Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

14 de Abril de 2015, 14:10

Por

A “venda” do Novo Banco

As palavras são importantes e devem ser precisas mas também honestas. Contudo demasiadas vezes são utilizadas para propaganda, para “vender” a versão da História de quem detém o poder no momento, para assim escrever História.

A procura da expressão “venda do novo banco” no Google resulta em 18,7 milhões de “hits”.

A “venda” do Novo Banco está a ser gerida por funcionários públicos, ou por entidades do sector privado a trabalhar para entidades públicas, enquadradas por contratos com entidades públicas e pagas, directa ou indirectamente, pelo erário público. Se de “venda” se tratasse, deveria ser gerida por actores do sector privado, de acordo com o elementar bom senso.

Como as decisões fundamentais em relação a essa venda são tomadas por funcionários públicos[1] que foram nomeados e respondem perante a Ministra das Finanças e perante o Conselho de Administração do Banco de Portugal, pressupõe-se que se trata de uma venda de um activo do sector público.

Então porque se utiliza a palavra “venda” e não “privatização”?

De facto, se procurarmos a expressão “privatização do novo banco” no Google só obtemos 587 mil “hits”.

Por conseguinte, a versão da História que está a ser escrita e que ficará para a posteridade, determinada pelo “Poder” em Portugal (neste caso o Governo e o Banco de Portugal) é, que de uma “venda” se trata. Porque é necessário manter a consistência da História anteriormente escrita. Porque o capítulo anterior da História estabelecia que o Novo Banco não foi nacionalizado ou seja que o Novo Banco é privado.

Mera propaganda!

Os senhores e as senhoras do Poder “presente” podem ganhar a batalha da propaganda. Podem até ganhar a batalha do registo para a posteridade. Mas a verdade não é essa!

 

 

 

 

 

[1] Considera-se aqui que os funcionários do Banco de Portugal são funcionários públicos, porque são funcionários de uma entidade pública, não obstante a Lei Orgânica do Banco de Portugal que confere a essa instituição um grau reforçado de independência.

Comentários

  1. A solução do fundo de resolução foi, segundo creio, copiada do que se passou na Islândia. O sector bancário, mas também os investidores no BES (incluindo os pequenos investidores que acreditaram na palavra do Estado e saíram defraudados) irão ser chamados a assumir as perdas. Já disse aqui que a nacionalização ou a recapitalização teriam sido muito impopulares politicamente (e poderiam ter obrigado a um segundo resgate se feitas a tempo e horas), porque o contribuinte teria sido chamado a arcar com os custos às claras (ainda não sabemos os custos para o Estado por via de prejuízos na CGD, porque isso dependerá do preço final a ser pago pelo Novo Banco), mas teria tido a vantagem de assumir as culpas do Estado e a responsabilidade dos intervenientes no processo, Governo, Banco de Portugal e do próprio Presidente da República. Mas não se espere destes intervenientes em particular que assumam as suas responsabilidades…

  2. A mim o que me chateia é que esta gente tece loas ao sector privado, ao capitalismo, aos investidores, aos empreendedores, às empresas e aos mercados, mas o GES/BES/Novo Banco/Banco mau, tal como anteriormente o BPN, a TAP, a ANA, a EDP, a REN, a Galp e a PT e, agora, até a Saúde e a Educação são todos vendidos a pataco, ou concessionados sob a forma de PPP ou outra do género, com as receitas e os lucros a serem sistematicamente garantidos para os privados e os riscos e as despesas a recaírem sempre nos contribuintes.
    Isto é que é iniciativa privada?
    Isto é que são mercados?
    Isto é que é capitalismo?
    Como é que uma pessoa há-de acreditar na honestidade destes políticos, se eles só sabem fazer uma coisa: transferir riqueza do sector público para o privado, sendo recompensados por esses “empresários/investidores” com altos tachos nessas empresas?
    Entretanto, o povo continua a empobrecer e “aguenta, aguenta”, porque segundo o discurso oficial andou a viver “acima das suas possibilidades”…
    E também me chateia pensar que esta gente, quando se junta para conviver e gozar as delícias do dinheiro que nos rouba, ainda se ri de nós.

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