Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Agosto de 2015, 08:40

Por

Isto é muito a sério, mas é só um começo

corbynNacionalizar a grande indústria e recuperar bens públicos, incluindo os caminhos de ferro, o gás e a electricidade, aumentar a progressividade dos impostos, investir para criar emprego, reconstruir o serviço nacional de saúde, abolir as propinas nas universidades, sair da NATO e recusar as aventuras belicistas, terminar com a opção nuclear das forças armadas britânicas. É o programa de Jeremy Corbyn, que é hoje o candidato mais bem colocado para ganhar a liderança dos trabalhistas britânicos (eleições em setembro).

A explicação para esta ameaça de um terramoto político dentro da social-democracia britânica parece fácil de entender. Primeiro veio Tony Blair, que conduziu o partido trabalhista aos crimes de guerra no Afeganistão e no Iraque, promoveu as parcerias público-privado, atacou os serviços públicos e afirmou o liberalismo como um dogma económico e financeiro para todo o sempre. A City reforçou-se e os conservadores voltaram tranquilamente ao poder e lá permanecem. Depois, o partido trabalhista prosseguiu a mesma política com os sucessores de Blair, de Brown a Miliband, mesmo que este tivesse prometido uma nova orientação, frustrando os seus apoiantes.

Ao longo de vinte anos, a doutrina da terceira via, segundo a qual as eleições se ganham ao centro com uma política de centro, conduziu à vitória monumental da direita. Por isso, muitos militantes trabalhistas querem romper com este passado e Corbyn aparece como o homem certo para o fazer.

Os cínicos argumentam que Blair tem mesmo razão e que, se o partido virar à esquerda, a direita se eternizará no poder. Vai ser refrão em Portugal e em toda a Europa, assustada com esta surpresa. Portanto, a ideia é que tudo deve continuar na mesma, com o centro a aceitar que a direita determine a única política admissível. Esta solução é a da eternidade da ordem liberal.

De facto, os partidos socialistas submeteram-se a tal razão cínica. Não é essa a história de Hollande? Eleito com promessas gloriosas (fazer frente a Merkel! em poucas semanas renegoceio o Tratado Orçamental e acrescento um plano para o emprego!), alinhou-se no consenso europeu e assim ficou. O mesmo se dirá de Renzi (que já enfrentou uma greve geral contra a mudança da lei laboral), o mesmo se dirá de Seguro e de Costa (para quem não há vida para além do Tratado Orçamental e dos comunicados do Eurogrupo), de Sanchez (que quer um ministro das finanças europeu, como Schauble e à imagem de Schauble) e de todos os outros.

A Inglaterra tem no entanto duas diferenças assinaláveis em relação a França, ou Itália, ou Portugal. A primeira é que o partido trabalhista tem uma história organicamente ligada ao movimento operário e sindical, o que explica que neste caso ainda tenha havido gente e convicção para esta aspiração a uma viragem anti-blairista e anti-liberal. A segunda é que o país não está submetido nem ao euro nem às regras do BCE e tem assim margem de manobra para políticas próprias, o que permite um debate mais aberto sobre alternativas realizáveis. A Corbymania que tanto incomoda o establishment resulta dessas duas potencialidades.

Deve ser levada a sério. É mesmo uma ameaça, porque é mais uma expressão de como os sistemas políticos subjugados às ideias liberais e à austeridade tendem a acumular tensões, que em alguns casos começam a explodir: assim começou na Grécia, continuou em Espanha e chega a Inglaterra. Mas como todos os exemplos mostram, é preciso muito mais do que um homem honesto, que abomine Blair e os seus crimes e que queira ser verdadeiro com a sua gente: é preciso ter a capacidade, o programa e a relação de forças para criar um poder que enfrente o poder. E isso não se consegue a partir de um partido mergulhado na renúncia e nos interesses. A divisão do partido trabalhista pela sua direita parece então ser o destino de uma hipotética vitória de Corbyn – e veremos se todos os outros candidatos e todos os bonzos do partido não se juntam contra ele. Se se separarem, ainda bem, não há nada que substitua a clareza de propostas políticas para um país e o seu povo.

Para a comparação com Portugal há pelo menos três conclusões evidentes. A primeira é que não há hoje no PS, nem houve nunca nos últimos trinta anos, quem defenda um programa que se assemelhe ao do Corbyn, nem sequer parcialmente. Ninguém, nem um assomo. Os chefes dos sindicalistas do PS, diga-se, costumam ser a parte do partido mais próxima do PSD. A segunda é que um programa semelhante só é defendido à esquerda e não ao centro. Mas as esquerdas, que se aproximam desta energia contra a razão cínica, não adoptam políticas unitárias que criem um referencial e preferem a política de quintal. A terceira é que os partidos de esquerda que em Portugal defendem o apoio ao centro, e assim lutam por um lugar de Secretário de Estado, sentem a necessidade de desgraduar o seu próprio programa e estão hoje à direita de Corbyn (lembra-se das explicações para a continuação de Portugal na NATO?).

O que em todo o caso fica demonstrado é que o mundo gira e avança.

Comentários

  1. A economia financeira dá nesta trampa.
    O povinho tem de votar é na nacionalização da guita/carcanhol/dinheiro e respectiva ‘destilação’.
    A economia para o benefício público só é possível saneando a estrutura da economia financeira. Quem acredita na benemerência e justeza financeira /capitalista? Quando fingem que dão em ajudas comunitárias estão a desenvolver meras campanhas publicitárias, campanhas auto-promocionais de mercado ou medidas compensatórias perante as normas fiscais. É possível viver bem, em harmonia social sem seguir a modalidade da especulação financeira.
    Criem-se regras de contenção firme e dura à especulação, etc, etc, etc…
    Abraços em geral e…

  2. Fora de casa por uma semana, tinha à minha espera o boletim de voto para a eleição do novo líder do Partido Trabalhista. A minha decisão estava à muito tomada e a minha escolha foi Jeremy Corbyn.Mas outro aspecto merece realce : O Labour desde a derrota de Maio quase triplicou o numero de militantes, que hoje são cerca de 600.000. A grande maioria são jovens que pela primeira vez sentem que a militancia politica vale a pena. A nivel local o efeito Corbyn faz-se também sentir : A minha secção da minha circunscrição, que estava práticamente moribunda, conta repentinamente com meia dezena de novos membros.
    Tudo isto resulta de um sentimento colectivo de alarme causado pelas politicas dos Conservadores: A introdução para breve de legislação que na prática proíbe o direito à greve; O corte dos apoios aos mais jovens e necessitados; O estrangulamento financeiro da BBC, uma voz independente demasiado incomoda, e muito mais.
    Relembro a frase de Dante :”Em tempos de crise o pior lugar do inferno está destinado aos que escolhem a neutralidade”
    Oxalá os Portugueses seguissem o exemplo.

  3. A minha opinião é bem mais radical.Por exemplo:o primeiro ministro inglês david cameron não devia ser atendido num centro de saude no Algarve.o senhor primeiro ministro inglês tinha obrigação de acionar o seu sistema de saude privado e sêr aí atendido.O pm inglês utilizou abusivamente SNS português,gastando dinheiro ao estado português.Tendo em conta que este senhor é um fundamentalista da privatização de tudo o que mexe então devia ter o bom senso de não recorrer ao centro de saude( o texto anterior é profundamente sarcastico e ironico,mas como se diz na minha terra,quem com ferros mata,com ferros morre)

  4. O Tony Blair (our should I say Blairderberg?)… Foi um grande lacaio ao serviço da máfia que controla (ou pretende controlar) o mundo!

  5. Boa análise de Francisco Louçã. Porém, vamos ver no que isto vai dar. As promessas de ruptura feitas à esquerda deram em águas de bacalhau, como sói dizer-se. Tal como FL assinala basta olhar para Hollande, para Renzi e já agora, digo eu, também para Tsipras. É preciso uma esquerda que não se envergonhe de o ser, que tenha propostas claras, que assuma bater-se pelos seus valores e que transmita confiança aos cidadãos, sem dogmas, sem vanguardismos, mas firme nos seus propósitos. É preciso que a esquerda diga ao que vem e dizendo ao que vem, uma vez no poder que concretize aquilo com que se compromete.

    1. O problema de quem queira fazer diferente é desde logo a falta de capacidade financeira para tal (o Reino Unido também apresenta níveis de endividamento público elevados e a sua Economia já nem sequer é capaz de absorver a Ciência e Inovação que por lá ainda se fazem, terciarizou-se completamente). Não vale a pena ter entradas de leão para ter saídas de Syriza, e desculpem-me o cinismo. Volto aqui a dizer o que tenho repetido. É importante que a Esquerda assuma as suas propostas e diga ao que vem, mas é igualmente importante que faça contas (como faz o PS, mesmo se não são completamente transparentes). Já se viu o que é o ‘Capitalist Encirclement’ pode fazer a um País como a Grécia, isto é, estrangular-lhe completamente o sector bancário, e isto só para começar. Helmut Schmidt, que é provavelmente demasiado à Direita para os gostos do Prof. Louçã, mas que tem criticado vigorosamente aquilo que chama o ‘Capitalismo Predatório’, disse em tempos que quem tem uma visão é bom que vá ao Médico. Quando instado a explicar o que disse, respondeu que não há mal nenhum em ter ideais, mas que é preciso indicar os caminhos para lá chegar.

