Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

14 de Abril de 2015, 11:38

Por

Vale a pena estudar?

Quando, há uns meses, Merkel determinou que Portugal tem demasiados licenciados, houve algum clamor, entre o protesto e a surpresa. Mas não demasiado clamor, como sempre. E, mais recentemente, reinstalou-se alguma polémica sobre o assunto.

Embora alguns estudos identifiquem e até contabilizem os benefícios de um curso universitário em Portugal (que garantirá rendimentos que triplicam os custos), o aumento do desemprego, em particular do desemprego jovem (35%), atingindo muitos licenciados, facilitou que se instalasse alguma dúvida. É melhor estudar ou emigrar? O custo vale o benefício?

A resposta é muito clara. Se em Portugal os dados demonstram que a melhor estratégia é mesmo estudar, noutros países é igual. No mundo, a percentagem de jovens que estudam na universidade cresceu de 14% para 32% desde 1992 até 2012 e o número de países com mais de 50% de frequência universitária subiu, nos mesmos vinte anos, de 5 para 54. É um resultado notável.

E não vacars and studentsi ficar por aqui. Na China, o número de estudantes do superior subiu de 1 para 7 milhões entre 1998 e 2010, tendo sido contratados mais 900 mil professores. Agora, a China produz mais licenciados do que os EUA e a Índia somados. Noutros “países emergentes” é a mesma coisa. Por isso, o número de estudantes do ensino superior vai continuar a crescer mais depressa, no mundo, do que PIB e, ainda mais importante, continuará a crescer mesmo que o peso da população jovem diminua (veja o gráfico: o número de estudantes no ensino superior cresce mais depressa do que o número de automóveis e do que o PIB). Vai haver mais ensino universitário e ele vai ser sempre uma vantagem. Para o mundo, este cálculo do benefício obtido por se ter um curso universitário é de 15% de acréscimo de rendimento; no caso dos Estados Unidos é o mesmo valor, e no caso de países em desenvolvimento chega aos 20% (veja-se o gráfico, clique para ampliar). Mesmo nos EUA e em Inglaterra, onde 14% da força de trabalho tem uma pós-graduação, o prémio de estudo continua a auearnings educationmentar, apesar da oferta de trabalhadores qualificados. É assim e vai continuar a ser assim.

Por isso, a desqualificação dos contratos de trabalho, que também atinge licenciados e cada vez mais, ainda tem como alvo principal os jovens menos qualificados, que serão grande parte dos quinhentoseuristas. Tornar o ensino mais ligeiro, mais breve e mais caro, a estratégia de Bolonha, é por isso um erro social grave: abre um mercado para a educação privada, desqualifica a educação pública, obriga os estudantes a um cofinanciamento cada vez maior, mas prejudica a sua capacidade de encontrar emprego e reduz os seus salários. Nos Estados Unidos, esse processo tem outra dimensão, porque o ensino superior é essencialmente privado e os estudantes acumulam uma dívida gigantesca (1,2 triliões de dólares, mais do que a dos cartões de crédito ou de compra a prestações de automóveis). O ensino é um mercado e o resultado é dívida.

Finalmente, é errado pensar que a diferenciação dos custos do ensino vai melhorar o rendimento para os estudantes que concluem os cursos. No exemplo das universidades norte-americanas, que é contabilizado no gráfico ao lado, verifica-se que o rendimento dos vinte anos seguintes a concluir um curso é relativamente indiferente à seleestudos univcção dos estudantes: mesmo que a taxa de admissão seja muito baixa ou muito alta, os rendimentos obtidos são sensivelmente os mesmos (são maiores para quem se forma em engenharias e ciências de computação do que em humanidades, mas também essa diferença não é afectada pela selectividade das escolas).

Por outra palavras, está-se a caminhar no sentido inútil: cursos mais desqualificados e ensino mais caro. Se queremos emprego para os jovens, temos que evoluir no sentido contrário: cursos melhores e mais acessíveis para mais gente.

Comentários

  1. Estudar, obter um curso superior, independentemente da área de estudo garante sempre uma mais valia à pessoa. As empresas procuram cada vez mais licenciados e pagam o mínimo, mas o que ninguém fala é das empresas que encorajam os trabalhadores a seguir no ensino superior e depois dispensam-nos pois são um mau exemplos para os seus pares, estes também querem ter os dias de exame (vistos como folgas pagas) e quem sabe a audacidade ir ás aulas, tempo previsto por lei, não compreendido pela entidade patronal.
    Quando se ouve ‘… Você é um mau exemplo para a empresa e os seus colegas, imagine se eles também queriam também ir para a faculdade, a empresa tinha de fechar pois ficava sem ninguém… ainda temos de pagar esse tempo em que falta… Existem leis e vocês esconde-se atrás delas…
    Depois das pressões exercidas, como mudança de local de trabalho para um sitio exiguo e com a solidão de pessoas a imperar vem o desemprego.
    Ficando agora a pensar na situação de pagamento de despesas que anteriormente eram mais comportaveis..
    Foi uma boa decisão continuar a estudar, ou como tenho constatado através dos empregadores com quem tenho falado, ando a remar contra um pensamento instaurado, estudar é sempre bom, mas dentro do tal periodo certo (20 e poucos anos) pois quando se tem 39 anos dá a entender que queremos é tempo livre pago!!
    Depreendo que nem todos terão este pensamento, mas ainda busco por esta utopia.

  2. Interessante esta reflexão, mas muito mais seria pertinente para lembrar que o rei vai nu – além de que os brandos costumes do discurso politicamente correcto também podem servir para deixar tudo como está.

    Recorde-se:

    1- A absoluta irrelevância académica e social de muitos cursos e de certas faculdades, que parecem existir só para garantir empregos e posições sociais dos respectivos académicos e onde reina a idiossincrática característica lusitana da endogamia (e o Estado Novo depois do Estado Novo…)

    2 – A proliferação de mestrados e doutoramentos de escasso ou nenhum valor em termos de produção de conhecimento (sobretudo nas ditas humanidades e “ciências” sociais), com débil (ou simulado) acompanhamento de orientadores sempre impunemente absorvidos com as suas agendas pessoais e ágeis a lavarem as mãos dos desastres das teses – que acabam, de resto, por ser invariavelmente aprovadas, para grande alívio de todos, numa bela peça de teatro…

    3 – A carreira como agenda principal, senão única, de muitos académicos.

    4 – A prática generalizada e muito incensada da produção em série de artigos, cópias de cópias de cópias e variações exaustivas e inúteis da mesmíssima partitura – contendo oficiais lengalengas e mantras, além das obrigatórias citações servis da palavra dos gurus que detêm poder nas instituições -, com o objectivo utilitarista de cimentar os currículos necessários às conquistas mais burocráticas e comezinhas da existência.

    5 – O desinteresse endémico de muitíssimos estudantes, sistematicamente centrados na obtenção do diploma e não no estudo e na trabalhosa aquisição de competências e de saber, sejam lá quais forem.

    6 – A cada vez mais generalizada utilização de cópias da internet e de plágios tacitamente ignorados por professores – reprovar 80% de uma turma não é academicamente correcto, mesmo se se está perante uma maioria expressiva de gente desonesta que, de resto, põe em prática o que percebe ser tolerado pelas instituições e pelo sistema. A espantosa indiferença estratégica dos académicos por tudo isso só pode ser explicada pelo proveito próprio alcançado.

    Perante o impressionante embuste que constitui a educação superior em certas faculdades que comercializam cursos na área das ditas “ciências” sociais, podemos perguntar para que servirão os números que enchem as estatísticas, se a qualidade dos cada vez mais abundantes licenciados, mestres e doutores é altamente duvidosa e fortemente merecedora das maiores suspeitas? E vale a pena estudar para fazer o quê?

  3. A regra parece ser tornar as pessoas escravas da dívida desde cedo… E um escravo da dívida é alguém com medo, um trabalhador obediente com (ainda mais) medo de perda do emprego, não reivindicativo, demasiado ocupado com o trabalho para se preocupar com a Cultura ou com o exercício da Cidadania… Um Não-Cidadão, em resumo…

  4. As dívidas associadas aos custos dos cursos nos EUA onde depois os estudantes são substituídos por indianos são a próxima bolha prestes a estourar. Mais do mesmo vindo do capitalismo.

  5. “Por outra palavras, está-se a caminhar no sentido inútil: cursos mais desqualificados e ensino mais caro. Se queremos emprego para os jovens, temos que evoluir no sentido contrário: cursos melhores e mais acessíveis para mais gente.”

    E como é que se faz isso? O Francisco Louçã afirma que a estratégia de Bolonha consiste em tornar o ensino superior “mais ligeiro, mais breve e mais caro”. Pode ser verdade, mas não me parece que seja a duração de um curso, só por si, que lhe confere qualidade. E em Portugal dormiu-se muito durante décadas e depois, à boa maneira portuguesa, fez-se muito barulho durante a fase de implantação das licenciaturas mais curtas, mas não se propôs nada além das tradicionais licenciaturas de quatro ou cinco anos à base de “marranço”, ou seja, com muita teoria e pouca prática. Ou melhor, o que as s universidades, públicas e privadas, fizeram foi desatar a criar e promover, em larga escala, as pós-graduações, os mestrados e os doutoramentos.
    É tudo negócio, à maneira deste monstro triunfante a que alguns chamam capitalismo, mercados, liberalismo, ou sei lá que mais, que consiste em dar tudo o que pode dar dinheiro aos privados, sem qualquer risco para estes – e, se necessário, com as despesas a serem suportadas pelos contribuintes -, desde os monopólios energéticos altamente protegidos até à Saúde, passando, obviamente, pela Educação.
    Quanto à China, é impressionante constatar que são às centenas de milhares os estudantes chineses espalhados por universidades de todo o mundo, incluindo Portugal. Nos EUA, já constituem cerca de um terço do total de alunos.
    Depois de ter atraído as empresas americanas e europeias por causa da mão-de-obra barata, a China vai “conquistar” o mundo dentro de poucos anos e não vai ser pelas armas, mas sim pelo conhecimento.

  6. Temos que agradecer ao Prof. Louçã a desmistificação destas ideias veiculadas pelo poder económico e que visam apenas explorar mão-de-obra barata. Estamos perante a ideologia dos donos dos supermercados. Mas falta referir ainda um ponto na minha opinião. A meu ver a frequência do ensino superior eleva a qualidade da cidadania. Um cidadão mais qualificado é mais informado, mais exigente, mais tolerante, mais participante. A licenciatura nunca se perde, fica para sempre. Mas isso não justifica que haja licenciaturas de má qualidade.

    1. “Mas falta referir ainda um ponto na minha opinião. A meu ver a frequência do ensino superior eleva a qualidade da cidadania. Um cidadão mais qualificado é mais informado, mais exigente, mais tolerante, mais participante.”

      Sem dúvida, José P. O direito à educação é também o do direito à cidadania e à liberdade.

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