Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

13 de Fevereiro de 2015, 13:27

Por

Nuno Teotónio Pereira

nunoNuno Teotónio Pereira deu no fim de semana passado uma notável entrevista ao Expresso, em que rememora a sua vida e nos fala da actualidade, a partir do seu convívio com tantos protagonistas que conheceu nos idos do salazarismo ou nos alvores da democracia. O tempo permite-lhe o conhecimento das entranhas deste país, como a poucos outros. À medida que os anos passam, mais aprecio esta sabedoria de quem se dá ao prazer de falar claro.

Na sua vida, o Nuno é um exemplo do que foi o nosso século XX (e XXI). Nascido numa família muito conservadora (associou-se a Rolão Preto na juventude, por deslumbramento em relação ao fascismo nascente), que tinha no seu tio Pedro Theotónio Pereira um dos pilares do salazarismo, entrou em choque com a ditadura e expôs-se a todos os risco: foi preso, organizou publicações, movimentou os católicos de esquerda, uma grande força muito ignorada na luta contra o regime, criou movimentos anti-colonais, fez o boletim de solidariedade com os presos políticos, fundou cooperativas. Falou com toda a gente. Esteve em todos os lugares. Fundou depois o MES e manteve-se sempre fiel à esquerda que foi a sua vida. Se quiser encontrar um homem que nunca teve calculismos, olhe para o Nuno Teotónio Pereira.

Revolucionário na vida e sempre que foi preciso sê-lo, e é assim que eles são, foi-o também na sua profissão de arquitecto: inventou prédios com vida social (Edifício das Águas Livres, 1953-1955), igrejas com centros comunitários (Coração de Jesus, 1962-1970), edifícios de escritórios que rompiam os cânones (o Franjinhas, 1965-1967) e tanto mais. Mostrou que a arquitectura é de pessoas e para as pessoas.

Manuel Graça Dias contou a sua história num tocante documentário na RTP e quero associar-me a esta homenagem. Também por razões pessoais e uma dívida que nunca se paga: o Nuno foi, durante o meu tempo de liceu, a minha segunda família. Passei muitas tardes em sua casa, depois das aulas, com o Miguel, meu colega, e foi lá que descobri a Joan Baez, os discursos dos líderes cubanos ou o significado de uma bobine de espirituais que ouvia em minha casa, do Paul Robeson. Foi ele que nos levou para uma distribuição de panfletos contra a guerra colonial aos peregrinos de Fátima, (tínhamos 14 anos e o mundo pela frente), depois para a ocupação da Capela do Rato, o que se inventava então. Generosidade e solidariedade de um homem indómito, que agora nos conta a sua vida com a ternura de sempre.

Comentários

  1. (s)erto que sim
    os revolucionários do século xx português conseguiram muto , mas foi preciso chegar à quinta-feira da quadratura de círculo para que j pacheco pereira se convertesse “ao capitalismo”

  2. Se me permite, sem qualquer intuito publicitário mas para complementar informação aos interessados, deixaria aqui o registo de mais links associados a este excelente arquitecto/cidadão:
    – “O Meu Bairro” – Episódio 1 Alvalade – Arquitecto Teotónio Pereira – http://www.youtube.com/watch?v=XMBN4mV3m6c
    – “Nuno Teotónio Pereira – Um Homem na Cidade” – http://www.midas-filmes.pt/producao/produzidos/nuno-teotonio-pereira-um-homem-na-cidade/
    – (lamento que a RTP não possua no seu arquivo a excelente entrevista que concedeu a Ana Sousa Dias no programa “Por outro lado”)
    – “O Património Moderno e o arquitecto Nuno Teotónio Pereira” – http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=918070&audio_id=1815499

    Cumprimentos.

  3. Apreciei muito este artigo de merecida e necessária homenagem a Nuno T.P .que conheci episódicamente. Embora seja de uma idade entre a do Nuno e a sua achei curiosa a sua referência à Joan Baez e ao Paul Robeson a que se poderiam associar o Bob Dylan e,,mais tarde, o Paco Ibanez, e tantos,tantos, outros.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo