Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

11 de Março de 2015, 11:59

Por

Resumo de uma devastação

O governo anunciou ontem os números da contratação colectiva, elogiando a sua recuperação. Os sindicatos recusaram a interpretação e estranharam o regozijo, explicando que a contratação tem vindo a decrescer rapidamente. Quem tem razão?

Slide1O gráfico ao lado (a partir do trabalho de Maria da Paz Campos Lima, universitária que investiga no ISCTE, em Lisboa; clique para ampliar) tira todas as dúvidas. O número de trabalhadores abrangidos pelos contratos colectivos era de quase dois milhões em 2008 (1894846), ou seja, quase metade dos trabalhadores assalariados. Hoje é de cerca de 5% da população activa (246643). Assim, temos agora, com contrato colectivo, um trabalhador em cada vinte. A crítica dos sindicatos é simplesmente factual.

Mas o gráfico diz-nos muito mais. Prova que de 2008 para 2009 houve uma fortíssima queda (meio milhão de trabalhadores), logo que as primeiras medidas de austeridade começaram a ser aplicadas pelo governo anterior, que impulsionou reformas da lei laboral para prejudicar ainda mais a contratação. O PS é culpado da primeira grande crise da contratação. Esses números estabilizaram em 2010 e continuaram a descer em 2011. Mas é a partir do início do programa da Troika que o colapso da contratação se acelera. Esse era um dos objectivos dos memorandos – do primeiro ao último. O PSD e o CDS fizeram da devastação da contratação um dos seus principais objectivos. Assim, de 2011 para 2012 a contratação passa a excluir mais 900 mil trabalhadores, a maior regressão registada num só ano ao longo de toda a nossa história. Continuou a descer em 2013 e manteve-se aproximadamente ao mesmo nível em 2014.

Em resumo, o governo anterior atacou a contratação colectiva com grande eficácia. Este governo, com a troika, foi ainda mais longe. A contratação colectiva tornou-se uma condição excepcional entre os trabalhadores portugueses e essa é, porventura, a mais importante modificação da sua relação social. Para os sindicatos, é uma ameaça perigosa. Para a vida social, significa simplesmente que se perde o mais importante instrumento de combate à pobreza e à desigualdade.

Estamos num mundo novo das relações laborais. E esse mundo é tenebroso.

Comentários

  1. Gráficos com uma escala linear, com números, e que começam no zero?
    Não estou habituado a ver pessoas a não usar a estatística para mentir.

  2. Não duvidando dos dados, apenas condeno a caça ás bruxas. Resumo do post do Dr. Louçã – Culpados: PS e depois PSD/CDS.

    Falar por fora, logo quem nunca quis assumir (fosse via PSR fosse via BE) riscos de governação é “fácil, extremamente fácil”, como canta aquele grupo Pop Rock Brasileiro.
    Mais não digo, senão entraríamos num debate ideológico que nos levaria a provar que se vive com muito mais dificuldade onde o Socialismo real é aplicado hoje em dia.

    1. Ainda bem que, finalmente, aparece aqui alguém que “fala por dentro”. Suponho que seja um membro do governo, ou ex-membro, sob o pseudónimo de RF. Lindo serviço, esta redução da contratação colectiva, caro RF. Era mesmo para quê? Para recuperar a economia do país, não era? Ou era para reduzir a dívida?

    2. Caro Francisco Louçã

      Errou.
      Sou um cidadão comum que desde sempre vive do seu salário. E observo por fora todos os intervenientes políticos, evidentemente.
      Como curiosidade, o meu contrato é individual, o que quer dizer, sou eu e o meu empregador que negociamos e estipulamos o que justamente vale o produto do meu trabalho. Independentemente de concordar que em certas circunstâncias considere que a contratação coletiva é realmente o passo mais acertado.

    3. Está a ver como, quando se abandonam os preconceitos, a conversa passa a ter conteúdo? Concorda com a importãncia da contratação colectiva. Ainda bem. Estamos de acordo.

    4. “sou eu e o meu empregador que negociamos e estipulamos o que justamente vale o produto do meu trabalho.”

      Olhe, estou aqui para lhe apresentar uma fantástica oportunidade para ter a sua própria ponte!

    5. Caro Louçã,

      Noto que, em 11 Março de 2015, às 15:12, não resistiu a invocar o argumento supremo dos comentários online: “Sob o pseudónimo de …, esconde-se um sinistro membro do governo”. Outros poderiam dizer “… um sinistro comunista” ou “… um sinistro fascista” ou …. O que dirá de mim?

      Cumprimentos,
      PS (não quer dizer Partido Socialista nem post scriptum)

    6. Isso é o que se chama andar às voltas (e falsificar a citação). O pseudónimo “RF” alegou que a discussão exige experiencia de governo. O que, pelos vistos, não é o seu próprio caso. Ficamos então numa situação difícil, duas pessoas a conversar sobre um assunto sobre o qual não têm direito de conversar. Aparece agora o reforço de outro “pseudónimo da silva” a comentar o assunto (e a falsificar a citação). Pergunto-me se alguma destas pessoas escreveria isto se não usasse pseudónimo. Enfim, coisas.

    7. Caro Louçã, nestas coisas dos comentários online é muito difícil perceber se alguém está a escrever sem utilizar um pseudónimo. Eu nem sequer vou tentar convencê-lo de que sou o cidadão Posidónio Pereira da Silva. Em qualquer caso, procuro não escrever nada que não pudesse escrever com assinatura reconhecida por um notário. Se os meus comentários foram de algum modo ofensivos, peço-lhe desculpa sem reservas.

  3. Mas o gráfico prova-nos muito mais. Diz-nos, também, que estamos numa fase de transição sistémica. E quem sabe um pouco de História de Portugal ( e de História Económica e Financeira) sabe muito bem que Portugal nunca se deu bem nessas fases, e que o grande denominador comum foi sempre a bancarrota, quando não dificuldades imensas que colocam o País à beira do precipício, uma Finis Patriae, nas palavras de Guerra Junqueiro. Exemplos?! Grosso Modo, cronologicamente: 1530-1580; 1640 -1660; 1760-1770; 1790-1815; 1870-1930; 1973-1985; 2007-; É óbvio que não estamos a considerar, numa leitura muito rudimentos dos ciclos de Kondratiev, e dos ciclos de inovação de Schumpeter, os trends, ou tendências de mais curta duração. Mas a realidade diz-nos de facto, que nesta transição de ciclos Portugal adapta-se inicialmente muito mal e resvala mesmo para “depressões” acentuadas que acabam por ser vencidas pelo “ajustamento paulatino da pequena economia portuguesa, quer seja pela adaptação ao fim das remessas dos emigrantes, o fim do Ágio de Ouro, ditadura financeira, maior carga fiscal, mais exportações, etc. É preciso ter cuidado com discursos fáceis, como o do Vice- Primeiro- Ministro, Paulo Portas, de que Portugal tem “sobrevivido sempre”. Pergunta-se, mas com que preço?

    1. É óbvio que Portugal está em situação de bancarrota, e é óbvio que a causa é o euro. O resto são “peanuts”.

    2. Para Paulo Marques,

      Quando Portugal chamou o FMI em 1977, por estar em situação de bancarrota, também foi por causa do euro?

      Quando Portugal chamou o FMI em 1983, por estar em situação de bancarrota, também foi por causa do euro?

      Não será antes porque os eleitores portugueses deliram quando os políticos lhes prometem muitas festas sem que o país tenha dinheiro para pagar os foguetes?

    3. Tem razão, Ana. Em 1975 e seguintes os eleitores deliraram e acreditaram nas festas que trouxeram primeiro o FMI e depois o resto que nos arrastou até ao fundo onde estamos. Nas festas dos governos que então tivemos e se instituíram como “os únicos possíveis”. O euro foi só a última etapa.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo