Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Março de 2015, 11:34

Por

Estamos amarrados a uma galé, como a Grécia

imagesNFinancial Times de há dois dias, Dragasakis (vice primeiro-ministro), Varoufakis (ministro das finanças) e Tsakalotos (adjunto do ministro das finanças) alertavam para que o tempo se está a esgotar. Alexis Tsipras tentou um compromisso de última hora para conseguir o financiamento prometido desde há um mês, mas não cumprido, e reuniu-se ontem de noite com as autoridades europeias: as instituições e Merkel, ladeada do inefável Hollande. O encontro deu em nada.

Ou em menos do que nada. Os líderes europeus reafirmaram que a Grécia deve entrar em falência ou apresentar novas medidas de austeridade que, se forem aprovadas, e logo se verá se são, permitirão aceder a algum alívio financeiro. Como tudo se joga em poucos dias, porque a Grécia está já a ficar sem reservas, esta pressão é uma roleta russa. E será sempre a roleta russa, porque cada semana se vai repetir a mesma aflição, mesmo que se passe esta emergência. A Grécia não tem forma de chegar a Junho tomando decisões independentes, se estiver submetida a esta chantagem: nem lhe pagam a tranche prometida, nem lhe devolvem o seu dinheiro retido pelo BCE, nem lhe permitem emitir dívida de curto prazo. Só lhe permitem receber instruções de Merkel e de Dijsselbloem.

O que prefere Merkel? Para já, parece óbvio que prefere ganhar em todos os tabuleiros, tentando obrigar Tsipras a ceder e a promover as medidas de austeridade que foi eleito para abolir. A irritação da Comissão e do Eurogrupo a propósito da primeira lei votada esta semana no parlamento grego, determinando medidas de alívio social para os mais desprotegidos, ou a raiva com que foi recebida a suspensão das privatizações, é reveladora do que isto quer dizer. Melhor do que vencer é subjugar, essa é uma velha lei do poder imperial. Merkel quer ter o gosto de obrigar a Grécia a vergar-se e a levar o governo que a confrontou a ser ele próprio a propor a austeridade nefasta.

O que pode Tsipras? Para já, muito pouco. O governo grego acreditou que tinha uma força negocial única ao criar uma situação inédita na Europa e ao fazer frente à Alemanha. Ora, encontrou pela frente um muro. Nem conseguiu aliados entre outros governos, nem conseguiu flexibilidade dos adversários que perceberam que não havia Plano B para executar a curto prazo. Por isso, teve que improvisar e isso mostra fragilidade. Mesmo com índices de apoio popular crescentes no seu próprio país, é facto que no imediato tem poucas alternativas por onde escolher.

Na verdade, só tem mesmo uma alternativa e ainda tem que se preparar para ela: sair do euro, emitir moeda, controlar os movimentos de capitais, reconstituir a sua economia, proteger os mais pobres e criar emprego aproveitando a vantagem da desvalorização da moeda, reestruturar assim a dívida junto das instituições europeias. Só desse modo poderá negociar e qualquer negociação é melhor do que a guerra de terra queimada a que a Grécia vai ser submetida durante estes meses.

Veremos dentro de dias que escolhas faz ou pode fazer e que medidas toma para impedir a ameaça da austeridade e do caminho de destruição. Foi um sinal significativo ter exigido o pagamento da dívida nazi (que não obterá) e ter iniciado uma auditoria à dívida (que conseguirá realizar), mas também necessitará de medidas mais urgentes e realizáveis.

Para todos os que vivem na Europa, impõe-se em todo o caso uma conclusão: isto é uma galé e estamos acorrentados aos remos. Enquanto o permitirmos, nada muda neste navio fantasma e continuaremos a ser o que somos, prisioneiros de uma ameaça. A União Europeia não aceita a reestruturação das dívidas nem conhece nem reconhece outra coisa que não seja austeridade e a engenharia social do desemprego e do empobrecimento para os países periféricos. Isto é com Portugal, não tenham dúvidas, caros leitores.

