Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Agosto de 2015, 08:36

Por

“O que fazer com este país”, de Ricardo Paes Mamede

mamede livroNão é uma pergunta, é uma afirmação. E é o título do livro de Ricardo Paes Mamede, professor e economista, que foi lançado há pouco e que tem provocado um saudável debate. O livro é um levantamento preciso sobre as dificuldades da economia portuguesa e não ignora as questões estruturais, as que são anteriores à troika e mesmo anteriores ao euro. É um inventário rigoroso, escrito de forma clara e que constitui um dos melhores diagnósticos disponíveis sobre a sociedade portuguesa. Um livro indispensável, portanto.

O autor explicou as ideias do livro e o seu mote gramsciano (“do pessimismo da razão ao optimismo da vontade”, que acho originalmente tão bem intencionado quanto ambíguo) em diversas entrevistas, em que foi interrogado sobre as soluções e, como não podia deixar de ser, sobre a lição grega. Esse é um dos pontos mais interessantes do livro, porque a maior parte dos economistas portugueses preferiu ou fingir que tudo continuava igual depois da imposição do novo memorando à Grécia ou que ainda é possível uma salvação institucional dentro do euro. Pelo contrário, Paes Mamede não foge à dificuldade: a União Monetária é disfuncional (“constitui o principal factor de pressão sobre o modelo social europeu”, p. 230) e portanto Portugal tem que estar preparado para uma saída unilateral da zona euro (p.222). Vai ser preciso “correr riscos” e “desafiar as regras”. O desapego do autor em relação ao discurso institucional europeu é evidente – e justificado. Por isso, nota que a estratégia grega foi perdedora desde o início, porque não se preparou para o confronto e por isso acabou por aceitar o recuo.

A crítica à “austeridade expansionista” e aos programas seguidos pelo governo Passos Coelho-Portas é muito bem fundamentada, e os capítulos sobre desigualdade, crescimento e emprego são trabalhos particularmente bem conseguidos. São os pontos essenciais de uma alternativa e o seu argumento de que “não há soluções micro para problemas macro” devia ser colocado em outdoors no país inteiro.

Num comentário anterior sobre os trabalhos de Paes Mamede, destaquei a minha diferença quanto à sua teoria sobre o “triângulo das impossibilidades”. Escreve ele que é impossível cumprir simultaneamente três objectivos: “travar a austeridade em Portugal, evitar a reestruturação da dívida e cumprir as regras orçamentais europeias” (p.131 e 222). Aqui estou de acordo. E há uma consequência, já agora: a estratégia do PS é impossível e portanto errada e enganadora. Nunca será possível cumprir esses três objetivos simultaneamente.

Só que o uso na teoria económica destes “triângulos” remete sempre para a ideia de que é possível compor uma política baseada alternativamente só em dois lados do triângulo. Escreve o autor que, se o crescimento for forte, a taxa de juro baixa durante anos e a inflação alta, pode ser possível cumprir dois dos três objectivos (p.131). Talvez, mas não nos apresenta as contas para os níveis que seriam necessários, o que evitaria debates escusados. Nas minhas contas, que publiquei num estudo sobre a dívida elaborado com outros economistas, mesmo com uma reestruturação importante da dívida não é possível cumprir a regras europeias e é então necessário preparar uma alternativa. Presumo, em todo caso, que Paes Mamede atribui pouca relevância ao cenário perfeito em que tudo se conjugaria magicamente para reduzir a austeridade e evitar a reestruturação da dívida ou cumprir o Tratado Orçamental. O facto de esse cenário ser implausível diz tudo sobre o caminho que a política económica de esquerda deve trilhar e nisso ele tem razão.

Pedro Adão e Silva, na apresentação do livro, notava com argúcia que faltam alternativas, se a opção se decide entre uma renovação europeia que não acontecerá e uma saída que é difícil e arriscada. Mas talvez este livro seja mais do que um convite para pensar alternativas e mesmo para as preparar. É um manifesto para a mobilização fora do pensamento débil, e essa é uma grande virtude.

Comentários

  1. Tb li o livro, com muita atenção. Também chego à mesma conclusão:

    > Mas talvez este livro seja mais do que um convite para pensar alternativas e mesmo para as preparar.

    e também foi essa a minha leitura – chegou o tempo de agir. Tenho então uma pergunta. A Democracia partidocrática não parece dar conta do recado. Não parece haver vitória nas eleições ou nos referendos que transcreva a vontade, ou mesmo minimamente acautele, o futuros do povos do Euro. Sr Francisco Louçã, o que fazer então? Não será uma “debilidade mental” continuar a fingir que esta “Democracia” é menos propícia a ceder o que não é dela como o foi a Ditadura? Quão alienado terá que estar a soberania nacional e o contrato social para devermos assumir esta conversa sem a tal debilidade mental? Repare que no livro, Ricardo Mamede descreve o que está em causa ser a persistência de uma “Sociedade Portuguesa”.

    1. Não creio que se possa associar democracia a “debilidade mental” (“pensamento débil” é outra coisa, é uma categoria política). Há momentos de mobilização em que as sociedades destroem as ideias feitas e hegemónicas. É esse caminho difícil que é necessário, sem desistir.

  2. Unir a esquerda. Somada dá 20% quando dividida. Unida iria conquistar muitos indecisos. Aí é que a direita a trataria com mais respeito

  3. A situação política na Grécia está em constante ebulição. Está longe de se saber como “acabará” todo este processo. Assinalo contudo, que as afirmações com que Aléxis Tsípras justifica o novo resgate são, de facto,mais do mesmo, ou seja,praticamente iguais às do PASOK e da Nova Democracia. O que se seguir vai dizer-nos se Tsípras terá feito bem ou mal ao aceitar, ou melhor a render-se, perante as condições que lhe foram impostas.

    1. Não são iguais, mas são uma justificação do “não há alternativa”. E isso é prejudicial a toda a esquerda e ao povo grego.

  4. Qualquer pessoa modesta sabe perfeitamente que sem a sagrada constituição socialista e com meio Salazar Portugal mantinha-se logo no euro e reduzia mesmo a dívida pública. O que este economista apoiado por Francisco Louçã nos está a dizer é que os cortes no Estado não são uma opção e são impossíveis. Mas não são.

    1. Errado. Não leu o livro e falou por falar. Ricardo PM propõe cortes importantes nas despesas absurdas do Estado, mas não inclui nisso os sarlários, as pensões, a saúde ou a educação. Ele acha que não se entregam bens públicos ao mercado. Eu também.

    2. Acho que já quase nem há bens públicos para entregar, nem mercado que os queira! Eu não estou contra a generalidade das privatizações pós-Troika, aquilo que me tira do sério é que, mais uma vez, os capitais encaixados tenham servido para aguentar as banhas do Monstro Social, de tal forma que a dívida pública não caiu NADA, e, tanto quanto eu saiba, o peso da despesa pública no PIB voltou a subir fortemente. Ainda bem que o Francisco Louçã não considera a pensão de 170.000 euros por mês de Jardim Gonçalves uma “despesa absurda”. A cada um os seus absurdos…

    3. A despesa com a pensão de Jardin Gonçalves é absurda e errada. E, mais uma vez, a sua afirmação sobre o que eu “considero” é preconceituosa e de mau gosto. Mas, se se desse ao trabalho de pensar antes de escrever, saberia que esta despesa não é uma despesa pública mas sim privada (do BCP). Se tudo o que escreve sobre as “banhas do monstro social” for tão bem fundamentado como isto, estamos conversados.

    4. Há que séculos que o BCP já não é privado… Só o Francisco Louçã é que não deu por nada… É um velho truque socialista, ter o Estado a mandar e dizer que a empresa ou o sector é “privado”, baseando-se em formalidades. Quem paga a pensão de Jardim Gonçalves, a partir do momento em que o BCP não dispõe de qualquer capital, é o contribuinte. Já agora, a pensão de Jardim Gonçalves também é em parte puramente pública, já não me recordo dos pormenores, mas isso foi veiculado na altura.

    5. Defender-se com disparates acrescidos é má estratégia. Pensava que era a segurança social que pagava e não é. “Não se recorda dos pormenores” porque está a inventar uma fábula. O BCP é mesmo privado e não são dinheiros públicos quem paga a sua despesa com pensões. É melhor ficar por aqui.

    6. Talvez o Francisco Louçã nos queira pois explicar como é que é o BCP que paga pensões milionárias, já que os fundos de pensões dos bancos foram transferidos para a SS há anos, para tapar défices excessivos. Suspeito de que o Francisco Louçã saiba tanto da pensão de Jardim Gonçalves como eu, mas eu ao menos assumi que não conheço os pormenores, e assumo mesmo que eles não me interessam, pois Jardim Gonçalves é só a ponta do iceberg.

    7. Continua com a garotice. Não é o fundo de pensões que foi transferido para o Estado que paga a pensão do Gonçalves. O homem, componha-se e não insista no disparate.

    8. Não sei se a insistência é garotice ou teimosia em mostrar ignorância. O acordo de Jardim Gonçalves (de que o recorte citado nada diz) é um acordo de cessação da administração, não corresponde a um fundo de pensões que paga segundo o contrato normal e o percurso contributivo dos trabalhadores bancários. Lamento que a vida seja assim, mas foi o seu mercado e uma administração liberalissima e privada de um banco que foi sempre privado quem decidiu pagar ao Gonçalves, não foi o monstruoso Estado que deve ser aniquilado pela odes liberais.

    9. Já podia ter dito que os administradores das grandes empresas têm regimes especiais, e que as regras de cálculo de pensões de acordo com as contribuições não se aplicam a eles, o que naturalmente decorrerá de leis mal feitas (havia uma época em que era possível acumular pensões de reforma, nem as pensam…). Mas isso não muda a substância da coisa, o BCP não tem capital, até mais ver, e só na aparência é privado. Quanto à liberalíssima pensão do Gonçalves, gostaria de saber se os accionistas alguma vez a teriam aprovado. Já agora, esta conversa não era sobre o Gonçalves, mas parece que não escolhi o melhor exemplo, penitência e repouso!

  5. Perante as incertezas de um cenário de saída do Euro, compreende-se bem o calculismo de António Costa. Cabe à Esquerda analisar os diferentes cenários e preparar uma saída tão suave quanto possível. Porque já se viu que apelar à razoabilidade dos parceiros europeus não resulta e de nada vale ter a razão e a moral do nosso lado quando elas não são secundadas por um plano de acção minimamente eficaz. A esse respeito, vale a pena ler o texto de Galbraith: http://bibliobs.nouvelobs.com/idees/20150731.OBS3541/l-europe-ne-peut-et-ne-devrait-pas-tenir-tres-longtemps.html.

    1. Mas calculismo pode ser situacionismo – vd os partidos socialistas em França ou na Grécia (ou em Portugal). E isso é simplesmente Merkel.

  6. Creio que se anda a rabear em volta de uma coisa que não é, nem um problema, nem carece de solução. A “dívida” de que todos falam e bradam aos “céus que nos há-de asfixiar”, não passa de uma falácia, cuja histeria confunde até os “melhores” e os priva de encontrar a razão. A dívida cresce porque consta no ADN dos mercados financeiros que ela deve crescer; a dívida cresce porque um dos instrumentos de que dispõe um sistema capitalista com forte recorrência aos mecanismos financeiros, para regular os fluxos de liquidez e conter práticas especulativas, o défice, está constrangido e vinculado a memorandos que o impedem de ser um verdadeiro instrumento de regulação; A dívida cresce porque qualquer actividade em prol da sua redução, implica que a economia entre em recessão e contrarie as patéticas performances que os governos acolhem nas estatísticas. Com todos estes trunfos que a dívida tem para vingar, só nos falta compreender que a dívida não é um problema nosso, dos cidadãos, ela é uma pedra no sapato dos governos e dos Bancos centrais, mas nem por isso é um problema nosso. É problema dos governos, porque os condiciona na adjudicação de grandes obras, em investimentos emblemáticos (entre outros), não raras vezes profícuos para a elite política que os promove. Para os Bancos centrais porque mais tarde ou mais cedo, cabe-lhes a eles “limpar” os malefícios dessa dívida na economia, comprá-la e desfazer-se dela ao longo dos anos, com o esquecimento (de notar que os juros da dívida pagos aos Bancos Centrais deverão ser devolvidos aos Estados, pelo que é como se não existissem…). A dívida é portanto um “não assunto” que só atrapalha os gagos e os académicos. Há uma certeza em cima da mesa: Grande parte da dívida vai ser saldada através de mecanismos híbridos e astuciosos por parte dos Bancos Centrais, com a bênção do Banco Central Europeu, mas nunca será paga pelos Estados… (que se conheça, nunca uma dívida soberana foi paga na totalidade). Ouvem-se já os apóstolos da finança que sustentam soluções como: “mutualizar a boa dívida (inferior a 60% do PIB)”, como sugere Jacques Delpla. Ou, pelo contrário: “que se faça comprar a má dívida (superior aos 60% do PIB), por um Fundo Europeu de (“defeasance” em Inglês) “limpeza”, como contrapõe um grupo de sábios alemães. No fundo, está em curso uma reestruturação da dívida, não por iniciativa de qualquer governo, mas porque ela promove uma instabilidade financeira que destempera o próprio sistema capitalista. Será tempo de se limparem os jornais desta perfeita idiotice.
    E já agora, caro Francisco, é pena que partilhe dessa opinião de que “não há soluções micro para problemas macro”, pois tornou-se claro que, perante a afronta global da restrição dos direitos civilizacionais, só soluções micro ainda são escrutinadas por esse mundo fora. Mudar as instituições que estão mais próximas dos cidadãos parece ser o instrumento perfeito para chegar às soluções macro, não acha Francisco Louçã?

    1. Não percebo o seu argumento. Se acha que a dívida não passa de uma invenção, prepare-se para uma vida dura, porque ela é um instrumento muito real para a chantagem e o poder da finança. Sem anular a dívida não se responde ao poder desse poder. Quanto a instituições mais próximas, sim e não: o que importa é alterar as relações de poder e, como o fracasso da Grécia demonstrou, é preciso enfrentar Berlim e ganhar capacidade de escolhas autónomas.

    2. Numa coisa eu estou de acordo com o Francisco Louçã, a Grécia devia ter saído do euro, e até há mais tempo, em rigor melhor fora que nunca tivesse entrado. Desta feita só ficou por causa da França, ou de Hollande se preferirmos, e do apego ao poder de Tsipras. Mas caprichos e ambição não são soluções, são problemas. Como já há poucos problemas por lá…

    3. Não é a dívida que é uma invenção, Francisco, mas sim a ideia de que ela nos deve atormentar e, aliás, a sua resposta vai exactamente no sentido do que eu afirmo, quando diz que “ela é um instrumento muito real para a chantagem e o poder da finança”. Anular a dívida não passa de uma forma prosaica de a assumir como verdade absoluta das determinações da finança. O Japão convive perfeitamente com 250%. Quanto à vida dura, sei bem o que é…e não foi por determinação da dívida soberana que Portugal me obrigou, primeiro a emigrar por discordar de uma guerra estúpida (passo a redundância) e uma segunda vez por ter sido impedido de exercer a minha actividade de empresário, devido às extravagâncias de políticos que estão mais empenhados em secar o empreendedorismo do que em compensar o tributo que os contribuintes lhes pagam. Quanto às escolhas autónomas que pretende reivindicar à Europa, sendo discutível, há muito que perdi esse ensejo e não vejo como relançar princípios contrários à globalização, enquanto o paradigma que gere as intenções for o capital e não o Homem e o seu bem-estar.

  7. Parece persistir a ideia, mesmo a convicção, de que a ideia de continuidade da UE, tal como a vivemos, não tem consistência futura. O que se tem constatado é uma adaptação constante à vontade dos mais poderosos.
    Por outro lado uma saída, por desmantelamento do sistema, desencadearia uma autêntica pulverização com resultados imprevisíveis.
    O Prof. F. Amaral tem uma visão muito concreta sobre o assunto.

  8. Portugal nao esta assim tao bem como dizem os portugueses continuem com baixos salarios outros imigram outros em estagios como sempre pagos com o dinheiro que vem da Europa e continuemos sempre com os mesmos fracos politicos mentirosos que seja da direita ou de esquerda que vao vivendo à custa dos dinheiros europeus portugueses abrem os olhos eu estou à 49 anos no estrangeiro hoje reformado tinha sempre o sonho de regressar ao nosso PORTUGAL Cheguei vi como estava o PAIS vendi o meu apart. e voltei difinitivo para o estrangeiro nao dou mais un euro para esses trafulhas de politicos

    1. “Temos o sol.” (Pedro Ferraz da Costa) – agora a sério, é um drama lusitano a nossa incapacidade de nos governarmos. É um drama a tola e descomunal presunção dos tugas de acreditarem que podem ser governados por um Santana Lopes e por um Pinto de Sousa sem sofrerem brutais consequências. E até agora sofreram bem pouco, diga-se.

    2. Meca. SE DESISTIU DE PORTUGAL. Se já não se identifica com o país – e não é cidadão beneficiário ou contribuinte. Se aqui não tem residência ou outros vínculos materiais e afectivos… Então, o que tem a fazer é RENUNCIAR à NACIONALIDADE PORTUGUESA!
      Seja francês ou alemão, da Suíça, Reino Unido, Luxemburgo, EUA, Canadá ou outro – mas, não diga que é “português”!
      Portugal precisa de bons cidadãos – incluindo os emigrantes – que levantem a moral do país. Não de vã retórica miserabilista, entregue à evasão e ao pessimismo!
      “[…] Levantai hoje de novo, o esplendor de Portugal” – assim canta o hino de “A Portuguesa” (entoado também por milhares de emigrantes portugueses quando, dispersos pelo mundo, vibram entre outros eventos e efemérides, com os jogos da Seleção da Quinas).

      “Renuncie” e veja que não será caso único: http://observador.pt/2015/02/18/pedidos-de-renuncia-nacionalidade-portuguesa-aumentaram-em-2014/

      Os Paradoxos da Emigração.
      A emigração sempre foi vista como um “escape” – entre o aventureirismo e a fuga à opressão e à miséria. Uns, demandando por riquezas, outros buscando a LIBERDADE, uns e outros ambicionando uma vida melhor – PROSPERIDADE. Uns, com a SAUDADE de regressar, outros com a determinação de começar nova vida, sem olhar mais para trás.
      Ao longo de várias gerações, os emigrantes (e também os “exilados”) trouxeram divisas, riqueza e novas modas e ideias de modernidade e de progresso – assim foi com os “abrasileirados” e assim ainda é com os “afrancesados”, entre outros “estrangeirados”. Mas também sempre houve aqueles para quem Portugal era uma “má lembrança” do passado, mau retrato de um “atraso” de gente e de vida que queriam superar e esquecer – americanizando-se, africanizando-se ou afrancesando-se.
      Hoje, muitos são os portugueses qualificados, malfadados à contingência de ter de emigrar (percorrendo novas e velhas rotas de emigração) que por ambição pessoal e imperativos de carreira profissional perdem da saudade o anseio de regresso – e, embora o país tenha também investido na sua formação, desistem de Portugal!… E, pior, isto acontece num quadro de um Portugal livre, democrático e alinhado com a Europa (embora, na realidade, não “convergente” com a prometida prosperidade europeia)- sem que do desertor ou refratario da Guerra Colonial ou do foragido da tirania da figura diabolizada de SALAZAR, mais a evasão do atraso que era o ESTADO NOVO, se encontre justificação – Ou será que por detrás da Liberdade, Democracia, Europa e Paz, se escondem hoje outras ocultas e mais diabólicas tiranias, submissão, imperialismos e guerra?
      E isto deve preocupar sobretudo os que ficam – e não podem, ou querem, sair, emigrar, abandonar e desistir de Portugal! Pois, são estes – para quem a EMIGRAÇÃO NÃO É UM “ESCAPE” às suas frustrações individuais – que sempre se espera a derradeira MOBILIZAÇÃO COLECTIVA que exija melhores políticos, melhor governo, melhor regime – e, por acréscimo, uma outra participação mais activa na Europa. [Perguntarão ainda muitos “saudosistas”, até com uma certa razão, não obstante o evidente anacronismo: – Se foi pelo sonho desta Europa, que em nós, portugueses, morreu o outro funesto sonho de – “Non, ou a vã glória de mandar” – do Império?]

      – Até quando seremos um país adiado?… Ei-los, os que partem – aventureiros emigrados, estrangeirados e, novamente, falhados? Ei-los, os que ficam, um povo resignado à brandura costumeira do seu pessimismo? Um Povo passivo e ausente de si mesmo não se rebela – e nem revela as suas verdadeiras motivações e potencialidades. Até quando, Portugal, serás NEVOEIRO? Quando, finalmente regressado do teu exílio, será chegada a HORA?

      A emigração tem muitos paradoxos. Escrevo hoje em BRAGA – que como muitas outras cidades e vilarejos, sobretudo no Norte do país, se enche e anima com a chegada dos emigrantes. A maioria deles comunica entre si num francês “macarrónico” que serve tanto a sua vaidade, quanto o ridículo e a estupidez de qualquer “estrangeirado” no seu próprio país. E reparo que muitas crianças – porventura nascidas no estrangeiro e com iguais direitos de cidadania portuguesa – não falam português. Fazem-se por um mês senhores aburguesados de um país que tanto amam como desprezam, escondendo quantas vezes por debaixo da aparência do novo-riquísmo, manifesto na ostentação tantas vezes exuberante da posse de bens materiais, a miserabilidade real, amorfa e vazia das suas vidas. Uns, acham-se emigrantes por infortúnio e contingência ainda duramente no peito sentida, outros, superam-se na venalidade material do que é superficial.
      Entretanto, acompanha-me nesta estadia por cá a minha mulher – nascida brasileira e que também se sente e quer ser portuguesa. Ama o nosso país – que bem conhece do Minho ao Algarve – e é apaixonada pela sua história, paisagens e cultura. De Lisboa para Braga, conhece na primeira pessoa o estigma de ser “IMIGRANTE”, oriunda fora UE – e para mais brasileira! À burocracia desencorajante do SEF, soma-se o preconceito e a ignorância de um certo tipo de conservadorismo congenito das gentes do Minho, e que é também de um modo geral dos portugueses – sempre abertos à exportação de gente e aos estrangeirismos da modas vindas de fora, mas reservados, desconfiados e de trato mesquinho e grosseiro ao “estrangeiro” que não se lhes afigura “senhor” mercê de distinta hospitalidade ou vassalagem, ou “servo” e “escravo”, criadagem menor, que o sirva e faça-os sentir “senhores”. Servir ou ser servido, não há dignidade suficiente para sermos todos iguais, lutando por um objectivo comum – e isso é também um espelho da nossa história: hoje, subjugados na participação passiva e marginal na Europa, ontem, activos exploradores e dominadores imperiais dos novos mundos descobertos.
      [Num parênteses. Na mente de muita gente por cá, ser brasileiro é sinónimo de “malandro” e brasileira trás o rótulo de “mulher fácil” ou “mulher da vida” (eufemismo para dizer “puta”) – e isso nota-se no olhar de soslaio de muitas portuguesas e no assédio grotesco dos portugueses… que nem reparam que cada vez são também mais os “brasileiros-bem-formados” que escolhem as nossas universidades para se doutorarem, “brasileiros-bem-na-vida” que vem para a Europa em turismo e escolhem como destino de preferência Portugal, e outros brasileiros com maior ou menor “fortuna” (alguns até aposentos), que pretendem aqui residir desfrutando com dignidade de melhor conforto, oportunidades e segurança, brasileiros descendentes de portugueses ou aportuguesados que em muitos casos amam mais o nosso país e projetam dele uma imagem bem mais esperançosa e positiva do que nós próprios… Mas insistimos em ser um povo rude e mesquinho.]

