem muito por onde cortar. Não é a mesma coisa cortar o salário aos polícias e cortar o “subsídio de desemprego”.

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