Comentários

  1. «Na verdade, só tem mesmo uma alternativa e ainda tem que se preparar para ela: sair do euro, emitir moeda, controlar os movimentos de capitais, reconstituir a sua economia, proteger os mais pobres e criar emprego aproveitando a vantagem da desvalorização da moeda, reestruturar assim a dívida junto das instituições europeias.»

    Permita que lhe lance um desafio: convença os portugueses, desencantados com o nó górdio com que a direita europeia (incluindo os socialistas) nos está a sufocar, que a solução é a saída do euro.
    Explique isso num artigo, porque um livro é grande demais e a esmagadora maioria das pessoas nunca o vai ler.
    Elucide-nos das consequências dessa saída, das imediatas às de longo prazo, das estritamente financeiras às de relacionamento com os outros países europeus.
    É que, vendo o que o Syriza disse sobre o assunto durante anos e aquilo que agora está a fazer, a conclusão inevitável é que a saída do euro não é realista. Pelo que se vê, a Grécia só sairá do euro empurrada e não de motu proprio.
    O que me leva a concluir que se o Bloco de Esquerda ganhasse as eleições em Portugal o resultado seria igual.
    Acha sinceramente realista sairmos do euro?

  2. Pergunto entao se valeu a pena Portugal ter entrado na zona do euro. Um País que estava iniciando a sua democracia, após a Revolução de 25 de Abril de 1974. O empoderamento das mulheres nos espaços de poder, juntamente com outras vozes, outros gritos a reivindicarem mais atitudes por parte dos governantes. Mais políticas públicas, oportunidades sociais, económicos e educacionais a tão falada discirminação racial que ficou demasiado transparente e sem medo de censuras, com a Revolução dos Cravos. Acredito que hoje, Portugal, estaria numa posição mais favorável. Enquanto o povo não perceber que “o poder” está a seu favor, nada mudará! A vida é uma metamorfose…um dia a gente chega lá!

  3. Num artigo intitulado Culpa e Dívidas (Schuld und Schulden), o semanário Stern de 19.10.2015, apresenta as quatro exigências gregas.

    A Alemanha inteira debate a dívida da Grécia enquanto por todo o lado na Grécia se debate a dívida da Alemanha. Os alemães não equacionam o perdão da dívida grega. Já 90% dos gregos querem que os antigos ocupantes paguem o que devem.

    Dentro de poucas semanas a Europa celebrará o armistício pela septuagésima vez. A Alemanha já se reconciliou com a França, com a Polónia, com Israel e até com as ex-repúblicas soviéticas. Já com a Grécia, a Alemanha ainda não se reconciliou verdadeiramente.

    No inverno 1941/42 morreram à fome 100.000 gregos durante a ocupação Nazi. Mais de 50.000 judeus gregos foram deportados para os campos de concentração nazis. As SS massacraram idosos, mulheres e crianças em 90 aldeias-mártir.

    As quatro exigências gregas:
    1. indemnização das vítimas da ocupação nazi.
    2. indemnização por infra-estruturas destruídas
    3. pagamento de obras de arte da antiguidade roubadas pelos ocupantes nazis no valor de 1,5 bilhões de euros (1,5 milhões de milhões).
    4. pagamento de um empréstimo, sem juros, feito em 1942 pela junta militar grega à Alemanha de 568 milhões de marcos. Ainda faltam pagar 476 milhões de marcos. Valor actual: entre sete e onze mil milhões de euros.
    Estas quatro exigências perfazem um total de 2 bilhões de euros, pouco mais de metade do PIB alemão previsto para 2015.

    1. Obrigado pela referência (o artigo não deve ser de outubro de 2015). E as exigências gregas não somam o valor que esse artigo indica. São elevadas, porque a mais impotante respeita ao valo actual dos valores que foram saqueado do banco da Grécia (cerca de 60 mil milhões, muito longo dos 2 milhões de milhões que refere). Têm razão, substancial e formalmente. Mas se a Stern fez essas contas, percebo bem porquê.

    2. A data correcta de publicação do artigo é 19.03.2015 (passada quinta-feira). Por lapso escrevi 19.10.2015.

      O valor da dívida alemã à Grécia situa-se, segundo algumas fontes gregas, nos dois bilhões de euros, pouco mais de metade do PIB alemão previsto para 2015. Na Europa continental o bilhão é um milhão de milhões (12 potências de 10 ou 12 zeros). Nos EEUU e no Reino Unido, por não existir o “milliard” em inglês, o bilhão é mil vezes inferior (9 potências de 10, 9 zeros), ou seja mil milhões. Na maior parte das línguas europeias um “milliard” equivale a mil milhões. Em português, por qualquer motivo que me escapa, também não existe o “milliard”. Poderíamos facilmente introduzir o “milhardo” ou “milhiardo”.

      As autoridades alemãs admitem apenas o tal empréstimo contraido à força em 1942 que hoje equivale a entre 7 e 11 mil milhões de euros no câmbio actual. Já o governo, ou parte do governo de Tsipras, acha qua a Alemanha deve qualquer coisa como 300 a 400 mil milhões de euros o que equivale ao dobro da dívida soberana da Grécia.

  4. Estamos acorrentados aos remos da galé e quem ajudou a a apertar os grilhões foram o meu amigo Louçã e o improvavel camarada Jerónimo. Ambos contribuíram para a crise política que em 2011 levou ao poder a corja de bandidos salazaristas que hoje governam o país, juntando-se desta forma ao bufo da PIDE que enriqueceu com o BPN/SLN e cuja reforma mal dá para pagar as despesas.

    1. É sempre um gosto ter aqui o comentário, neste caso próximo do insulto, de quem acha que a esquerda devia ter aprovado em 2011 o plano de privatizações e de aumento de impostos e corte nas pensões que o governo de então gizou.

    2. Este pequeno comentário pode ser analisado em duas partes. A primeira consiste na minha opinião sobre a participação do BE e do PCP no derrube do governo de Sócrates, o que dificilmente pode ser considerada um insulto. Pode não estar de acordo, mas considero a minha opinião válida, ou pelo menos tão válida como a sua.
      Na segunda parte do comentário refiro-me aos governantes duma forma menos respeitosa o que poderá ser considerado um insulto. E a forma como o governo protegido pelo PR tem tratado o povo português não é também um insulto? É bem pior que um insulto. Enviar centenas de milhares de portugueses para o desemprego, para a pobreza e para a emigração forçada, e retirar os apoios sociais aos mais vulneráveis, deveria ser considerado um crime contra a humanidade. Sabotar o funcionamento da saúde, da justiça e da educação constitui uma traição à pátria. Perseguir e aterrorizar os contribuintes comuns e, simultaneamente, oferecer isenção fiscal às grandes empresas demonstra uma falta de equidade inconstitucional. A leveza ou insensibilidade dos governantes perante a tragédia humana que se vive em Portugal revela distúrbios graves de personalidade. E o que dizer da oferta de dezenas de milhares de milhões de euros aos grupos financeiros? Continuo sem perceber como foi possível o bufo da PIDE estar no poder há mais de três décadas. Os governantes actuais não merecem qualquer respeito. Insultaram violentamente a dignidade dos cargos que ocupam. Não considero os governantes actuais como políticos. São antes um grupo de banditismo salazarista.

    3. Não discuto “validade” de opiniões. Todas são válidas. Mas têm de ter argumentos. Se o argumento for que a esquerda deve aprovar a privatização da TAP, da EDP, da REN, da ANA, o corte de pensões e de salários – tudo isso estava no PEC4 – então não concordo. Se a esquerda é isso, é a direita. Percebo que os membros do PS estejam indignados pelo facto de o seu partido ter ido ao PR pedir eleições e de as ter perdido. Mais valia que se concentrassem em alternativas à austeridade.

