Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Junho de 2015, 14:11

Por

Os programas dos partidos de esquerda: o PCP

jeronimoQuando na SicN e aqui no PÚBLICO fiz um inventário do que me parecem ser os pontos fortes e fracos do programa do centro, alguns conhecidos vieram criticar-me: como é que admites que haja pontos interessantes no programa do PS? Pois é que há e listei alguns (prazos para o Tribunal Constitucional, por exemplo). Se é certo que isso não muda o curso que esse programa propõe para Portugal nem altera os seus pontos mais polémicos, é também certo – ou é a minha opinião – de que uma apreciação das propostas deve considerá-las pelo seu valor e menos pelo que consideramos do seu emissário.

Assim farei nos próximos dias sobre os programas de partidos de esquerda e, quando ele surgir, sobre o programa da coligação das direitas.

Começo hoje pelas linhas iniciais do programa do PCP, do mesmo modo e com o mesmo critério, para apontar o que me parecem ser os seus pontos fortes e fracos. Ao que percebo, o texto ainda não está concluído, mas as suas linhas fundadoras já foram publicadas.

Primeiro ponto forte: uma proposta sobre os objectivos que devem ser alcançados com a reestruturação da dívida. O PCP, que tem vindo a sugerir uma renegociação com esse alvo, não tinha até então apresentado uma proposta concretizada nem sobre os objectivos nem sobre os instrumentos para esse reestruturação. Já critiquei essa omissão (que se estendia da mesma forma aos outros partidos de esquerda), porque não me parecia possível indicar a mudança mais importante para a recuperação do emprego e do investimento sem fazer o esforço de mostrar como pode e deve ser desenvolvida. Tanto mais que o debate na sociedade portuguesa deu origem a várias propostas trabalhadas, a partir do momento decisivo que foi o Manifesto dos 74.

Portanto, ainda bem que agora o PCP apresenta uma proposta concreta. Ela é a seguinte:

“Uma renegociação da dívida directa do Estado, em particular da correspondente ao empréstimo da troika, com uma redução dos montantes não inferior a 50% do valor nominal, em simultâneo com a renegociação de prazos e juros, visando a diminuição dos custos com o serviço da dívida em 75% que, associado a um pagamento que tenha como referência o valor das exportações, permitirá libertar mais de seis mil milhões de euros por ano para os atribuir ao investimento público, às funções sociais do Estado, à dinamização da economia.”

Embora os instrumentos não estejam quantificados em detalhe, a meta está: reduzir o défice da balança de rendimentos em 75% do serviço da dívida, para obter assim uma margem de seis mil milhões de euros para investimento público e outras acções de recuperação económica. É consistente e demonstra como se pode aplicar uma prioridade de economia virada para o emprego.

Outros pontos fortes são as propostas para a defender a segurança social e diversificar o seu financiamento, para melhorar a equidade no sistema fiscal e para promover a qualidade dos serviços sociais.

Em contrapartida, um ponto forte que tem um ponto fraco parece-me ser o discurso sobre o euro. De facto, sendo o PCP o único partido que tem usado a ideia da saída do euro e não estando portanto sujeito a uma polémica à esquerda sobre essa sugestão, compreendo que trate o assunto com cuidado. O PCP insiste por isso na ideia de que é preciso por fim aos “constrangimentos externos impostos pela União Europeia”, o que passa por preparar o país “para se libertar da submissão ao euro”. Mas o facto é que, quando é pedida uma resposta concreta sobre como, quando e com que objectivos, o PCP se coloca à defesa.

No seu discurso de 14 de abril, em que encerrava um seminário sobre o tema, no âmbito da preparação do programa eleitoral, Jerónimo de Sousa dizia o seguinte:

“Importa sublinhar que o Partido não apresentou até hoje um ‘programa de saída’, mas sim uma proposta para que as instituições do Estado estudem e preparem o País para esse cenário, aprofundando e identificando as medidas necessárias para reassumir a soberania monetária; adoptar disposições de transição para a nova moeda; promover a estabilidade e a convertibilidade da nova moeda; viabilizar a banca pública e intervencionada; tranquilizar a população e os agentes económicos quanto às suas poupanças; converter a dívida emitida no País para a nova moeda; traduzir para a nova moeda a vida económica e financeira do País; salvaguardar a níveis seguros as reservas de capitais e de divisas do País; restringir a actividade especulativa; garantir o aprovisionamento energético e de outros bens essenciais; e defender os salários, pensões, rendimentos e consumo populares”.

Portanto, embora não tenha apresentado uma proposta para a saída do euro, Jerónimo apelava a que o governo estudasse o assunto e apresentava um roteiro desse trabalho. Na sua entrevista ao Observador, sendo pressionado sobre o tema, o secretário-geral do PCP foi ainda mais defensivo:

“E isto não tem a ver com uma política isolacionista, uma política de fechamento do nosso país, não! Nós vemos um relacionamento aberto com a Europa.”

Obs- E cada vez mais fora do Euro?

Isso é outro problema. Nós não propomos uma saída súbita, isso seria desastroso. Mas quem é que nos impede, tendo em conta esta situação que estamos a viver, de nos prepararmos para uma possível saída? Ou sermos expulsos, que é uma coisa que não está fora do horizonte.

Obs- Acha que isso pode acontecer à Grécia, nomeadamente, neste processo?

Pode acontecer, obviamente. Mas isto será um processo e não um ato súbito. Acho. Se for um ato súbito será mau para nós.

Obs- Portanto o que propõe é uma espécie de desmame do Euro até regressarmos ao escudo. Até regressarmos à plena soberania monetária?

Pode não significar o regresso ao escudo. Mas a proposta do PCP (não) é “sim ou não”. E mais uma vez, tal como a renegociação da dívida, deveríamos partir para um debate, para um estudo. No plano das decisões nós dizemos que tem de ser no plano institucional, é o Governo que tem de encetar um processo dessa natureza.

Obs- E quem decide isso? Um referendo ou o Governo?

Nós consideramos que, em última análise, quem pode decidir é o povo português. Não é necessário nem obrigatório que haja só a solução de referendo. Mas vai reparar que a nossa proposta é sempre acompanhada por esta ideia crucial: o povo português decidirá. E nesse sentido, a nossa proposta, entendida como um processo, insiste nesta ideia. Deveria ser encarada com um sentido de responsabilidade e da solução patriótica. Qual é o problema de discutirmos? Estudarmos? De nos prepararmos? De confrontar ideias?”

O conteúdo destas respostas é pouco clarificador. Se houver uma saída do euro, não será o regresso a uma moeda nacional (o escudo)? E é o governo (qual governo?) que tem que estudar o assunto, ou seja, fica com o poder de iniciativa e tudo depende da sua escolha? Ou, finalmente, porquê ficar-se pelo apelo para que outros “estudem” o assunto, se um partido o pode e deve estudar na medida em que considera a questão tão importante, porque certamente estuda detalhadamente os problemas antes de fazer cada proposta?

O problema é que a esquerda se sente num sarilho quanto ao euro e à Europa. Sente que não é possível aceitar as regras europeias e evitar a austeridade. Sabe que não pode continuar a propor a recusa do Tratado Orçamental sem que isso implique uma saída do euro. Mas percebe também que a opinião pública é hoje pouco receptiva a esse risco e, por isso, no caso do PCP, evita comprometer-se demasiado, limitando-se a um apelo para que se “estude”. Se compreendo essa prudência eleitoral, ela deixa no entanto uma ambiguidade, porque só conduz a uma proposta passsiva.

Sendo o partido que mais avança nesta matéria e sendo evidente que é um tema impopular e difícil, o PCP beneficia da vaga percepção de que quer a saída do euro mas, quando perguntado, refugia a resposta neste labirinto de um estudo por fazer.

Como no passado temi igualmente os efeitos eleitorais negativos de uma proposta de saída do euro, que cria tanta incerteza, não posso criticar os que tratam agora das questões da pedagogia política – eles fazem as escolhas que consideram mais adequadas para o imediato. Mas assinalo que, como no caso do Bloco de Esquerda, a que voltarei depois, a crise grega parece colocar também o PCP à defesa sobre a resposta que a esquerda deve apresentar às pressões europeias. E talvez o país precisasse de uma esquerda mais ofensiva.

Comentários

  1. Esta última troca de argumentos sobre se o PS é de Centro ou de Esquerda, não demonstra nada senão a vacuidade do conceito de esquerda, tal como o do seu oposto, para o debate político atual. Repare-se na contradição entre o início do texto (em que o PS é considerado como um partido de esquerda) e esta última troca de argumentos com José Figueiredo. A impossibilidade de acordo entre a esquerda e as esquerdas talvez provenha deste facto, de se estar a usar um conceito que, sendo aparentemente uno, na realidade esconde diferenças significativas conceções políticas destes partidos. Muitas delas na realidade inconciliáveis.

  2. Caro Francisco, Mais uma vez o meu bem-haja pelo serviço cívico que tem prestado, no sentido de esclarecer e ajudar a clarificar algumas questões que, para um leigo como eu, nem sempre são muito acessíveis. Concordo plenamente com a ideia de que as esquerdas portuguesas deveriam ser mais combativas, ou, se quiser, deixar de andar a reboque dos toques de marcha da direita, ou, como se diz agora, marcar a agenda política com propostas e alternativas claras que as pessoas entendam. Essa clarificação deveria, em meu entender, passar justamente pela saída do euro, e o facto da esquerda institucional fugir à questão, só pode explicar-se por questões de gestão de eleitorados, ou seja, pondo os seus interesses particulares à frente das ideias e do interesse colectivo. A meu ver, será muito difícil que a esquerda (não considero o actual PS um partido de esquerda) suceda em apresentar alternativas viáveis dentro do actual status quo, pois não há como evitar o capitalismo estando à sombra do chapéu-de-chuva do capitalismo. A resposta, meu caro, deverá estar no ovo de Colombo, a ruptura.

    1. E a revolução. Mas não se apoquente, pois isso sucederá, mais cedo ou mais tarde.

  3. Confesso que li ‘en passant’ o artigo de Francisco Louçã, porque se há coisa em Portugal que me repugna visceralmente essa coisa é o PCP. Mas queria precisar que Francisco Louçã está completamente a leste da realidade no que respeita ao centro político em Portugal, o que se compreende da parte de quem exigiu sentar-se à esquerda do PCP no parlamento. O PS é um partido indubitavelmente de esquerda, o chamado socialismo democrático, terminologia algo duvidosa para o socialismo que se conformou com a democracia, o PSD é um partido de centro-esquerda (a social-democracia domina nesse partido, Cavaco cita Kennedy, sempre expandiu o “Estado Social” quando pôde…), e o único partido de direita (conservadora) em Portugal que tem peso é o CDS-PP. É assim, e essa é uma das razões que está e estará na origem dos fracassos colectivos de Portugal.

    1. Finalmente a declaração de interesses. É sempre útil ter um entusiasta do CDS a comentar abundantemente neste blog.

    2. Mas Francisco Louçã, a minha declaração de interesses está no meu ‘nickname’! Concedo que há liberais mais à esquerda (EUA) e mais à direita, acho que vou passar a assinar Liberal de Direita 😉 Não tenho votado, já que está curioso, não me sinto representado pelos partidos portugueses. Fui persuadido por um amigo a votar no “menos mau”, tem a sua razão de ser. Na minha avaliação, o menos mau em 2015 seria o CDS, mas, como sabe, não posso votar nele. A única coisa que me levará a votar em Outubro será António Costa, que ainda hoje é referido como autor de uma proposta de “livre circulação” de pessoas no “espaço lusófono”. É evidente que com uma pessoa assim, a minha mão começa a querer votar na coligação PSD/CDS, para ajudar a barrar mais um lunático guterrista.

    3. P.S. Até seria lisonjeiro para si, Francisco Louçã, ter aqui um “entusiasta do CDS a comentar abundantemente”. Pode ser que ainda apareça algum! Falando de mim, volto a repetir-lhe que não costuma sequer ler colunistas de esquerda, nem blogs, pelo que pode interpretar a minha participação como uma homenagem à qualidade, relevância e inteligência dos seus textos e de alguns dos outros participantes, pois certamente que não é uma adesão ideológica. Talvez haja uma certa perversidade da minha parte em vir meter um calhau na boca do lobo… Em picá-lo!

  4. Felicito Francisco Louçã pelo excelente contributo que aqui dá para o debate necessário sobre a actual participação do país no Euro – e na UE. Poderá ser este um ponto de convergência entre Esquerdas?
    No que se refere ao PCP, talvez a explicação para a notável resiliência do partido – notada inclusive por não comunistas, de outros quadrantes políticos e ideológicos, que antes terão até prognosticado o declínio do PCP, acusando a ortodoxia do partido de impedir a necessária “renovação” – esteja na coerência e independência com que tem sabido defender a visão que tem (concorde-se, ou não) dos interesses do que país – acima de qualquer lobby ou grupo de pressão. Em boa verdade, ninguém pode hoje acusar o PCP de falta de “patriotismo” – mesmo que por ironia, no passado, do internacionalismo e intervencionismo comunista (ex União Soviética, Cuba, etc.) se tivesse ou difundisse opinião contrária!
    Quanto ao Euro, esta é uma moeda “mal amada”, sem que no entanto se possa desejar abertamente o seu fim, ou o simples retorno às moedas nacionais… daí, que entre a permanência precária e a saída desastrosa, haja quem busque soluções alternativas, intermédias ou transitórias, que pode passar pela conjugação da “moeda comum” com outras moedas estatais que lhe sejam complementares. Será exequivel?…
    Em boa verdade, mesmo que não se concorde com os termos e tratados da actual União, ninguém deseja uma política “isolacionista” – nem os bretões do “brexit”, nem gregos do “grexit”, nem alemães, portugueses ou noruegueses e suíços (estes EFTA, fora da UE). Ninguém quer a “albanização” ou a “balcanização” dos estados europeus – perdoe o excesso de linguagem!
    Da Europa há ainda quem guarde a boa memória daquela outra “comunidade” que se abria, na paz e em liberdade, à cooperação e solidariedade europeia… ms essa Europa já não existe!
    Deste modo, e não sendo comunista, melhorbcompreendo as cautelas e mais respeito as posições de Jerónimo de Sousa, sobre a participação de Portugal no Euro e na UE. Abraço fraterno.

    1. Caro António Anchas, o euro é uma moeda mal amada, sobretudo por aqueles que a gastaram e que não têm nenhuma. Veja lá se os gregos que tinham euros a consideram “mal amada”?! Foram mas foi a correr ao banco antes que os sirizados lhos tirassem! Chame-lhes burros! Estou em completo desacordo consigo acerca do PCP, mas isso seria de esperar, e não me irei alongar. A sobrevivência eleitoral do PCP é uma prova do nosso subdesenvolvimento cívico, da nossa INCULTURA. Mas um dia acabará, e o PCP será varrido como nos outros países ocidentais. Já mais grave é a sabotagem económica que essa gente organiza através dos seus “sindicatos”. A Alemanha Federal proibiu o partido comunista em 1957, e lá sabia porquê. Cumprimentos.

    2. Estou certo de que o PCP não se está a referir a várias moedas, António. Não creio aliás que haja caminho intermédio. Com várias moedas, todas se referem ao câmbio em relação à moeda forte, que é apoiada por um banco central. Não pense que se resolvem os problemas estruturais da relação de poder com um truque monetário. Isso não resulta. Devem ser levados a sério os poderes financeiros que determinaram a estrutura do euro.

    3. Com efeito, o PCP tem sido coerente, ainda que com cautela, na oposição ao euro – desde o lançamento da “moeda única”.
      «Não me parece haver dúvidas: mantendo-se na zona Euro Portugal estará condenado ao definhamento e à pobreza. A permanência conduz à degradação galopante da nossa estrutura produtiva, significa mergulhar o país numa depressão estrutural e terá como consequência um doloroso desastre económico e social.» Octávio Teixeira, 2013.

      Ao persistir no tema das “moedas complementares” vou de encontro a duas observações que tenho constatado nas leituras livres que tenho feito sobre esta matéria:
      1. As “moedas complementares” são de uso comum, frequente, e não são excepção. Embora tenhamos do “dinheiro” um conceito estrito, logo imaginando notas e moedas, emitidas por um banco central, outras formas ditas “complementares” de moeda existem e abundam – ex. vales correio, ticket de refeição, cupão de desconto, plano milhas de viagens, e ainda o caso das bitcoins, etc. No caso das moedas locais e regionais (ex. worgl, palmas, chiemgauer, bristol pound, etc.) ou até nacionais (ex. franco-Wir, Suiça), lastradas ou não lastradas em moeda forte, de transacção livre ou em circuito fechado (ex. Wir, C3 – apenas entre empresas aderentes), em numerário ou moeda electrónica, de pagamento total ou parcial (ex. Wir é usado de forma combinada com o franco suiço), outros, pensamos em “dinheiro” que vale dinheiro – e não propriamente em vales de desconto. Ora, o que torna pertinente a abordagem das potencialidades destas “moedas”, reside precisamente no facto de serem “complementares” (e, como tal, não posicionada de forma concorrencial à moeda oficial) – o que lhe confere, à partida, outro enquadramento legal no que respeita à liberdade de emissão, sem as restrições impostas pelo Banco Central à exclusividade de “emissão de moeda” – e este é também o fundamento das formulações práticas feitas por especialistas como Christian Gelleri (criador do chiemgauer) ou Bernard Lietaer (que também foi governador do BC belga!).
      2. Não há moedas “neutras” – toda a moeda influência o fluxo monetário, na aquisição e distribuição de rendas e bens, bem como o comportamento dos agentes económicos. Pegando no ponto anterior, para as empresas, o interesse pelas “moedas complementares” vem na sequência das estratégias de “segmentação de mercado”, posicionamento das marcas, reforço das vendas, e, claro, fidelização dos clientes. Já no caso das moedas locais e regionais, desenvolvidas por municípios, cooperativas de crédito, associações de comerciantes ou ainda por “bancos comunitários” (o Banco Wir surgiu como uma cooperativa de crédito, reunido empresários suiços, PME’s; já o Banco Palmas, no Brasil, tem tido o apoio do Banco Central, e da banca comerciais, na difusão do “microcrédito” e outros produtos financeiros) o interesse reside na implementação de estratégias desenvolvimento dirigidas à produção local/regional e o consumo interno, estimulando dessa forma o empreendorismo, o comércio, a criação de emprego e a melhor distribuição de renda. Isto, num contexto de fortalecimento da identidade local/regional e da coesão social, que visa propiciar maior autonomia da “comunidade” na relação de dependência com exterior – daí também a designação comum de “moedas sociais”. No caso especial do circuito Wir, vários especialistas tem comprovado a relevância desta moeda “privada”, paralela e complementar ao franco, na estabilidade da economia suiça – aliás, é em épocas de crise internacional, quando há escassez de francos e menor fluxo monetário, que os francos-wir são mais procurados pelos empresários, por forma a melhor garantir acesso ao crédito, fluidez de caixa e estabilidade nas vendas. Além disso, a círculo Wir destaca-se ainda pelo compromisso económico e social em organizar grandes feiras nacionais e mercados regionais, com o objectivo de motivar o encontro entre os associados, o comércio e cooperação empresarial.
      Pessoalmente, acredito que a introdução de um sistema idêntico ao «circuito Wir», se exequível, traria vantagens para a dinamização da economia nacional. Neste sentido – aceitando a crítica do estimado Francisco Louçã – importa não desconsiderar, em absoluto, a relevância que podem ter as “moedas complementares” para o futuro… ainda que no presente possa parecer uma ideia “excêntrica”!

      Depois, temos ainda o conceito de “moeda comum” (ao qual me referi no comentário acima), em substituição da “moeda única”, apresentado por Jacques Sapir. Em termos práticos, seria como “dar um passo atrás, para avançar dois à frente” – ou seja, retornar a uma fórmula melhorada do ECU.
      Jacques Sapir: «[…] Desaparecido o Euro, as dívidas dos diferentes Estados seriam redenominadas em moeda nacional. [§] Uma tal política imporia também controles de capitais em cada país. Notemos que este já é o caso em Chipre! Estes controles, além do facto de que contribuiriam para desfinanciarizar estas economias, limitariam consideravelmente a especulação e permitiriam aos Bancos Centrais visar objectivos de paridade. Uma vez atingidas estas paridades, um sistema de flutuações coordenadas das moedas, como no tempo do ECU, poderia ser posto em acção. Historicamente, o que desferiu o golpe mortal neste sistema foi a especulação monetária. Suprimida esta, ou fortemente reduzida, o sistema poderia funcionar novamente.
      Da “moeda única” à “moeda comum”? Esta ideia atrai um certo número de homens (e de mulheres) políticos. E ela está longe de ser absurda, muito pelo contrário. De facto, uma moeda comum deveria ter sido adoptada desde o princípio.
      Do que se trata? Pode-se imaginar que o sistema monetário europeu reconstituído que se teria após a dissolução do Euro desemboque numa “moeda comum” vindo acrescentar-se às moedas existentes, a qual seria utilizada para o conjunto das transacções (bens e serviços mas também investimentos) com os outros países. Esta dissolução da zona Euro, se ela resultar de um acto concertado da parte dos países membros, deveria dar nascimento a um sistema monetário europeu (SME) encarregado de garantir que a necessária flexibilidade dos câmbios não se transforme em caos». [Após apresentar vários critérios subjacentes à criação do SME, e à paridade cambial entre moedas, remata:] «Este sistema corresponderia na realidade à existência de uma moeda concebida como uma unidade de conta vindo acrescentar-se às moedas nacionais existentes. Esta situação seria muito propícia à ressurreição do Euro, mas sob a forma de uma moeda comum.»
      Sapir apresenta ainda da nova “moeda comum” como “unidade de conta [que] funcionaria como um “cabaz” de moedas, onde as proporções de cada moeda, assim como suas paridades, poderiam ser revistas”. E acrescente: “as transacções tanto comerciais como financeiras fora do SME seriam feitas só em unidade de conta”.
      – Fará isto sentido? – Será exequível?
      [Fonte: http://resistir.info/europa/sapir_16set13.html ]

      Notas: Por mera curiosidade, as ideias de Jacques Sapir têm também influenciado o pensamento de Octávio Teixeira e outras figuras próximas ao PCP – para mais, vide: http://resistir.info/europa/permanencia_euro.html
      Na qualidade de livre-pensador, sublinho: não tenho especial afinidade ou simpatia pelo PCP ou filiação em qualquer outro partido ou movimento político. No que se refere às potencialidades das “moedas complementares”, não sendo um especialista académico, a minha única motivação é estimular o interesse, análise e reflexão, sobre o tema – quase ausente que está dos círculos académicos e intelectuais portugueses!

    4. Sim, mas Octávio Teixeira tem proposto abertamente a saída do euro, com uma formulação certamente diferente da que o PCP tem adoptado.

  5. Caro senhor, uma mentira muitas vezes repetida não faz dela uma verdade.

    Como prefiro acreditar que anda apenas MUITO DISTRAÍDO, em baixo lhe deixo um link, que aliás lhe recomendo, onde poderá constatar que o PCP já tem os objetivos concretos para a reestruturação da dívida definidos há bastante mais tempo do que diz (e gosta de dizer).

    Recordo-lhe, aliás, que o PCP foi o primeiro partido a defender a renegociação da dívida, desde abril de 2011, antes mesmo de o PS chamar a troika. Incluindo uma reestruturação dos prazos, juros e montantes, não se cingindo a inócuas, porque de um irrealismo atroz para a dimensão necessária, reestruturações apenas nos prazos e juros.

    No projeto de resolução do link, razoavelmente desenvolvido, poderá encontrar, com muito maior precisão, a par do diagnóstico da situação, toda uma série de orientações e propostas para a reestruturação da dívida, o controlo público da banca e a libertação do país do euro.

    Em relação a esta última, a discussão, com propostas concretas de mecanismos de saída, anteriores mesmo ao primeiro livro do economista João Amaral, prossegue, mas escusa-se de explicar a um ex-dirigente partidário que nem sempre têm lugar num projeto de resolução, sobretudo quando, pela sua natural complexidade, não estão ainda consensualizadas em todo o detalhe.

    Mas enganar-se-ia tanto, pelo facto de as desconhecer, concluindo que não existem, como se tem enganado – e enganado os que o ouvem – quando concluiu que os objetivos da renegociação, com os inevitáveis acertos da evolução da discussão, ainda não tinham sido estabelecidos.

    Para seu desmentido, devida informação e espero que proveito, o projeto de resolução apresentado na Assembleia da República a 30 de setembro de 2014:

    http://pcp.pt/renegociar-d%C3%ADvida-preparar-o-pa%C3%ADs-para-sa%C3%ADda-do-euro-e-retomar-o-controlo-p%C3%BAblico-da-banca-para-abri

    Lamentável é que, à esquerda do PS, ainda nem todos tenham compreendido a necessidade de romper com o euro, que nos condena à eternização da austeridade, à estagnação e ao empobrecimento, como é nítido nos anúncios dos programas eleitorais e foi nítido na votação da secção relativa ao euro no projeto de resolução em causa (que contou com a aprovação apenas do PCP e dos Verdes).

    1. Apesar da oposição histórica do PCP, opondo-se a Maastricht, e chegando a propor um referendo no momento da adesão aos euro… [Vide: http://opanorama.pt/2015/03/13/saida-do-euro-um-namoro-antigo-que-o-pcp-quer-agora-consumar/ ]
      Não se esqueça do PCTP/MRPP… pelo que julgo saber, em rigor, este foi primeiro partido a defender a saída do euro e a por cartazes na rua sobre o tema. Garcia Pereira que, no seu tom “cáustico”, veio a acusar Cavaco Silva de “querer silenciar a questão da saída do euro” (Maio 2013), tem divulgado a ideia de que é preciso referendar…
      Vejamos a posição, assumidamente radicais, de Garcia Pereira: «Independência Nacional: sair do euro, não pagar a dívida!» – em Congresso da Cidadania 13/03/2015.

      1. O euro não passa do marco travestido de moeda única.
      2. Um país, em particular um país com uma economia mais fraca e incipiente como o nosso, não pode ser verdadeiramente independente se estiver privado da sua moeda, ou seja, se se mantiver no euro.
      3. A integração na chamada “moeda única” não trouxe para Portugal qualquer benefício, mas antes o agravar progressivo do endividamento do País e a sua crescente dependência relativamente ao exterior, ao mesmo tempo que se revelou um verdadeiro maná para os países mais ricos, com a Alemanha à cabeça (como o demonstram claramente a evolução da balança comercial de Portugal e a diferença entre o PIB – Produto Interno Bruto e o PNB – Produto Nacional Bruto).
      4. A saída do euro e a criação do Novo Escudo são tão indispensáveis quanto realizáveis, implicando a criação da nova moeda nacional, o estabelecimento inicial da paridade 1 euro = 1 Novo Escudo e depois a fixação de uma desvalorização prevista e controlada, de cerca de 30% (que afectaria apenas os bens e serviços – e agravaria os respectivos custos – vindos do exterior).
      5. Os benefícios decorrentes da reconquista da Independência Nacional são muito superiores aos custos e sacrifícios que tal política de autonomia significaria, em particular nos primeiros 4 anos.
      6. Por outro lado, a actual dívida pública – que cresceu uma vez e meia com a “ajuda” da Tróica e que se mostra hoje absolutamente impagável – não foi contraída pelo Povo português nem foi contraída em seu benefício, antes começou por resultar do desequilíbrio estrutural imposto pela pertença à União Europeia e à destruição da capacidade produtiva do País que dela decorre.
      7. Foi drasticamente aumentada (até atingir cerca de 100% do PIB) com a pertença ao euro. E disparou de forma imparável com as chamadas “medidas de austeridade” com as quais o País regressou aos níveis de pobreza, de fome e de miséria dos piores tempos da governação salazarista.
      8. A salvaguarda da independência nacional exige e impõe a saída do euro, a recusa do pagamento da dívida, a não cedência às ameaças da Alemanha e a adopção de um plano de pleno desenvolvimento da economia nacional e de combate ao desemprego.
      [Nota: Não tenho filiação ou afinidade política com este partido, nem me acho suficientemente competente para servir aqui de “advogado” das ideias de Garcia Pereira!]

    2. M Leonor: percebo o entusiasmo e devoção militante pelo seu partido, mas a discussão merece mais atenção.
      Porque:
      1. É uma lenda e é falso que o PCP tenha sido o primeiro partido a propor a reestruturação da dívida. Em Abril de 2011, antes da resolução do PCP, estava nas livrarias um livro meu, “Portugal Agrilhoado”, que propunha a reestruturação da dívida. Mas nem vale a pena fazer nenhuma corrida: na esquerda portuguesa ninguém inventou a reestruturação, simplesmente usamos o que de há muito se propunha nas esquerdas europeias e latino-americanas.
      2. Tem razão ao dizer que uma resolução na AR não tem que ter todos os detalhes técnicos. Mas um partido deve apresentá-los, da forma que entender. Não me dei conta de que o PCP o tivesse feito antes e elogiei que o faça agora. Mas corrigirei se me indicar um texto técnico detalhado em que isso tenha sido feito. Em todo o caso, o que importa agora é que nas eleições se discutam propostas concretas.
      3. Finalmente, sim, a esquerda precisa de se entender sobre uma alternativa ao euro. Tem toda a razão. Mas o PCP, como diz claramente Jerónimo Sousa, não propõe a saida do euro, propõe unicamente que se “estude” essa possibilidade. Como a MLeonor, também acho que se devia ser mais ofensivo, todos os partidos de esquerda.

    3. Não é verdade, o PCP defende a saída do euro – a libertação do país da submissão ao euro, a recuperação da soberania monetária – e, se ler o projeto de resolução que lhe deixei, entre vários outros documentos dos seus orgão dirigentes, e inúmeras declarações dos seus representantes, isso é inteiramente claro.

      O que o Jerónimo disse é que o PCP NÃO defende uma saída SÚBITA. A saída defendida pelo PCP é uma saída responsável, respeitadora da vontade popular, cuidadosamente preparada e defendendo os salários, as reformas e as poupanças dos trabalhadores e da generalidade da população.

      Não confunda a elementar e sensata proposta, recomendação ou reivindicão de que os órgão próprios do Estado estudem a saída e a melhor forma de a concretizar, com a opinião própria e as posições do PCP sobre o assunto.

      Quanto à reestruturação da dívida, há muito tempo que o PCP a defende, sempre, desde o início, contemplando uma (forte) REDUÇÂO dos MONTANTES. Apenas lhe indiquei, para comprová-lo, a data (mais rigorosamente, 5 de abril de 2011) em que, pela primeira vez, algum partido a propunha publicamente e formalmente. Até pode ver o vídeo:

      https://www.youtube.com/watch?t=413&v=m4FWR5OvFdk

      É claro que não se trata de uma corrida. Mas convém que mais gente, na esquerda que se quer consequente, recupere dos atrasos e acerte o passo com as necessidade do nosso tempo.

      É preciso reestruturar as dívidas, pública e externa, para libertar recursos para financiar o investimento e o gasto social, para retomar o crescimento e o desenvolvimento, mas também é necessário combater as causas do endividamento do país, que, deixadas na mesma, não tardarão a produzir os mesmos resultados.

      Infelizmente, nem toda a gente, como é nítido nos programas eleitorais apresentados ou anunciados, já o compreendeu. Dos grandes partidos, o PCP continua, desgraçadamente para o nosso povo, sozinho.

  6. Vi o Bernardino falar e quantificar uma nova forma de receita para a SS sobre Valor Acrescentado nas empresas de capital intensivo, queres esclarecer?

  7. A burocracia piramidal do PCP revela-se em todo o seu esplendor, de acordo com a norma sofisticada de um velho partido parlamentarista que pretende controlar e manipular- por processos cientificos- a vontade e iniciativa da multitude em luta. Os reformistas neo-estalinistas, dirigindo o PCP, desarmaram e inviabilizaram nos últimos anos todos os processos de luta onde o ” sistema ” de exploração e de domninação de classe capitalista estava em questão. Como diria Sartre, ” os comunistas estalinistas têem medo da Revolução!”. Se os trabalhadores devem tomar conta do processo de produção e decidir a distribuição dos seus produtos, necessitam antes de realizar essa transformação revolucionária, de funcionar e de se organizar por si próprios de uma maneira totalmente diferente do que o modelo leninista recauchutado lhes ensinou, frisa Anton Pannkeok, num livro capital para (re)pensar a instauração de ” Os Conselhos Operários “, combatendo a lógica essencial dos partidos parlamentaristas girando na órbita da democracia politica do capitalismo…

    1. Pois, é que os outros fazem melhor. Pelo menos tem uma coisa muito importante que nos dias de hoje é uma raridade: São coerentes.

    2. Não são coerentes não, um partido anti-democrático como o PCP não deveria participar em processos eleitorais, se fosse coerente. Quanto ao Niet, parece ser mais uma das pobres almas que sonham com o “verdadeiro comunismo”, o tal que nunca existiu nem nunca existirá, mas cujos sonhos provocaram as grandes catástrofes humanas do século XX após a 1GG. Nada de novo, o comunismo está morto, o que está vivo são os comunistas! É triste, faz-nos descrer do ser humano.

    3. Ó Niet, troca lá por miúdos em que é que a burocracia piramidal do PCP o afecta de maneira diferente dos outros partidos! Ou que responsabilidades é que o partido tem na trapalhada em que o PS/PSD/CDS meteram o pais nos últimos 40 anos! E já agora indo tão fundo ao amago do comunismo, como é que se vai ao amago da social democracia (caso PSD que hoje se reclama de direita!) e do socialismo (caso PS que hoje se reclama social democrata!)? Porque estar sempre a atacar um partido que tem zero responsabilidades na vergonha que é a governação de Portugal?

  8. Neste país e desde 1974, todo o mal é das esquerdas andarem de costas voltadas entre elas. Enquanto isso, a direita anda sempre unida e a esfregar as mãos fazendo as leis a que mais favorece o grande capital. A esquerda (CDU e BE) que tenha juízo e que se una para poder inverter as politicas deste país

  9. Quando a maioria dos portugueses e também dos gregos não querem a saída do EURO, a fazer fé nos estudos de opinião, e sabendo a Esquerda, que se continuar no Euro, não pode pode aplicar uma política alternativa anti-austeridade, como se pode ultrapassar esta aparente contradição , só vejo uma forma propor saída do Euro como meta, e apresentar um estudo rigoroso, das suas vantagens e dos seus riscos. Se se esconder em meias palavras , e não assumir corajosamente os riscos das suas propostas políticas, a Esquerda torna-se dispensável.

    1. Contribui para esse estudo rigoroso com o livro que escrevi com Ferreira do Amaral, “A Solução Novo Escudo”.

    2. O Augusto tem razão, numa perspectiva de caminhada final para a ditadura em Portugal, como a da Grécia. Quem não sabe o que vai provavelmente acontecer à Grécia deve ler O Caminho Para a Servidão de Friedrich von Hayek, uma obra capital do século XX, e que se mantém largamente actual. Infelizmente muitos tolos nem sabem quem foi Hayek, um dos grandes suportes teóricos da destruição (final?) do comunismo em 1989. Supondo que as visões do Augusto se realizassem, eu sairia de Portugal antecipadamente e sem bilhete de regresso, porque quando a liberdade desaparece, já não há pátria.

    3. Não pretendo discutir com um anónimo e seguirei a regra de não comentar o que aqui escreve. Mas visitei o Chile durante a ditadura de Pinochet pouco tempo depois de Hayek lá ter estado. Ele reuniu-se com o ditador. Anos antes, tinha escrito uma carta a apoiar Salazar. EStamos conversados sobre Hayek.

    4. Não é possível discutir política( e políticas ) sem entrar no capítulo das ideologias. Se a falência do modelo de economia planificada permite evocar Hayek, a materialização dos pressupostos do neoliberalismo confirma a urgência em recuperar os princípios sociais – democratas que guiaram a Europa por mais de meio século, antes que cheguemos ao ponto sem retorno. O capitalismo internacional consegue dar o salto em frente, globaliza – se, e domina políticos e políticas, Estados e corporações, empréstimos e dívidas, produtos e produções. Já há poucos agentes económicos que escapem à rede invisível do capitalismo globalizado, e quem não é suficientemente grande para gerar lucro e dividendos simplesmente desaparece. Os empregos apagam – se a uma velocidade estonteante, e a mobilidade é cada vez mais uma miragem, só ao alcance de uma certa elite. A lógica do lucro, da riqueza (e do poder) a qualquer custo é autofágica, mesmo que os seus agentes disso não se apercebam. É o caso dos neoliberais portugueses, tão empenhados nas privatizações, e tão dedicados à causa, que não percebem que estão a matar as suas galinhas dos ovos de ouro. PCP e BE não conseguem despir o fato revolucionário (e com isso passam a ideia de não estarem preparados para assumir o poder de forma “responsável”, aos olhos do povo), o PS tarda em assumir formalmente a ideologia liberal que abraçou há muito tempo, e enquanto esta indefinição reinar estaremos à mercê de dois partidos que já pouco têm a oferecer ao País, uma vez que o Estado – previdência está quase totalmente desmantelado, os bens públicos alienados, e a clientela quase toda servida. Com muito do eleitorado composto por analfabetos políticos, oportunistas, e outros ávidos de se identificarem com as elites que os domesticaram, estamos na iminência de repetir quatro anos de pieguices, trapalhadas, mentiras, incompetência, e o impudor dos governantes que nos tocaram nas últimas eleições.

    5. O Francisco Louçã gosta do Chile, prontos! Não sei porquê, uma vez que o liberalismo económico resultou no Chile, tal como resultou sempre quando foi levado a sério. Não vou dizer que seja edificante para o liberalismo ter sido um ditador ultraconservador chileno a promovê-lo, mas isso é aquilo a que se convencionou chamar ‘realpolitik’. Augusto Pinochet, tal como Deng Xia Ping, não foi buscar os liberais por gostar do seu amor à liberdade, foi buscá-los porque sabia que ia resultar. Perante isto, pessoas como Hayek e Friedman tinham claro um dilema moral, um problema ético a resolver, isto num contexto de guerra fria e possível destruição da civilização ocidental. Fizeram aquilo que a consciência lhes impôs, e fizeram bem.

    6. Caro Pedro G., essa sua visão de um mundo dominado pelo liberalismo não passa disso mesmo, de um visão. Como sabe, o peso político dos liberais é reduzidíssimo, e em Portugal é quase nulo. A nossa boa sorte é que alguns conservadores, como Angela Merkel, esses sim com peso político, nos vêm “roubar” umas boas ideias de vez em quando. Mas tirando isso, só se lembram de nós quando já não têm mais ideias. Fez-me rir com a sua afirmação de que o Estado-Providência tuga está “desmantelado” – olhe que não, olhe que não!

    7. Fui visitar a Wikipédia sobre Hayek, e curiosamente um capítulo é dedicado às opiniões dele sobre a ditadura. Nada como deixar Hayek falar: “As long term institutions, I am totally against dictatorships. But a dictatorship may be a necessary system for a transitional period. […] Personally I prefer a liberal dictatorship to democratic government devoid of liberalism. My personal impression – and this is valid for South America – is that in Chile, for example, we will witness a transition from a dictatorial government to a liberal government.”. Já agora não é referida nenhuma carta de apoio a Salazar, mas sim o envio de um dos seus livros a Salazar, para o tentar persuadir à causa da liberdade. Se foi em vão, com certeza que ninguém me vai convencer de que a culpa foi de Hayek.

    8. Ainda bem que estuda a Wikipedia. É um alívio saber que esclareceu o assunto da carta a Salazar (mas pode encontrá-la no The Times).

  10. F, esquerda mais ofensiva, mas como se a esquerda nem fala uma com a outra, podem mais as quesiculas pessoais e os bicos de pes que um real sentido de procura de unidade, como se todos tiverem a razão, ha so uma razão a defesa popular perante o ataque cerrado do capital financeiro, essa deveria ser a obrigação suprema do dirigentes do PCP, BLOCO, LIVRE, TA. . Uma proposta de ofensiva seria unir a esquerda, preparar um acordo eleitoral anti austeridade, com o emprego como objectivo, com a defesa e reforço do estado social, a ajuda social as victimas da austeridad, como… ese programa passa por reperar a soberania politica, que neste momento temos uns sátrapas nativos a obedecer o programa alemão que elimina Portugal como nação. Na guerra a ofensiva começa com juntar forças, preparar o escenário de combate, mas a esquerda portuguesa prefere preparar-se cada um para o sua guerra, en democracia a vecs se ganha outras veces se perde, mas a esquerda portuguesa em substacia so tem sofrido derrotas e ninguem aprende. Estamos a tres meses das eleições ainda vamos tempo.

    1. Muito de acordo. Mas a última entrevista que li de uma dirigente do partido a que pertences, Mário, defendia o abandono do objectivo de reestruturar a dívida para tornar mais fácil o acordo com o PS. Como se recupera a soberania?

  11. O PCP joga sempre à defesa para não se comprometer com nada nem com ninguém: apenas se compromete com as taxas de IMI mais elevadas dos municípios por si geridos – infelizmente! E também se compromete com uma política de compadrios e amiguismos no seu círculo de influência – adoram um sistema à conta do qual vivem! Mas sempre revolucionários e combativos!

  12. O país está a ver e a perceber o que acontece com uma esquerda bem ofensiva na grécia. Só em levantamentos já vai em 80 mil milhões. Votaram à esquerda mas não confiam neles com o seu dinheiro. E fazem muito bem.

    1. Tenho um amigo que fala de ‘doublethinking’ para essa idiossincrasia esquerdista que refere o Pedro Oliveira, em homenagem ao genial 1984 de George Orwell. Veja bem o esquerdismo duplopensante dos gregos, não querem nenhuma austeridade, mas querem manter-se no euro! O drama é que se levam a sério… E depois ouvem aquilo que não querem, Mme. Lagarde dizer que só se pode trabalhar com adultos na sala.

    2. Acha “genial” o George Orwell porque lhe disseram que 1984 é sobre as ditaduras “comunistas”. Se assim o leu (os se lho assim disseram) equivocou-se, leia-o com mais atenção, especialmente naquelas partes sobre a manipulação de massas, e opiniões únicas. Acredito que, pela mesma lógica de partida, tenha passado os olhos pelo genial (agora digo eu) “Animal Farm”, porque acha que é uma obra anticomunista (muitos dos ligados a um dos seus ódios de estimação, o PCP também o acham, mas acham mal). Mas o meu objectivo é propor ao sr. liberal a leitura de outro livro genial (lá insisto eu), também de Orwell, intitulado “Homenagem à Catalunha”. Se conseguir chegar ao fim sem mudar de opinião em relação à genialidade de Orwell, talvez mude de opinião sobre a forma vergonhosa como as “democracias” ocidentais preferem vergar um pais à influência fascista a tolerarem um governo que não os acompanhe na receita de sacrificarem um povo inteiro no altar dos seus lucros. Sim, estou a comparar a cobardia europeia face à Espanha Republicana com a tentativa de vergar a Grécia à dívida (à venda do país). Um pequeno pormenor sobre algo que aqui adiantou atrás sobre a antiga RFA: não era o PC que era proibido, como aqui pretendeu com grande satisfação, era proibido empregar “comunistas” na F. Pública, mas lembre-se, não seja selectivo, não tinham a mesma política em relação aos serventuários do regime nazi. (o problema, para si não, sugere-o até à náusea, é que uns foram “inquilinos” e os outros foram os “senhorios” dos campos de concentração).

    3. Caro Carlos Silva, acontece ter lido 1984 há poucos anos atrás, por isso não tenho dúvidas nenhumas de que ele foi inspirado largamente pelo comunismo russo, apesar de ser uma sátira, e não uma obra sobre a realidade do seu tempo. Aproveito para lhe recordar que a ideologia da Oceânia era então, em 1984, o IngSoc, de SOCIALISMO inglês. Como, na prática, comunismo e fascismo são as duas caras da mesma moeda, a tirania moderna, Orwell foi “pescar” aquilo que lhe terá apetecido, e claro que os fascismo europeus então derrotados tinham abundante matéria-prima disponível. Falando dessa matéria-prima, em que como diz Carlos Silva, houve senhorios e inquilinos de campos de concentração, inquilinos esses que foram muito mais do que comunistas, isso não passa de um acaso, pois se tivessem sido os comunistas a vencer em Weimar, a posição dos senhorios e dos inquilinos seria a inversa, mas o que é relevante é que lá estariam os campos na mesma. Os campos dos comunistas costumavam ser maiores, a excepção foi Hitler, que também tinha jeito para o negócio dos campos. Quanto à Europa não tolerar o governo grego, não tenho visto nada disso. O que tenho visto é alguma firmeza na exigência do cumprimento dos acordos pela Grécia, e muita paciência com todo o tipo de grosserias, nas quais o estilo desengravatado passa por um pormenor insignificante.

    4. Como diria Keynes.. Comparado com o quê ?
      A esquerda é má? E os anteriores? Deixaram o pais falido, completamente derrotado financeira e moralmente, e que eu saiba o ponto de partida conta e muito!
      Considero comentários como o seu altamente ofensivos. Isto porque comentários que partem de falsos pressupostos são escritos na esperança de enganar os incautos e os ignorantes.
      Comentário de direita ou de esquerda devem ser fundamentados para que se possa discutir os temas e até mesmo aprendermos algo uns com os outros.
      comentários como o seu são ofensivos você está a chamar idiota a todos os que perdem tempo a ler o que escreveu.

  13. O Francisco efetuou uma análise sobre um dos partidos de Esquerda. Não me querendo deter na análise “em si”, seja-me permitido fazer um aviso à navegação: a chave, considerando a Esquerda como um “todo”, é mais uma vez o PS, pois pode ser a única força política, “ a la gauche”, que terá o apoio, ou os contributos da Esquerda ao nível parlamentar e/ou governativo. Não tenhamos ilusões. Sabe-se que desde há quarenta anos o Partido Socialista meteu o marxismo na “gaveta”, ainda assim, governou em Lisboa com apoio de comunistas e bloquistas. Atualmente, comunistas, bloquistas ou livristas poderão ter grandes resultados nas eleições, mas nunca conseguirão chegar ao governo, caso os socialistas (“sociais democráticos”) não atingem a maioria, relativa ou absoluta. Este é o grande dilema. Não estamos na Grécia. Por um lado, a Esquerda, em Portugal, aparece sempre muito dividida em querelas e discussões, cada um dos lados a provar que defende os “trabalhadores” e a classe média melhor que os outros. Então que fazer? Em primeiro lugar, a Esquerda deverá ter uma boa votação; em seguida, deverá contribuir para o esclarecimento dos quadros e dirigentes do PS, que se não alterar ou abolir a questão da TSU perderá inevitavelmente as eleições. Porquê? Como se viu na abordagem a Costa no S. João, no Norte, as pessoas mais atentas, e a classe média (a maioria) em particular, não transigirá, pois quando ouviu o “conselho de sábios” do PS a propor que ia diminuir a TSU até 2018 ficou em alerta. Costa ainda não percebeu que isso alterou os dados da questão, na luta pelas legislativas. Essa é a razão mais óbvia para o PS descer nas últimas sondagens da Católica para segundo lugar. As pessoas, os cidadãos deste pobre País, nunca darão o benefício da dúvida ao PS numa proposta dessas. Burrice, e da grossa, que o comum dos cidadãos percebe e entende, mas o secretário-geral António Costa tem-se mostrado incapaz de entender. Mantenha essa proposta, e depois estaremos cá para ver como será penalizado! E isto não é um aviso, é simplesmente uma constatação. Basta olhar à volta: entre votar num demagogo que prometeu em 2011 não cortar subsídios e baixar salários, e depois foi além da Troika, e um líder político que promete não mexer nas pensões e depois diz que altera a TSU, com grande perigosidade para a Segurança Social, a Classe Média, que se endivida para comprar ou trocar de carro, e alugar ou comprar casa, vai escolher para votar o “irrevogável”, o presunçoso, que faz pompa de andar de feira em feira, o vaidoso da lavoura, ou o “rapaz” da “Pensão do Comilão” e dos esquemas da Tecnoforma, que afastou sem dó nem piedade da sua frente a senhora Ferreira Leite . É de certeza o que vai acontecer. É uma questão de tempo.

    1. Creio que não se deve confundir esquerda e centro. O PS é hoje, e assim se proclama, um partido de centro, que está subordinado às decisões europeias e isso diz tudo. Acho que pode haver por vezes confluências entre a esquerda e o centro, mas não vejo como a esquerda possa governar a defender o corte nas pensões que o PS propõe ou a manutenção do Tratado Orçamental.

    2. De acordo: PS uma partido do centro. Mas o Francisco experimente a transmitir a defender essa posição junto do comum dos cidadãos. Na melhor das hipóteses esse cidadão(ou cidadã) dirá, quando muito, centro-esquerda. Seja como for, e admitindo o PS, de facto, como um partido do “Centrão”, a Esquerda debate-se neste momento com um dilema, que a vai condicionar: por um lado, deverá combater a abstenção e lutar pelo maior número de votos; e por outro lado, deverá estar interessada(essa Esquerda), que na melhor das hipóteses o PS ganhe as eleições com maioria relativa. Só deste forma poderá chegar ao poder coligação, ou com força suficiente no Parlamento para limitar e condicionar dessa forma as políticas do PS. De outro modo, estou convicto, ou melhor, penso que, como não temos um “Podemos”, um “Cidadanos” ou “Syriza”, caso o PS não ganhe as eleições a Esquerda será mais uma vez ostracizada e colocada de lado.

    3. Compreendo o argumento. Mas já viu que o PS é também o partido que propõe prosseguir a austeridade e, além disso, impor os círculos uninominais para garantir a hegemonia do PS e PSD no sistema eleitoral. Dificilmente se vê como pode a esquerda apoiar tais insanidades.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo