Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

12 de Fevereiro de 2015, 15:11

Por

A gula da dívida

No ódio ao novo governo da Grécia, conservadores e social-democratas revezam-se em discursos paradoxais: ora o aguerrido Tsipras se metamorfoseou num sorumbático Hollande e tudo é possível se a situação for respeitada, ora o Syriza exige radicalmente demais e as portas vão fechar-se, porque uma revolta não cabe no edifício europeu. Ora o perdão da dívida foi prudentemente esquecido, sentencia o Presidente Cavaco Silva ontem, ora a Grécia não percebe que quer mais do que merece, acrescenta o mesmo Presidente. Ora a Europa não quer, ora não pode. Ora devia, ora não aceita.

No meio da cacofonia deste mês de fevereiro, pode ter passado despercebido um alerta da consultora McKinsey Global Institute, que simplesmente concluiu que, no fim das contas, a dívida é agora um problema mais grave do que quando começou a crise financeira no verão de 2007. Por outras palavras, o risco de uma nova crise ter um efeito sistémico mais devastador é agora maior do que quando começaram os nossos problemas recentes, que não têm sido pouca coisa. O relatório (com o seu resumo executivo) tem por título “Debt and (not much) deleveraging” (Dívida e (pouca) desalavancagem), e foi escrito por Richard Dobbs, Susan Lund, Jonathan Woetzel e Mina Mutafchieva. Segundo este relatório, a Grécia não é o problema, a montanha de dívida e de especulação é que nos ameaça.

A mesma consultora tinha publicado um relatório em 2011 (“Debt and deleveraging: The global credit bubble and its economic consequences) e outro em 2012 (“Debt and deleveraging: Uneven progress on the path to growth), ambos alertando para o mesmo: os erros que levaram ao crash do subprime não foram cdivida 1orrigidos. É o que retoma agora, constatando que, sete anos depois do início da recessão, todas as maiores economias têm mais dívida e mais alavancagem. Como se verifica na tabela (clique para aumentar), a dívida global cresceu 57 milhões de milhões de dólares (sendo metade em dívida pública), nos 47 países estudados (22 “desenvolvidos” e 25 “emergentes”). Nestes valores considera-se a dívida pública, a das famílias e ainda a dívida das empresas (financeiras e não-financeiras).

No gráfico percebemos onde estão os riscos: na abcissa temos o rácio entre a dívida e o PIB (ou seja, os países que estão mais para a direita são as economias mais endividadas) e na ordenada, ao alto, temos o crescimento desse rácio entre a dívida e o PIB no período considerado, de 2007 a 2014. Assim, os que estão mais endividados estão na parte da direita, aqueles cuja dívida mais cresceu estão em cima. Quem estiver em cima e à direita, como Portugal, está num assado.

Portugal terá sido mesmo o quarto país do mundo que sofreu um maior aumento de dívida entre 2007 e a metade de 2014, passando de 258% para 358% do PIB, segundo este relatório.

divida 2Segundo o relatório, os maiores riscos internacionais são a dimensão das dívidas públicas, a bolha imobiliária (sobretudo em alguns países como Austrália, Canadá, Dinamarca, Suécia, Holanda, Malásia, Coreia do Sul e Tailândia) e a quadruplicação da dívida da China, que passou de 7 para 28 milhões de milhões entre 2007 e 2014, chegando agora a 282% do PIB.

Como aqui escrevi, deve-se acrescentar outro risco: a actual política das instituições europeias, como a dos EUA e Japão, acentuam a liquidez e a valorização dos mercados bolsistas e dos activos financeiros, facilitando uma nova bolha especulativa.

Em todo o caso, tudo começou na gula da dívida. O relatório McKinsey sugere algumas “novas abordagens”, além das tradicionais privatizações: um imposto único sobre património, para abater as dívidas soberanas, e, sem surpresa, uma “reestruturação mais eficiente da dívida”. Talvez seja tempo, ou seja tarde, para os responsáveis europeus começarem a pensar nessa reestruturação, porque ela vai ocorrer a bem ou a mal. O Conselho Europeu de hoje dirá provavelmente que não, mas o que tem que ser tem muita força.

 

 

 

Comentários

  1. “o Syriza exige radicalmente demais”. A frase citada do artigo não faz sentido, pois a palavra “demais” significa
    “além disso; de resto”, se for advérbio, ou “outros; restantes” se for um determinante e pronome demonstrativo.
    Trata-se de um erro que aparece com alguma frequência, numa confusão com “de mais”, que significa muito. A frase correcta ficaria então “o Syriza exige radicalmente de mais”.

  2. Pingback: A gula da dívida
  3. “A austeridade é má para os pobres, não para os políticos”

    Nada como proclamar e definir-se como “marxista libertário” e estar a lutar para conseguir menos austeridade e depois ostentar símbolos do Capitalismo.

    Aceitar alguns desvios padrão do que se propagandeia ainda se poderá aceitar, visto que não há santos em parte alguma do mundo, muito menos na política, agora o diametralmente oposto…

    Cumprimentos democráticos

  4. Francisco, o quer dizer a mal? eu so conheço um caminho para isso, é não é apenas radicalizar o discurso,ou extremar propostas, é mobilizar as pessoas, elevar o grau de combatibilidade social, Gostaria que assim fosse, acho que é urgente a mobilização de todos os austerados, mas os austerados são como esse povo que, com raras excepções, foi conducido como carneiro aos fornos, eu sei que sou duro na minha apreciação, mas é preciso considerar, com todas as razões históricas que se podem invocar, para apreciar a real correlação de forças que existe. Eu concordo que não ha espaço para moderações, nem é possivel .soluções a meias tintas, é preciso acumular força ja, e é ampla, nacional, patriótica, Temos uma batalha como as Thermopolis a frente de nos,resta de saber se somos como o Viriato ou ficamos a ver os espartanos bater-se pela Europa dos povos.

  5. Boas,

    A emissão de moeda está sempre a associada a uma taxa de juro.
    Se a taxa de juro for positiva, para se pagar os juros dos empréstimos, é necessária criação de mais divida porque à partida esse valor não existe no sistema para além de ter que haver um crescimento continuo ou privatizações que justifique a criação de mais divida.
    Se a taxa de juro for negativa depois de pagos os empréstimos há uma acumulação de moeda no sistema.

    A Alemanha actualmente é o país que mais moeda absorve da acumulação resultante das taxas de juro negativas.

    Os países do “sul”, pelo contrário acumulam divida e privatizam.

    Actualmente o BCE está a emprestar com lucro perto de zero o que quer dizer que para haver uma futura expansão monetária terá que ser financiado pelos seus donos, os Bancos Centrais.

    A curto prazo, a Alemanha será o “único” accionista do BCE visto que os países do sul não tem riqueza para financiar os seus bancos centrais.

    Fará esta análise algum sentido?

    Ainda com menos sentido, o aumento dos impostos sobre a propriedade em geral pode ser visto como a privatização de um povo?

  6. A abcissa é a seguinte: a Grécia tem uma moratória de 10 anos e só começa a pagar juros em 2023. E a reembolsar capital em 2045. Actualmente o serviço da dívida (que em Portugal representa 5% do PIB) representa apenas 2,6% na Grécia. Se eles têm um problema interno de corrupção (como reconhece o Syriza no seu “Programa de Tessalónica”), e outro de distribuição da riqueza, esses são problemas Gregos!

    1. Ora nem mais!

      Já enjoa alguma esquerda e a cantiga dos desgraçadinhos em relação à Grécia.
      O povo Grego que votou a troika é o mesmo que a quer expulsar. Comeram febra e querem pagar nervo.

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