Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

14 de Julho de 2015, 22:30

Por

Os investimentos bolsistas da Fidelidade

Em posts anteriores referi-me aos desenvolvimentos recentes na seguradora Fidelidade. Recapitulando o essencial:

– O grupo Fosun refinanciou os cerca de 1100 milhões utilizados para a compra de 85% da Fidelidade, em Maio de 2014, através da emissão de montante similar de dívida a 8 anos com taxa de juro de 3,3% por uma subsidiária do grupo Fosun sediada num paraíso fiscal. Essa dívida foi adquirida pela Fidelidade. Ou seja, na prática, o Grupo Fosun comprou a Fidelidade financiando essa compra com os activos da própria Fidelidade, tendo até já “retirado” da Fidelidade mais meios financeiros do que pagou por ela;

– Segundo o jornal “Público”, a Fidelidade já realizou “investimentos” de 340 milhões de euros em activos da Fosun espalhados pelo mundo fora, a que acrescem outros investimentos não quantificados;

– O grupo Fosun pretende que a Fidelidade diversifique os seus investimentos, para além do que já fez desde que a adquiriu há 13,5 meses, para “aumentar a rentabilidade”;

Mas, infelizmente, há mais a acrescentar:

– Na China está a ocorrer um crash bolsista. As autoridades chinesas estão a reagir de forma que revela um certo pânico, proibindo grandes investidores (como a Fidelidade ou a Fosun) de vender acções na bolsa. Ora, segundo o Mundo dos Seguros, que cita o Jornal de Negócios, a Fidelidade tinha, no final de 2014, investimentos de cerca de 550 milhões de euros em acções chinesas;

– Ainda de acordo com o Mundo dos Seguros, a Fidelidade já registou perdas de 103 milhões de euros (embora ainda mantenha ganhos face ao final de 2014) em relação a algumas das suas participações accionistas na China (China Yuchai, New China Life Insurance, New Oriental Education, Ping An Insurance e Soufun);

– De acordo com a Reuters e com relatórios submetidos ao regulador americano (SEC), a Fosun teve ou tem participações accionistas em, pelo menos, 4 das 5 companhias chinesas acima referidas (também com participação accionista da Fidelidade). E vendeu a totalidade da participação na New Oriental Education no primeiro trimestre de 2015. Será que vendeu essa participação à Fidelidade?

– Uma análise superficial do balanço consolidado da Fidelidade revela que os activos cresceram 2 mil milhões de euros entre 2013 e 2014 (15,6%). Como foi possível um crescimento tão rápido numa economia estagnada como a portuguesa? É porque se os activos da Fidelidade crescem rapidamente, então é provável que o accionista Fosun possa dispor de mais activos para “investir”…

– O “Goodwill” bruto[1] no balanço da Fidelidade cresceu 470 milhões de euros em 2014, obrigando a “ajustamentos” de 94,5 milhões de euros naquele ano;

– Estranha-se que o Conselho de Administração do Grupo Caixa Geral de Depósitos (CGD) tenha dado o seu acordo a estes “investimentos”. De facto, a CGD ainda detém uma participação accionista na Fidelidade de 15% e nomeia alguns dos administradores desta companhia. Ora a CGD vendeu aos seus clientes (depositantes) produtos financeiros da Fidelidade (tal como o BES vendeu aos seus clientes produtos financeiros do Grupo Espírito Santo) e, por conseguinte, tem o dever de zelar pela boa aplicação desses investimentos.

 

Tendo em conta que os portugueses já tiveram a sua quota-parte de desgraças e escândalos financeiros em anos recentes (e.g., BPP, BPN, PT, BES, GES), compete às autoridades e, especificamente à Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, actuar de forma algo mais intrusiva, pois dispõem dos instrumentos legais para tal!

 

 

 

 

 

[1] O “Goodwill” bruto é, simplificadamente, o que a Fidelidade reconhece ter pago acima do valor contabilístico das aquisições que realizou. Por exemplo, adquire acções por 970 milhões de euros que só têm valor contabilístico 500 milhões de euros.

Comentários

  1. E quase escusado citar o óbvio, mas foi esta estória de participações cruzadas em ações e títulos de divida que fez cair o GES… Espero que no final não tenha que ser o contribuinte a arcar com os custos… E aqueles que exultavam pelos investimentos estrangeiros que iriam trazer capital fresco para Portugal, deveriam olhar para esta operação de refinanciamento que permitiu que ativos da Fidelidade pagassem o custo da sua compra no mínimo como um sinal de alarme. Pergunto-me o que se passara na EDP, PT, etc. Podemos passar sem a Fidelidade, mas não viver sem eletricidade…

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo