Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

26 de Maio de 2015, 00:12

Por

Bons ventos de Espanha

Foi mesmo uma vitória para as esquerdas.

Primeiro, porque as esquerdas conseguiram o mais importante nas eleições mais difíceis: demonstrar que o bipartidismo (em Portugal, o termo consagrado é “alternância”) pode ser posto em causa. Os partidos da direita e do centro, o PP e o PSOE, perderam três milhões de votos: o PP perdeu 10% do eleitorado e o PSOE ficou abaixo dos seus resultados de 2011.

Segundo, porque este desequilíbrio do sistema político tradicional permitiu vitórias fundamentais, como a de Alda Colau em Barcelona e de Manuela Carmena em Madrid. Levaram o movimento social à vitória eleitoral. É certo que, em ambos os casos, para governarem a autarquia e afastarem os nacionalistas de direita e o PP de Rajoy, terão que ampliar as alianças à esquerda e mesmo ao centro: em Barcelona com os socialistas e alguns nacionalistas, em Madrid eventualmente com os socialistas (mas não será fácil). Mas para aqui chegarem, o que lhes permitiu vencer foi desafiarem e baterem o centro: em Madrid a coligação da esquerda, quase toda (só a Izquierda Unida não aceitou e ficou com 1,7%), teve 31,9%, enquanto o PSOE ficou pelos 15,3%; em Barcelona, a maior coligação das esquerdas teve 25,2%, ao passo que os nacionalistas de direita, a CiU, conseguem 22,7%, mas o PP fica pelos 8,7% e o partido socialista pelos 9,6%. A estratégia vencedora foi portanto a da convergência que se atreveu a desagregar o sistema da alternância. É a esquerda que pode fixar o programa dos governos municipais de Barcelona e de Madrid.

Agora, como é de esperar, haverá discussão entre as esquerdas de outros países sobre como interpretar estes resultados e até haverá quem os reclame como se fossem seus. Vale a pena uma reflexão sobre estas lições, sobretudo porque em Portugal ninguém se prepara para as acompanhar.

Vale a pena porque, num tempo em que a Grécia anuncia que já não tem mais dinheiro para pagar aos credores institucionais e caminha para a insolvência, todas as questões europeias são mais relevantes do que nunca. A União Europeia, que não permitiu ao governo grego reestruturar a dívida e continua a exigir a redução das pensões, muito menos aceitará em Espanha uma política que se desvie da austeridade. Estamos portanto todos no mesmo barco.

Por isso mesmo, é pena que em Portugal as esquerdas estejam divididas para fazerem o contrário do que deu a vitória em Espanha. Uns porque acham que é apoiando o centro que terão “um pé no governo” e, portanto, favorecem o “voto útil” no PS, esperando que a alternância resolva os problemas do país. Outros, a maioria, porque acham que a convergência é inútil e há pouco a fazer.

Uns e outros estão errados. Uns porque não podem o que querem e outros porque não querem o que podem.

Comentários

  1. O êxito do Podemos deve-se, precisamente, a terem sabido “tirar lições”, desde a inoperância dos partidos tradicionais de esquerda à forma como, em diversos países da América Latina, a esquerda teve e continua a ter o apoio da maioria da população. Um dos ensinamentos que retiraram foi o de ser necessário dar protagonismo às pessoas, sem lhes pedir um cartão de militante ou perguntar em quem têm votado. Para as eleições, recusaram coligações com outros partidos (entendendo que uma soma de siglas não leva a lado nenhum), dando preferência aos movimentos sociais, com candidaturas de unidade popular. Aliás, o Podemos é o resultado desses movimentos, em particular o dos “indignados”. Não se pode extrapolar esta experiência para Portugal (não há “marés” de indignados, não há gente suficiente que, nas universidades, em ciências políticas, pense e aja fora do sabido e concebido), mas, como ponto de partida para uma reflexão e discussão, que desse frutos adequados à nossa realidade, alguns livros, de dois dos dirigentes do Podemos, parecem-me de leitura obrigatória: de Pablo Iglesias, “Disputar la democracia”, Akal, 2014 (com prólogo de Alexis Tsipras); Juan Carlos Monedero, “Curso urgente de política para gente decente”, Seix Barral, 2013 e “Disfarces del Leviatán”, Akal, 2009. (Não conheço traduções em português). Veríamos que o Podemos é qualquer coisa de realmente novo, fora dos esquemas a que estamos habituados.

    1. Há tradução portuguesa do livro do Pablo Iglesias. Claro que não se pode extrapolar, como nunca se pode.

  2. Os centros de decisão que condicionam detreminantemente as políticas da UE impelem os decisores locais a abandonarem, nas suas áreas e economias, o “estado social”, com o objetivo de fazer migrar o estilo de vida europeu para o estilo de vida americano.

    A reação a essa mudança, primeiro lenta e acelerada no contexto de crise, vem das esquerdas que tomam os pilares do “estado social” como bandeiras.

    Os europeus querem manter o seu “estado social” e o seu modo de vida. O europeu comum sabe que é falso dizer-se como é dito pelos inimigos do “estado social” que há limites para o alimentar. Os partidos da alternância traíram a confiança dos eleitores e o sonho do modo de vida europeu e trabalham rápido para desmontar o “estado social”. Os partidos socialistas e social democratas deixaram cair as linhas vermelhas para serem governo a trair os seus eleitores. É por isso que o cidadão comum europeu tomou e está tomando em mãos a resistência à destruição e desloca o seu apoio para as esquerdas e exige que se entendam, na emergência, para barrar a destruição não para desenvolver planos ideológicos de longo alcance.
    Esse combate centra-se na questão europeia e a medida da resistência está na correlação de forças entre europeistas e eurocéticos. Por todo o lado crescem os eurocéticos e definham os europeistas.
    A unidade das esquerdas faz-se após eleições com mandatos para somar e resistir à destruição do “estado social”, o objetivo mínimo comum.

  3. Há quem escreva sem se informar caro MIKE , a RDA pagou , a RFA baldou-se , os aliados Ocidentais perdoaram-lhe grande parte da dívida sem EXIGÊNCIAS, e as indemnizações de guerra devidas a países como a Grécia , a Alemanha portelou-as até ao limite, e no caso da Grécia nunca pagou.

  4. Caro Louca, a extrema esquerda nunca se une por muito tempo. O proprio Syriza esta em risco de se fragmentar. Isto acontece porque a utopia que defendem nao pode ser atingida (por definicao de utopia). Logo cada faccao aparece com a sua mini-teoria de como la chegar. E depois nao se entendem. Ja os Monty Python gozavam com isso na Vida de Brian, com a JPF (Judea People Front), a PFJ (People Front of Judea), a PFJ (Popular Front of Judea) e os famosissimos FG (Free Galilea)!

    1. O exemplo de Espanha é o contrário: união das esquerdas, divisão da direita.

  5. Vitória de Manuela Carmena em Madrid??? Quem ganhou foi a Esperanza Aguirre, do PP, certo? Vitórias destas fazem-me sempre lembrar as do PC cá por estas bandas…
    O meu amigo apela à união das esquerdas, mas o problema das esquerdas é que os seus protagonistas são tremendamente individualistas, intolerantes e incapazes de ceder um milímetro que seja numa negociação. E sem isso, bem pode pregar frei Tomás…

    1. Sim, o PP teve mais votos, apesar de ter perdido catastroficamente em relação À eleição anterior, mas não tem aliança para formar governo municipal. Por isso, Aguirre concedeu no domingo que ficaria na oposição. Tudo indica que Carmena será a presidente da Câmara e essa é uma grande vitória, porque nasce de movimentos muitos pequenos eleitoralmente e que se agigantaram com a confiança popular.

  6. sempre a entrar nas redes.
    nao so entra nas redes como lê todo o tipo de correspondencia.
    o Sr. devia era ser. presidente.

  7. Deus queira é que o eleitorado não vote em Syrizas ou Podemos portugueses: Syriza está a levar a Grécia ao colapso total, o Podemos aconselhou a Venezuela a entrar numa espiral de hiperinflação em, troca de milhões de euros de assessoria. Euros (moeda alemã) e não bolivares. Reparem que não os podemos chamar de tolos…sabem bem qual a moeda que vale dinheiro.

    1. Pode ter a certeza que não é culpa de nenhum deus a austeridade em que vivemos, o desemprego que foi imposto a Portugal ou o corte nas pensões dos seus pais.

    2. Claro que é bom viver do dinheiro dos outros, pedindo emprestado há 42 anos. Problema é quando os “outros” se cansam.

    3. Mas ainda bem que os credores ajudaram a Alemanha com as suas dívidas ao longo do século XX. Foi o maior perdão de dívida do século e isso permitiu que houvesse depois a União Europeia.

    4. Essa ideia requentada de que o socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros, julgo saiu da boca da Margareth Tatcher que não deixou boa memória, não passe de um sofisma. O problema das esquerdas, sobretudo das portuguesas, é não ter compreendido o elementer, que não há alternativa ao capitalismo dentro do capitalismo. O segredo está em quebrar com o ciclo, e nisso a equerda nem quer pensar. Como disse Engels: «Um socialista é mais do que nunca um charlatão social que quer, usando um conjunto de panaceias e todos os tipos de remendos, suprimir as misérias sociais, sem fazer o menor dano ao capital e ao lucro.»

    5. Credores ajudaram a Alemanha com as condições que os credores quiseram impor. Acha que se a Alemanha fizesse como o Syriza alguma vez na vida ia ter ajuda de alguém? Nem de si, quanto mais dos outros.

    6. O antigo lider do Die Linke escreveu um artigo sobre o novo livro politico de J-L Mélenchon – ” Le hareng de Bismarck”onde acentua a critica à politica austeritária impulsionada pela coligação CDU/CSU e SPD alemã. Lafontaine apoia a catalinária de Mélenchon contra a Merkiavelli e seu compère Gabriel, ao mesmo tempo que alvitra a criação de modo suave mas inevitável de um Euro mediterrânico para os PIGGS. A cena é melindrosa e muito arriscada…Tanto mais que surge no contexto do artigo sobre o panfleto do Mélenchon. Como analisar tudo isto, prof?

    7. Não conheço o livro, mas agradeço muito a referência. Lafontaine já tinha defendido a saída do euro dos países periféricos.

    8. Caro Louçã, em relação à dívida Alemão:
      1) a Alemanha PEDIU para pagar a dívida da primeira guerra para restabelecer credibilidade do país
      2) o perdão que fala (metade) é impossível de calcular devido às desvalorizações de moedas durante a guerra. Essa “metade” de que se fala é um majorante.
      3) quem pagou a dívida foi a Alemanha ocidental, que tinha após a 2a guerra 30% do tamanho da Alemanha que contraíu essa dívida. A Alemanha de leste (dos seus queridos amigos soviéticos) NUNCA pagou a sua parte da dívida.

    9. Caro anónimo, está enganado. A investigação histórica e científica estabeleceu com muito rigor o valor do perdão, e as suas cláusulas são conhecidas. Imaginar que não é calculável por causa das desvalorizações parece uma brincadeira e não um argumento.

    10. Existem muitas dúvidas sobre o total a pagar e até sobre o total que foi pago!
      O valor inicialmente estabelecido em 1921 foi definido em german gold marks, embora essa divisa tivesse sido substituída pelo Papiermark em 1914.
      O problema da desvalorização cambial acontece porque parte da dívida poderia ser paga em géneros ou recursos. Como a divisa alemã (Papiermark) desvalorizou imenso, os recursos também perderam o seu valor.
      A ocupação Francesa do vale de Ruhr e a substituição de trabalhadores alemães por franceses nas minas de carvão complica ainda mais estes cálculos.

    11. Tudo baralhado. A ocupação do Rhur foi depois da primeira guerra mundial. A grande reestruturação da dívida foi em 1953, depois da segunda guerra mundial, numa conferência em Londres, com um acordo assinado, tudo calculado, com regras definidas. Caro anónimo, se assinasse com o seu nome talvez tivesse mais preocupação com o rigor.

    12. Nada baralhado! Caro Louçã, o acordo de 1953 baseia-se no acordo de pagamento de divida de 1921. O acordo de 1953 reduz a divida para os 50%. Ora 50% de que? Metade eram dividas da primeira Guerra (e dai falar da ocupacao do Vale de Ruhr) e a outra metade de emprestimos pos- 2a Guerra.
      Nao basta insinuar que ha falta de rigor para ganhar a razão, nao lhe vi rigor quando demonstra que nao sabe que o acordo de 1953 se baseia no de 1921 e que tem obvias implicacoes no desenrolar da historia entre as 2 Guerras. O “perdao” de metade das dividas em 1953 tem muito a ver com a dificuldade em apurar o montante que ja tinha sido pago durante os anos 20, principalmente por causa da ocupacao do Vale do Ruhr, que de resto se revelou desastrosa e levou um certo senhor de bigodinho ao poder.

    13. Estranha estratégia de argumentação. Insiste em dizer que, ao contrário do que afirmam os historiadores que estudaram o assunto, não se sabe de quanto foi o perdão da dívida. Parece que os Estados mais poderosos do mundo, que fizeram um acordo assinado em conferência internacional sobre o assunto, estavam à espera que um certo “Mike” os viesse esclarecer mais de 60 anos depois e portanto aceitavam uma redução da dívida sem critérios nem cálculos. Ficamos conversados.

  8. Nos últimos anos a Europa tem convivido com o flagelo crescente de milhões e milhões de desempregados, com a indigência de famílias inteiras, com o problema da dívida soberana, sobretudo nos países do Sul, que, para completar a seu ciclo de desgraças, presenciam a morte de milhares de pessoas às suas portas, que tentam atravessar o Mediterrâneo. Por quanto tempo mais esta situação se vai manter? Custa a acreditar, como já referiu a Clara Ferreira Alves, que esta União política, económica e monetária, se mantenha viva e à tona em face dos interesses instalados por parte de uma burocracia que disfruta de ordenados principescos e mordomias em Bruxelas, Estrasburgo ou Frankfurt. O dia da verdade está a chegar, talvez mais depressa do que esperávamos. Afinal, e socorrendo-me outra vez da Clara Ferreira Alves, “isto” (o sonho de uns Estados Unidos da Europa) durou tão pouco!

    1. Há muito que os hippies se converteram em yuppies. Aliás, quem nos anda a (des)governar o mundo são mesmo os hippies reciclados.

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