Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Fevereiro de 2015, 11:50

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O princípio Zita Seabra

vitalPor vezes, raramente, aparecem estes momentos luminosos em que mentes superiores nos mostram como se vergam ao peso da história pátria e em prol das ideias mais consistentes, precisamente aquelas que combateram ao longo da sua encarnação anterior.

Vital Moreira é disso um exuberante exemplo. Fez o seu percurso brilhante como intelectual marxista, como deputado constituinte e comunista, depois como académico, finalmente como eurodeputado do Partido Socialista, que dele se esqueceu cruelmente, e agora como luminária do pensamento europeu. E é nesta nova roupagem que denuncia a “má fé” do governo grego e saúda a determinação das autoridades em Bruxelas, provocando naturalmente uma onda de entusiasmo que vai do Observador a Paulo Rangel.

Moreira escreve com clareza, como sempre o fez: contra António Costa por não atacar o governo grego, que saudades do PASOK, ou contra o Tribunal Constitucional por ter perturbado o troikismo vacilante dos últimos anos. Contra os que criticam a austeridade (“como é que haja quem leve a sério políticos destes?!”, indigna-se Moreira contra mim, quem sou eu para discordar dele). Contra todos, em suma, que não sigam a cartilha europeia, esta mole doutrina em que se mistura o poder de Berlim e a lei da finança, com resultados notáveis que são o empobrecimento e uma vertigem deflacionária com uma depressão que se pode arrastar ainda por mais temporadas.

Juncker, ontem adorado e hoje suspeito, chamou a isto um “pecado contra a dignidade da Grécia e de Portugal”. Tenho para mim que a frase só se destinava a denegrir o contributo elevado de um dos nossos mais insignes doutrinários. Aqui lhe presto a minha modesta homenagem, mesmo lembrando que o seu caminho já foi explorado por outras figuras notáveis.

Comentários

  1. O problema é que este pateta, não descortina que o é e, além disso, dão-lhe trela demais, o que lhe permite fazer umas asneiras para atravessar a via sem dono. É triste, muito triste mesmo, ver estes espécimes passearem-se por certos corredores e até foram eleitos pra o poderem fazer. Mas quem é o culpado? Esta demo.cracia que nos mata a todos !! Até quando o Povo dorme? Enquanto dormir na sua eterna iliteracia….. nada a fazer!? Quando acordar logo se vê. Sinal dos tempos…..Oportunistas, incompetentes, corruptos, vaidosos, arrogantes, convencidos, uns tiranos do Povo!

  2. Este novo tempo de contradições e de tensões, no seio da velha Europa, é um bom revelador do carácter humano. Não só em Portugal, mas um pouco por todo o espaço europeu. Os ordenados e/ou as reformas chorudas em euros, as benesses e mordomias de uma certa elite, que se trava de razões entre si, leva, em caso de expectativas frustradas, a que se acertem contas pessoais. Mas muito mais ainda estará para chegar. Não é muito diferente, afinal, daquilo que se passou no Portugal decadente do Século XIX: o frade deu lugar ao agiota, o especulador aburguesou-se, e a intriga miudinha fazia parte da política, dominada por uma elite mesquinha que não compreendia as tensões sociais, muito menos a realidade política, económica e social, mas que corria para as nomeações de cargos e de representação política. O Eça deixou-nos belas descrições dessa ridícula elite decadente e ociosa; retratos sociais que, pela sua atualidade, servirão para descrever um qualquer Vital Moreira, que na irreverência da juventude defendeu o marxismo, mas que na sua fase burguesa é capaz de se encontrar ao lado do Capital e da finança.

  3. Vital Moreira e esse alfobre de renegados (no seu sentido etimológico) que constitui o Observador são bons exemplos das vozes histéricas e estridentes que hoje povoam o espaço público. Este ex-comunista fanático é uma das mais dissonantes. No fervor cego de demonstrar a sinceridade da sua transubstanciação e liquidar os seus antigos camaradas é capaz de tudo: até dos teses mais absurdas.

    1. Picabia dizia que a cabeça é redonda para as ideias mudarem de direção. É claro que é legítimo mudar de opinião, mas não me parece que seja essa a questão central no caso de Vital Moreira e de muitos outros que pululam no espaço mediático, político e académico. As conversões de Saulus para Paulus só podem resultar no fanatismo conhecido. Que discussão séria quer ter, com quem está só interessado em expiar os seus pecados de juventude?

  4. Dr. Louça assisti ontem ao debate na RTP1 sobre a situação na Grécia. Não posso deixar de o felicitar, a sua narrativa é extraordinária, fluente, consegue expor as suas ideias de forma clara, sem rodeios, podemos os não concordar com a sua ideologia, no entanto, é óbvio que você é um líder nato. Em Portugal pessoas como o Louça deveriam ter uma espaço público muito maior. Infelizmente o défice de intelegência em entre os nossos políticos é grande, daí que, seria imperial a ascensão mediática de personalidades como o professor. Cordialmente, Diogo Vasconcelos

  5. Francisco, e a todos os vitais da historia, honra lhes seja feita, dizem e pensam o que os intelectuais da direita já dizem e pensam, mas falta-lhes a elegância e acutilância, o sabe docto e o perfil acadêmico do sábio de Coimbra, um tradutor do Capital, um constitucionalista de Abril, um colecionador de livros raros e porcelana china. A direita se alegra dos arrepentidos, o homem deve ter levado na tola e vive agora num permanente traumatismo ideológico, a direita o pode ir buscar de candidato, era bom em alternativa ao farandoleiro Santana, ao Rock Star Marcelo, é mais sério.

    1. A contribuição de Vital Moreira para o pensamento político deve ser valorizada. E também as suas ideias recentes debatidas, como é natural.

  6. Para bem contextualizar a celebrada epifania do Sr. Juncker, recomendo a leitura do artigo do António Ribeiro Ferreira com o título ” As lágrimas de crocodilo do pai do lux leeks”.

  7. São muitas as pessoas que nutrem uma sincera admiração pela estatura intelectual do autor d´O Renovamento de Marx. Lida a medíocre acidez maniqueísta do texto de Vital Moreira no “Causa Nossa”, fica a ideia de que ele próprio não é uma delas…

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