Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Abril de 2015, 10:41

Por

Alguém no governo sabe fazer as contas da TSU?

Anunciando a redução dos pagamentos patronais em TSU, o governo de Passos Coelho volta a uma das suas obsessões ideológicas. Não está sozinho nessa campanha. De facto, está simplesmente a repetir uma velha fórmula do FMI, que o anterior governo do PS aceitou incluir no primeiro memorando com a troika, mas que nunca foi aplicada porque a divisão da coligação e a oposição popular forçaram o governo a recuar, há dois anos.

A proposta, em si, é insignificante. É insignificante porque não altera em nada de substancial o custo de produção das empresas: como os salários nas empresas privadas são cerca de 25% dos custos totais, mesmo reduzir em 2% a TSU implicaria somente um abatimento dos custos para a empresa na ordem dos 0,5%.

E é inviável porque significa um aumento do défice orçamental, dado que a redução dos pagamentos à Segurança Social é défice (mais 400 milhões de défice por cada ponto percentual de redução da TSU). Claro que Marco António Costa, contabilista perito em respostas categóricas, nos diz que vão ser criados muitos empregos, que vão pagar esse défice com as suas novas contribuições.

tsuPois por isso mesmo, um investigador do Observatório sobre as Crises e Alternativas (do CES, Lisboa) fez as contas e determinou quantos empregos teriam que ser criados para garantir essa prestação (gráfico ao lado). Ao salário médio das contratações actuais, 600 euros, são necessários 141 mil novos empregos para compensar o abatimento de 1% e 291 mil para compensar 2%.

Estão a ver o outdoor da coligação PSD-CDS: “vamos criar 300 mil novos empregos para pagar o défice que criámos na segurança social”?

(Nota, 13h: diz-me agora pessoa ligada à preparação desta medida que o objectivo é chegar a 8% de redução do pagamento patronal em TSU. Se as contas de Marco António Costa se aplicassem, então seria preciso criar mais de um milhão de novos empregos… para pagar o rombo na segurança social e evitar o agravamento do défice. Nada bate certo, pois não? Isto não será mesmo para um aumento colossal de impostos?)

Comentários

  1. Se o Coelho quer reduzir a UST em 8%, o mais certo é aumentar a dos trabalhadores em 3 ou 4% e reduzir as reformas e os apoios sociais no restante.
    Empregos criados com essa medida serão mais ou menos zero.
    Mas isso não interessa nada, porque o Coelho precisa primeiro de ganhar as eleições e se isso acontecer ninguém se pode queixar depois.
    Ao contrário das primeiras, desta vez ele avisou…

  2. O que acho estranho é na mesma altura em que se pretende reduzir a TSU se diz que se devem reduzir 600 milhões de despesa na Segurança Social…

    Muito comentadores referem que o Syriza está a abdicar de todo o seu programa eleitoral. No entanto, aqui fica a duvida de se saber onde serão primeiro aumentados os impostos, em Portugal ou na Grécia…

  3. Lamentavelmente a oposição não se perfila de forma consequente, tem dificuldade em apresentar – se como alternativa (na melhor das hipóteses fica – se pela alternância), e mesmo quando a oportunidade lhe bate à porta, é arrastada no turbilhão dos média, e fica lá no fundo a discutir entre si. Perante a indefinição dos partidos de esquerda, o governo começou a trabalhar os soundbites, com uma avalanche de ministros a atirarem os habituais bitaites aos jornalistas, poucas semanas (já poucos se lembrarão) depois da ministra das finanças ter recusado qualquer responsabilidade no passador de informação sigilosa que é a AT. Os contos de crianças de Coelho são infinitamente mais eficazes do que os de Tsipras. Mesmo quando o discurso é marcado pela insistência (obsessão?) de Passos Coelho em testar a sua teoria geral do empobrecimento e falência do Estado-providência.

  4. Em aproveitamento da discussão em torno da TSU, penso que seria de fazer algumas alterações profundas acerca desta contribuição.
    Assim, tendo em vista assegurar a sua sustentabilidade e, simultâneamente, garantir uma maior justiça, penso que deveriam ser criados vários escalões de contribuição das empresas, tendo por base o volume de faturação / numero de empregos (excluindo precários); Ao rácio obtido corresponderia uma taxa TSU que seria atribuida em função do rácio; Penso que seria muito mais justo assim, porque atualmente uma EDP ou PT contribuem com a mesma taxa do que uma mini-micro empresa ou ENI;

  5. Francisco, estamos num leilão de ofertas, mas deixa que te de outra perspectiva, a partir da experiencia anterior, é tudo fogo de artificio, como o foi a proposta de Gaspar? Nada causa mais indignação que a injustiça, a proposta era reduzir a TSU dos empresários compensada com o pagamento pelos trabalhadores, agora a redução não é tão drástica é o seu impacto orçamental é compensada pelo suposto aumento do emprego. Todos fomos para a rua na última manifestação de indignação dos portugueses e levamos com a maior subida de impostos e com um maior corte de salarios da FP e de pensões ( não foi tanto pelo chumbo do TC), mesmo da outra vez mostrava-se que a redução de custos não era significativa e apenas era um alivio de tesoureria para as empresas. Porque volta-se de novo a esta medida?, acho que das muito peso à ideologia ( a campanha da rigidez das relações laborais continua com o obectivo de reduzir ainda mais o salário médio) , com esta promesa Passos Coelho blinda a sua relação com os empresarios, mel e melaço, volta a carga, e como a perpectiva é de bloco central, teremos o PSD como o partido da liberalização e das reformas do mercado laboral, com o que de facto reduzes a massa paga pela TSU, sem mudares a taxa. Eu me inclino por fogo de vista, abraço

    1. Pois mas eu sou empresário e esta medida não me ajuda nada, realmente o que me ajudaria era ver as minhas pessoas com mais crença no seu futuro e dos seus filhos. A competitividade não se conquista com tostões, isso foi na altura da revolução industrial, há mais de um século…

  6. É mesmo fanatismo. Fanatismo que é ainda evidente na cruzada que este governo da troika – Cavaco,Coelho e Portas – move aos portugueses em geral e aos reformados em particular.Veja-se a pretensão anunciada de cortar mais 600 milhões de euros nas reformas e assim agravar as condições de vida de milhões de portugueses reformados e das suas famílias.
    Este governo continua a dar mostras de desprezar os reformados considerando-os excedentes sociais. São as políticas que o governo prossegue que está a levar a Segurança Social Pública à falência e isto é um dos seus grandes objectivos.

  7. Tenho só uma dúvida. É por casmurrice, por falta de imaginação, ou é estupidez mesmo? É que abrir de novo discussão a volta de um tema que foi tão criticado, é cá um tiro no pé que me leva a concluir que o governo quer é mesmo perder as eleições para assim disfrutar das douradas cadeiras que o esperam no sector financeiro.

    1. Ou talvez porque tenham acordos ou compromissos com determinadas entidades. Daquelas que não protestam na rua mas sim por telemóvel…

    2. Em aproveitamento da discussão em torno da TSU, penso que seria de fazer algumas alterações profundas acerca desta contribuição.
      Assim, tendo em vista assegurar a sua sustentabilidade e, simultâneamente, garantir uma maior justiça, penso que deveriam ser criados vários escalões de contribuição das empresas, tendo por base o volume de faturação / numero de empregos (excluindo precários); Ao rácio obtido corresponderia uma taxa TSU que seria atribuida em função do rácio; Penso que seria muito mais justo assim, porque atualmente uma EDP ou PT contribuem com a mesma taxa do que uma mini-micro empresa ou ENI;

    3. Aqui, discordo de Francisco Louçã: estes indivíduos não têm ideologia, porque ideologia implica ideais e a única coisa que eles conhecem é a própria pança. Humilhar e negar a dignidade humana aos outros para, como diz o João, “disfrutar das douradas cadeiras” obriga a um processo de aviltamento moral e desumanização. E não consta que os bichos tenham ideologia.

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