  5. A intervenção teórica do prof. Louçã no Público- que é altamente encorajadora num contexto deprimido e deprimente como é hoje a vida politica portuguesa- só terá a ganhar se não se esquecer de um artigo públicado na edição de 19 do corrente do Le Monde por um dos activistas da mouvance radical ” A Revolução que surge “, dito groupe de Tarnac, e assinado por Matthieu Burnel. Trata-se de um libelo contra o neo-pragmatismo posto em movimento por Alexis Tsipras:” Syrisa resulta da conjunção de uma estratégia – asfixiar o movimento que se chamou os ” Indignados ” e promover-se a partir disso- e de um desespero-a via da opção insurreccional, das ocupações e das greves gerais, experimentada na Grécia durante anos, nada disso tendo resultado, passou-se de novo ao ritual do voto, ao voto num partido que não tinha ainda oportunidade de trair, sendo novo.Esse desespero é em-si fruto de um isolamento, de um isolamento no quadro nacional “. Uma perspectiva, pois, a juntar à radiografia implacável ,” estamos amarrados a uma galera como a Grécia “.

  6. Há duas coisas que, parece-me, o governo grego está a conseguir: uma, a de explorar, a seu favor, as contradições dentro da UE, porque, se a Alemanha continua a exigir que a Grécia se submeta às suas ordens, a Comissão Europeia vê que isso pode levar à desagregação da zona euro e, mesmo, da UE. Daí a libertação, hoje, de 2 mil milhões (para a economia e não para a banca), à Grécia, por parte da Comissão, o que não deve ter agradado nada à Alemanha.
    A outra é o facto de o governo grego estar a ganhar a confiança do seu povo e, penso, assim, conseguir convencê-lo de que a solução é a saída do euro. Porque, como o Louçã já disse em relação a Portugal, o governo de Tsipras também o sabe – não há alternativa (aqui, com toda a propriedade), se quisermos reaver a nossa soberania.
    Lanço, aqui, uma sugestão, que não está ao meu alcance promover de outra forma: Considerando que o êxito do novo governo grego diz respeito a todos nós e que esse êxito passa por ter condições financeiras para cumprir o seu programa anti-austeridade, seria útil que cada um contribuísse, pelo menos, com um euro simbólico. Estou certo de que esta iniciativa se espalharia, não só na Europa, mas por todo o mundo e, juntar-se-ia o útil ao agradável – seria uma ajuda material à Grécia e mostraria que está acompanhada, nesta luta de resistência contra quem nos quer reduzir à escravidão.

    1. Ninguém quer que ninguém se submeta a nada, são 18 países e todos eles têm que aprovar, os empréstimos só por uma razão é o dinheiro de cada um que está no fundo,
      A Grécia tem o maior orçamento das forças armadas, todos os anos tem 800 mil milhões na Suíça de dirigentes políticos, as autoridades suíças já pediram a Atenas instruções mas nada, os deputados têm os maiores ordenados de 17.000 euros entretanto o povo morre de fome.
      Conclusão: Os dirigentes são corruptos, andam a empatar e vão pedindo mais, entretanto já foram ao fundo de pensões dos Gregos, aos fundos das empresas públicas..

    2. Boa ideia! Concordo com a sua proposta, M. J. Santos.
      Junte uns amigos, lance uma subscrição pública na Net, a favor da Grécia, e por certo vai ter sucesso! Bastará criar um blogue e dar o nome de uma Conta Bancária para esse fim da petição a favor Grécia. 1€00 é simbólico (a vários níveis) e por certo muito eficiente. Porque, nesse caso, o “simbólico” representaria uma reacção Europeia concreta e real, política e de cidadania (dos cidadãos da pólis), à essência da injustiça grega (seria um pouco tomar as coisas pela raiz). A sua ideia é uma espécie de “Podemos”, não só político e muito menos partidário, mas sobretudo uma acção simbólica e solidária. Mas concreta. Talvez essa Conta Bancária possa ser aberta com a colaboração da Embaixada da Grécia em Lisboa. Seria uma forma de solidariedade política e financeira para com Atenas e para com o povo grego. Pode contar com o meu apoio – eu, pela minha parte, desenvolvo a iniciativa em França e na Suécia, onde vivo. Mãos à obra! Abraço, Artur Matos.
      Artur Matos

    3. Caro Artur Matos,
      A sua resposta à minha sugestão, faz-me crer que, se esta ideia for lançada no facebook, terá alguma repercussão. Como o Artur diz, seria importante contactar a Embaixada da Grécia, em Portugal ou noutro país qualquer, para ver da viabilidade de se depositar o dinheiro directamente numa conta do Estado grego. Pessoalmente, não tenho possibilidades de o fazer, visto viver longe de Lisboa e não me poder deslocar com facilidade. Não estou inscrito no facebook, mas considerava interessante que gente mais jovem que eu e com uma rede de amigos tomasse esta iniciativa. Foi, assim, que o Podemos nasceu… mais ou menos…, com a auto-mobilização dos jovens, a que se juntaram, depois, menos jovens. Felicidades, Artur.
      (Peço desculpa a Francisco Louçã por estar a aproveitar este espaço para outros assuntos que não os directamente relacionados com o que escreveu. Espero que não fique muito zangado. Prometo não repetir.)

  7. Francisco: posso estar a ser ingénuo, mas há uma dúvida que me “assalta”: e se o Banco Central da Grécia, numa emergência, emitisse…euros? No tempo em que a moeda estava materializada, talvez fosse fácil distinguir os verdadeiros dos falsos…E agora? Tenho algures uma edição antiga do “Samuelson” onde, no início do capítulo referente à moeda, os autores referiam que o controlo da quantidade da moeda em circulação era um dos problemas colocados pela sua desmaterialização progressiva. É claro que a “solução” não deveria durar muito. E a turbulência que causaria?

    1. Seria ilegal e por isso de consequências imprevisíveis. Na verdade, o o Banco grego emite moeda, mas sob a tutela do BCE (como em Portugal).

    2. Em princípio é ilegal de facto, mas é bom lembrar que a Irlanda na prática imprimiu uns 30 mil milhoes de euros para pagar a dívida do banco AIB, mas camuflaram a manobra suficientemente bem com tecnicismos para que (a posteriori) o BCE pudesse fechar os olhos e, talvez mais importante, para que os políticos dos ‘países credores’ a pudessem esconder do seu publico. Claro que a Grécia nunca beneficiará de tal benevolência…

  8. Felizmente, pelas noticias que leio (Reuters) sobre os resultados da mini-cimeira de ontem à margem do Conselho Europeu, a situaçao parece ser bem mais encorajante do que a que nos apresenta. Aparentemente Tsipras saiu da reuniao “mais optimista”, a Comissao europeia vai de imediato desbloquear 2 mil milhoes de euros para medidas de apoio social/humanitario, e a Grecia está empenhada em rapidamente apresentar o plano detalhado de reformas economicas que permitirá libertar os fundos restantes do plano de assistencia em curso. Na sequencia da reuniao, a bolsa de Atenas subiu e a taxa de rendimento das obrigaçoes do tesouro gregas baixou ! Num blogue publicado hoje Y. Varoufakis terá escrito (cito a Reuters): “First, we should work towards ending the toxic blame game and the moralizing finger-pointing which benefit only the enemies of Europe”. Haja esperança !

    1. Infelizmente, não consigo partilhar o seu optimismo. Já vimos estas promessas desde o acordo de 20 de fevereiro, não foi?