  6. Excelente e bem colocado artigo de opinião de Francisco Louçã.
    No entanto, sem querer destoar, da leitura sobressai uma pertinente dúvida: – Qual o posicionamento de Corbyn no eventual Referendo sobre a saída/permanência da União Europeia?
    É também do esclarecimento desta dúvida, entre outras, que assim se definirão os diferentes alinhamentos e apoios político dentro do partido. Mais, mesmo que os “trabalhistas” prossigam uma postura pró-europeia, procurando demarcar-se da linha dura eurocéptica de “conservadores” e “nacionalistas”, uma nova política chegada à esquerda provocará novas linhas de ruptura com a corrente dominante da União Europeia…
    De facto, por estes e outros motivos, o Reino Unido, e em particular o seu sistema político, é uma ilha à parte do resto do continente europeu. E, de uma forma ou de outra, todos apenas quererão ser parte da UE (nomeadamente do mercado único europeu) se conseguirem impor uma liderança “reformista” numa Europa que também pretendem liderar – ainda que apartados do Euro, e da da zona monetária liderada pela Alemanha.
    Prosseguindo Corbyn (ou prosseguindo Cameron), no agudizar de uma crise de identidade que, entre referendos, afecta os britânicos, não há como o Reino Unido não vir a provocar a ruptura – e porventura a fragmentação – na Europa! De facto, “isto é muito a sério, mas é só um começo…”
    E tudo isto levado a sério, não deixa de ser interessante – e politicamente estimulante, na busca de alternativas políticas para a Europa, reposicionadas à Esquerda, como bem argumenta Louçã – a subida Corbyn na cena política britânica, recuperando os velhos ideais trabalhistas, de tradição nos movimentos sindicais, desse outro Reino Unido menos fausto e fleumático, que provém da força da união de mineiros e operários: seja qual for o fim, este é mais um sinal do começo dos tempos de RUPTURA, em oposição e/ou confronto ao liberalismo, que hão-de vir.

    CORBYN:
    “The Maastricht treaty… takes away from national Parliaments the power to set economic policy and hands it over to an unelected set of bankers who will impose the economic policies of price stability, deflation and high unemployment throughout the European Community.” Jeremy Corbyn speaking during the Commons’ Maastricht Treaty debate, 20 May 1992

    “There is no future for a usurious Europe that turns its smaller nations into colonies of debt peonage… Let’s use this as an opportunity to remake a Europe of solidarity.” Jeremy Corbyn writing for the Huffington Post, 29 June 2015

    “There is a lot wrong with the European Union, a lot of change needed… My fellow leadership candidates differ on whether Labour should join a cross-party Yes campaign or run an independent one, but I think it pre-empts the debate. I want Labour to set its own agenda and use this pre-referendum period to discuss this across the country.”Jeremy Corbyn writing for The Independent, 10 June 2015
    [Fonte: http://openeurope.org.uk/blog/how-could-a-corbyn-victory-impact-on-labours-eu-stance/ ]

    1. Creio que ainda não tomou uma posição muito concreta, até porque não se sabe como e quando vai ser tal referendo. Tem sido critico da UE, mas a oposição a Cameron e ao UKIP tem deixado a esquerda britânica numa posição muito mal definida.

  7. E não esqueçamos Bernie Sanders nos Estados Unidos, muito análogo e igualmente importante. Ambos constituem porventura um sintoma importante da viragem da sociedade civil nos epicentros ideológicos da TINA de Thatcher-Reagan. E lembremo-nos do muito que já foi dito a este respeito sobre a juventude norte-americana, do movimento Occupy a Sanders…

    http://www.huffingtonpost.com/2011/12/29/young-people-socialism_n_1175218.html

    http://www.ibtimes.com/bernie-sanders-2016-young-americans-say-they-support-socialism-do-they-know-what-it-1952787

    http://www.mrctv.org/blog/polls-show-socialism-rise-youth

    etc., etc., etc..

    “Todo o mundo é composto de mudança”

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