Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

16 de Janeiro de 2015, 13:20

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O franco suíço abala um mito

Uma das verdades de La Palice, ou uma “lapalissada” a bem dizer, é que um Banco Central tem poder ilimitado porque tem liquidez ilimitada. Pode sempre imprimir mais papel-moeda para obter essa liquidez. Como consequência lógica, um Estado soberano, com moeda própria e banco central próprio, nunca entraria em incumprimento – outra lapalissada.

Ora, o Banco Central Suíço (Banco Nacional Suíço ou BNS), há cerca de um mês atrás, garantia que a taxa de câmbio euro-franco suíço (CHF) manter-se-ia fixa nos 1€=1,2 CHF e que não deixaria o franco suíço valorizar-se. E os “crentes” acreditavam que tal taxa de câmbio se poderia manter, porque o BNS poderia sempre imprimir mais francos suíços.

Taxa de câmbio EUR-CHF (Fonte: Onvista.de)
Taxa de câmbio CHF-EUR (Fonte: Onvista.de)

Só que, ontem de manhã, o BNS deu o dito pelo não dito, mudando de ideias e abandonando, de um momento para outro, a taxa de câmbio fixa. O resultado foi que o franco suíço chegou a valorizar-se cerca de 43% face ao euro, em apenas 20 minutos. Não se trata aqui do rublo ou de outra moeda de um país considerado “em desenvolvimento” mas de uma das principais praças financeiras do mundo desenvolvido, i.e., do “establishment”. Depois a taxa de câmbio corrigiu algo, mas penso que o franco suíço ainda se irá valorizar bastante mais.

O que farão os banqueiros centrais suíços se (quando?) o franco suíço passar a valer 2 euros? Anunciar nova taxa de câmbio fixa? Com que credibilidade?

Tal como no caso do Banco Central da Federação Russa (BCR), os responsáveis do BNS não estiveram à altura do desafio. Em resultado, as perdas sofridas pelo BNS (e pelos contribuintes suíços), consequência das menos valias nas reservas de moeda estrangeira detidas pelo BNS, deverão ser, à data de hoje, de cerca de 80 mil milhões de euros, tendência crescente. Ou seja, os responsáveis do BNS conseguiram em 20 minutos perder mais dinheiro do que o BCR em meses e realizar o notável feito de superar tanto a crise da Libra de 1992 como a crise do Rublo de Julho a Dezembro de 2014. Os especuladores dos mercados cambiais estarão, nos últimos 6 meses, a realizar enormes fortunas a apostar na inépcia de banqueiros centrais deste mundo fora.

Talvez agora os “powers that be” mundiais prestem mais atenção ao que está a acontecer nos mercados financeiros internacionais.

Por paradoxal que pareça, este evento pode vir a ser benéfico para Portugal por várias razões. Dois exemplos:

– A Alemanha anda a namorar com a ideia de sair do euro, para deixar de ter os custos de suportar os países periféricos, criando uma nova moeda. Agora, terá muito receio de o fazer, não vá acontecer ao seu novo marco o que aconteceu ao franco suíço nos 20 minutos críticos de ontem. Pode ser que este facto amacie a sua posição negocial face à Grécia e aos outros países periféricos;

– O consenso é que bastaria ao BCE anunciar que iria realizar compras ilimitadas de dívida pública para evitar que as taxas de juro da dívida pública subissem. Ora também esse mito, após o terramoto cambial suíço, deverá em breve ser testado pelos mercados. E pode ser que esse teste acabe finalmente com a paz podre que vigora nos mercados de dívida pública dos países periféricos da zona euro desde 2012 e precipite, finalmente, uma resolução séria e construtiva da crise que afecta o euro.

Comentários

  1. Senhor Cabral.
    Et com todo o respeito. Permito-me perguntar tem a noção do artigo que escreveu…??
    Onde è que foi buscar essas ditas perdas consequência das menos valias…??
    Sem querer magoar… mais un pseudo lider de opinião, que escreve para português ler..?!?!
    Um pouco de ombridade et respeito pelos leitores et queira ter dados mais precisos…!?!

  2. “A Alemanha anda a namorar com a ideia de sair do euro, para deixar de ter os custos de suportar os países periféricos, criando uma nova moeda. Agora, terá muito receio de o fazer”. Qual é a fonte desta afirmacao? Que politico Alemao é que alguma vez afirmou tal coisa? Que jornalista de baixo nivel…

  3. Não percebo a crónica por um lado diz que um banco central não tem poder ilimitado, e por outro bem falar na incompetência dos banqueiros centrais.
    A defesa do deste suporte 1€=1,2 CHF foi uma medida tomada há 3 anos, e com carácter provisório para permitir às empresas exportadoras se adaptarem,e foi o que já fizeram. Era evidente que seria impossivel defender este suporte por tempo indeterminado. Quanto mais depois do tão esperado Quantitative Easing do BCE, em que a BNS seria obrigado a comprar quantidades enormes de euros para defender 1€=1,2 CHF, perdendo a passagem a sua credibilidade e uma quantia muito mais elevada do que os 80 mil milhões de euros.

    1. Como é que perdia uma quantia muito mais elevada do que os 80 mil milhões de euros???? Se consegue imprimir dinheiro e o câmbio se mantém, pergunto, como perdia dinheiro?
      Perdeu sim, agora, já que dantes 1 EUR = 1,2 CHF e agora 1 CHF = 1 EUR com tendência par se valorizar…. perdeu e muito e vai perder mais se não tiver colaterais que valorizem. Mas os depósitos em CHF valorizam e pode ser que alguém com o sempre omnipresente “inside trading” também ganhe. Só tenho pena de não ser eu!

  4. É o que eu digo: a Merkl odeia toda a gente que viva abaixo do paralelo da Suiça. Ou seja, há metade da Suiça que não é abrangida!!!

    Logo, o que fazer aos suíços abaixo desse paralelo?

    Uma solução é fazer um êxodo para o norte. Outra é fazer referendos contra a protecção dos grandes depositantes estrangeiros. Outra é limitar o liberalismo ou a sua fase incendiária actual, o neoliberalismo. E a principal foi esta, ou seja, manter a integridade da Suiça.

    Parabéns Suiça, haja países assim abaixo do tal paralelo!!

  5. o mercado cambial é demasiado grande para as economias individuais
    esse é q é o feito, foram os traders que faliram , não os bancos ,, o problema é que nao há uma moeda de reserva internacional para os suiços terem continuado a absorver as entradas de capital.
    o facto de nao existir essa moeda supostamente deixa um risco de balanço para os titulos em-euro. e foi por causa disso que sairam do peg , essa é pelo menos a posiçao oficial
    levar com as perdas hoje ou mais no futuro com QE do BCE
    mas isso é porque nao quiseram fazer um gestao de balanço tipo-portfolio , nem há uma moeda de reserva internacional para deter activos financeiros e seja que mantenha uma paridade mais estável face às moedas dos paises (os supostos SDR)

    mas a razao razao foi porque ter um peg não é neoliberal (podiam ter tentado o peg com txs. de juro negativas, e continuado a esterilizar as entradas com diversificação de activos-reserva (por isso a questao do ouro em referendo tb) ,
    alias nos ultimos anos o montante de assets de reserva tinham estabilizado .. e isso do QE levar a mais entradas é uma presunção .. também podiam fazer QE(imagine-se) , comprando activos em CFH (tipo morgages dos paises de leste … HAHAH)
    ter peg nao é neoliberal (nao é free floating , é controlo de capitais na sombra) e os tipos nao gostam de destoar . Hayek deu a ordem ,
    e caiu uma bomba
    não te disse Louçã

  6. Krugman:

    “On Thursday, however, the Swiss National Bank managed a credible regime change. Unfortunately, it was a regime change in the wrong direction. By throwing in the towel on the peg to the euro, the SNB immediately convinced markets that its previous apparent commitment to do whatever it takes to avoid deflation is null and void. And this expectations effect trumped the concrete, immediate policy of drastically negative interest rates on reserves.

    Two things to bear in mind. First, having in effect thrown away its credibility – in today’s world, the crucial credibility central banks need involves, not willingness to take away the punch bowl, but willingness to keep pushing liquor on an abstemious crowd – it’s hard to see how the SNB can get it back. Second, there will be spillovers: the SNB’s wimp-out will make life harder for monetary policy in other countries, because it will leave markets skeptical about whether other supposed commitments to keep up unconventional policy will similarly prove time-limited.”

  7. “A Alemanha anda a namorar com a ideia de sair do euro, para deixar de ter os custos de suportar os países periféricos, criando uma nova moeda. Agora, terá muito receio de o fazer”

    E isso é bom? Se saíssem, seria talvez ainda possível salvar o Euro.

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