Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Agosto de 2015, 09:00

Por

De repente fez-se luz: o milagre dos empregos

O anúncio tonitruante da candidatura de Maria de Belém teve esta virtude: o PS respondeu apresentando de rompante novas contas detalhadas para o seu programa eleitoral e subiu a parada, esperando que se passe a falar de legislativas.

Ao apresentar contas com resultados (mas não pressupostos, metodologias e modelo) explícitos, como o tinha feito no passado, o PS contribui para um debate mais claro acerca de compromissos e alternativas. Esse é o saldo positivo da iniciativa, contrastando fortemente com a opacidade e a sonsice do programa do PàF. Mas há o reverso da medalha: o exercício é um puro jogo matemático, que leva à apresentação inusitada de detalhes arvorados em declarações de fé: o programa passa por exemplo a prometer criar 549 postos de trabalho em 2017 através de medidas nos centros de saúde e escolas, ou 23391 empregos em 2018 com apoios a empresas, ou 466 empregos em 2019 com medidas para os idosos e imigrantes. No total, os já célebres 207 mil novos empregos na legislatura.

Compreende-se a afobação: além das presidenciais, tivemos o episódio dos cartazes e, antes de tudo, tivemos a proposta chave do programa do PS, os “despedimentos conciliatórios” (o que não parece ser uma forma de criar emprego, pois não?). Para retomar uma agenda sobre emprego, nada como números com autoridade.

Vejamos então o jogo destes números tal como ele é apresentado.

ps empregoPrimeira constatação. Em dois meses, o PS alterou as suas projecções sobre a criação de emprego suscitada pelas suas medidas (mas não mudou as medidas). O gráfico ao lado (clique para ampliar) compara o quadro de criação de emprego apresentado no final de maio por Mário Centeno e o quadro que apresentou ontem. Para 2016, estimava há dois meses que se criariam 3 mil empregos com as suas medidas; agora são 29 mil. De 17 mil no ano seguinte passou para 95 mil; de 47 mil em 2018 triplicou para 159 mil; de 92 mil no final do mandato passou para os 207 mil. Milagre. Não aumentou o investimento, nem houve a proposta de mais medidas, nada. Só o milagre.

Segunda constatação. Este jogo matemático depende somente do modelo usado (que o PS nunca divulgará). E não pode ser verificado por outros economistas, jornalistas ou curiosos. Pior, como o funcionamento do modelo depende da sua construção, o criador é o seu deus e pode manobrar a criatura como quiser (é por isso que os modelos usados no debate político são sempre secretos, ao contrário da boa prática científica).

Ora, estes resultados não resistem à comparação com metodologias testadas, verificáveis e públicas. Por exemplo, João Carlos Lopes, professor de economia no ISEG, publicou recentemente um estudo a partir das tabelas de input-output que descrevem a realidade da economia portuguesa e que, apesar das suas limitações dado o atraso da publicação dos dados, registam a relação complexa entre o emprego, o valor acrescentado, as exportações, o investimento e as outras variáveis macroeconómicas. Nesse estudo, Lopes demonstra que, para um programa exigente de criação de emprego (90 mil por ano, para recuperar o emprego perdido desde 2008, considerando também o emprego oculto), mesmo admitindo voluntariosamente um crescimento do consumo de 2% e das exportações de 5% ao ano, como a Comissão Europeia, é necessário um crescimento anual de 7,5% do investimento para conseguir tal objectivo. Ora, no estudo do PS, o aumento do investimento privado no final do período são escassos 0,6% do PIB, e o investimento público não o substitui … porque se resume a um aumento de 0,3% do PIB em 2016, chegando a um máximo de 0,7% em 2017 e depois desacelerando. Sem investimento privado nem investimento público, as contas do PS são impossíveis.

cartaz PS desempregoNenhum cartaz nem nenhuma conferência de imprensa vai alterar esta realidade: na “causa das causas”, o PS inflaciona os seus cálculos ao sabor das conveniências e as projecções não batem certo com os instrumentos que são propostos. Com esta política, o governo de Costa não vai criar 207 mil empregos. E bem precisos que eles são.

Comentários

  1. É precisamente um dos factores mais negativos da propaganda partidária, mas também um dos mais importantes para os respectivos partidos: Aquele deu 250 mil empregos, alguém dá mais ?
    Num leilão, quem licitar e não concretizar o negócio, é reu da sua própria acção e consequentemente julgado na justiça.
    Na propaganda partidária, não existe julgamento nem justiça. Ou seja: A propaganda partidária é injusta. Ou melhor dizendo, é ajusta.(ausência de justiça).

    1. São diferentes e têm propostas diferentes, acho que é errado simplificar. A direita não é igual ao centro. Mas aproximam-se neste torniquete em que se transformou a politica europeia e o dogma da austeridade.

    2. São partidos com visões diferentes (e ainda bem, vivemos numa democracia pluralista), mas quanto a campanhas e a verdade…. este ano o PS está a bater tudo, no mau sentido.

  2. O PS sempre foi um partido anti-emprego. A prova disso é que criou o “subsídio de desemprego”, entre outras “gracinhas”. Mesmo em França começa a pôr-se em causa a distinção entre os trabalhadores cheios de “direitos adquiridos”, e aqueles que saltitam de CDD em CDD. E lá não há “recibos verdes”. Quanto a investimento, sempre é melhor lá deixar os PPDês, têm um historial melhor do que o PS. Eu não ia mesmo votar, mas quando penso em António Costa a governar… Gosh! Votar em Passos Coelho? Gosh! Tirem-me deste filme!

    1. “O PS sempre foi um partido anti-emprego. A prova disso é que criou o “subsídio de desemprego”, entre outras “gracinhas”.”

      Meu caro Liberal, isso foi das poucas coisas que o PS fez, e bem, em relação ao emprego!

      Os direitos dos trabalhadores é algo que já vi que lhe dá azia, temos pena, mas pode sempre votar em branco, e à ida p casa, compra um ENO, de certeza que essa azia passa..

      Sabe meu caro “Liberal”, não há nada mais liberal do que se votar em democracia, e se o povo fosse votar sobre algumas “GRACINHAS” sobre o emprego, essa ganharia por esmagadora maioria, voçe já não tinha proiblema em saber o que votar, mas perdia em grande, felizmente:)

      Cumprimentos

    2. Qualquer aprendiz de economista sabe perfeitamente qual é o efeito de pagar salários a desempregados pagos pelos outros cidadãos sobre o emprego num país. Sobre o emprego, sobre a economia, sobre a produção nacional, sobre a própria sobrevivência do país. E mais não lhe digo, porque senão isto ia começar a ficar duro. Ah, talvez de novo as palavras de Lady Margaret Thatcher, para Nuno Azevedo Silva: you are NOT kind. You are NOT compassionate.

    3. Que risada, tudo o que o Sr. escreveu ou é fruto de uma grande ignorância ou fruto de uma grande mentira… “Mesmo em França começa…” o quê??? Eu vivo em França, e o que o Sr. escreveu é como se um português comentasse que em Portugal são todos louros altos de olhos azuis, cultos, bem educados e ricos, ou seja: uma fantasia!

    4. Acho piada a estes Messieurs de Voilà Ça Va, que imaginam dar lições sobre a França aos outros lá porque se dá o acaso de lá viverem. Ah qu’ils sont ridicules…

    5. “Qualquer aprendiz de economista sabe perfeitamente qual é o efeito de pagar salários a desempregados pagos pelos outros cidadãos sobre o emprego num país”

      Pois, acredito que tenha tamanha “fé” no que “qualquer aprendiz de economista” diz, já no que diz um premio nobel (Paul Krugman), não lhe interessa nada o que este diz sobre as dividas soberanas …

      É, de facto, muito dificíl falar com “liberais” como o senhor, porque os argumentos da sua parte são sempre falacciosos, e aí está a prova! Mas ainda que o senhor tenha razão (para mim não tem nenhuma), e mesmo sabendo que o que disse sobre a situação França é simplesmente uma mentira ( sim, porque eu não uso o termo “inverdade”),tenho uma pergunta para si:

      Acha que se essas “gracinhas”, como o fundo de desemprego, fossem a votação, só iam votar economistas?!

      Gosto de perceber que os neo-liberais tentam sempre ser comedidos, para passar uma imagem “não extremista”, mas acabam sempre por querer fazer ver que a sua visão é a TINA da sociedade! Pois fique sabendo, que a sua TINA, é só sua e dos que votariam não, às gracinhas, ou seja, muito pouca gente…

      Cumprimentos

      Nota: Como é óbvio, inicialmente coloquei este comentário no local errado, desculpe sr Xavier.

    1. “Qualquer aprendiz de economista sabe perfeitamente qual é o efeito de pagar salários a desempregados pagos pelos outros cidadãos sobre o emprego num país”

      Pois, acredito que tenha tamanha “fé” no que “qualquer aprendiz de economista” diz, já no que diz um premio nobel (Paul Krugman”, não lhe interessa nada o que este diz sobre as dividas …

      É, de facto, muito dificíl falar com “liberais” como o senhor, porque os argumentos da sua parte são sempre falacciosos, e aí está a prova! Mas ainda que o senhor tenha razão (para mim não tem nenhuma), e mesmo sabendo que o que disse sobre a situação França é simplesmente uma mentira ( sim, porque eu não uso o termo “inverdade”),tenho uma pergunta para si:

      Acha que se essas “gracinhas”, como o fundo de desemprego, fossem a votação, só iam votar economistas?!

      Gosto de perceber que os neo-liberais tentam sempre ser comedidos, para passar uma imagem “não extremista”, mas acabam sempre por querer fazer ver que a sua visão é a TINA da sociedade! Pois fique sabendo, que a sua TINA, é só sua e dos que votariam não, às gracinhas, ou seja, muito pouca gente…

      Cumprimentos

  3. Pois eu acho que o futuro é já ali:na amazon,ter “emprego” é o equivalente a passar 3 anos na guerra do iraque e …sobreviver.Por cá,ou por aqui ganha-se 505 euros,trabalha-se 12 horas,não se é paga em dinheiro(o horario extra) nem em tempo(normalmente a desculpa é que não se pode tirar o tempo porque alguem esta de baixa/ferias/etc) e contenta-te porque há mais duzentos á espera desta oportunidade maravilhosa.Quem sobreviver pode sempre reformar-se por stress pos traumatico(o tal da guerra do iraque,vietname,coreia,angola,guine,etc..)

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