Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Março de 2015, 10:40

Por

A Alemanha e o café: uma história do poder da globalização

Quem pode, manda. Ou como dizia Humpty Dumpy, na Alice no País das Maravilhas, o que interessa é saber quem manda e isso é tudo. Portanto, se lhe perguntarem se a vida é justa, se a economia é uma relação entre consumidores e produtores em que todos recebem o que merecem, a resposta mais certa é esta: quem pode, manda.

O vídeo que pode abrir aqui em cima conta um conto dessa história do poder económico: a Alemanha, que não produz um quilo de café, revende dois terços do que importa do Brasil, que são 18 milhões de toneladas por ano. Assim, veja só, a Alemanha é o terceiro maior exportador de café do mundo, sem plantar uma semente e sem colher um grão de café.

Tudo é lucro. E, se o café for reprocessado pela Nespresso no norte da Alemanha, o preço final para si vai ser 70 vezes o que foi pago originalmente ao produtor no Brasil. É assim que se faz um império, defendido com todas as armas que se podem imaginar. Quem pode, manda, não é?

Comentários

  1. Só vi esse vídeo hj, talvez um pouco atrasado, mesmo assim fica meu comentário pois com certeza será atual.
    A saca de café ainda é vendida pelos ar& 400,00 e não são só os alemães que lucram um absurdo com o o café. Explico:
    A torrefação vende 1 kg de café em grão para café expresso pelo valor médio de R$ 30,00. 1 kg fax em média 100 cafezinhos vendidos entre $3,00 a $ 6,00, média R$4,50 ou seja, faz R$ 450,00. Estamos falando que em uma cafeteria no Brasil, o lucro é de 1500% MIL E QUINHENTOS POR CENTO.
    Não tenho procuração de nenhum importador alemão, mas com certeza não são eles os violões.
    Como se publicam asneiras sem o menor fundamento neste país e todo mundo vai no embalo.

  2. Qual sua opinião da industria cafeeira que o brasil possui????? Tem qualidade??? Os produtores saberiam tocar um processadora de cafe assim tendo seu produto final um lucro maior????

  3. Caro Francisco.

    Sempre tive curiosidade em lhe perguntar, sendo uma pessoa tão frontal, culto e objectivo (gostava das suas intervenções na política, em especial no parlamento), não pode alcançar pelo Bloco de Esquerda, o que conseguio Catarina Martins?

    Grato e apesar de não comentar, achei a reflexão do tema interessante.

    Abraços
    Carlos

  4. Caro Francisco.

    Sempre tive curiosidade em lhe perguntar, sendo uma pessoa tão frontal, culto e objectivo (gostava das suas intervenções na política, especial no parlamento), não pode alcançar pelo Bloco de Esquerda, o que conseguio Catarina Martins?

    Grato e apesar de não comentar, achei a reflexão do tema interessante.

    Abraços
    Carlos

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  6. De um modo geral, as críticas aqui feitas ao post de Francisco Louçã reflectem a convicção – fé acrítica, melhor dizendo – na “inevitabilidade” da globalização”. É uma convicção que demonstra o estatuto de quase dogma religioso que adquiriu essa “inevitabilidade”. Aceitam assim como fenómeno “natural” o facto de a Alemanha aparentemente conseguir “acrescentar valor” numa proporção que justificaria que o café seja vendido a 70 vezes o preço pago ao produtor no Brasil.

    Esquecem ou omitem que isso tem a ver com o facto de a Alemanha – como aliás a maioria das economias asiáticas – não terem embarcado nos cantos de sereia da “inevitabilidade” da globalização e do “mercado livre” e terem utilizado as prerrogativas da soberania (polítca e económica) para precisamente fazerem com que a globalização jogue a seu favor. Ignoram ou omitem que alguns dos países que mais ganharam com a globalização foram aqueles que não a interiorizaram como uma inevitabilidade e não desarmaram perante ela. Ao contrário do que se crê hoje, a globalização não só não dispensa a soberania como a exige.

  7. Quem pode manda? Apenas consigo perceber o raciocinio como uma tentativa de ataque a Alemanha insinuando que os malvados alemães exploram os produtores brasileiros… Mas é isto que eles fazem?! O preço pago pelo café ao produtor é negociado em mercado livre como uma commodity, depende do nivel de procura e de oferta.
    O que as empresas alemãs e empresas de outros paises sedeadas na Alemanha fazem é importar o café, acrescentar o valor percepcionado do produto, através das suas marcas, das suas capacidades de logistica, dos seus departamentos de Marketing e vende-lo aos consumidores…
    Quanto melhor a empresa conseguir acrescentar valor, que seja percecionado pelo cliente mais lhe conseguirá cobrar pelo produto… Não fazem mais do que milhares de outras empresas espalhadas pelo mundo, excepto que se calhar fazem-no melhor… Na minha opinião, não os deviamos criticar mas sim aprender com eles e tentarmos nós e os brasileiros fazê-lo melhor!

  8. Caro Prof. Louçã, esta temática poderá ter mais “sumo” do que à primeira vista. O princípio da criação de valor acrescentado é um inegável fator positivo na cadeia de produto… Esses exemplos são recorrentes do leite aos laticínios ou do cacau ao chocolate… A pergunta de dúvida honesta que lhe coloco é a necessidade ou não de regulação económica na cadeia de produto para este caso específico e que tipo de mecanismos de regulação pudessem ser aplicados?
    Lembro que para o caso do Cacau e para o caso específico de São Tomé e Príncipe houve uma clara intervenção de multinacionais Suíças no sentido de “explorar” e “condicionar” a ação dos produtores São Tomenses tendo havido suspeitas de cartelização na compra do produto.

  9. Tomo a liberdade de citar o seguinte:

    (…)Nespresso Grand Demos Ago – Por André Abrantes Amaral.

    Há cinco, seis séculos atrás, simples mercadores eram objecto de perseguição das autoridades e de condenação da Igreja. Estes mercadores cumpriam uma importante tarefa — a de arbitragem. Compravam bens onde eles eram abundantes e, logo, baratos, e vendiam-nos onde eles eram escassos ou até inexistentes. O lucro que auferiam era o prémio de risco pelo transporte, pela logística, e pelo risco de serem assaltados ou até mortos durante a travessia. Embora perseguidos, porque aparentemente não produziam nada, a actividade nunca foi totalmente proibida, não obstante as considerações morais de então sobre o mesma. Isto porque estes mercadores asseguravam que populações isoladas tivessem acesso a bens que, doutra forma, não conseguiriam ter.

    Passados seis séculos, a ignorância que outrora perseguia estes mercadores continua a manifestar-se, desta vez envolvida em demagogia. Douto na arte, e até doutorado, Francisco Louçã conta-nos a história do Brasil, produtor de café, e da Alemanha, que, embora não o produza, é o terceiro maior exportador de café do mundo. À luz da iliteracia que versava no século XV, a interpretação é a mesma — a Alemanha, que não produz, colhe apenas o fruto do trabalho dos outros.

    Não são necessárias complexas teorias económicas para perceber o erro crasso por trás deste raciocínio, basta uma simples dose de bom senso. A Alemanha faz precisamente aquilo que os mercadores de outrora faziam. Beneficiando da sua posição estratégia na Europa e das suas boas infraestruturas, a Alemanha importa para depois exportar. Importa o café, armazena-o, e depois revende-o em quantidades menores. E, se o café for reprocessado pela Nespresso no Norte da Alemanha — empresa Suíça, atente-se —, então existe ainda mais valor acrescentado: o grão tostado do café vira um produto de luxo com uma enorme procura mundial.

    Se a Alemanha não acrescentasse valor, ninguém lhe compraria café. Afinal, porquê comprar o saco do café ao dobro do preço, quando o poderia fazer a metade directamente ao Brasil? Por vários motivos, que são fáceis de elencar: 1) tempo de entrega ordens de magnitude inferior; 2) MOQ (minimum order quantity) muito menor; 3) burocracia intra-EU vs Brasil facilitada; 4) menores custos de transporte por Kg; etc. Ou seja, embora o custo unitário do saco seja mais barato no Brasil, fica mais barato comprar diretamente à Alemanha até uma certa quantidade. Na verdade, não é apenas a Alemanha que faz isto com o café. Existem entrepostos por toda a Europa cuja finalidade é precisamente esta, a de servirem de ponto intermédio entre produtores e consumidores, ajustados à medida de cada um.(…)”

  10. Este vídeo e o comentário levantam várias questões que poderão demonstrar a falácia do raciocínio “tudo é lucro”:

    – Os vendedores foram forçados a vender à Nestlé?
    – Os vendedores teriam a mesma capacidade de escoamento do produto que têm com este contracto, ou ficariam com o grão em armazém a apodrecer (e os gastos daí decorrentes)?
    – Neste valor 70 vezes superior, estão calculados os custos fiscais, alfandegários, de transporte, logística, armazenamento, distribuição, venda, revenda?
    – Neste valor 70 vezes superior, estão calculados os empregos gerados e os custos do trabalho gerados pelos programadores, designers, testadores, motoristas, contabilistas, serviço de manutenção, embaladores, empregados de armazém, lojistas, mecânicos, distribuidores, empregados de limpeza, etc. (alguém com conhecimento do mercado conseguirá, não tenho dúvidas, arranjar aqui mais uns postos de trabalho);
    – Neste valor 70 vezes superior, estão calculados os custos indirectos e os empregos indirectos criados pela aquisição de armazéns, maquinaria, veículos, etc.?

    Dito assim, há muita economia que não é mencionada. Para um professor universitário da área…

    1. A arrogância não lhe fica bem. Não me propunha fazer a análise da contabilidade da Nestlé, lamento desiludi-li. Verifiquei simplesmente o peso da troca desigual. O que parece incontrovertido.

    2. Nem eu pedi para uma análise da contabilidade. Não desilude, não se preocupe

      Só verifiquei que omite uma parte da cadeia de produção. Salta muitos factos para chegar a conclusões que lhe convêm. Também me parece incontrovertido.

    3. Todas as perguntas que faz se tornam irrelevantes depois de respondida a primeira, na qual estão subsumidas. E a resposta á primeira é: sim, foram forçados. Forçados por um normativo internacional enviesado a favor do detentor da marca em detrimento do produtor. O Brasil chegou tarde a este mercado, encontrou as regras feitas e tem que se submeter a elas. Não está autorizado, portanto, a criar a estrutura que menciona nas suas perguntas de modo a fazer parecer que a questão é “puramente” económica (como se tal coisa existisse) em vez de ser, como é, política.

  11. A tão badalada indústria portuguesa de produção de sapatos importa quase toda a pele que usa para fazer sapatos, acrescentado valor, que depois vende a preços muito elevados.

    Acha que uma empresa de sapatos de São João da Madeira devia dar uma parte do seu lucro aos produtores de peles romenos ou basta-lhe comprar a pele ao preço a que os romenos aceitam vender?

    Se uma empresa Suíça acrescenta valor ao café, porque é que não deve cobrar o valor que estamos dispostos a pagar por isso?

    1. Os produtores de peles romenos têm uma escolha que os produtores de café não têm. Podem vender, e vendem, as suas peles a fabricantes de malas, sapatos, mobiliário em todo o mundo. Não estão subjugados, como os produtores de café, a monopólios de marca. Num caso funcionam as leis do mercado; no outro os preços são políticos. As relações de poder coloniais não se desfazem de um dia para o outro nem de uma década para a outra.

  12. se é tão fácil, porque não faz o mesmo o Brasil?
    Ah já sei.. porque o Brasil é um país pequeno, sem recursos, que vive num sistema liberal no canto da Europa sem qualquer peso político no G20…

  13. Tanta parvoice vinda de um professor de economia (marxista claro).
    Vocês continuam a não compreender o verdadeiro significado de mais valia (lucro).
    A mais valia … é aquilo que o consumidor decide. Não é um conceito objectivo nem cientificamente definido.
    Às vezes é uma marca, outras vezes é uma tecnologia, muitas vezes é só um design.
    Se o Francisco Louça acha que a Nespresso vende café, então não percebe mesmo nada do mundo moderno.

    1. “André”, suponho que entende que o anonimato lhe permite insultar. Felicidades.

    2. Ainda bem que o “Andre” quase chega a compreender o que é uma marca. É pena que não compreenda que as marcas constituem mais-valias políticas, e não económicas, que distorcem o mercado a favor de quem as detém. São o princípio organizativo dos monopólios pós-colonialistas.

  14. O Brasil tem em muita medida de se culpar a ele mesmo. São um país com recursos extraordinários. E que tem uma mentalidade de país pequeno. Não quer aprender com o exterior. Não quer conhecimento externo. Não quer ser verdadeiramente competitivo. Com o que têm chega-lhes. O que é chato é a queixa dos outros, e a vitimização. Dos eles, dos ricos (como se eles, Brasileiros, não fossem tremendamente ricos).

    Obs: como é evidente quando se fala de “eles” há de tudo. Mas em no global é mesmo assim

  15. Nesspresso é uma MARCA, e não uma empresa. Pertence ao Nestlé, um grupo SUIÇO. Se o Franciso Louçã se preocupasse menos em culpar a Alemanha e mais em conhecer os factos, se calhar até dizia uma coisa com jeito.

  16. Sem qualquer juízo de valor,falta acrescentar que a Bayer, a BASF, a Mercedes, a VW, entre outras também participam na produção do café sendo a margem da Alemanha ainda superior. Em Portugal temos a Delta, que também produz cápsulas e distribui café. Será alguma vez o consumidor informado da sua influencia no mundo devido ao seu comportamento. Faz sentido em Portugal o Lidl usar a bandeira portuguesa em publicidade para vender produtos alemães e esmagar os preços nos frescos, os únicos produzidos em Portugal. Cada um tem que fazer a sua parte e o consumidor pode fazer muito.

