Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

15 de Julho de 2015, 14:35

Por

O dinheiro que empobrece

Em “L’ Argent” (1913), um texto pouco conhecido de Péguy, escreve ele:

Conhecemos, tivemos contacto com um mundo (desde crianças), em que um homem condenado à pobreza estava pelo menos seguro na pobreza. Era uma espécie de contrato não-dito entre o homem e o destino e, antes do início dos tempos modernos, o destino nunca renegou este contrato. Estava entendido que os que se tivessem perdido na extravagância, no capricho, os que jogassem, os que quisessem escapar da pobreza, arriscavam tudo. Como jogavam, podiam perder. Mas os que não jogavam não podiam perder. Não poderiam suspeitar que viria um tempo, que já aí estava – e isto, precisamente, são os tempos modernos – em que os que não jogam perdem sempre, mesmo com mais certeza do que os que jogam.”

Charles Péguy (1873-1914), morto na frente de batalha da 1ª Guerra Mundial, foi socialista, libertário, anti-clerical, apoiante de Dreyfus e de Jaurès, mas sempre místico: acreditava na recuperação da bondade e do universalismo e, no fim da sua vida curta, reaproximou-se do catolicismo. Desta combinação de valores resultava uma crítica romântica à modernidade, que via como perigosamente desidentificadora.

Entendia o capitalismo como uma máquina de fazer pobres, uma era de submissão em que se pune a desigualdade com a criação de desigualdade por via da dívida. Os tempos modernos deram-lhe razão nesse alerta, mas também descobriram outros mundos e outras possibilidades. Com uma certeza: o empobrecimento ou a exclusão da maioria são a lógica predadora do capital.

O nosso século XXI, com a sua “estagnação secular”, está a ser a prova triste dessa certeza.

Comentários

  1. Não vou comentar as palavras de Francisco Louçã, mas apenas as de Charles Péguy, que ele aqui cita. Antes de mais, elas reflectem uma mundividência e uma idiossincrasia que estão em total choque com o seu suposto universalismo. Ele tenta compreender o seu tempo, mas o resultado é pobre. O fenómeno que talvez seja causa deste seu pensamento será a aceleração moderna do tempo, a queda da “estabilidade” de geração para geração, e que, continuou muito depois de Péguy, até hoje. O que move o mundo (o mundo humano) é a técnica, e não a política. O Estado tem um potencial castrador ilimitado, mas não tem quase nenhum potencial criador. Apesar de Péguy observar um fenómeno real, mete os pés pelas mãos ao imaginá-lo próprio da sua geração, e ao procurar as suas causas. Já depois de Péguy as sociedades ocidentais responderam ao problema do novo deserdado “bon à rien” através do assistencialismo socialista, e não terá sido a pior contribuição das esquerdas, embora eu saliente que o professor Milton Friedman, perigoso esquerdista, defendia um apoio mínimo a qualquer cidadão sem rendimentos. Mínimo, saliento bem, antes que me apareça aqui alguém a confundir Milton Friedman com um socialista distributivo!

  2. Este artigo de Francisco Louçã é intelectualmente um exercício bastante estimulante. E fez-me recordar outras personagens, quase esquecidas de muitos, cuja vontade “reformista” e “libertária”, na construção de um modelo de sociedade e de governo mais igualitario, justo e pleno, os enquadrariam na designação generica, por vezes pejorativa, de “Socialismo Utopico”. Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen (1771-1858), entre outros.
    A Revolução Francesa abriu um novo “futuro” à esperança dos homens – “liberdade, igualdade e fraternidade”. Porém, num mundo em grandes mudanças políticas e sociais, marcadas pela acelerada industrialização, mais a nova dinâmica populacional e migratoria [vide Malthus], as desigualdades reais recolocam-se por detrás de nova “autoridade” e “centralismo” de Estado, sempre contrários aos justos anseios de Democracia e Liberdade. “Autoridade, propriedade, distribuição de renda, produção, industrialização, salários, jornada de trabalho, pobreza, justiça social, filantropia, cooperativismo, mutualismo, governo, Estado, Federação, etc.” – são alguns conceitos caros à “utopia” do reformista social.

    “(…) se a ordem federativa não servir senão para proteger a anarquia capitalista e mercantil; se, devido a essa falsa anarquia, a Sociedade se encontrar dividida em duas classes, uma de proprietários-capitalistas-empreiteiros, a outra de proletarios assalariados; uma de ricos, a outra de pobres; o edifício político será sempre instável.” Proudhon

    PROUDHON (1809-1865) – Para muitos é, numa análise simploria, um “anarquista”. Inspirador – ou instigador, ainda aos nossos dias – daquele bando de desocupados, desrespeitadores “ocupas” da propriedade privada, ou, desordeiros arremessando pedras ou incendiando a ordem pública, com palavras inflamadas anti-governo, anti-europeismo, anti-globalização…

    Mas, o que é a “Anarquia”? Nas palavras de “utopia” de Proudhon – “Afirmamos que o capital e o trabalho uma vez identificados, a sociedade subsiste por si e não tem necessidade de governo. Somos, consequentemente, e proclamámo-lo mais de uma vez, ‘anarquistas‘. A ‘anarquia‘ é a condição de existência das sociedades adultas como a ‘hierarquia‘ é a condição das sociedades primitivas: há progresso incessante, nas sociedades humanas, da hierarquia à anarquia”. E daqui, contrário a outras leituras redutoras, percebe-se que o autor, ainda numa visão “positivista”, coloca o “anarquismo”, como um desiderato filosófico superior, apenas acessível às sociedades ditas avançadas ou ‘adultas‘.

    Porém, Pierre-Joseph Proudhon, não obstante as muitas incoerências e utopismos críticos à sua obra, é uma referência teórica incontornável sempre que se queira aprofundar o conceito de FEDERALISMO. [Além doutras importantes reflexões como seja a obra “O que é a Propriedade?”]
    O “Federalismo” para Proudhon surge, numa fase madura da sua obra, como resultado de um “contrato” de um equilíbrio possível entre “autoridade” e “liberdade” – e com um objetivo ainda libertário, ou anarquista, fiel ao autor, de emancipação de todo o tipo de “-cracias”.
    Não há aqui espaço para uma análise exaustiva sobre a teoria federalista de Proudhon – e nem serei a pessoa indicada para o fazer. Contudo, vale aqui a proposta “federalista” de o autor não mais propor a anulação do Estado (ou a dispensa do “governo”, como na citação acima), antes a limitação da autoridade disciplinadora, coerciva e beligerante deste, através de um pacto confederado de associação livre entre as comunidades ou nacionalidades locais, com vista à satisfação de necessidades reais e concretas – e, diferentes, portanto, do abstracionismo político da centralização do poder. Sobressai aqui, na organização da federação, um carácter “mutualista” de complexidade crescente, que parte da livre associação de indivíduos, municípios e comunidades locais, até a uma confederações de Estados, capaz de preservar a autonomia, a identidade e peculiaridades das partes. E uma nota importante: Federalismo não deve ser confundido com um “Super-Estado” centralizado. Ao contrário, defende a descentralização e a relativa autonomia, na delimitação do equilíbrio dos poderes estaduais na confederação. Não obstante a ampliação da escala, do local para o federal, o poder tende a uma disposição de participação e partilha mais horizontal – e menos vertical – na identificação de concessões e benefícios mútuos.
    Outra idéia importante é o conceito de “governos misto” – que resulta da própria dinâmica política e social no equilíbrio precário entre “autoridade” e “liberdade”, capazes de gerar diferentes forma de governo ou regime (monarquia, comunismo, democracia e anarquia) entre o “absolutismo” e o “liberalismo”. Vejamos:
    (…) todas as constituições políticas, todos os sistemas de governo, incluindo o federalismo, podem resumir-se a esta fórmula: o ‘equilíbrio da autoridade pela liberdade‘ e vice-versa, é devido a isso que as categorias adoptadas desde Aristoteles pela imensidão dos autores e com a ajuda dos quais os governos se classificam, os Estados se diferenciam, as nações se distinguem”; “A verdade repito-o é que não existem nem podem existir governos de primeira espécie (puros) senão em teoria: todo o governo é feito necessariamente misto, que lhe chamem monarquia ou democracia, pouco importa. Esta observação é importante; ela por si só permite transportar a um erro de dialética as inumeraveis decepções, corrupções e revoluções da política”; ou, ainda, “Cada idade com o seu pensamento e cada época com as suas instituições.” O que comprova a extraordinária lucidez de Proudhon, não obstante as críticas e os detratores da sua obra.

    – E para quê serve esta exposição em torno do “Federalismo” de Proudhon?
    Louçã dá o título “o dinheiro que empobrece”. O Euro – símbolo do ideário federalista europeu que é precursor ao seu lançamento – é uma má “moeda única” que nada acrescenta; antes, diminui (ameaça a coesão / integração europeia) e empobrece (endividamento da periferia). Porquê?
    O “federalismo europeu”, criado no abstraccionismo dos ideólogos da construção europeia, cai persistentemente no erro crasso de não saber distinguir a “unidade” na “diversidade”, e vice-versa, desprendido que está dos anseios e aspirações dos povos – como assim o evidência a passagem de uma respeitada Comunidade (CEE), fundada nos princípios de Liberdade (ex. livre-circulação), para uma União autoritária e mal-amada – e entretanto manietada pelo “Não” aos Tratados.
    Por outro lado, sempre que alguém – “anarquista”, ou não! – crítica a concepção da “moeda única” ou o modo de funcionamento das instituições europeias (ex. desafiando os dogmas da linha corrente da “austeridade”), logo se levantam os “europeistas” que, por reacção, apontam para o carácter retrogrado do Estado-nação, mais os perigos do regresso aos velhos “nacionalismos”, fundamentados no extremismo da direita de Le Pen ou no radicalismo de esquerda do Syriza.
    Os “federalistas utópicos” acreditam que a União Europeia é, apesar de tudo, um “paraíso” (nas palavras de Paulo Rangel) ou uma “ilha de bem-estar” (como sugeriu Schulz, na crítica que fez à relações próximas de Portugal e Angola), porém, cercada por um mundo infestado de demónios que lhe desvirtuam o carácter generoso e benquista. Mas esta visão utópica da integração europeia não condiz com a realidade – é mentirosa!
    A verdade demonstra que o federalismo europeu segue um caminho contrário, ao que os esforçados – e, porventura bem intencionados – “europeistas” apregoam. O que está em causa na construção europeia é a edificação de um “Super-Estado-Europeu”, Centralizado, Burocrático, Tecnocrático, tendencialmente “Cesarista” (hegemonia da águia germânica, com sede em Berlim) – e, Imperialista, capaz de concorrer na nova ordem de “impérios” globais ( EUA, Rússia, China, Índia, Brasil/Mercosul, etc). Esta é, com efeito, a tese do “imperialismo” europeu defendida abertamente por Guy Verhofstadt, em “Pela Europa!”. O Euro é a moeda dita “irreversível” deste novo Império europeu – e, como qualquer outro império, o exercício de Poder satisfaz a Autoridade do “centro”, enquanto exige a obediência disciplinadora da “periferia”, para contrição da Liberdade e da Democracia!

    Faria bem aos “federalistas utópicos” europeus lerem mais a utopia do federalismo de PROUDHON!
    Seja na “ANARQUIA” que defende a IMPLOSÃO libertária do EURO! Seja na promoção original de um outro tipo de FEDERALISMO a refletir – ou, ainda, na concepção de um novo tipo de “moeda comum”, coexistente ao regresso das “moedas nacionais”! – Utopia?

    “(…)Não é de estranhar que a ideia de Federação tenha permanecido até aos nossos dias como perdida no esplendor dos grandes Estados. Até nossos dias os preconceitos e abusos de toda a espécie abundando e punindo nos Estados Federativos com a mesma intensidade que nas monarquias feudais ou unitárias, preconceitos de nobreza, privilégios de burguesia, autoridade de Igreja, resultando daí opressão do povo e escravidão do espírito, a Liberdade ficava como que nas malhas de uma camisa de forças, e a civilização mergulhada num invencível status quo. A ideia federalista mantinha-se, despercebida, incompreensível, impenetravel (…)”

    Fonte: “Um olhar sobre a proposta federalista de Proudhon” – Passamani e Padoin, 2003, UFSM
    [ANARQUISMO. No limite, um “anarquista” deve estar em condição de conceber uma filosofia política tão ampla e libertária que seja capaz de superar o próprio conceito de “anarquismo”. Enquanto isso, um livre-pensador, não deve ter ideologia como princípio de ser possuidor de todas as ideologias. Pois, só abarcando o todo, e confrontando tudo, se pode alcançar a “utopia” de ser conhecedor da Verdade. O que é verdade?]

  3. A História ensina que quando as instituições, sociedades ou sistemas são incapazes de se reformar e adaptar de forma progressista respondendo aos anseios das populações, têm um lugar à sua espera no caixote do lixo, e quanto mais resistência colocarem maior será a convulsão da mudança.
    O caso grego é a certeza última de que está em curso a cristalização de um sistema feito refém de poucos poderosos… As coisas ainda vão piorar muito antes de melhorar… Há que ter alguma paciência.
    Tomara que as boas palavras escritas do Prof. Louçã não fossem um caso isolado no chorrilho quotidiano de propaganda, desinformação e alienação que infestam os meios de comunicação.

    1. E quem é que lhe disse que o anseio da população, pelo menos a europeia, é o de substituir o capitalismo atual por outro sistema? Olhe para o resultado das eleições por estas esta Europa fora, ou para a composição do Parlamento Europeu, saído de eleições democráticas, e ficará dissuadido de que os Europeus querem outro sistema. A esquerda esquece que a Europa é de direita, porque essa é a sua livre e democrática escolha. Querem outro sistema? Ganhem eleições.

  4. À atenção do Manuel Gonçalves
    1- Controlo do Banco Central da Grécia.
    2- Colocar as rotativas a funcionar e fabricar euros em massa. A Grécia pode fazer isso, naturalmente à revelia do eurogrupo, de modo a dar liquidez imediata aos bancos igualmente sobre controlo temporário do governo.
    3- Preparar rapidamente as condições para uma nova moeda.
    4- Suspender todos os pagamentos de dívida.
    5- Colocar as Forças Armadas em estado de alerta máximo.

    1. O povo não quer essa solução, por conseguinte não é uma alternativa democraticamente viável.

  5. À atenção do José Manuel Ferreira

    Na verdade no actual estágio do sistema capitalista verifica-se que embora ele represente um bom instrumento de organização da produção, constata-se que não sabe distribuir, organiza muito precariamente a absorção produtiva dos recursos humanos, e desvia para actividades especulativas a já precária poupança da população.
    O essencial é que o ciclo de reprodução social exige não só a produção, mas também a distribuição para que haja consumidores, e os empregos para que haja massa salarial e um mínimo de estabilidade social e política. Essencial também é o financiamento dos produtores, viabilizando os investimentos e as transformações estruturais de médio e longo prazo, a chamada construção da economia.
    Estas três grandes fragilidades do sistema liberal, nos planos da distribuição, do emprego e de recursos, viram-se dramaticamente agravadas nos últimos anos.

    No plano da distribuição, frente aos dramas do desemprego e subconsumo dos anos 30, keynes mostrou que frentes de trabalho e apoio financeiro aos desempregados, gerando uma massa salarial e maior capacidade de compra, dinamizaria o mercado, provocando uma recuperação da conjuntura capitalista via procura. Em outros termos, keynes demonstrou aos ricos que a miséria é ruim para os ricos, e não apenas para os pobres. No entanto, o sistema proposto supunha uma forte capacidade de estado, que cobraria impostos das empresas para financiar a redistribuição e a dinamização económica. Hoje, com a globalização, qualquer reforço de impostos leva as empresas a emigrar para regiões onde se produz mais barato. Em outros termos, a economia se globalizou, enquanto os instrumentos de política económica, essenciais para uma política keynesiana, continuam sendo nacionais, e portanto de efectividade cada vez mais limitada. Como não há governo mundial, que possa retomar o mecanismo já no nível planetário, regrediram as políticas de redistribuição, e voltamos a um capitalismo selvagem próximo do antigo liberalismo: o neoliberalismo.

    No plano do emprego, as transformações recentes são igualmente profundas, na medida em que a revolução tecnológica gera uma redução absoluta do nível de emprego. .

    Em termos de recursos, as tendências recentes, com a globalização financeira, tornaram a situação particularmente dramática, na medida em que se retiram recursos da área dos investimentos produtivos e se transferem para a especulação financeira.

    1. Muito obrigado pelo seu interessante comentário, Carlos Serio. Num ponto estamos de acordo: o problema do capitalismo é e será sempre o da justa repartição de recursos económicos. Tal não implica contudo que o sistema esteja errado ou possa ser substituído por outro que está por inventar, ou por experiências políticas que, sempre e fatalmente, têm conduzido as sociedades à precaridade económica, já para não falar do totalitarismo. Uma mais justa repartição da riqueza? Claro que sim. Talvez seja ingenuidade da minha parte mas, neste ponto, creio que estamos todos de acordo, quer direita, quer esquerda.

    2. O drama de quem tem de Viver com 750 Euros/mês, trabalhando, é a face de uma moeda, onde na outra face estão os que vivem tranquilamente com 400 Euros sem trabalhar. É a moeda da distribuição concebida pelo capitalismo em tempo de vacas gordas. Ou a forma como os «ricos» resolveram o problema de ter de cheirar o sovaco dos pobres.

    1. Se lê este blog, concorde ou não, sabe que aqui foram defendidas e explicadas soluções alternativas detalhadas.

    2. Foi noticiado que o Francisco foi convidado pela presidente do parlamento grego para se pronunciar sobre a dívida grega, presumo pois que lhes tenha dado conta dessas soluções alternativas detalhadas. Estou certo que não as implementaram por desconsideração técnica ou científica, mas sim porque são uma opção democraticamente inviável.
      Creio que no essencial a alternativa passaria por repudiar a dívida, abandonar o euro e imprimir moeda própria, coisa que o povo grego não quer.
      Tsipras pergunta com toda a propriedade: Querendo a Grécia (o povo) manter-se no euro, qual a alternativa?

    3. Esse saiu melhor que a encomenda… Pelos vistos, até podia ter ideias, mas na prática foi um bobo.

  6. Também o fascismo teve as suas raízes na crítica romântica à modernidade e capitalismo. Criticar o capitalismo como um sistema condenável é mergulha-nos num espécie de sonolência da razão; e razão adormecida, como se sabe, engendra monstros.

    1. A crítica romântica evoluiu em sentidos muito diferentes e contraditórios: reaccionários e progressistas. Mas parece-me espantoso que se diga que criticar o capitalismo como sistema “condenável” conduz ao sono da razão, ou seja aos monstros da destruição da humanidade. É um pouco forçado, não é?

    2. Talvez seja forçado, admito, mas terá de ter em conta, e condescender, Francisco Louçã, porque fala um ex-comunista…

  7. Impressionante este espírito tipicamente português! Utilizam-se argumentos falaciosos para rebater ideias com as quais não se concorda. De preferência o ataque pessoal, é mais simples e eficaz.
    Um debate sério e construtivo nunca fez mal a ninguém, bem pelo contrário.
    Louvo o Dr. Louçã pela paciência que evidencia nas respostas que dá a quem não está minimamente interessado em debater ideias.

  8. É mesmo triste quando alguém resolve fazer uma crítica do Capitalismo, a reacção pavloviana é virem logo ladrar ‘que se não gostas disto aqui vai para a Coreia do Norte/Cuba/Venezuela, etc’… Para informação dos supostos Liberais acima, a principal preocupação do Liberalismo Clássico é com a Autonomia do Indivíduo, seja perante o Estado seja perante outros formas de poder, incluindo o Poder Económico. A Liberdade de Iniciativa é uma entre muitas, e nem sequer a mais importante. Os Senhores pretendem reduzir todas essas Liberdades à liberdade dos supostos empreendedores fazerem o que lhes apetece com um conjunto de supostas comodidades, como sejam o Trabalho, o Meio-Ambiente, a Propriedade da Terra, no fundo a Vida Humana. E se não acreditam no que eu digo, façam favor de ler este texto de um ‘Socialista’ de 4 costados:

    “Os empregadores de mão-de-obra representam a terceira categoria, a daqueles que vivem do lucro. É o capital investido em função do lucro que movimenta a maior parte do trabalho útil de cada sociedade. Os planos e projetos dos investidores de capital regulam e dirigem todas as operações mais importantes do trabalho, sendo que o lucro constitui o objetivo proposto e visado por todos esses planos e projetos. Entretanto, a taxa de lucro não aumenta com a prosperidade da sociedade e não diminui com o seu declínio — como acontece com a renda da terra e com os salários. Ao contrário, essa taxa de lucro é naturalmente baixa em países ricos e alta em países pobres, sendo a mais alta, invariavelmente, nos países que caminham mais rapidamente para a ruína. Por isso, o interesse dessa terceira categoria não tem a mesma vinculação com o interesse da sociedade como o das outras duas. Nessa categoria, os comerciantes e os donos de manufaturas são as duas classes de pessoas que comumente aplicam os maiores capitais, e que pela sua riqueza atraem a si a maior parcela da consideração pública. Uma vez que durante toda a sua vida estão engajados em planos e projetos, muitas vezes têm mais agudeza de entendimento do que a maioria dos senhores do campo. Já que, porém, suas ideias giram mais em torno do interesse de seu próprio ramo específico de negócios do que em torno do interesse específico da sociedade, seu julgamento mesmo quando emitido com a maior imparcialidade (o que não tem acontecido em todas as ocasiões) deve ser considerado muito mais dependente em relação ao primeiro daqueles dois objetos do que ao do último. Sua superioridade em relação aos senhores do campo não está tanto no conhecimento que têm do interesse público, mas antes no facto de conhecerem melhor seu interesse próprio do que os homens do campo conhecem o seu. É em razão deste melhor conhecimento que possuem de seus próprios interesses que muitas vezes têm feito imposições à generosidade do proprietário rural, persuadindo-o a abrir mão tanto de seu próprio interesse quanto do interesse do público, partindo de uma convicção muito simples mas muito legítima de que o interesse público é o deles e não o do proprietário de terras. Ora, o interesse dos negociantes, em qualquer ramo específico de comércio ou de manufatura, sempre difere sob algum aspeto do interesse público, e até se lhe opõe. O interesse dos empresários é sempre ampliar o mercado e limitar a concorrência. Ampliar o mercado muitas vezes pode ser benéfico para o interesse público, mas limitar a concorrência sempre contraria necessariamente ao interesse público, e só pode servir para possibilitar aos negociantes, pelo aumento de seus lucros acima do que seria natural, cobrar, em seu próprio benefício, uma taxa absurda dos demais concidadãos. A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha de sua categoria sempre deve ser examinada com grande precaução e cautela, não devendo nunca ser adotada antes de ser longa e cuidadosamente estudada, não somente com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É proposta que advém de uma categoria de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais geralmente têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e que, consequentemente, têm em muitas oportunidades tanto iludido quanto oprimido esse povo.”

    Adam Smith, A RIQUEZA DAS NAÇÕES, Volume I, Capítulo 11 (tradução de Luiz João Baraúna)

    Perceberam agora o que está a acontecer à Grécia? Ou é preciso fazer um desenho?

  9. Diga-me só, Francisco Louçã, que sistema económico, que não o capitalismo, criou sociedades com um nível de riqueza e bem estar económico comparáveis… Sou um liberal, ou um neoliberal, como agora nos gostam de chamar, e convivo relativamente bem com os aspetos negativos do sistema económico que defendo; não me alegram, mas dou de barato, que são tão inevitáveis, como o sol nascer e se pôr todos os dias… A Venezuela de Maduro é melhor? A Cuba de Fidel Castro? Ou será que prefere os sistemas soviéticos, cujas lindezas e invejáveis níveis de prosperidade viemos todos a conhecer em 1989?

    1. O nosso é excelente, não tenho dúvidas. É por isso que Dias Loureiro é o empresário de sucesso apontado pelo primeiro ministro. E temos 4 milhões de portugueses em risco de pobreza. Mas se quiser escrever sobre o argumento do Peguy, pouparia essas tiradas de propaganda liberal.

    2. A evolução da socialdemocracia a partir dos fins dos anos 50 foi nitidamente esta: a conciliação dos valores liberais fundamentais com um regime económico que rejeita o capitalismo liberal. Para que as liberdades sejam desenvolvidas e se dê satisfação à justiça social a social-democracia rejeitou, e bem, o capitalismo liberal e enveredou por outras formas económicas em que é mais importante uma política de preços de rendimentos, de salários, de justa distribuição de rendimentos, de participação dos trabalhadores nas empresas e nas próprias decisões conjunturais do que propriamente da propriedade dos meios de produção.

      Numa social-democracia, o que é característico é o apoio dos trabalhadores industrializados: e esse apoio é tanto mais significativo quanto mais o país estiver industrializado. As sociais-democracias do norte da europa, por exemplo, nasceram com o apoio dos operários da indústria, mas também de agricultores, de pescadores e de pequenos comerciantes, tal como no nosso país. a nossa base social de apoio é tipicamente social-democrata. O nosso programa é um programa social democrático avançado, em relação, por exemplo, ao programa do s.p.d. alemão – e, portanto, isto afasta qualquer deturpação que se queira fazer no sentido de nos apresentar como partido liberal ou democrata-cristão, o que são puras especulações tendenciosas que não têm qualquer base.

      É que a social-democracia, que defendemos, tem tradições antigas em portugal. Desde Oliveira Martins a António Sérgio. É a via das reformas pacíficas, eficazes, a caminho duma sociedade livre igualitária e justa. Social-democracia que assegura sempre o respeito pleno das liberdades.

      Francisco Sá Carneiro

    3. Não, caro Francisco Louçã: sou um liberal mas sobretudo um democrata encantado por viver em democracia. Seria o primeiro a bater-me pela livre expressão daqueles que estão no extremo oposto das minhas ideias. Sou o primeiro a reconhecer, por exemplo, que o Francisco Louçã foi dos melhores deputados e oradores que passou pelo nosso Parlamento nos últimos anos. E faz lá falta porque a Catarina Martins, confesso, consegue ser mais aborrecida (que mulher tão cansativa!) que o próprio Jerónimo de Sousa. O que eu quis dizer é que a nossa imprensa e respetiva classe jornalística é, clara e despudoradamente, de esquerda. E tem levado ao colo o Bloco. De imparcial tem muito pouco. Há de concordar…

    4. O que mentes simples como a do Sr. José Manuel Ferreira não entendem que em todos os países existem “elementos de mercado” e “elementos sociais”. Quando existe um desequilíbrio, o resultado é perverso. É o que sucede na Coreia do Sul, por exemplo, onde o papel do Estado está reduzido a quase nada – as despesas públicas são muito reduzidas. O resultado está à vista: uma situação social dramática, especialmente entre os mais velhos, quase completamente desprotegidos. Há inúmeros artigos na Internet em inglês sobre a situação desastrosa dos velhos na Coreia do Sul. Assim como de pessoas que se veem forçadas a trabalhar 10 horas e mais por dia para sobreviver devido à desregulação do mercado laboral.

      Claro que se os elementos de mercado têm escassa presença poderá haver um problema. Mas não se esqueça do boicote sistemático de que são alvos todos os governos especialmente vocacionados para a área social, dificultando o seu reequilíbrio.

      Todavia, estou consciente que há coisas difíceis de explicar a quem vê a política como se fosse futebol.

  10. Senhor professor, antes de voltar a opinar peça a douta opinião da Catarina e da Marisa.
    Elas é que sabem tudo e o que elas disserem é o que se faz.
    Pelo menos temos uma certeza
    Pobres não vão faltar, nem aqui nem na Grécia

    1. Quando escrevo uma opinião, não peço “doutas opiniões”. Acho que podia ter poupado a brejeirice, “eduardo”.

    2. Não basta a opinião de Catarina e de Marisa. Para o ramalhete das passionárias da nossa praça ficar completo é preciso também juntar as vozes de Isabel Moreira, Joana Amaral Dias, e Ana Drago; e a de dois simpáticos, inocentes e vibrantes rapazes: João Galamba e Rui Tavares. São gente com ideias perigosíssimas ( em dois minutos esta pandilha juvenil deitava fogo à casa) mas a quem a nossa desavergonhadamente esquerdista comunicação social (O Observador é a única exceção) acha imensa graça! Mas tempo ao tempo… Ainda hei de ser vivo para vê-los a militar no CDS no PSD e no PPM. Admira-se? Pois eu não: Zita Seabra é hoje uma fervorosa devota; Vital Moreira fala como Passos Coelho; Freitas do Amaral defende as teses do Bloco de Esquerda; Pacheco Pereira vocifera como Jerónimo de Sousa; Manuela Ferreira Leite não perde uma oportunidade de, abrindo a boca, dar o seu modesto contributo para a vitória do PS… Tempo ao tempo… ainda hei de ver Isabel Moreira com o símbolo do CDS tatuado na mão direita, esquecida das barrigas de aluguer e da liberalização de drogas, ( pesadas ou leves, ela lá sabe porque as defende) Já sou muito velho e já nada me surpreende na elasticidade da alma humana. O tempo põe sempre tudo no lugar; e, tarde ou cedo, ninguém escapa à sua verdadeira natureza! Ninguém!

    3. Se bem percebo o seu index, isto resolvia-se bem com uma adequada censura ou exame prévio. Que bons que eram os tempos antigos!

  11. Claramente este texto tem correspondência com a realidade, como vemos pelos países mais capitalistas como os US, UK, Austrália, Nova Zelândia e Suiça – só para nomear alguns. que claramente é só gente pobre.

    Por outro lado países sem nenhum tipo de capitalismo é só gente rica e zero pobres: Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, etc.

    E assim vai o discurso socialista da luta de classes…há pessoas que ficaram presas no século passado e nem a realidade de 100 anos onde o socialismo sempre falhou e o capitalismo sempre conduziu a melhores condições de vida consegue mudar a opinião.

    1. No dia em que houver um texto deste “Pedro” que não fale da Venezuela, fazemos uma festa neste blog.

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