      Posto isto, afinal o que é ser português? Para que serve a “liberdade individual” em contraponto à “identidade colectiva” e nacional?
      Emigre – quem quiser e melhor proveito ache em sua vida (e sinta-se desobrigado, se assim em consciência decidir, permanecer “português”)
      Imigre – quem deseje e em conforto e paz aqui melhor prospere, resida, permaneça e constitua família.
      SEJA PORTUGUÊS QUEM AME PORTUGAL – e aqui, ou em qualquer parte do mundo, melhor projete a nossa “identidade colectiva”, por um Portugal com futuro!

      Fernando Pessoa: “Todo o portuguez que não é sebastianista é um traidor.”
      Eu creio que é possível fazer ressurgir Portugal, se a cada Hora nos empenharmos coletivamente em construir um país melhor. Se assim não for, ainda que vivas como “português” – se é que algum dia chegaste a viver – em boa-verdade, já estarás morto. Viva, ou morra, na nossa alma Portugal!

    3. António Anchas, o meu caro está quase poético na sua declaração de amor a Portugal, mas tem que admitir que Meca também terá as suas razões e paixões. E que no fundo se ele, pessoa modesta pela forma como escreve, desistiu de Portugal para sempre, o comentário que faz mostra que sonhou longamente com outro Portugal, até que, na avaliação que fez, constatou que o Portugal real ia de mal a pior. Eu não tenho como não lhe conceder que a posição dele é defensável. Talvez o mais grave seja haver tantos jovens que defendem e praticam o mesmo do que Meca.

  9. A Alemanha atacou, e venceu, a Grécia e o sul da Europa através do assalto feirante. A plebe ficou escandalizada apenas quando chegou a altura dos nazis se apresentarem como donos a quem devem entregar tudo o que eles decidirem receber.

    A operação do IV reich foi simples e eficaz, fez uso prático do trilema de Mundell-Fleming. Com a moeda única instalada, promoveu a injecção massiva desse “capital” nos países com o objectivo evidente de destruir a feira (mercado) desses países. Com a injecção de capital o país passa a importar muito mais e a exportar muito menos, isto é, fica completamente dependente do exterior que disponibiliza o “capital”. Depois foi só retirar essa injecção de capital e o país tem de entregar tudo porque não tem como se sustentar. Foi uma operação simples de pesca: um isco para o peixe morder e depois sacar o peixe todo.

    Não é difícil perceber que a Grécia é a actual Auschwitz feirante, onde os nazis não gastam recursos com gás para obter o mesmo resultado nos gregos; que a Grécia hoje é apenas o território usado para servir de exemplo, para mostrar à Itália e França, quando chegar a altura dos nazis exigirem receber deles; que o plano nazi está em curso e não chegou sequer a meio; e que abordar o assalto nazi como sendo algo “de economia” é pactuar com as suas práticas culturais do “Deutschland ubber alles”.

    Obviamente que a esquerda não tem qualquer solução, uma vez que não percebe sequer a gravidade da situação, é defensora da existência de feiras (delinquência mercantil ditos “mercados”), e ela própria aceita a retórica da “superioridade do mercado Alemão”, que mais não é que a reciclagem da “superioridade da raça ariana”.

    Portanto com criaturas como as da esquerda, nem a Grécia e muito menos o resto do sul da Europa, estão a salvo do assalto nazi. A esquerda acredita que os actuais crimes nazis são uma coisa “da economia”, e não uma prática criminal deliberada. Mesmo com os assaltos, as razias à frente dos olhos e dentro das casas deles.

    Se antes eram os judeus que deveriam desaparecer, porque estorvavam a superioridade da raça alemã, agora são os gregos que devem ser torturados e desaparecer porque estorvam a superioridade do mercado alemão.

    Enfim, não sabem sequer que com delinquentes cadastrados – com crimes contra a humanidade, repetidos – como os nazis, não há conversas nem acordos, porque eles devem, pura e simplesmente, estar presos ou no passado. Não há liberdade na Europa enquanto o país mais cadastrado estiver à solta, a destruir e a mandar destruir tudo e todos, outra vez.

    1. enfim…mais do mesmo argumentário reductio ad nazium e hitlerium. Mais do que uma ofensa a quem é dirigido o argumento, é um insulto monstruoso à memória dos quem sofreram e combateram o nazismo. Comparar a Grécia a Auschwitz fá-lo merecedor de uns dias em Auschwitz.

  10. Boa recomendação de leitura… que vou seguir!
    Concordo com o estimado Francisco Louçã de que é preciso preparar o país para a eventual saída do Euro, tomando em conta a “disfuncionalidade” da União monetária.
    Entretanto, além das dificuldades na reintrodução de moeda própria [já estudada por Louçã e João Ferreira do Amaral, em “Solução Novo Escudo”], sobretudo se partir de uma posição não negociada, há a considerar a eventual oposição dos partidos europeistas do centro [PS, PSD], as pressões de Bruxelas, mais o cepticismo pouco esclarecido dos portugueses – e, pela via democrática, estes deverão poder expressar livremente o seu voto – opção Saída/Permanência – em REFERENDO!
    Mas isso não impede que não se tome em consideração soluções alternativas, complementares ou transitórias em relação ao Euro…
    Para melhor refletir sobre o assunto, sugiro aos estimados economistas que melhor observem como funciona o BANCO WIR, na SUÍÇA. Certamente não é panaceia que cure todos os males e fragilidades da nossa economia – longe disso! Mas é uma abordagem alternativa a considerar no estímulo que é preciso dar ao “empreendedorismo”, à “cooperação” e ao “associativismo” nacional, sobretudo dirigida à promoção e dinamização das pequenas e médias empresas, PMEs.
    Para mais, num mercado Global dominado por grandes grupos multinacionais importa melhor defender e valorizar a “produção nacional” – pois disso depende a criação de emprego, a fixação de riqueza, a sustentabilidade do crescimento do mercado interno e o desenvolvimento do país!
    O Círculo WIR, criado em 1934 em resposta às dificuldades que se seguiram à Grande Depressão, funciona através de um “sistema alternativo de crédito e de pagamentos”, que circula através do curso restrito de uma moeda – “WIR”, CHW -, paralela e complementar ao Franco suíço, CHF. O Círculo WIR é visto por muitos economistas como mais um importante instrumento responsável pela robustez da economia suíça, sobretudo na resposta das PMEs em tempos de crise. Pense nisto…

    COMO FUNCIONA O BANCO WIR? Breve reportagem do canal tv italiano Rai, 2012:
    https://youtu.be/Z6dALZpEg-c

    1. Boa-nova no Sertão. – Como criar um “Banco Comunitário de Desenvolvimento” e fazer circular moeda própria?
      Joaquim de Mello Neto conta como uma miserável favela de gente desterrada no sertão da periferia de Fortaleza (na verdade, esta era uma comunidade original de pescadores que do arrasamento do casario à beira-mar foi empurrada, ao abandono, para o sertão, dando assim lugar aos novos hotéis e avenidas junto à praia da nova cidade turística da capital cearense, na década de 70) conseguiu, isolada e com escassos meios, prosperar criando o seu próprio banco comunitário – Banco Palmas – e moeda local, Palmas.
      E do enorme sucesso desta “revolucionária” iniciativa surgiu a difusão do conceito de Bancos Comunitários de Desenvolvimento – hoje replicado a muitas outras comunidades espalhadas pela na maioria dos estados desse imenso Brasil.

      Veja: “Moedas Alternativas: o Palma do banco comunitário Palmas” (4 min)
      https://youtu.be/zCz4Iowk7UI

      Veja: “Globo Repórter – A Surpreendente Economia dos Palmas” (8 min)
      https://youtu.be/notDhUpuzhY

      Veja: “O Início dos Bancos Comunitários – Conjunto Palmeiras e o surgimento do Banco Palmas” – palestra de Joaquim Mello (25 min)
      https://youtu.be/6vJX3t8nMyw

      Agora, a pergunta relevante para o nosso assunto: – Se uma comunidade extremamente pobre conseguiu dar a volta por cima e criar seu próprio “banco comunitário” e “moeda”, contrariando assim o ciclo de empobrecimento e miséria; por que motivo não poderão os portugueses, com muitos mais recursos, conhecimento, autonomia e massa crítica mudar para melhor o seu destino – que, por vaga analogia, poderá eventualmente também passar pela reintrodução de moeda própria?
      Em Portugal, não faltam bons economistas capazes de fazer bons diagnósticos. O que faltam são Líderes capazes, com uma ideia clara sobre o Futuro, e um Povo verdadeiramente motivado e empenhado na Mudança!
      Mais do que a grande diferença de escala – que vai da longa distância percorrida entre uma pequena e pobre comunidade do sertão brasileiro, até a um Estado-nação tido ainda como soberano e senhor de um enorme passado histórico que é Portugal – importa, sobretudo, fazer aqui realçar, num tom um quanto provocatorio, a enorme diferença de atitude… A atitude de aparente passividade, resignação e subserviência dos portugueses de hoje face à Troika de credores e ao espartilho do Euro; aqui em contraste, com a tremenda proactividade de um povo jovial e sempre esperançoso num futuro melhor, que é também um retrato criativo e caricativo desta Comunidade sertaneja…
      E das memórias de outros tempos e outras comunidades sertanejas deste Nordeste brasileiro, há quem ainda recorde o arraial de Canudos e de Antônio Conselheiro.

      “À memória de Antonio Conselheiro, bandido, louco e santo, que, no sertão do Brasil, morreu, como um exemplo, com seus companheiros, sem se render, batendo-se todos, últimos Portugueses, pela esperança do Quinto Império e da vinda quando Deus quizesse, de El-Rei D. Sebastião, nosso Senhor, Imperador do Mundo.” – Fernando Pessoa.

    2. «Em Portugal, não faltam bons economistas capazes de fazer bons diagnósticos. O que faltam são Líderes capazes, com uma ideia clara sobre o Futuro, e um Povo verdadeiramente motivado e empenhado na Mudança!» Antonio Anchas.
      Resolva este problema, e pode tranquilamente beneficiar do Euro, não precisa sair.

  11. Disfuncional é o minimo que se pode dizer do euro.Ao lêr noticias como por exemplo o facto de a alemanha têr ganho uma pipa da massa com a crise da Grécia na questão dos juros não abona em nada em relação à UE.Não se trata de criticar a alemanha e os seus “ganhos” mas sim de uma europa onde toda a gente ralha e ninguem tem razão.Entretanto os mercados asiaticos ,a America do Sul ou mesmo o continente Africano(aquilo que anteriormente se chamava o terceiro mundo) poderão retirar daqui algumas lições ou mesmo vingarem-se em relação à soberba e arrogancia do chamado primeiro mundo(que recorde-se sempre viveu acima das suas possibilidades precisamente por rapinar tudo o que podia e não poidia…precisamente no tal terceiro mundo)

    1. É completamente falso que a União Europeia viva acima das suas possibilidades, e as suas contas externas provam isso mesmo. Já outras partes do primeiro mundo… Para essas, o bocado que lhes está reservado chegará um dia, e será bem amargo. É matemático. Mas isso depende dos homens amarelos de olhos em bico, e não de nós.

    2. João, leve em conta que quando o nosso prezado comentador Liberal diz “completamente falso” poderá não estar ciente de algumas contas além das financeiras:

      “13 de agosto de 2015 marcou o dia quando a conta da humanidade com a natureza foi para o vermelho e esgotamos os recursos que o nosso planeta pode fornecer no ano. A partir de agora iremos utilizar o estoque de alimentos, terra e outros recursos destinados às gerações futuras.

      Isto marca o ponto mais recente que esse limite jamais foi ultrapassado.

      A Global Footprint Network, que calcula o anual “Earth Overshoot Day”, determina a data comparando as nossas demandas sobre o mundo natural para coisas como construção, fabricação e absorção de resíduos e dióxido de carbono, ao que pode realmente ser gerado e reposto por florestas disponíveis, terrenos agrícolas e reservas de pesca.

      A nossa sobre-exploração dos recursos da Terra começou em 1970, quando a capacidade total foi alcançada no final de dezembro.

      (…)

      Países individuais contribuem de diferentes maneiras para esta data, dependendo do seu estilo de vida. Como a grande maioria da população do mundo, as nossas demandas [do Reino Unido] sobre a natureza ultrapassam em 3 vezes o que os nossos próprios recursos podem oferecer actualmente.

      Se o resto do mundo vivesse como o Reino Unido vive, o limite de crédito global teria sido atingido em maio.”

      Fonte: http://www.bbc.com/earth/story/20150812-can-rationing-save-the-world

      Naturalmente, o saldo negativo é cumulativo e para nos mantermos no verde o limite de crédito não poderia ser atingido no mesmo ano, sendo que nunca foi atingido tão cedo antes de 2015, se os dados da Global Footprint Network estiverem corretos.

      Liberdade (com responsabilidade) a quanto obrigas… Cumprimentos

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