    1. Como eu já tive oportunidade de dizer num post anterior, Francisco Louçã não dá ponto sem nó, ou como o próprio prefere dizer: “tenho este defeito de dar a minha opinião sobre o que me parece relevante.”

      Que tal um artigo com o seguinte título: A Rússia e a autocracia: uma história do poder da PUTINização. Para mote sugiro: Quem pode, mata.

    2. A GALP não compra petróleo bruto e depois vende esse mesmo petróleo ainda bruto, tal como é referido no vídeo e no artigo.

      A GALP vende produtos refinados e transformados.

      Portanto, acresce valor à matéria prima.

      A Alemanha, acreditando no que é apresentado, compra um saco de café por 400 reais e volta a vender – o exacto mesmo saco – por 700 Reais.

    3. Certo; o vídeo não fala da Galp, fala da Alemanha.
      É deveras pertinente suscitar o debate em torno da necessidade de um comércio justo, um comércio que promova uma redistribuição de rendimento por todas as etapas do processo produtivo atendendo ao real valor que cada uma contribui para o produto final, da necessidade em eliminar da cadeia toda a sorte de especuladores parasitas que com a sua acção deterioram as condições reais de produção e que, por conseguinte, colocam em causa a respectiva sustentabilidade. Mas compreendo que o café seja assunto mais a jeito para se falar da Alemanha.

    4. Com toda a certeza, é uma questão do comércio justo. Mas se o exemplo é com a Alemanha, porque fica incomodado que se fale da Alemanha?

    5. Não se trata de incómodo. É preocupação. Sinto bastante apreensão quanto a uma corrente que julgo cumprir uma estratégia de combate ideológico apostada em culpabilizar a Alemanha de todos os males. A vingar, terá como natural consequência uma reacção movida por ressentimento que acabará por materializar a imagem que se lhes quer fazer pegar; um fenómeno um tanto ou quanto semelhante com o que acontece com um recluso que, de tanto ser tratado como criminoso inato inveterado, acaba por sair do estabelecimento prisional odiando as instituições, a autoridade e acaba por assumir o papel que lhe impõem e acaba criminoso militante. É uma estratégia muito perigosa, inútil e tem um efeito alienante na medida em que nos focamos em dialécticas ideológicas de cariz maniqueísta em vez de atacarmos problemas concretos que afectam o dia a dia das pessoas. Possivelmente, dizem alguns, o fito da estratégia será mesmo incutir esse ressentimento nos alemães em uma medida suficiente para que tomem a iniciativa de abandonar o Euro, dando-se assim cabo do euro sem se assumir o ónus político de uma decisão livre de abandono. Seja qual for a motivação, é uma estratégia muito perigosa. Preocupa-me todo o discurso dirigido a sugestionar o espírito para uma ideia anti-alemanha caldeada de toda a sorte de preconceitos e ressentimentos. É uma ideia que a ganhar corpo suficientemente robusto será tão perigosa quanto a ideia de se culpar a UE como a origem de todos os males económicos e sociais e que tem servido de alimento a políticos como a Le Pen e Farage.
      Obrigado pelo interesse acerca do que se vai aqui escrevendo no blog.

    6. Compreendo o seu ponto de vista e respeito o argumento. O meu é diferente: acho que é a forma como Merkel dirige a Europa que dá o seguro de vida a Le Pen. Por isso, acho que a Europa precisa mais do que tudo de gregos corajosos, mas também de alemães dispostos a enfrentarem a imperatriz. Obrigado pelas suas palavras.

  17. Ai, que o capitalismo nunca morre!… E se os produtores de café brasileiros aumentassem, por sua vez, 70 vezes o preço da especiaria tão procurada? Com certeza que estragavam o negócio aos poderosos teutões. Mas depois perdiam quota de mercado para o Vietname, o que não é concorrencialmente razoável. Como o nosso amigo brasileiro diz no vídeo, isto “não é malandragem”, é “logística”, a Alemanha é dotada de uma “baita malha ferroviária” que facilmente alimenta o resto da Europa. É que ao contrário de nós, os alemães gastam dinheiro em infraestruturas para depois terem o retorno devido. Por cá as infraestruturas, sendo um prejuízo crónico para o Estado (veja-se as PPP), só dão dinheiro aos avençados em fundos europeus – daqueles que se esquecem de pagar à Segurança Social.

  18. A culpa e pois de quem cria o mercado, faz o marketing, vende as capsulas, etc. Sim, porque o Brazil, com os seus mais de 200 milhoes de habitantes, nao consegue nem conseguiu criar o mercado.

    Genial, e alargar o mesmo raciocinio a quem desenvolve medicamentos, carros, etc.

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