Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

10 de Janeiro de 2015, 15:00

Por

As ameaças à Grécia

 

If you owe your bank a hundred pounds, you have a problem. But if you owe a million, it has.” John Maynard Keynes, Wikipedia.

Com o aproximar das eleições na Grécia sucedem-se as pressões para influenciar o povo grego. O medo é que ganhe o Syriza. A sua intenção de iniciar o processo de renegociação da dívida pública grega contraria a vontade dos “senhores” (a “senhora”) e até “ex-senhores” da União Europeia. E, logo agora, que os sinais de crescimento económico começam a ser tão evidentes provando que a política de austeridade é um sucesso e que, por isso, simples eleições democráticas não a podem pôr em causa! Só mesmo com algum humor se pode suportar algumas das afirmações que temos lido e ouvido nestes últimos dias. Imagine-se o que sentem os Gregos!

Refiro apenas uma das muitas “pressões” ou, de modo mais claro, ameaças, mais importantes:

Benoit Coeure, francês, membro da Comissão Executiva do BCE, disse que a Grécia pertence à zona euro, que a Grécia precisa do euro e que a Europa precisa da Grécia, acrescentando que ninguém está a trabalhar para preparar a saída da Grécia. Mas, também disse que a dívida pública grega detida pelo BCE não pode ser reestruturada, alegando que seria ilegal à luz do Tratado Europeu. Esta última afirmação é surpreendente vinda de quem vem, mas é manifestamente incorrecta.

Na mesma semana em que Benoit Coeure essencialmente disse que a Grécia tem de pagar o que deve ao BCE, este afirmou que o acesso da banca grega ao Eurosistema está dependente da continuação do programa de resgate, i.e., da continuação da “austeridade”. Esta é uma mensagem muito directa e muito pouco velada do BCE para os gregos e sobretudo para o Syriza. Chantagem? Não…só aviso!

Se o BCE cortasse o acesso da banca grega ao Eurosistema, o sistema bancário grego implodiria de um dia para outro de forma similar ao que ocorreu em Chipre. Acresce que o Estado grego deixaria de se poder financiar. Portanto, esta é uma ameaça muito séria, mas não deixa de ser paradoxal que o BCE, ao mesmo tempo que ameaça com uma “arma nuclear”, afirme que a Grécia não pode retaliar com as suas “armas nucleares”. E que o BCE só se preocupe com o seu umbigo.

A verdade é que a chantagem do BCE, já anteriormente utilizada com Irlanda, Espanha e Chipre, resultou porque os governos irlandês, espanhol e de Chipre cederam perante a incerteza e a ameaça do caos. A Grécia está no limite e poderá não ceder. O BCE parece ter esquecido o dictum de Keynes acima citado: se o BCE cortar o financiamento ao Eurosistema, o sistema bancário grego implode, mas o BCE também sofreria perdas. Nem a banca grega nem o governo grego pagariam as respectivas dívidas ao BCE. As perdas que daí resultariam seriam significativas, mas não catastróficas. Contudo, parece que o BCE tem receio que outros países recorressem a procedimentos similares se a Grécia fosse por essa via (Irlanda, Espanha, Portugal, Itália…).

Ou seja, os devedores devem demasiado dinheiro ao BCE e, por conseguinte, esta sua ameaça não é credível. A retaliação dos devedores teria custos demasiado elevados para o BCE e poderia pôr em causa o próprio banco central da zona euro.

A negociação da dívida pública grega (e não só) ocorrerá e ambas as partes têm de chegar a um entendimento para não utilizar armas nucleares. Essas são as ferramentas negociais do “David” Grego.

 

 

Comentários

  1. “sucedem-se as pressões para influenciar o povo grego” — essas pressões são também a resposta à chantagem do Syriza. O povo grego tem toda a liberdade de votar como quiser. Não se pode é livrar das responsabilidades da sua escolha. É que os outros países também têm a liberdade de reagir, e só me parece bem que clarifiquem em tempo útil qual será a resposta provável. Para o autor, é infeliz que a Irlanda e a Espanha (e Portugal) se tenham deixado amedrontar. Coitados, podiam gozar hoje em dia da confiança e da estabilidade da Grécia rebelde.

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