Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

23 de Janeiro de 2015, 14:14

Por

Como cozer uma rã suíça?

 

A história da rã em água a ferver é muito conhecida. Descreve como se pode lentamente cozer uma rã viva. Se uma rã for colocada em água a ferver, ela salta para fora da panela, mas se for colocada em água fria aquecida lentamente, a rã não percebe o perigo e será cozida até à morte. A história é muitas vezes usada como uma metáfora para a incapacidade ou falta de vontade das pessoas para reagir a mudanças significativas que ocorrem gradualmente […]

Segundo biólogos contemporâneos, a história não é literalmente verdadeira; uma rã submersa em água que vai sendo gradualmente aquecida, saltará para fora da panela. No entanto, algumas experiências no século XIX sugeriram que haveria fundamento para a história, desde que o aquecimento da água fosse suficientemente gradual”. Fonte: Wikipedia

 

Em post anterior critiquei as decisões dos responsáveis do BNS apontando que as perdas sofridas pelo BNS em resultado do abandono da “paridade” eram de cerca de 80 mil milhões de euros. Entretanto, foram conhecidos os dados sobre investimento em divisas em Dezembro e o franco suíço valorizou-se, valendo hoje em torno de 1,02€. Em consequência, estimo que as perdas do BNS já subiram para 92 mil milhões de euros.

Quando, em 2011, o BNS decidiu fixar o limite superior à taxa de câmbio (1 CHF = 1,2 euros) a balança corrente era fortemente excedentária… O que levou então o BNS a fixar a taxa de câmbio?

O saldo da balança comercial e o saldo da balança corrente da Suíça tem sido nos últimos 5 anos, em média, em ambos casos, próximo de 10% do PIB, o que significa que entram na Suíça, em termos líquidos, cerca de 63,5 mil milhões de francos por ano. Ou seja, com uma taxa de câmbio fixa, as reservas da Suíça tenderiam a aumentar 63,5 mil milhões de francos por ano, mais os respectivos juros. A valorização do franco suíço tenderá a reduzir estes excedentes e a reequilibrar a balança corrente da Suíça.

A Suíça está a viver uma crise de balança de pagamentos simétrica (balança corrente fortemente excedentária) da que Portugal vive no presente (fortemente deficitária). Qualquer um destes tipos de crises tem consequências muito graves.

Na Suíça, apesar de críticas muito fortes de alguns jornais de esquerda e de partidos da oposição, os responsáveis do Banco Nacional Suíço (BNS) e membros do Governo têm defendido a decisão de abandonar o limite superior à taxa de câmbio franco-suíço.

Charles Wyplosz, professor universitário em Genebra, escreveu um artigo no site VoxEU.org em que apresenta argumentos a favor da opção tomada.

Mas os responsáveis do BNS e o Governo suíço devem estar muito nervosos.

É provável que o BNS possa estar a intervir no mercado cambial para evitar uma valorização acelerada do franco suíço. Mas não pode intervir em grande escala, porque se perceberia, com a publicação das estatísticas mensais, que os responsáveis do BNS estariam a dar, o dito por não dito, intervindo no mercado cambial.

O franco suíço vale hoje 1,02€. Se o franco suíço se valorizar para perto de 1,16€ as perdas do BNS, em resultado da decisão de abandonar o limite superior à taxa de câmbio franco suíço-euro, mais que duplicam o valor que apontei inicialmente passando para uns impensáveis 160 mil milhões de euros.[1]

Se o franco suíço se valorizar para 1,50€ as perdas do BNS mais que quadruplicam para uns estonteantes 330 mil milhões de euros. Mesmo na Suíça… não se trata de trocos.

 

franco suiço creeps up

Figura: Taxa de câmbio Franco Suíço – Euro. A escala é ampliada e mostra que o franco suíço valorizou-se, recentemente, de forma muito gradual, cerca de um cêntimo por dia desde 19 de Janeiro.(Fonte: Onvista.de)

 

E, por isso, afigura-se que a analogia com a história da rã é apropriada. Uma valorização muito gradual da taxa de câmbio suíça, como a que tem ocorrido nos últimos dias após a decisão de quinta-feira passada do BNS (vide gráfico), poderá colocar os responsáveis do BNS sobre uma pressão crescente para saltar para fora da panela (i.e., voltar a implementar uma taxa de câmbio fixa) ou, em alternativa, deixarem-se “cozer vivos”.

 

 

 

 

[1] As estimativas aproximadas das perdas não consideram menor valorização do franco suíço face a outras moedas (nomeadamente, o dólar) e, por isso, são algo superiores ao valor das perdas efectivas registadas pelo BNS. Isto ocorre porque o euro se está a desvalorizar face ao dólar e face a outras moedas.

Comentários

  1. Não sou economista, mas tento-me manter informado e compreender um pouco a macroeconomia.
    Quanto julgo saber o BNS não tinha outra opção senão abandonar a paridade EUR/CHF 1.2.
    Sabe-se agora que só na primeira semana de janeiro o BNS comprou “100 mil milhões” de EUR para manter a paridade EUR/CHF 1.2 . Depois tomarem conhecimento que o advogado geral do tribunal europeu, iria autorizar o BCE comprar dívida pública; e mediante este senário, não restava outra alternativa ao BNS senão cortarem um braço para poder salvar a vida.
    O facto de ser o BNS a anunciar o abandono do “taux plancher” dá-lhe credibilidade para fixarem outro mais realista, se assim o entenderem.

    A decisão que levou o BNS a fixar a taxa de câmbio, penso que tem haver com o mesmo raciocíonio da metáfora da rã a cozer em lume brando.
    Recordo que no mês de outubro de 2007( no inicio da crise dos subprimes), a paridade EUR/CHF era de 1.68230.
    A partir daí a temperatura da àgua para a rã suiça foi sempre a aumentar, para atengir quase o estado de ebulição, no mês de agosto de 2011 (um mês antes do BNS dicidir defender a paridade 1.2), o EUR/CHF valia 1.00630, 1eur=1chf.

    Para entender esta medida temos de ter em conta que a comunidade europeia é o melhor parceiro económico da Suiça ( creio que representa mais de 60% das exportações), fazia todo sentido defender o CHF contra a valorização e assim, ao mesmo tempo apoiar o EUR na compra da dívida pública de alguns países europeus.

    Importante agora era saber qual o estado actual da economia Suiça com uma moeda forte, visto que o CHF se estava a valorizar continuadamente até o BNS dicidir intervir?
    Também é importante referir que a taxa de desemprego é 3.4%, dados de dezembro 2014. E qual seria taxa de desemprego se o franco se continua-se a valorizar? É dificil responder a esta pergunta!

    Já agora e para ser mais realista, pode descontar dos 80 ou 90 mil milhões das perdas BNS, 35 mil milhões de beneficio em 2014.

    1. Agradeço o seu pertinente contributo. O membro do Conselho de Governo do BNS Fritz Zurbruegg disse numa entrevista ao jornal Blick (Fonte: http://www.businessweek.com/news/2015-01-22/snb-ended-cap-as-big-interventions-loomed-zurbruegg-tells-blick), que em Janeiro as intervenções aumentaram de dimensão e que aquela taxa no fim de Janeiro poderiam ter de despender 100 mil milhões de francos. Como abandonaram a taxa de câmbio na manhã de 15 de Janeiro, vamos assumir que gastaram metade, i.e., 50 mil milhões de francos (provavelmente foi muito menos porque Fritz Zurbruegg está a procurar defender a decisão tomada).

      Esse dinheiro que “apostou” no CHF (contra o euro) em Dezembro e em Janeiro é o chamado “hot money”. Dinheiro especulativo que pressente que está a ocorrer uma mudança de política monetária e que procura ganhar dinheiro fácil. Por exemplo, Zero Hedge diz que os fundos de George Soros e Brevan Howard abandonaram as suas posições especulativas que apostavam na desvalorização do CHF nas semanas que antecederam a decisão do BNS evitando assim enormes perdas. Pode ter sido sorte, pode ter sido análise das estatísticas. Outros fundos de investimento têm acesso a informação que mais ninguém tem, por exemplo, informação sobre o tipo de discussões que ocorrem dentro do BNS, bem como sobre a entrada de divisas na Suíça.

      O Conselho de Governo do BNS, perante essa entrada de dinheiros especulativos, fez precisamente o contrário que devia fazer. Nota-se que entrou em pânico e reagiu impulsivamente. Premiou os especuladores de curto prazo com enormes ganhos. A decisão de abandonar a paridade no momento em que o fez (depois de ter especulado com cerca de 550 mMCHF) foi errada e desastrosa na minha opinião.

      Fritz Zurbruegg disse ainda nessa entrevista que achava a valorização do CHF exagerada e que esperava uma desvalorização nos próximos dias. Isso sugere que o Conselho de Governo do BNS não tem consciência dos riscos da decisão que tomou e que não considera que o mais provável é que o CHF se valorize ainda significativamente mais (como acho que irá ocorrer).

      As perdas do BNS que estimei pecam por defeito. São afinal superiores.

    2. o q surpreende é q mesmo uma paridade fixa ou peg como tinha o CHF havia especulação com a tx. de cambio ,, afinal o cambio estava fixado ,
      para que abrir posições long ou short …

  2. isso tambem so é assim porque tamos a ver mal
    afinal fica mais barato agora em CHF comprar meia Manhattan do que antes , agora vai-me dizer que Manhattan tambem ficava denominada em dólares
    bem, mas acredita mesmo nisso .. é obvio q ficava denominada em metros-quadrados

    1. Não estamos a ver mal. O BNS já pagou esses CHFs a terceiros. Já voaram… Quem recebeu os CHF é que pode comprar meia Manhattan (mesmo assim, acho que não chega porque Manhattan é bem cara).

    2. pois..
      mas s tentar tirar os CHF da suiça , ou sej do banco da suiça .. o franco vai desvalorizar outra x .. e as perdas passam a ser menores …
      o banco central é é um mau especulador então … looser

    3. Penso que não. Os excedentes da balança corrente são muito significativos e não irão desaparecer de um dia para outro. Por outro lado haverá especuladores que procurarão apostar no “overshooting” da taxa de câmbio. Pelo que não é de esperar a desvalorização do CHF. Mas claro, não é possível prever com certeza o futuro.

    4. um caso de estudo sem duvida
      poucas vezes na historia um banco central auto-inflige perdas desta grandeza a si pp

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