    2. Tsipras está ‘mais optimista’, e Varoufakis deixa uma mensagem de grande sensatez. Nao ha razao para desesperar.

  9. É certo que o governo grego sózinho pode muito pouco, mas vai podendo alguma coisa. As vitórias são pequenas, mas são vitórias.Tudo indica que, afinal, irá receber 1,8 mil milhões do programa de crédito e 1,9 mil milhões dos juros do BCE. A contrapartida é a entrega de uma lista de medidas sem data definida e completa autonomia na sua escolha. Para além disso, irá receber 2 mil milhões durante 2015 da UE para programas sociais, nomeadamente o combate ao desemprego jovem. Um estudo recente da Fundação Hans Boeckler diz-nos que em consequência da política de austeridade as famílias mais pobres perderam 86% dos seus rendimentos e as mais ricas 17% a 20%. O guião escrito em Berlim contra o governo do Syriza tem um enredo simples: difamação. O ponto alto foi o programa do passado domingo na TV pública alema emitindo uma falsificação do video de Varoufakis mostrando «o dedo do meio». Cá por estas bandas o Observador conseguiu fazer uma notícia deixando no ar a ideia de que afinal não era falsificação nenhuma. Os «teólogos do mercado» não olham a meios para atingir os fins, é certo, mas a sua «única alternativa» apresentada neste seu texto só pode ser considerada se na sociedade grega se construir uma maioria que a deseje. Ora, ainda estamos longe disso e tudo o que alivie a vida das pessoas é de saudar. Estaremos amarrados às galés, mas as correntes estão mais laças e não podemos ficar à espera do «tiro do Aurora».

    1. O problema é que duvido que as amarras estejam mais laças. Em 2011 não tínhamos o Tratado Orçamental, agora temos. Não tínhamos deflação, agora temos. E não tínhamos o mesmo poder da Alemanha, porque a França ainda existia.

  10. É triste constatar o estado a que chegou o nosso debate político para que, se quisermos ouvir alguma coisa que não sejam chavões, temos que ir escutar o que dizem as margens. Pessoas de Esquerda como o Professores Francisco Louçã, João Ferreira do Amaral e Ricardo Paes Mamede, ou pessoas desalinhadas da Direita como Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite ou o próprio Pacheco Pereira (se ele é de Direita). Num recente ‘Expresso da Meia-Noite’, o próprio Ricardo Paes Mamede lembrava que aquilo que era inicialmente exigido à Grécia, um superavit primário de 4,5% durante anos a fio, só foi conseguido em anos esporádicos por Economias altamente desenvolvidas e em situações de franco crescimento económico. A Grécia aparentemente conseguiu que lhe reduzissem esse objectivo para ‘só’ +3%. Portugal continua preso a um objectivo semelhante, 4,2% em 2017 ou 2018, creio. Porque será que a Europa mete tão conscientemente a cabeça na areia e persiste em impor aos Países sob austeridade objectivos que não serão alcançados a não ser destruindo completamente o incipiente Estado Social que existe nos Países sob intervenção? Ou a Alemanha e os outros Países que dominam a arquitectura da Moeda única não querem de todo saber do Futuro da Democracia nos Países do Sul e querem apenas salvar os seus bancos e ver as suas dívidas pagas, ou então acreditam piamente em algo que vai contra toda a evidência empírica. Termino com uma pergunta: se a Grécia abandonar o Euro, a dívida da Grécia que ainda está em mãos de privados (não a dívida às ‘Instituições’) é convertida em Dracmas, certo? Se assim for e o Dracma perder uma boa parte do seu valor no dia em que é introduzido, devido por exemplo a ataques especulativos, não estaremos em presença de uma reestruturação automática da dívida grega? Qual será a exposição directa e indirecta (através da exposição de bancos estrangeiros, nomeadamente Espanhóis, que são devedores dos bancos alemães, à dívida grega) dos bancos alemães a essa reestruturação? Não estará a Alemanha a criar uma tempestade perfeita contra o seu sector bancário, um dos menos transparentes da EU, pelos vistos?

    1. É verdade o que escreve sobre o efeito da redenominação da dívida em moeda grega, mas em princípio (salvo acordo) isso só afecta a dívida que está sujeita à lei grega. Quanto à que está sujeita à lei internacional, como a dívida às instituições europeias, terá que haver uma negociação.

  11. inefável é mesmo o caso : “socialismo” , quo vadis
    enfim,
    hollande é um rosa. a pollítica dá mulheres. é como um íman. viva a frança.

  12. admitindo q tá tudo certo do que vem aqui “vertido” , s
    o tenho a pedir que nao mais assintas na s cenas daquela menina .. lá tem q uma pessoa q s sujeitar àquela abrupta .. é q nem são vontades. são in-vontades …
    desfaz-te dela. deixa a União.

  13. mas a actual ministra das finanças de Portugal deixou-me bastante “descansado”:perante uma assembleia de jovens “carreiristas e empreendedores” ,confessou que os “cofres estão cheiros” e que “estamos preparados para os mercados”,e disse tambem para os jovens empreendedores se “multiplicarem”,donde se conclui que Portugal esta “bem”, os portugueses que não fazem parte da lista VIP(cerca de 99% de população) é que nem por isso…P.S.-força povo grego ,encham os cofres do estado e dividam uma sardinha por cinco,façam como Portugal…e não sejam piegas

  14. Caro Francisco Louçã,

    V. tem toda a razão: “isto [a Europa] é uma galé e estamos acorrentados aos remos. Enquanto o permitirmos, nada muda neste navio fantasma e continuaremos a ser o que somos, prisioneiros de uma ameaça.”

    Mas, a responsabilidade não é apenas de Merkel (que a tem, sem dúvida, e muitíssima!) – a responsabilidade (a “culpa”) é de nós todos, europeus (eleitores), que permitimos que tudo isto aconteça. Hoje é a Grécia (esse excelente país, “berço de tanta coisa” na Europa e no mundo), mas amanhã, inevitavelmente, seremos nós (Portugal), ou a Itália, ou até a França. E sabe o que vai acontecer? São as Le Pen que estão achegar ao poder e que vão desgraçar ainda mais tudo isto, transformando estas frágeis democracias europeias em regimes neofascistas, homofóbicos, ditatoriais.
    Mas, como se vê, nós consentimos! Diga-me, por ex., quantas pessoas em Portugal, desde 25 de Janeiro de 2015, escreveram um artigo como o seu no Público ou no Expresso, apenas para citar dois jornais de referência portugueses? Contam-se pelos dedos… A esmagadora maioria dos “comentadores”, entre o despeito e a ignorância, fala contra a Grécia, apoiando explicitamente as agressões a Atenas por parte do Eurogrupo, de Merkel, de Shäuble e apaniguados.
    Quem lhe escreve vive na Suécia, numa espécie de exílio, e vê todo este triste espectáculo europeu com uma tremenda amargura – uma amargura parecida à do exílio de Jorge de Sena. E a tristíssima figura que Portugal tem dado em todo este problema da Grécia. Mesmo sabendo que Portugal não conta rigorosamente nada na cena europeia (porque, na realidade, não conta) foi muito triste 8e feio) ver o papel dos governantes portugueses. Tive vergonha…
    Porque, sem dúvida, amanhã, seremos nós. Estamos, como V. diz, todos amarrados aos remos… Como os escravos…
    Bem haja pelo seu artigo!

    Um abraço.
    Artur Matos

    1. Obrigado pelas suas palavras. Também creio que uma das piores consequências desta política é uma desidentificação que abre espaço à Le Pen em França e, portanto, ao pior dos desafios que a Europa pode sofrer. Semeiam ventos e colhem tempestades. Hoje, já somos nós, amarrados aos remos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo