Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

12 de Agosto de 2015, 10:24

Por

O aumento de capital da Fidelidade

Depois de correr alguma (insuficiente) tinta sobre os investimentos da Fidelidade e do total silêncio das autoridades, a imprensa noticiou que a Fosun irá investir 607 milhões de euros na recapitalização Fidelidade. Poder-se-ia pensar que o aumento de capital é um sinal de que as autoridades (em particular, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, ASF) estão a fazer o seu trabalho, discretamente e de forma competente. Será mesmo?

Mas, infelizmente, o aumento de capital não satisfaz. Por diversas razões:

– Uma das cláusulas da privatização da Fidelidade obriga a Caixa Geral de Depósitos (CGD) a vender em exclusividade os produtos financeiros da Fidelidade durante 25 anos. Se a Fidelidade aplicar mal os fundos que recebe com a venda desses produtos financeiros, ou se vier no futuro a acontecer à Fidelidade o que ocorreu ao Grupo Espírito Santo (GES), os clientes da CGD podem recorrer à justiça para procurarem ser indemnizados pela CGD pelas eventuais perdas registadas nos produtos financeiros da Fidelidade. Ou seja, a CGD e a Fidelidade têm uma relação comercial similar à registada entre BES e GES;

– Ora, se a CGD não participar no aumento de capital da Fidelidade, como se parece inferir das recentes críticas do primeiro-ministro à CGD, a participação social da CGD na Fidelidade (actualmente de 15%) irá diminuir. Se isso vier a ocorrer, é provável que a CGD passe a não nomear administradores da Fidelidade, ficando sem influência nas decisões de “investimento” da Fidelidade. Desse modo, a CGD que vende produtos financeiros da Fidelidade aos seus clientes, desresponsabiliza-se pela boa aplicação desses fundos e deixa de ser capaz de acautelar os interesses dos seus clientes. Esta parece ser uma posição insustentável. A confirmar-se, o BdP deveria obrigar a CGD a provisionar parte das aplicações dos clientes da CGD em produtos financeiros da Fidelidade. E o Governo deveria forçar a CGD a manter ou aumentar a sua posição accionista na Fidelidade;

– O aumento de capital da Fidelidade ocorrerá em duas fases. A 3 de Setembro, no valor de 107 milhões, realizado por transferência de participações accionistas noutras empresas. Posteriormente – entre 21 de Setembro e 9 de Outubro – ocorrerá um aumento de capital de 500 milhões de euros por entrada de dinheiro. Mas entretanto, a acrescentar aos provavelmente mais de 2 mil milhões de euros de “investimentos” da Fidelidade em diversos activos espalhados pelo mundo desde Maio de 2014, a Fidelidade realizou mais uma compra, de um palácio em Milão, por 345 milhões de euros. Ou seja, o aumento de capital previsto não parece de todo suficiente face à dimensão dos investimentos realizados pela Fidelidade, por decisões do novo accionista Fosun;

– A Fosun queixa-se do risco de ter demasiado dinheiro da Fidelidade depositado ou aplicado na CGD e em Portugal, facto que resulta do modelo regulatório existente.[1] Esta preocupação deve ser lida da seguinte forma. A Fosun pretende levantar o remanescente dos fundos Fidelidade aplicados na CGD e continuar a “investi-los” onde bem entende.

 

A confirmarem-se as notícias sobre o aumento de capital da Fidelidade acima referidas, a CGD irá ver reduzida a sua participação no capital da Fidelidade e consequente capacidade de influenciar tais investimentos perante a passividade total do Governo e, em particular, do Primeiro-Ministro, que faz reparos à CGD mas nada diz em relação à Fidelidade.

É, aliás, surpreendente que, não obstante preocupações com a “independência” do regulador (ASF), o Governo tenha conseguido manter silêncio absoluto sobre a Fidelidade desde que as notícias começaram a vir a público.

Não há ninguém que questione directamente o Governo sobre este assunto?

 

 

 

P.S.: Republicado a 12 de Agosto de 2015: Corrige, especificando datas em que será realizado aumento de capital.

 

[1] Se a Fidelidade reduzir as suas aplicações na CGD, fica com mais “capital livre” disponível, na perspectiva do regulador, e pode, em consequência, “investir mais” na compra de activos por esse mundo fora.

Comentários

  1. A Fidelidade é uma trela colocada ao pescoço de quem pediu dinheiro à CGD para adquirir a sua habitação. Faz-se actualizações/abatimentos na dívida à CGD e estes “fiéis” nem mexem no prémio do seguro a não ser que haja escândalo. Contacta-se o banco, “isso é com a Fidelidade”. E depois, quem se sentir mal servido pela seguradora não pode ir ao mercado procurar outra que garanta o compromisso com o banco. “O Spread” sobe”, ameaçam do balcão da CGD.

    EDP, GALP, CTT, TELECOM… pagámos as infraestruturas, quando foi para tirar do partido do investimento feito entregaram-nas a “investidores”. Ainda por cima vendem por baixo. A TAP foi vendida por menos dinheiro que o passe de um jogar de futebol mediano. “Mentira”? lembram-se da promessa da “electricidade mais barata” e da “concorrência” que faria os “combustíveis mais baratos”?
    “Livre mercado”, “escolha”, “concorrência”… as tretas do costume para venderem o que era Público. Em Portugal, “Governar” é sinónimo de “Vender”. Se pusessem esta gente a gerir o bar de uma sociedade filarmónica, quando os músicos dessem por isso já lhes tinham vendido os instrumentos musicais…

    O que nós precisávamos era de uma companhia de seguros gerida pelo Estado que funcionasse bem, apoiando as actividades de que as outras fogem (as companhias de seguros são óptimas quando a gente não precisa, certo?), nivelando os preços do mercado por valores que não sejam os da especulação.
    Lembram-se de que quando o clima causa estragos na agricultura (e uns directos televisivos sensibilizadores) no fim lá se esmola uns “apoios às vítimas da intempérie” da Agricultura do Orçamento do Estado? Pois, aí já somos “socialistas” e “estatistas”… quando convém, não é? E que tal um seguro? Sim, um seguro de colheita a preço justo por uma companhia gerida pelo Estado? Estão à espera dos privados?, primeiro façam a colheita e depois façam-lhe um seguro, pode ser que tenham sorte… (se quiserem fazer antes, não terão dinheiro para colher… a não ser que… como é que se chamam os naturais do Bangladesh?).

  2. Do ponto de vista de dispersão de risco é correto o que a Fosum está a fazer. É fundamental que, para assegurar o pagamento das indemnizações e rendimentos futuros aos seus clientes, a Fidelidade assegure um volume de investimentos (ditos técnicos) avultado e com risco adequado, garantindo que o valor dos “prémios de seguros” recebidos é capitalizado de forma correta e que será suficiente quando no futuro for necessário. A gestão da carteira de investimentos é central à atividade seguradora. A dispersão do risco por um conjunto muito diversificado de investimentos é sempre ideal. Muitas vezes o que falta é diversidade de investimentos.
    Lembro-me de uma vez ter visto no Balanço e Contas da Zurique, uma das maiores seguradoras do mundo, um valor na rubrica de Investimentos de tal forma avultada que superava o valor de capitalização da Bolsa Portuguesa. Imagine-se o que aconteceria se a única alternativa de investimento a que a Zurique tivesse acesso fossem as ações da Bolsa Portuguesa (fossem esses investimentos feitos por intermédio de uma sociedade gestora de participações sociais, ou um fundo de investimento qualquer). Basicamente a Zurique conseguiria manietar o valor das cotações no nosso mercado a seu belo prazer.
    Por todo o mundo, por todos os mercados (e não só nos mercados bolsistas), vagueiam paquidermes invisíveis que compram e vendem tudo (inclusivamente palácios em Milão) porque disso depende a sua sobrevivência.
    Não me choca que a Fidelidade esteja a tentar libertar-se de um eventual excesso de investimento na Caixa (se é esse o caso). Choca-me mais, isso sim, que se tenha vendido a Fidelidade aos chineses impondo condições desequilibradas para a instituição financeira que antes a detinha. Todos sabemos que a maioria das vendas de seguros, em Portugal, ocorre no momento de aquisição de habitação e que portanto os bancos são fundamentais para garantir o volume de prémios de que as seguradoras necessitam. A imposição dos 25 anos é o reconhecimento claro desta realidade. E é por isso que não entendo a razão de ser de não manter a seguradora dentro do grupo Caixa, o porquê da sua venda. Ou melhor… Entendo, mas isso era tema para outra conversa.

  3. Artigo oportuno, e que infelizmente, como o próprio autor assinala, tem sido insuficientemente noticiado ou comentado nos media.Depois de casos como os do BPN, BES ou PT, espera-se que politicos e reguladores alguma coisa tenham aprendido, e que tão cedo não se repitam. No entanto, estas noticias que vão chegando do processo Fidelidade não auguram nada de bom, para a que provavelmente já foi a melhor seguradora do país.

    1. Esperar que políticos façam o seu trabalho? Que trabalho? São todos parasitas que nunca fizeram nada na vida e queres que façam agora? Nem que quisessem saberiam, pois são despreparados, desqualificados e beócios em tudo que não seja ajudar os amigos e a eles próprios.

  4. Espera-se que quem de direito possa acautelar os nossos direitos – Pagamos para cada um fazer o seu trabalho . Já chega de trapalhadas e tragédias

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